quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Carta pra Mariana


Querida mamadhi! 
(Parece uma bobagem. Mas desde que aquela novela, gravada em parte na Índia, passou na TV, Mariana me chama de papadhi e eu retribuo. Não importa a tradução, não tem valor literal. Importa o significado do gesto carinhoso. Isso é dela e é meu. Uma bobagem carinhosa.)

Você não pode ir ao show do Paul McCartney, como tanto havíamos planejado. Sua angústia, disfarçada de labirintite, não deixou. Mas você esteve lá comigo o tempo todo. E eu te conto agora como foi.


Naquela tarde de domingo, chovia a cântaros em Brasília. Eu, sua mãe e seu irmão levamos capas de chuva. Seu irmão não usou. Estranhamente, a cidade estava úmida e alegre, ao mesmo tempo.

Não foi difícil entrar no Mané Garrincha. De repente, ele começou a se encher de gente. Um barulho de formigueiro. Formigas humanas exaltadas, quase em êxtase, pela possibilidade de ver ao vivo a parte mais buliçosa e criativa que restou do The Beatles. Paul é isso e muito mais.




O tempo foi passando e Paul demorou a entrar. Houve uma certa impaciência, a ponto de fazer soar algumas vaias. Mas era o Paul quem viria por ali e isso lhe dava algum crédito no atraso. Enquanto ele não vinha Gabriel, seu irmão, me confessou que estava lá um pouco por mim. Nem era tão fã assim dele. E também para poder dizer um dia que viu um show de um ex-Beatle, o que até pra ele, é um privilégio. Ouvi quieto, com a certeza de que ele se surpreenderia ao final.


Quando o relógio bateu uma hora e dez de atraso, as luzes anunciaram a entrada de Paul em cena. Atraso? Que atraso? Magical Mistery Tour abriu o show que iria nos tirar o fôlego, várias vezes, a partir dali.


Mamadhi, foi incrível. Um desfile de 39 músicas. 25 clássicos dos Beatles. Incluindo Get Back. Entre uma e outra, Paul mostrou porque permanece no topo há tanto tempo. Mesclou músicas novas e antigas sem que a nova geração percebesse a diferença entre o velho e o novo.


Eu percebi e me emocionei quando ele tocou quatro músicas do disco "Band on the Run", o primeiro gravado depois de deixar os Beatles, em 1973. Eu sabia de cor e salteado aquelas músicas. Elas fizeram parte da trilha sonora da minha adolescência e eu tenho aquele disco entre as "raridades" que guardo em vinil. São músicas antigas que carregam um frescor juvenil, ainda hoje. E tem o timbre inconfundível dos Beatles em seu DNA.

George Harrison
Por duas horas, ele engatilhou uma música na outra, um sucesso ao outro, sem nos deixar tomar fôlego. Nesse tempo, não se afastou do palco para tomar sequer um copo d'água. Tudo o que fez foi trocar de instrumentos. Várias guitarras, baixo, violão, piano e até um "ukekelê" com o qual ele segurou, por eternos dois minutos, uma homenagem ao amigo George Harrison, cantando "Something". 

Ele se surpreendeu. Eu compreendi.
Uma multidão de pequenas luzes de celulares tomou conta e iluminou o Mané Garrincha já aos primeiros acorde de "Let it Be". Foi lindo. Sua mãe se emocionou. Eu me emocionei. E seu irmão… Bem, a uma certa altura seu irmão agradeceu por ter ido, emocionado e feliz. Nos entreolhamos com carinho e com olhos de "eu sabia que isso ia acontecer".


A força bruta do show explodiu com "Live and let die". Literalmente, uma explosão de som, imagens e fogos de artifício. Uma apoteose que faria até Joãozinho Trinta chorar de emoção.


Paul interrompeu o show quando as duas horas se completaram. Um falso fim. O povo não arredou o pé. Ele voltou ao palco outras duas vezes para completar quase três horas de espetáculo. O tempo todo, se esforçando em um português limitado e gentil. O estádio quase veio abaixo com 46 mil pessoas cantando "Hey Jude".  


Minha mamadhi
Você não foi, Mamadhi.
Mas esteve lá o tempo todo comigo. Eu vi e ouvi o show como quem se reencontra com o tempo.
Paul tocou as músicas de minha infância. Justo aquelas que ele cantava com os Beatles e eu ouvia pelas ruas de São Luis, enquanto voltava da escola pra casa.

