segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

À procura da batida perfeita

Não, não estou falando do Marcelo D2. Mas, guardadas as proporções, a procura é a mesma. Hoje eu conheci  na blogosfera um camarada chamado Mateusz Zdziebko. Foi dele a idéia de fazer este vídeo, aliando imagem e som, em uma edição perfeita.

Mateusz reuniu objetos simples: duas taças de vinho, uma calcinha, um abridor de garrafas, um secador, uma fita adesiva, uma embalagem de uísque, uma velha câmera russa, uma chave inglesa e água.

Desse combinado de coisas comuns, ele extraiu e gravou sons. E com esses sons, ele elaborou uma melodia incrível. Cada um deles, isolados, não passam de barulhos. Agrupados, se tornam música.

A edição apurada, tratou de completar a mágica. Uma fórmula construída à base de criatividade, dedicação e um ouvido musical. Mateusz encerrava assim sua busca à batida perfeita. Pelo menos, dessa batida.
 

Sampled Room from Mateusz Zdziebko on Vimeo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Musiquinha pra fechar o sábado

"Asleep On The Floodplain", é o novo album da banda de Ben Chasny, Six Organs of Admittance. Ele foi gravado, basicamente, em versão acústica e tem a participação de Elisa Ambrogio (Magik Markers).

A data de lançamento é 22 de Fevereiro e tem edição pela Drag City Records. Ouça aí embaixo, em primeira mão, "Hold But Let Go"

Six Organs Of Admittance - Hold But Let Go by sonsmusica

As pedras rolam para Ms. Faithfull

Hoje ela é uma senhora, mas que ninguém pense em considerá-la “bem comportada”. Está mais, digamos, reflexiva, mas não perdeu a gana de ser, viver e seduzir. Aos 65 anos, Marianne Faithfull lança nesta segunda-feira, dia 31 de janeiro, seu 23º disco: Horses And High Heels (cavalos e saltos altos).


Ela é uma das poucas mulheres com destaque na galeria de nomes que entraram para a história do rock. Inglesa, nascida em Hampstead, Londres, Marianne ocupa um lugar especial na música e na cultura pop, desde a década de 60, do Século passado. É, poderia se dizer, um Keith Richard de saias. Experimentou e sobreviveu a tudo. Se excedeu em tudo. Por último, sobreviveu a um câncer de mama, mas não parou de fumar, um cigarro atrás do outro.

Marianne é filha de uma baronesa austríaca e foi educada em colégio de freiras. Muito cedo, tornou-se cantora, compositora, atriz, modelo (numa época em que essa história de ser atriz e modelo não era algo tão banal assim) e foi uma das musas de Salvador Dalí. Essa menina, ao longo da vida, namorou uma lista de personalidades lendárias: Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, John Lennon, David Bowie e Bob Dylan. Literalmente, uma mulher à frente do seu tempo.

O tio-avô de Marianne era o barão Leopoldo Von Sacher-Masoch, autor da novela "A Vênus de Peles", que deu origem ao termo "masoquismo". A descoberta de Marianne Faithfull para o mundo pop aconteceu na primavera de 1964, quando a banda Rolling Stones começava a roubar a cena em Londres.

Pense em uma menina, linda, culta, uma gata, no auge dos seus 17 anos. Era Marianne. Durante uma festa promovida pelos Stones, o primeiro empresário do grupo deu de cara com ela e a contratou, na hora. Por isso, ela assina como co-autora algumas das melhores baladas de Jagger e companhia, nos anos 1960. E claro, virou namoradinha do líder dos Stones.


Aí embaixo você vai ter a oportunidade de vê-la em um vídeo de 1965, no frescor dos seus 19 aninhos, num programa inglês de televisão. Marianne canta "As tears go by",  que mais tarde viraria um clássico dos Rolling Stonnes.  Depois, clicando no link que vem a seguir, você poderá fazer o download de "Why did we have to part", a música de trabalho do seu novo disco.





http://ecard.naive.fr/mf/

Faroeste fast food

Pra começar o sábado, uma animação chinesa, contando a saga de um saquinho de ketchup, em fuga desesperada. Quem o persegue é uma bata frita matadora. A história é ambientada em um imenso labirinto. O desenho me remeteu aos clássicos do velho oeste americano. Trilha excelente, sonorização perfeita. Traços simples e eficientes. Edição impecável. Suspense e emoção pra cowboy nenhum botar defeito. Com vocês, o primeiro curta de animação de Mi Li.


Catch Up - the animation short from thinkingPoly on Vimeo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

João Brasil passou por aqui

Ele, no palco, é um guri. Não mais do que isso. E sei lá se seu nome é esse mesmo, mas é assim que ele se tornou conhecido – João Brasil. O que ele faz? Faz música. De um jeito que não é usual. Pega um pedaço de uma, mistura com um pedaço de outra e sai um troço que ninguém imaginava que pudesse dar certo. E dá.

Essa é a magia do João. Antes de chegar aqui pra ser destaque no projeto “Sai da Rede”, ele entrou na rede. E foi de lá que conquistou respeito e público. Quem poderia imaginar que seria possível uma mistura de Agepê com Black Eyed Peas (Deixa eu te amar... I gotta feeling)?

