terça-feira, 15 de outubro de 2019

Haicai da indecisão





Tantos caminhos 
o mar aberto em mim
pra onde seguir?

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Bacurau, Brasil


Bacurau (Brasil, 2019, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) é o filme brasileiro que deve fazer Tarantino se perguntar “Como não fui eu que fiz”? Há nele uma história densa, de um Brasil profundo e real. Daquele Brasil que Glauber Rocha encontrou com sua câmera nervosa no sertão nordestino do Século passado. Ou, que Nelson Pereira dos Santos gravou com poesia árida, no mesmo sertão brasileiro. Mas tem mais. Não há luxo em identificar traços de Hitchcock, nem exagero em perceber suspense extraído da mesma fonte onde bebeu de John Carpenter.

Não é pouco, portanto. É muito e isso é bom.

Ele estreia nesta quinta-feira, 29.08, nas telas nacionais. Dias atrás, consegui vê-lo em pré-estreia. Por um lance de sorte. O meu tempo não coincidia com o das sessões do filme que originalmente planejava ver na noite de sábado. Para não perder a viagem passei os olhos nas alternativas e percebi que ainda havia uns poucos lugares, nas fileiras que ficam quase embaixo da tela, para a sessão de Bacurau, a primeira a ser exibida no Cine Cultura, aqui em Brasília.


Lá fui eu, sem saber o quê esperar de fato. Havia um frio em minha barriga. Pelo que já tinha lido, pelo resultado em Cannes, pelo receio do que veria. Esse tempo de incertezas faz a descrença virar sombra da gente. Mas já nas primeiras cenas fui seduzido por um roteiro porreta, uma direção ao mesmo tempo bruta e delicada e uma história que me sequestrou do mundo lá fora e me fez embarcar de corpo e alma na viagem para Bacurau. 

Bacurau é um lugarejo qualquer na imensidão de terra seca do Nordeste Brasileiro. O sertão que leva a Bacurau é muito parecido com o sertão de Big Jato (Brasil, 2016, direção de Claudio Assis), outro filme que carrega a brutalidade poética nordestina sem filtros (e que merece ser visto, caso o leitor ainda não o tenha feito). Há semelhanças e diferenças.

Um caminhão, por exemplo. 

O limpa-fossas, de Big Jato.  

Em Big Jato, o caminhão que trafega em meio à paisagem árida é um limpa-fossas, que recolhe esgoto dos outros, enquanto espalha odor de merda na vida de um pai que varia entre a honra do trabalho e a descrença na poesia da vida. Junto do pai, na boleia do caminhão, um filho adolescente cuja vivência oscila entre a rudeza do pai e a alucinação poética do tio. O menino tempera a merda da vida que leva com o cheiro perfumado da poesia.  

O caminhão de água potável, na entrada de Bacurau.
Foto: Divulgação, internet.  
Em Bacurau, o veículo inicial é outro. Não por acaso, é um caminhão de água potável que, além de matar a sede do povoado, traduz um ponto de referência, uma preciosidade do local. Traz água mas também traz notícia e traz gente. Nele, uma mulher volta à sua origem para viver o velório de sua avó, uma líder negra local (interpretada por Lia de Itamaracá). Ela tem emoção nos olhos e remédios na mala. Ela é filha de um professor, negro, digno, envolvente, visionário. Bacurau é um lugarejo onde a escola e o museu ganham importância maior que a igreja.  Big Jato é utopia. Bacurau é distopia. 

Cena do filme Bacurau
Há um latente espírito de solidariedade e tolerância entre os locais. A pobreza e o isolamento não são motivos para ignorância. O povo ali retratado tem o que virou moda chamar de “inteligência emocional”. Divide as mazelas, se identifica na dor e na alegria compartilhada. A vida no sertão não lhe tira o humor e espanta qualquer sentimento de menos valia. Em resumo, aquela gente é símbolo de resistência já cantada em verso e prosa. Por Luiz Gonzaga ou João Cabral de Melo Neto. Por Suassuna ou Guimarães Rosa. 

Lunga, o herói bandido ou bandido herói é digno da personalidade ambígua. É um lampião trans. Nem super-homem, nem mulher maravilha. Volta da reclusão para ajudar seu povo a resistir a uma invasão gringa. Nas palavras do professor (da cidade que não tem padre) ele não devia parar de escrever. Em Bacurau, Lunga reescreve sua história com suor e sangue. E ajuda a cidade a não sumir do mapa. Melhor, ajuda a cidade a ser o que é. 

Bacurau é sertão e é Brasil. Quem não viu precisa enxergar.  