E eu que não tive a chance de ver  os Beatles, ao vivo, sou um ser humano mais feliz por esse encontro.
Eu, você e Sir Paul McCartney. For ever.




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lágrimas Negras

Cartaz do documentário "Cuba Feliz"
Um trecho do documentário-musical "Cuba Feliz", gravado em 2000, dirigido por Karim Dridi.  Karin é um magrebino ("magrébin" como dizem os franceses), filho pai tunisino e mãe francesa, que se especializou em fazer filmes sobre o submundo parisiense. Às vezes, porém, ele foge desse nicho. E faz coisas mais belas ainda, como esse filme documental sobre a música de rua de Cuba.

Karim Dridi
O diretor foi buscar algo diverso do que está em Buena Vista Social Clube, de Win Wenders. Ao invés do lado famoso, das estrelas musicais de Cuba, Karin preferiu documentar a música de cantores anônimos. Os filmes não se anulam, não competem entre si. Estão mais para complemento, um do outro. Como se fossem os dois lados de uma moeda valorosa. Com ritmo, poesia e transcendência.

Para Mauro Di Deus, Clarice, Dom Pepe. Porque a semana começa melhor com música. E das boas.

domingo, 23 de novembro de 2014

Ontem, hoje, for ever!

Ontem foi sábado e o Parque da Cidade de Brasília se transformou, por uns instantes na Abbey Road de um Beatle só. Paul McCartney, como se diz na gíria local, foi de Camelo (bicicleta) brindar o verde e a vida. Durou pouco. Dez minutos de uma eternidade. Foi no mesmo parque já cantado e eternizado em músicas do Legião Urbana.

O Parque que é a cara de Brasília,  já tinha em seu genótipo a Legião Urbana, agora é também um pouco Beatles. De repente, a eternidade fugaz de Paul no parque foi parar na capa do Correio Braziliense.


Daqui a pouco, haverá outros momentos eternos.
Paul vai ocupar o Mané Garrincha.
Com músicas que embalaram e continuam embalando uma multidão pelo mundo.
Com canções que me acompanham desde menino.
E assim, me fará um homem mais realizado, só pela chance de vê-lo tocar ao vivo a mágica daquela guitarra. No meio do meu caminho sempre haverá um Beatle. Até daqui a pouco, Paul.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Alfama, de Teresa e Manoel

Teresa, de Sintra. 
Teresa, uma amiga de Sintra, em Portugal, leu o texto da entrevista que fiz com Manoel de Barros, que publiquei também em ecrans d’além mar, a partir do Blog Ruas dos Dias que Voam.

De lá, ela faz um generoso comentário e me apresenta uma poesia inédita de Manoel sobre Alfama, um bairro de Lisboa que em muito me lembra minha Madre D’eus, em São Luis do Maranhão. Aliás, sou apaixonado pelos dois, o daqui e o de lá. Paixão traduzida de forma magistral (agora fico sabendo) pelo lápis e pela letra miúda de Manoel de Barros.

Leia abaixo o comentário da Teresa e, em destaque, o poema de Manoel.  

Manoel de Barros foi agraciado, por cá, com o "Prémio Casa da América Latina", em 2012, pela antologia Poesia Completa, publicada pela Editora Caminho. Como homenagem lisboeta, deixo os versos do poeta sobre Alfama:

Manoel de Barros, em foto de Marcelo Buainain. 
"Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.

Ela pode ser o germe de uma apagada existência.

Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.

Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil.

Ao ouro que trazem da boca do chão.

Andei nas negras pedras de Alfama.

Errante e preso por uma fonte recôndita.

Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!"

                                                            Manoel de Barros

Price Tag - O original

Pra quem não conhece de onde o Zeca Baleiro tirou aquela versão de Price Tag. Tai. Jesse J. Mariana me ajudou a achar.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Forget about the price tag

Zeca Baleiro. Pra terminar o dia. Price Tag.

Poesia não morre

Frame do documentário "Só dez por cento é mentira"
A passagem de Manoel de Barros não foi uma surpresa pra mim. Como disse o amigo Bosco Martins, na edição do Correio Braziliense que homenageou o poeta, "a morte, a gente tem que ter serenidade para aceitá-la como uma decorrência do nascer".