João, que hoje mora na Inglaterra, é um dos nomes mais expressivos da cena “mush-up”, apelido com o qual se batiza essa técnica de misturar uma música com a outra e criar uma terceira, completamente diferente.

A base de tudo na técnica do João é o batidão do funk carioca. E foi isso que, ao acaso, fez com que ele cruzasse com as gurias do “Sapabonde”, aqui de Brasília. O Sapa é um time de meninas que se identificam pelo gênero. São homossexuais assumidas e fazem música de um jeito diferente, irreverente, provocante.

João, então, misturou Sapabonde com Jack Johnson. E ficou prefeito. O mush-up Jack/Sapa caiu na rede e fez o maior sucesso. E quando ele acertou a participação no projeto do CCBB, exigiu que as meninas de Brasília estivessem com ele no palco.

No último domingo, elas abriram o show dele, como gente grande. Mariana, lá no meio. Essas meninas ainda vão longe. E o João brilhou como sempre, numa festa que fez o CCBB pular como nunca. Com o João, com o “Sapabonde”, com Marina Gasolina e com Gabi Amarantos. Noite certa e casa cheia. Para entrar pra história.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Oscar que vem do lixo

Foto: Divulgação
Parafraseando o ditado popular, "O cinema escreve certo, por linhas tortas". Eu explico. Houve um esforço grande por parte de um grupo de produtores brasileiros para transformar o filme "Lula, o filho do Brasil" no nosso representante brazuca na maior festa do cinema americano - o Oscar. Mas não rolou.

Nada contra a história do nosso presidente operário. O problema é o filme, que teve desempenho pífio por aqui, não conseguiu fazer diferente, lá fora. Aí, para surpresa de todos, o Brasil terminou entrando na festa da forma mais inesperada: pela porta da frente, com direito a tapete vermelho e com chances reais de levar a estatueta, pela primeira vez.

Se vier, virá do lixo. Calma, eu explico de novo. É que a co-produção Anglo-brasileira "Lixo Extraordinário" está na disputa do Oscar de melhor documentário. O filme conta a história dos catadores de lixo do Jardim Gramacho, na Baixada Fluminense, o maior aterro sanitário da América Latina.

Dirigido por uma inglesa e dois brasileiros, "Lixo Extraordinário" esmiuça um projeto de outro brasileiro exemplar, Vik Muniz, fotógrafo e artista plástico reconhecido mundialmente pela qualidade da sua arte. Vik mergulhou fundo na vida dos catadores do Gramacho e fez com eles verdadeiras obras de arte, compostas a partir da matéria prima que lhes garante a vida: o lixo.

Sobre o trabalho do Vik e sobre esse documentário eu já falei aqui no blog, neste post. Logo aí abaixo, você encontra o link da reportagem do Bom dia Brasil, da Rede Globo, que traz uma entrevista com o prórpio Vik Muniz. Vale a pena assistir e começar a torcer.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Pedrada

Jamile, minha cyber secretária, vem de ônibus, todos os dias, de Planaltina. Ontem, o ônibus passou direto, sem parar em um ponto, porque estava sem cobrador. De dentro do ônibus, Jamile enxergou um cara que jurou o motorista, porque não pode subir.

Hoje de manhã, Jamile estava no ônibus quando o motorista viu passar um micro-ônibus. Ao passar, uma jenela se abriu e o cara, aquele que havia jurado o motorista no dia anterior, pôs a cabeça pra fora e sinalizou: Te espero lá na fente.

Lá na frente, o cara havia descido do micro-ônibus e corria em direção ao ônibus onde a Jamile estava, com a mão direita pra dentro de uma sacola preta. Não dava pra ver o que havia entre a mão e a sacola. Mas era fácil de pensar. O motorista viu o cara correndo de frente pro ônibus, de frente pra ele. Os olhos vidrados, o motorista freiou. O cara vindo, com a mão dentro da sacola. Alguém, dentro do ônibus, gritou: Uma arma.

Pânico geral. Abre a porta, pelamordedeus! O motorista estático. O cara vindo. O povo, dentro do ônibus se engalfinhando, uns por sobre os outros. A Jamile, lá.

O cara saca a mão de dentro da sacola. Um barulho. Um trincar de vidros, milhões de estilhaços. É bala. É pedra. Não importa mais. O motorista lá. O cara, fitando os olhos. Pá!!!!! Outra pedra. Pá!!! Outro vidro. O povo amontoado. Gente gritando. O coração disparado. Jamile, lá.

O motorista se dá conta de que não é revólver. É pedra. E pedra não mata, fere. Ele não abre as portas do ônibus. Choro e desespero. O cara atirando outras pedras, outros vidros quebrados. O motorista pula e corre atrás dele. O cara corre mais e some no meio da confusão.

Jamile passou mal. Pensou na terça-feira em que o tio dela morreu. Enquanto seguia na ambulância do SAMU, ela pensou: Hoje é terça-feira. O quê mais vai acontecer a partir de agora? Ela já odiava as terças-feiras. Desde hoje, para Jamile, as terças-feiras nunca mais serão iguais. 

Por falar em Maestro soberano...

A música "Paratodos", de Chico Buarque, começa com uma declaração rasgada de amor e respeito, de Chico a Jobim. Chico lasca, já na primeira estrofe: "meu maestro soberano foi Antônio Brasileiro".

Fazendo isso, ele visita as raízes do Brasil e as suas próprias raízes genealógicas e musicais. O resultado é uma das mais lindas canções de Chico, um presente clássico para a MPB.

Quando, de vez em quando, brinco que o Lula é o "meu" maestro soberano, modestamente tomo emprestado de Chico e de Jobim a licença poética para também manifestar o meu respeito e admiração  pelo trabalho que o Lula Theodoro faz e que, muitas vezes, me leva também  a fazer, na música.

Dito isto, homenageio agora a ambos os "maestros soberanos" da minha vida (e certamente da vida de muito mais gente), lembrando que hoje, exatamente hoje, se estivesse vivo, Tom faria 84 anos de idade. A ele, o meu respeito e a minha saudade. Primeiro, com Chico e "Paratodos". Depois, com o próprio Jobim, na companhia de Elis, em "Águas de Março".



Outra ponta de areia

Esperanza Spalding (foto: Sandrine Lee)
Lula, meu maestro soberano, me manda uma versão jazzistica do clássico de Milton e do Clube da Esquina: Ponta de Areia. A interpretação é de Esperanza Spalding, essa moça da foto aí em cima.

Esperanza tem 26 anos, é considerada uma menina-prodígio, autodidata. Nasceu em uma família pobre da cidade de Portland, no estado do Oregon, noroeste dos Estados Unidos. Ela foi criada pela mãe e desde pequena enfrentou desafios grandes, até tornar-se o que é hoje, uma estrela internacional da música contemporânea.

Bom pra começar o dia. Bom pra mudar os rumos e chegar, quem sabe, em outra ponta. Ainda que seja só de areia.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dúvida, me leve

Sim, pra toda certeza exata e lógica.
Não, por que negar a insensatez?
Talvez, porque ninguém
saiba direito onde começa.

Peça, se a vontade for verdadeira
Entregue, não regule, isso é besteira

Volte, não há vergonha
em retomar o rumo

Certo,
de vez em quando, sumo

Prumo,
de vez em quando, passo

Traço, disfarço, durmo e esqueço

Mas, nada que me complique
Nada que te amplifique
Nada além de uma certeza leve

Como a maçã
na boca da branca de neve

sábado, 22 de janeiro de 2011

Música de sábado

O grupo inglês Jethro Tull está na estrada desde o final dos anos 60 e se tornou ao longo dos 70 um dos gigantes do Rock Progressivo. Eles têm uma legião de admiradores também no Brasil e, por isso mesmo, já passaram por aqui em várias oportunidades, em apresentações sempre muito concorridas.

Ainda restam dois remanecentes dos anos dourados da banda. Na verdade, o núcleo criativo está intacto há 40 anos: o vocalista e flautista Ian Anderson, que também é o principal compositor do Tull, e seu fiel escudeiro, o guitarrista Martin Barre.


A trupe de veteranos está novamente pronta para desembarcar no Brasil. A informação foi divulgada no início deste mês, pelo twitter do Credicard Hall. A nova vinda do Jethro Tull terá uma única apresentação em São Paulo, no dia 14 de maio. O último disco lançado pelo JT foi Christmas Album (2003). Meu amigo Cláudio Lisboa, que mudou o nome para Cláudio Tull, em homenagem ao grupo, deve estar ligado nessa informação.

Pra quem gosta, aí vai um vídeo da apresentação da banda, no festival de Montreux, em 2003.  É a nossa "musiquinha" de sábado.


Curta, Geraldinho, curta!

Geraldinho Espíndola é filho do Geraldão e da Dalila (Baiana), e amigo de infância de Gabriel, meu filho. Sobre as aventuras infantis dos dois eu já falei aqui no blog.

Agora, Baiana me escreve, mandando o link do primeiro curta metragem do qual o Geraldinho participa como protagonista. O filme, rodado em Campo Grande, MS, tem direção de Essi Rafael e já começa a sua trajetória participando de dois festivais de cinema: 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes e o 3º Festival do Júri Popular, dentro do International Youth Film Festival 2011.

Geraldinho interpreta Delcides, um adolescente que tenta conquistar Tatiane. A história conta como foi a primeira tarde dos dois, juntos. A direção de fotografia é de Maurício Copetti e o trailer  está logo aí abaixo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Madre Deus, Fuzarca e memória

As pedras de Cantaria da ilha de S. Luis
Foi uma volta emocionante ao passado. Eu vasculhava a rede em busca de uma música de um compositor maranhense, chamado Sérgio Habibe. A música é “Cavalo Cansado” e consta do LP “Pedra de Cantaria”, se não me engano, do final da década de 70 ou início da década de 80.

Quando joguei o nome dele no Google e no You Tube, apareceu-me um presente inusitado: um documentário sobre uma turma da pesada, os “Fuzileiros da Fuzarca”.

O documentário, dividido em duas partes de dez minutos cada, tem direção musical de Sérgio Habibe e conta a história de um grupo de amigos, que se juntou para fundar um bloco de carnaval. Isso foi em 1936, na “Madre Deus”, bairro onde eu nasci, em São Luis do Maranhão.