Mas toda morte nos faz refletir e a do Manoel, minha fonte de inspiração eterna, me fez retornar ao passado. Eu era um jovem repórter de TV no início da década de 90, do Século passado. E fui trabalhar em Campo Grande, terra onde o poeta viveu a maior parte da vida.


Manoel e sua escrita
Um dia, recebi um desafio, foi em 1991: Entrevistar o poeta Manoel de Barros para a primeira revista científica da UNIDERP - Universidade para o Desenvolvimento da Região do Pantanal. Obter dele algo que ligasse a poesia à pesquisa e ao trabalho que a Universidade pretendia fazer no Pantanal. O convite veio da professora Yara Penteado e do professor Paulo Cabral. A Revista se chamaria ONATI. Topei na hora. 

Fiz a lista de perguntas e mandei pro Manoel, que já à época preferia as correspondências às entrevistas presenciais. 23 anos depois, relendo o que ele escreveu, constato - poesia não morre. Por isso, tomo a liberdade de recuperar o conteúdo dessa nossa “conversa”, resgatando um pouco da poesia viva de Manoel de Barros, que eu tenho certeza, não nos deixará.

Frame do documentário "Só dez por cento é mentira".

O peso das contradições do Brasil lhe pesa também sobre a poesia?
Manoel de Barros - Não pesam as contradições do Brasil porque, na verdade a gente, eu, tenho muito mais contradições do que o Brasil. Eu ganho do Brasil de 10 a zero. Acho que a gente é poeta por isso mesmo: que precisa resolver as suas contradições. E porque não as resolve, graças a Deus. Eu não resolvo essa briga dentro de mim senão com palavras. E há uma figura de estilo que concilia muito a gente por dentro. Se trata da antítese. A gente produz uma frase antitética e fica feliz. Parece que a frase nos harmoniza. Assim como esta, por exemplo: Só as coisas rasteiras me celestam.


Na revolução da informação que vivemos neste fim de Século (a conversa foi no fim do Século XX) a composição da poesia também se altera?
Manoel de Barros - Sabe, Maranhão, eu tenho um mundinho bem reduzido. Tentei algum tempo alargar esse mundo lendo os filósofos, pensadores, romancistas, poetas de todos os lugares e tempos. Vi pinturas, esculturas, vitrais, pessoas, países, ruinas, aldeias, costumes, ternuras, desgraças. Andei por estradas modernas e por trilheiros. E vi, como diz o Eclesiastes, que tudo é vaidade e vento. Isto seja: que tudo é igual e vai pro pó. Não me impressiono com as tecnologias. Pra mim, elas acrescentam algumas palavras novas, que ainda não aceito em meus poemas. Não aceito porque essas palavras ainda não entraram no meu sangue. Componho como compunha: a lápis e usando um velho dicionário português dos eremitas calçados de 1870. E as minhas percepções sensoriais.


A Aldeia Global nos permite estar hoje na África do Sul ou no Pantanal do Nabileque com uma pequena diferença de fração de segundos. Há risco nessa evolução? Voltar os olhos para o regional significa resguardar a identidade pantaneira?
Manoel de Barros - Não há como evitar as aldeias globais e seus efeitos. Elas invadem e destemperam quase tudo. Mas o pantanal em seu todo, em sua ossatura geológica está resgaurdado. Ou quase. O fato de ser uma região de enchentes periódicas, isso preserva um pouco o pantanal. Ninguém se estabelece com indústrias ou supermercados no pantanal. Porque em seis meses as águas lhes comem pelas beiradas. E tudo bóia. E tudo nada. Aquilo é celeiro de bichos e aves e não de cofres bancários. Com a paz dos bichos vive a paz do homem pantaneiro. E viverá enquanto a natureza não modificar a sua ossatura geológica.