O filme é uma pérola. Lembrei de meu pai, na hora. O velho Viegão vai ficar emocionado na hora de assistir e rever amigos como Cristóvão, Sapo, Sabujá e tantos outros com quem ele conviveu boa parte da vida, quando também morava na Madre Deus.

A produção não é nova, é de 2002. Mas foi uma novidade, pra mim. Foi pra fechar o meu dia, pra temperar minha alegria e rever fisionomias conhecidas, personagens da minha infância e que, de alguma forma, estarão para sempre na minha memória maranhense.

Estão aí embaixo as duas partes. Pra todos vocês que quiserem conhecer um pouco mais dessa gente tão genuinamente brasileira, ludovicenses da gema. E de uma forma especial, para o meu pai, seu Inocêncio Viégas, que eu sei, vai rir e chorar, enquanto estiver revendo a velha turma e caminhando virtualmente pelas ladeiras da Madre Deus.

Fuzileiros da Fuzarca - parte um




Fuzileiros da Fuzarca - parte dois


Sophia e os cachorros de asa

* Do Pastelzinho, do Maurilo
Sophia 
Estávamos ontem conversando sobre o cachorrinho que Sophia deve ganhar até o final do ano. Fernanda vetou Pug e Buldogue Inglês enquanto Sophia mudava de ideia entre Scottish Terrier, Beagle (eu vetei) e Buldogue Francês.

De repente, o rosto da baixinha se iluminou.

- Tem também cachorrinho de asa que é muito fofinho!

- Cachorrinho de asa?

- É, eu vou querer um cachorrinho de asa.

- Cachorrinho que voa só existe na imaginação, né Sosophie?

- Ele não voa, ele é de asa.

- Ele tem asa mas não voa?

Sophia então começou a perder a paciência. E, infelizmente, ela é igualzinha a mim quando fica impaciente: bufa, xinga, dá chilique, uma coisa insuportável.

- Ele não tem asa e ele não voa! Ele é da raça de asa!

- Então, filha, não existe cachorro de asa...

- Existe! Eu vi com a Tia Renata. A raça é de asa! Eu já vi!

Então, como uma luz divina, em meio às trevas da minha mente surgiu uma possível explicação:

- É um cachorrinho lhasa, Sophia?

E ela, como se nada tivesse acontecido.

- É, eu vou querer um cachorrinho lhasa. Ele é tão fofinho...

*Maurilo Andreas
é mineiro de BH,
redator dos bons,
dono do Blog Pastelzinho;
mas, de uns tempos pra cá,
seu maior atributo é ser
o "pai da Sophia".

Short cuts de quinta (não é categoria, é feira)

Foto: Marcelo Piu / Agência O Globo
Um helicóptero cai em Nova Friburgo. Era pra resgatar gente ilhada, isolada. Terá que ser resgatado. Foi o vento forte na hora do pouso, ninguém morreu. Mas a história daquela cidade e de sua gente fica ainda mais dramática. É a natureza, definitivamente, testando todos os limites da gente.


Claudinho Tull, o pseudônimo de Cláudio Lisboa, amigo e editor da TV Senado, avisa que faz aniversário hoje e me manda uma música  do Steppenwolf - Happy Birthday. Claro, Roqueiro nenhum comemora aniversário ouvindo o Carequinha. Cláudio revela no e-mail que desde os 17 repete o ritual: acordar e ouvir essa música, no dia do aniversário. Vida longa, my brother! E feliz aniversário.


Luis Felipe Noé ocupa o MAM - Museu de Arte Moderna - do Rio de Janeiro, até 13 de fevereiro, com 55 peças da sua melhor cepa, produzidas entre 1960 e 2009. Quem estiver no RJ, não pode perder. Quem é esse camarada? Em 1961, com Rómulo Macció, Ernesto Deira e Jorge de la Vega, Noé fundou o que se chamou de "Outra Figuração", pedra fundamental para a renovação da pintura na Argentina, uma combinação de neo-expressionismo, técnicas não convencionais e uma estética iconoclasta, em que a imagem é usada como um signo e não como representação clássica. Esqueça o preconceito com os hermanos e mergulhe fundo na arte de Noé. Você não vai se arrepender.

A ponte fechou. Sim, a ponte dos arcos, a ponte JK, a terceira ponte, a ponte nova (todas elas, uma só) está fechada há mais de quatro horas. Nos últimos dias, muitos motoristas alertaram para a trepidação em excesso em alguns trechos da ponte. Hoje de manhã, a defesa civil identificou um desnível na pista e fissuras em uma das pilastras. Os técnicos fazem agora um diagnóstico mais detalhado do caso. Até que tudo fique mais claro, a ponte vai continuar fechada.

E por falar em Cláudio Tull, Rock & Roll e que tais, aí vai mais uma: Bob Dylan vai assumir, com mais afinco, o seu lado escritor.  O rockeiro, de 70 anos, acaba de assinar um contrato com a editora Simon & Schuster para publicar seis novos livros. Um deles, contando a história do programa de rádio que há anos ele apresenta,  Theme Time Radio Hour – onde conta as histórias das músicas que o inspiraram e ainda o inspiram.

Pra uma quinta-feira chuvosa e arrastada, tá bom, não tá?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Chuvarada passageira

Chove muito.

No Rio
Em Brasília
Em Minas
Em mim.

Chove muito
dentro de mim

Mas essa chuva passa.
Já, já.

Enquanto a chuva não passa,
a gente canta a vida e o que nela
mais houver.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Silêncio congelado

Bart van der Gaag diz em seu perfil apenas que é um cara com uma câmera fotográfica. Depois corrige: "Um cara com muitas câmeras fotográficas". E só. Também, não é preciso dizer muito. Basta olhar alguns dos seus trabalhos para perceber a qualidade da fotografia e a sensibilide dos filmes que ele produz.

Não importa onde ele esteja ou o que mais faça. Este filme, que está aí embaixo, carrega uma beleza e uma harmonia comoventes. Um equilíbrio entre imagem e som capaz de traduzir com perfeição o impacto da natureza gelada sobre a paisagem quase desabitada, no inverno rigoroso da Suécia.

É lindo e espantoso. Impossível não admirar. Impossível não se comover diante desse instante em que o mundo é pego  num silêncio congelado. O filme chama-se 253 Kelvin (o equivalente a - 20º C). E a trilha sonora é "Hovern' engan", música tradicional da Armênia, de Armand Amar & Lévon Minassian.


Two Fifty Three Kelvin from Bart van der Gaag on Vimeo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Uma mulher e seu cão

Naquele dia, as nuvens carregadas não traduziam a gravidade da chuva que ainda iria acontecer. Mas havia um vento incomum. Da mesma forma como incomum era o alvoroço dos pássaros, mudando freneticamente de uma árvore pra outra. Prenúncio do quê? Sei lá, pensava ela, enquanto olhava rua abaixo, pra ver se avistava o irmão no prédio ali em frente.

A casa em que morava Dona Ilair, tinha poucos cômodos. Apesar disso, ela a considerava sua fortaleza. Sem reboco nas paredes, era fruto de um longo período de trabalho. Quase uma vida inteira. O seu canto, depois da separação. Móveis simples, fogão de quatro bocas, geladeira duplex, mesa, cadeira e sofá. Tudo comprado em lojas populares, mas tudo muito limpo e arrumado.

De especial mesmo, só a companhia do viralata Beethoven. Tradução irretocável de fidelidade canina, ele não se recolhia antes de sua dona, nunca. E tinha direito a um tapete especial, ao lado da cama dela. Não era um cão desses de madame, mas tinha lá suas regalias. Os dois se completavam. Dependiam um do outro. Como a orquestra depende do maestro e este da partitura.

De repente, o céu fechado desabou. O que os homens do tempo chamam de “cabeça d’água” caiu sobre aquela região com a força de um tsunami. Água morro abaixo, em um volume nunca antes visto, levando tudo.

Ilair olhou em volta e sentiu medo. A água levando árvores, pedras, carros, destruindo casas. A fortaleza dela ameaçada. Pensou no que tinha de maior valor. A vida, concluiu. E a companhia do Beethoven. Não teve dúvidas, elegeu a lage como o local mais seguro para ela e seu cão. Subiu, a tempo de ver parte da sua fortaleza ruir.

O que se deu a seguir era o prenúncio do fim. A casa desabando, como o mundo ao redor. Ela abraçada ao Beethoven. Vizinhos desesperados lhe lançam uma corda. Ela agarra. Passa a corda em volta do corpo, dá um nó. Abraça o Beethoven e salta. Um salto desesperado de vida ou morte.

A escolha seguinte seria pior ainda. A força que lhe restava não garantiria a vida dos dois. Ilair e Beethoven se olham uma última vez. Ela agarrada a ele. A correnteza engole os dois. Por um instante nenhum deles estava a salvo. Ela ressurge e ele se vai, levado pela força d’água.

Ilair se agarra à corda como quem se agarra à vida. A força dos vizinhos e a vontade de continuar viva vencem a sinfonia trágica da natureza. Ela é salva. Entretanto, a vida nunca mais será a mesma. Naquele dia, naquela chuva, Beethoven decidiu recolher-se antes. Para sempre.

Ficção, de Maranhão Viegas, para história real, que pode ser vista no link aí abaixo.

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/chuvas-no-rj/noticia/2011/01/pensei-que-ia-morrer-diz-mulher-salva-por-vizinhos-com-uma-corda.html

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Vicente, em dois tempos

No dia em que cheguei a Brasília, 1º de janeiro de 2007, comecei a trabalhar como editor na TV Senado. Foi lá que fiz a minha primeira leva de novos amigos brasilienses, entremeados por velhos parceiros de caminhada, como a Myrian e o Deraldo.

Entre os novos estava a Juliana Costa, repórter competente e linda, a quem me acostumei a chamar de “Síndica” da TV, pelo espírito de luta e pela intolerância com qualquer coisa que julgasse estar errada. A Juliana ficava na redação com a gente e o namorado dela - hoje, marido - o André Rêgo, cuidava do EcoSenado – uma das boas produções da TV Senado.

Quando a Juliana ficou grávida foi uma festa na TV. E logo surgiu uma forte dúvida sobre qual deveria ser o nome da criança. Ela e o André tinham várias alternativas, mas o pessoal da redação não resistiu e começou a fazer uma lista de sugestões.