Alguma vez lhe passou pela cabeça criar um "dicionário da natureza"?
Manoel de Barros - Você pode não acreditar, mas eu não me emociono com a natureza como ela é. Suas águas, seus bichos, sua vegetação. Até tenho um certo fastio da natureza. Igual Macbeth falava: Tenho um certo fastio do sol. Talvez a gente queira fazer um sol verde, um homem que voe como as noivas de Chagal, um cavalo azul e de asas. É evidente que eu, tendo sido criado no pantanal, tenha em mim um lastro de brejos e de conchas. Tenho um sentido de abandono em mim. Um sentimento de lonjuras, de distâncias, de lugares sem dono. Venho daqueles tempos em que o pantanal era o ermo. Fui criado naqueles ermos. Por isso tenho em mim um sentimento de abandono. Na minha meninice chegavam apenas carros de bois, de três em três meses no lugar em que morávamos. De forma que essa angústia de estar em lugar distante e perdido, me acompanha até hoje. Não me seduz ver as paisagens do pantanal porque elas estão dentro de mim. O que preciso é transfazê-las.

Frame do documentário "Só dez por cento é mentira". 
Você parece ter feito uma opção por manter-se à margem. Do sistema, da mediocridade, da excentricidade. Você se sente violentado nesses tempos de invasão e de quebra de privacidade?
Manoel de Barros - Existe uma lenda de que eu tenha feito opção para viver à margem. E às margens. Mas, na verdade, eu nunca fiz essa opção e a coisa é lenda mesmo. O que eu sou, sem dúvida, é um tímido incurável. Sofro para atravessar um salão cheio de gente. Sofro em solenidades. Ando sobre pregos se tenho que conversar com senhores conspícuos. Até para entrar em salão de barbeiro, se o salão está cheio de gente, eu sofro. Escolho sempre aqueles velhos salõezinhos de uma só cadeira. Aí fico amigo do barbeiro e nos anedotamos. Daí, por não gostar de sofrer, fui me afastando dos convescotes, das vernissages, dos inauguramentos, dos sodalícios. Prefiro os lupanares do que os sodalícios. Vivo bem nas tocas. A gente acaba descobrindo que no fechado o imaginário voa mais longe.


Mesmo sem sair do Mato Grosso do Sul, sem cortar o contato com a sua terra, o seu olhar tem sabor do universal. Que energia é essa que te alimenta a poesia?
Manoel de Barros - Os olhos enxergam melhor as coisas do nosso pequeno mundo particular. Aqui ou em Paris os quintais têm as mesmas coisas: folhas secas, cacos de vidro, formigas, bosta de rato, baratas cascudas. Passei algumas horas no quintal de Rodin. Eu estava curioso para ver se os passarinhos de lá tinham duas pernas também, como os daqui. Saí confiante que tinham. Então acertei as pequenas coisas que meus olhos viam na minha terra, na minha cidade, no meu terreiro - eram quase que as mesmas que eu vira no quintal de Rodin. E sei bem que só um milagre estético pode tornar tudo isso universal. O que faz do particular uma coisa universal é o tratamento estético que possamos dar a esse particular de cada um de nós.


Gilberto Gil diz em uma de suas canções que "no sonho do poeta nada falta". Com quê o poeta sonha?
Manoel de Barros - Eu fantasio completo. Eu fantasio mulheres, viagens , vulva, pevide, inocências. Queria ter agora um olho de criança para ver o mundo pela primeira vez. (Meu olho está tão gasto!) Eu ía dar nome às coisas. Cobra eu chamaria de flor que anda. Nuvem eu chamaria de sol, etc. etc. Eu daria movimento às pedras. Faria árvore pensar. Tudo o que eu tocasse teria um canto, uma cor, um amor. A solidão teria que existir para que a alma funcionasse e se abrisse em sonhos. Eu sonho tudo. Eu queria saber misturar melhor as palavras a ponto que eu fosse mais poeta.



Ao final, bem ao seu estilo, o poeta me mandou um recado, em que aceita - carinhoso - o convite que faço para tomar "uns goles de cachaça" que ele não dispensava. A certa altura (veja a transcrição do conteúdo, logo a seguir) diz esperar que eu não me decepcione com o conteúdo das respostas. Imaginem, logo eu! 

"Maranhão Viegas, prezado jornalista.
A moça que trouxe as suas perguntas me disse que você teria pressa. 
Não relaxei entretanto, por isso. Fiz o que posso e o que sei. Talvez
se houvesse prazo maior as linhas aumentassem. Espero que você não se decepcione. 
Quanto aos goles em algum boteco do mundo, vamos marcar. 
Grande abraço. O amigo, Manoel de Barros. 

PS. Acho que misturei as perguntas, a ordem delas. M."