Os nomes eram os mais nobres e sofisticados possíveis. Na minha vez de sugerir, mandei ver: Wandergleidson. Claro que era uma sacanagem. E claro que ganhou o concurso da redação, sob inúmeros protestos. Daquele dia em diante, era assim que o pessoal se referia ao filhote da Juliana e do André. Pelo menos, até que eles escolhessem o nome definitivo.

A Juliana reclamava, mas curtia a brincadeira. Não raro, alguém gritava: Cadê a mãe do Wandergleidson? E ela respondia, distraída. Em seguida, se dava conta do lapso e me xingava.

Pra sorte da criança, as dúvidas acabaram antes do nascimento e o nome de batismo foi outro, Vicente. Pois hoje, na hora do almoço, eu e Mara encontramos um gurizinho mexendo numa moto, imensamente maior que ele, sob os olhos cuidadosos do seu pai. A cena era simples, cotidiana, mas trazia em si uma beleza que só aos pais é dado notar. Carinho, cuidado, cumplicidade, estava tudo ali. Chegando mais perto descobrimos que os protagonistas daquele instante eram ninguém menos que o André e o Vicente.

Mais adiante, estava a Juliana, almoçando em companhia dos pais dela. Foi uma alegria reencontrá-los e ver aquela figura, o Vicente, agora já com jeito e nome de menino, de verdade. Pra fechar esta terça, divido com vocês dois grandes momentos da vida do Vicente: a primeira foto artística (feita pelo André, poucos dias depois de nascer) e a primeira aventura numa moto. Esse guri promete.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Música de domingo

Não rola, terminar o domingo sem fazer um registro sobre a passagem dessa "menina levada" aqui pelas bandas do Brasil. Ela tem tudo de uma grande diva: voz, swing, pegada.  E tem a sina dos ídolos que estão à frente do seu tempo, carregando algumas centelhas a mais: vivem intensamente, com uma ausência absoluta de qualquer limite.

Então, vamos curtir a Amy Winehouse numa de suas melhores performances, na minha opinião. E lamentar que não tenha sido possível ela passar por Brasília nessa primeira turnê brasileira.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Escher revisitado

Pra terminar o sábado, cruzo numa esquina da internet com esse clip provocante. Um Escher dos novos tempos. Maurits Escher, pra quem não sabe ou não se recorda, é um mago do ilusionismo gráfico sobre quem já escrevi aqui no blog. Veja se não é.

O clip que vai rolar ai embaixo foi produzido pela Ninja Tunes, uma poderosa gravadora independente, com sede na Inglaterra. Ela foi criada no início da década de 90, ficou conhecida pela aposta pioneira em um novo estilo de música, o eletro/hip-hop, e é responsável por algumas das principais produções da cena eletrônica mundial.

Como eu dizia, o clip que você vai ver a seguir traz a música We got more, de um camarada que assina como ESKMO. Por trás do personagem está o produtor musical Brendan Angelides, americano de São Francisco. Suas composições fogem de rotulação, mas ele é cultuado na Europa e nos Estados Unidos pela batida eletrônica que produz.

Em We got More, o diretor, disign gráfico e ilustrador ingles Cyriak Harris brinca com as dimensões, reverte movimentos, fantasia com imagens reais de uma grande metrópole, que pode ser qualquer uma, em qualquer lugar do mundo.

Tudo isso, embalado pela batida eletrônica de ESKMO e por uma edição frenética. Pode não ser o seu estilo de música preferido - como não é o meu, também. Mas o filme vale pela provocação.


Eskmo 'We Got More' (Official Video) from Ninja Tune on Vimeo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nas asas do João de Barro

Lá de Cochabamba, onde mora, a arquiteta Liliana Bayá, grande amiga dos tempos de faculdade no Rio Grande do Sul e minha comadre, me manda um arquivo genial. Ele mostra em detalhes o trabalho de um casal de pássaros que aqui no Brasil conhecemos como "João de Barro".

Na América Latina, são chamados de "Passaros horneros", o que poderia ser traduzido para o português como "pássaros fazedores de fornos". Uma referência ao modelo de construção do ninhos deles, que sempre nos lembra um forno de barro - muito tradicional nas regiões mais interioranas do Brasil.

Pois bem, esse casal de passarinhos foi flagrado e documentado durante todo o período de construção do ninho pelo Daniel Carbajal Solsona. Daniel é um uruguaio, que teve a sorte de descobri-los em plena construção, na janela abaixo do apartamento onde mora.

Câmera nas mãos, Daniel seguiu passo a passo a construção, num trabalho que durou do fim de setembro ao início de dezembro do ano passado e que rendeu aproximadamente 600 fotografias.

Nesse período, Daniel, além da fotos, registrou observações preciosas. Primeiro, ele explica que não é fotógrafo profissional, mas foi compelido a fazer o trabalho pela curiosidade e pela surpreendente rotina dos pássaros. Depois, diz ele, outras coisas chamaram a atenção. Os pássaros trabalham em média, de oito a dez horas por dia. E por fim, eles nunca, nesse período todo, trabalharam aos domingos.


O presente é simbólico para minha comadre arquiteta, que enxerga dedicação, técnica e simplicidade na construção feita pelos pássaros. Para mim, há também um simbolismo, na medida em que estabeleci como meta, em 2011, trabalhar com afinco, como um "pássaro hornero" ou como um "João de Barro", para ver realizado o sonho de construir a minha própria casa.

O filme que está aí abaixo foi produzido com as fotos feitas pelo Daniel e vale a pena ser visto.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Dreeem

Pra fechar a noite. Mike Hadreas e seu "Perfume Genius". A direção é de Nate Chan. O filme é simples e capta toda a vigorosiade da melodia, do piano e de Mike.

É isso. Boa noite, boa sorte, bons sonhos.


Yourstru.ly Presents: Perfume Genius "Dreeem" from Yours Truly on Vimeo.

Um expresso, um capuccino, ou não...

A conversa ía bem. Era meio de tarde. Vagner me falava de coisas de trabalho. Até que pintou uma vontade de tomar um café. Sim, por que não? Estávamos em um café. A conversa pedia. Chamamos a garçonete.

Ele adiantou-se: Um café expresso e uma água, com gás, para o meu amigo aqui. E eu quero um capuccino e uma água, sem gás. A moça ficou olhando por uns instantes. Um olhar meio parado no tempo. Em seguida, do nada, disse pro Vagner: - Olha, nós temos um outro tipo de café muito bom também.

O Vagner ficou na dúvida: - Sim... (sem entender direito se aquilo era uma tentativa de dizer que não tinha capuccino) A moça completou: - Vai um leite quente e batido, assim, por baixo, é muito bom...

Nos entreolhamos e o Vagner foi mais explícito: - Quer dizer, não tem capuccino? E ela - Não, isto é, tem sim. Então, moça, eu quero um capuccino e uma garrafa de água, sem gás, disse o Vagner, já com alguma irritação.

Ela parada, ali. esperando não se sabe o quê. De repente, ela solta: Tem um outro, da Nestle, que já vem pronto, o senhor conhece? Não. Ele é pequeno? É Capuccino? Não, não é capuccino e não é pequeno, a gente serve num copo de plástico, mas é grande.

Parecia conversa de doido, mas estava acontecendo, ali, na nossa frente. Com uma paciência tirada do fundo da alma, Vagner explicou: Olha, meu amigo quer um café expresso e uma água, com gás. E eu quero um capuccino e uma água, sem gás. Pode ser assim?

Pode. E ela se foi. Certa de que havia outros cafés, maiores, talvez mais gostosos, mais caros até. Mas também, havia o capuccino. E era exatamente isso o que o Vagner queria. Um capuccino. E uma água, sem gás.

O fado e a vida

*Marcia Braga

Neste início de 2011, para quem quer se emocionar talvez, a saída seja "Fados", de Carlos Saura. O filme ganhou o prêmio Goya de 2008 de melhor canção original. Uma bela homenagem bem ao estilo da obra de Saura ao fado, nascido no final do século XIX entre os miseráveis portugueses ou, por causa deles.

"... Talvez esta coisa da alma
que acha real a vida
talvez esta coisa calma
que me faz a alma vivida..
... talvez o fado me diga
o que ninguém quer dizer
e por isso eu o persiga
para nele me entender..."

Não é merecedor de todas as homenagens?
Feliz tudo que dá saída às nossas invenções!

*Marcia Braga é jornalista e professora do curso de Jornalismo da FUNORTE, em Montes Claros, Minas Gerais. Sua auto-definição é um poema: "Meia dúzia de palavras sobre a minha origem: sou mineira de BH, jornalista e artesã, de palavras e objetos".


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

No alto da Torre Digital

No alto da Torre Digital dá pra ver Brasília inteira. Hoje estive lá. Por muitas vezes, passei por perto sem entrar. Fiquei embaixo, olhando aquela construção. Um quê de encantamento, de sedução pela enormidade.

Embaixo dela a gente fica minúsculo. Penso na destreza do traço no papel e imagino, diante do concreto gigantesco: O começo foi a coisa mais simples. A ponta do lápis tisnando o branco da folha vazia com o sonho do arquiteto.

Sonho sonhado, desenhado, que se desdobre a engenharia para encontrar os cálculos e transformar aquela ousadia em realidade. Até aqui, tudo o que ele desenhou, aconteceu. A “Flor do Cerrado” é mais um desses delírios geniais de Niemeyer.


Enquanto o elevador se afastava do chão, eu me aproximava do céu de Brasília. 60 metros. 80 metros. 110 metros de altura. Lá no alto, o vento forte e uma sensação de liberdade.

A torre ainda leva um tempo pra ficar pronta. Mas o branco da pintura externa que envolve o concreto já pode ser visto e admirado de qualquer lugar da cidade. A “Flor do Cerrado” vai abrigar em uma das cúpulas uma galeria para todo tipo de exposição.

Na outra, a maior, haverá um restaurante. E lá bem no alto, depois que o concreto termina, aos 120 metros de altura, ainda será erguida uma antena de metal com 60 metros.

Jantar nas alturas, com Brasília inteira ao alcance dos olhos. Taí. Um dia ainda rola.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Málaga


Em outubro de 1983, o cantor Fagner coordenou o projeto de produção de um disco destinado a homenagear Pablo Picasso. O álbum ”A PICASSO” foi projetado para ser lançado em 1982, durante as comemorações do centenário do pintor, escultor e ceramista espanhol, mas problemas com a liberação dos artistas envolvidos no projeto – Paco de Lucia, Mercedes Sosa e Rafael Alberti – atrasaram o lançamento.