O bilhete aí em cima guardo com o carinho de quem realizou um sonho. 
O sonho de ter tocado o poeta e sua poesia.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A cajuina, a poesia, o muro

Ontem, foi dia.
Ô, internet e essas notícias à queima-roupa!

Renata Sanches me lembrou que se Torquato Neto estivesse vivo, completaria 70 anos ontem. Torquato é um piauiense da gema. Um gênio da palavra que resolveu ir cedo embora. Antes de desistir de viver, deixou belas coisas escritas. Depois que foi, provocou Caetano Veloso a escrever uma das mais lindas de suas canções - Cajuina.

A música, bem lembra Renata, é o retrato eternizado de um encontro entre o pai de Torquato e Caetano, tempos depois da morte do filho. Um olhar entrecuzado, uma flor, um gole de cajuina, umas lágrimas e a poesia estava pronta.

Torquato foi, sem nunca ter saído daqui.


Bosco Martins republica uma notícia da Revista Época, edição desta semana. Meu poeta maior, Manoel de Barros, está passarinhando. Logo ele, que tão bem traduziu a natureza, coisificando a beleza e embelezando tudo o que escapasse do belo, pela ponta de seus lápis. Logo ele, que a gente imaginava que não era um ser finito. Logo ele, que tanta alegria me traz em seus escritos de menino, com seu/meu alter-ego Bernardo.

A imagem eu copiei da página da Dora Prado, um dia destes.
Nem fazia ideia pra o quê. Hoje, ela se justifica aqui.  

A notícia é dura e poética ao mesmo tempo. Manoel está cansado de viver. Não quer ficar assim, preso à uma cama, olhando o tempo passar sem poder segurar o rabo do vento. Quer seguir viagem de menino, no curso da cobra de vidro que passa no fundo da fazenda onde ele se criou. Perto das suas belas inutilidades.

Foto de Roberto Higa e arte da Revista Época
Manoel, em parte, viu a vida perder sentido depois da inversão temporal que lhe tirou de vista os dois filhos homens. É o que diz o Bosco, na revista. Que a vida lhe reserve a mais bela poesia de passagem, Manoel.


Mariza me faz lembrar dos 25 anos da queda do Muro de Berlim. Me manda um link que é uma propaganda do Google, mas que vale a pena ser visto. E enquanto aquele minuto e meio vai passando diante dos meus olhos, tento compreender por quê o mundo insiste em ser dividido.

Dividem-se as terras, a fé, as gentes, o sofrimento, a dor… A cada nova divisão o mundo fica menor. E tanto, que quase vai não nos cabendo dentro dele. Acho que por isso é tão importante celebrar a passagem de um tempo em que, ao invés de dividir, nos unimos. Um muro a menos. Horizontes a mais.    Vida que segue, na velocidade das notícias à queima-roupa.




quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Foto das almas que dançam

Foto: Henry Milleo
Cris Guerra aventurou-se pela Amazônia. Não sei pra fazer o quê.
Mas, pra o que quer que tenha sido, deve ter sido uma experiência e tanto!

Tanto que gerou pelo menos uma foto fantástica. 

A foto é essa ai em cima. Feita, segundo a própria Cris, por um fotógrafo (e que fotógrafo!) chamado Henry Milleo

Sabe-se quem é a Cris pelas tatuagens, pelo corte de cabelo, pelo estilo, pela roupa. 

Quando olhei a foto, fui assaltado por uma expressão de admiração que o bom senso não me aconselha a reproduzir aqui. Mas, juro, foi pura admiração, deleite para o olhos, gerado pela sensação de ver a imagem ali, do jeito que foi feita. 

De imediato, escrevi para a Cris e reproduzo aqui a mensagem que mandei pra ela: 

Você na ciranda, 
o mundo à sua volta, 
seu tecido roupa, 
misturado às suas tatuagens corpo, 
à floresta, às outras gentes. 

Prestando bem atenção,  
dava pra ouvir os pássaros
e sentir o cheiro da mata.
Prestando bem atenção, 
a natureza era viva ali.

E as almas todas ao teu redor
dançavam contigo
uma dança de comunhão.

Não sei exatamente o que ela foi fazer lá. 
Mas já me dou por satisfeito com a fotografia desse momento único. 
Valeu, Cris!