O trabalho que começou a ser gravado em junho de 1981 (envolvendo os estúdios Eurosonic, de Madri; Level, do Rio de Janeiro e Take One, da Argentina) só chegou ao público em outubro de 1983.

Com direção musical, direção de produção e arranjos de Raimundo Fagner, o álbum tem dez faixas e ficou uma belezura. Uma raridade, melhor dizendo.

As poesias de Rafael Alberti que aparecem no encarte do disco foram traduzidas por Ferreira Gullar. Fagner divide com Mercedes Sosa os versos de Málaga (de Rafael Alberti e Ricardo Pachon), já registrada no disco ”TRADUZIR-SE”.

Para fechar o dia de hoje, lembrar Fagner, Mercedes, Paco, Alberti e Picasso, garimpei no You Tube essa bela canção, desse disco que de tão lindo eu guardo dois. Em vinil.

Polaroids e poesias

É bom começar o ano assim. Primeiro, uma receita com sabor de infância, enviada pela Mariza Poltronieri, lá de Maringá. Agora, o Maurilão, o cara do pastelzinho, lá de BH, manda pro ar esse belo trabalho a que ele chama de "Polaroids e poesias".

Textos dele, para fotos de Kika Antunes. Como ele costuma assinar os seus posts, "direto na têmpora". Ah, isso aí embaixo, é só um aperitivo. Se você curtir, passa lá no pastelzinho que tem mais.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Com açucar e com afeto

Por Mariza Poltronieri

Em todas as culturas, as tradições têm um papel importante: saber de onde viemos. Claro que isso só é bom quando nos ensinam e nos confortam, com liberdade.

Na passagem do ano, é comum cada família levar a mesa suas tradições. Um prato típico que simboliza fé, fartura, boa sorte. Algum quitute que estampa um mapa, a terra de nossos antepassados.

Na mesa de minha família há um prato emblemático. Uma abóbora moranga, cortada em fatias com casca e tudo e caramelizada. Seu uso tem dupla função: acompanhar carnes assadas ou servir como sobremesa. Este prato simboliza a fartura, um desejo para um próximo ano promissor.

Por que um prato tão simples guarda um significado pungente? No início do séc. XX imigrantes italianos saíram de sua terra natal rumo às Américas, do Norte e do Sul. Em sua maioria, fugiam da miséria em busca de trabalho farto nas lavouras abandonadas pelos escravos alforriados. Os primeiros não eram diferentes dos negros escravos, também eram prisioneiros da fome que assolava a Europa. Na bagagem traziam consigo a alegria, irmã da esperança, um traço marcante dos imigrantes italianos.

Na Itália pobre a polenta e a abóbora eram os pratos de uma mesa escassa. Alimentos que saciavam famílias numerosas. Em contrapartida, o açúcar ainda era um produto nobre, longe dessas mesas.

Volto ao presente para me deliciar com essa abóbora cozida em açúcar queimado. D. Olívia, minha mãe de 80 anos, faz como ninguém. Meus irmãos e nossos filhos adoram e, por certo, ela - a abóbora - continuará a acompanhar os muitos revellions da família. A Abóbora (símbolo do alimento pobre) cozida no açúcar (símbolo do alimento rico) é o ensinamento de uma tradição que conforta.

Para os antigos, a informação se resumia em “que o próximo ano venha com fartura e conforto e com a memória dos tempos difíceis”. Para mim, cem anos depois, “que 2011 seja de santo trabalho e que não nos falte o pão de cada dia e o prazer”.

Copio então uma sábia frase sem assinatura, que celebra o prazer:
Se não se pode comer caviar, pelo menos, uma boa manteiga.
Que 2011 seja de prazer em sua justa medida.

RECEITA DA ABÓBORA CARAMELIZADA

Ingredientes
- 01 abóbora moranga pequena e madura (rende bastante)
- Açúcar refinado o quanto baste
- Água para regar o quanto baste

Preparo:
- Lave bem a abóbora com uma buchinha limpa, água e sabão. Enxágue. Fatie a abóbora de tal maneira que o centro, a parte mais grossa, fique com cerca de dois dedos. Tire as sementes e descarte.

- Numa panela grande de fundo grosso, que possa comportar as fatias sem empilhar, coloque ½ cm de açúcar em toda a superfície da panela e leve ao fogo alto até que o açúcar caramelize.

- Coloque as fatias de abóbora cobrindo todo o fundo da panela. Regue com água, apenas algumas colheres, pois a abóbora também solta água.

- Deixe por cerca de 2 min. e vire, alternando outras vezes até que a fatia doure e fique mais escura no centro (no local onde estariam as sementes). Retire com cuidado e coloque na travessa onde irá servir.

- Repita o procedimento com as fatias que sobraram até que terminem. Renove o açúcar se necessário.

As abóboras podem acompanhar carne de porco, carne seca com suas variações ou como sobremesa. Pode ser feita com antecedência.

Mariza Poltronieri é culinarista em Maringá, PR. E tem espaço garantido aqui, para escrever sempre que quiser, sobre alquimia gastronômica. Ou, sobre o que ela desejar.