Kleber e Juliano. Os diretores.
Foto: Divulgação
PS.: Não é preciso falar do vigor da música de Geraldo Vandré, da grandeza da imagem de Sônia Braga, nem da vitalidade dos atores anônimos que dão corpo ao filme. 


terça-feira, 20 de agosto de 2019

O tempo por testemunha

Cora Coralina
Faz cento e trinta anos, nasceu uma menina bem por ali, pelo sertão de Goiás, no coração do Brasil, num lugar onde o tempo se encarregaria de transformar cidade em sinônimo de poesia.  Faz cento e trinta anos. 

Não havia, naquele tempo, quem previsse se ia chover ou não. Não havia mais do que o barulho de pássaros anunciando a manhã e o rumor do rio em movimento lambendo as pedras. 

Havia apenas a certeza de um novo nascimento. 

Faz cento e trinta anos e o tempo, testemunha desse milagre, parece não ter passado quando se pensa em poesia.  A janela da casa velha da ponte, segue aberta. Ainda dá para o mesmo horizonte que viu a menina Aninha nascer. 

De lá daquela janela, a menina que se fez Cora Coralina, segue impregnando quem quer que se aventure a lhe enxergar com o sabor doce dos seus poemas. 
Agora mesmo, nesse exato momento, como cento e trinta anos atrás. 

Tendo apenas o tempo por testemunha.   

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O minimalismo da esfera de Magó


O público ocupa o palco. Uma roda de espectadores se forma diante de um pequeno círculo. A gema do palco/ovo/célula. Dentro dele, nada. O silêncio e o escuro. O que virá dali é uma incógnita. 

Um facho de luz se acende e revela um pêndulo cuja ponta é uma esfera perfeita. O escuro do ambiente cria a ilusão de aproximação. O silêncio é provocador. Cá embaixo, a pequena plateia se mexe nas cadeiras. Olhares voltados pra cima, pro alto. O silêncio e a semiescuridão provocam certo desconforto. Quem atualmente se habitua a esquecer o tempo? A permitir-se a mudez e a reflexão, livre dos bites invasivos dos celulares?

O silêncio é quebrado por um ruído que lembra uma máquina em funcionamento. Não é uma melodia. Não tem harmonia. A máquina parece conter um barulho orgânico. E nisso a liberdade de pensamento cria uma ponte imaginária entre aquele palco/ovo/célula e o pêndulo/esfera/vida. 

O não saber é provocante. Instiga a imaginação. Nos faz reféns do “não-sei-o-quê-mesmo”. De repente, um vulto se impõe. Só um vulto. Um novo facho de luz fotografa cenas fixas de um corpo feminino. Mulher nova, forte, vigorosa. Rosto de anjo. corpo de guerreira. Olhar firme que impacta na borda do palco/ovo/célula. 

Vez em quando, fixa os olhos da plateia. Vez em quando, se estende em direção ao pêndulo/esfera vida. Inicia-se um jogo de sobrevivência angustiante. Longas tentativas de alcançar a esfera, enquanto o pêndulo que parece ter personalidade e autonomia, decide se permite ou não ser alcançado. 

O vigor da personagem traduz sofrimento e êxtase. E impõe o compartilhamento dessa dor/gozo à plateia. Enquanto se movimenta a personagem, que tenta alcançar a esfera num playoff definitivo, quase toca algumas das pessoas no circulo. É incrível ver o que o “quase toque” provoca. Pernas recolhidas, susto, receio do contato. 

É como se a plateia, sem saber ao certo onde chegar, dissesse “é vida, é dor, é êxtase, mas não é meu. Não faço parte disso. Não me encoste”. Até que a esfera se rende. Ou, se dá por vencida. Ou, aceita o jogo. E, finalmente, é alcançada. 

Há uma identidade libidinosa entre a esfera e a personagem. Há cumplicidade. Há invasão de limites. E nisso, quem antes tinha medo do toque, se aventura em rápidas carícias ao pêndulo/esfera/vida. Passa em nossas mãos com a rapidez da vida. Zás! Segue pra outro ponto da plateia. 


A trilha/ruído sonoro incorpora batidas binárias de um coração tambor. O jogo entre personagem e esfera adquire ares de intimidade minimalista. Esfera roça corpo, que roça esfera, que invade corpo, que toca esfera num ritual de sedução e magia. Até que os dois corpos se unam em uma coisa só. O cio vence o cansaço. A vida é ligeira e única.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Filminho de inverno

Sábado fui à casa de meu pai e minha mãe. Um ritual delicioso que incorporei à minha vida nos últimos tempos. Um carinho nos velhos, uma comidinha boa feita pela minha mãe, um bom vinho bebido ao sabor das histórias de meu pai.

Nesse sábado, paramos um pouco na biblioteca. Eu, meu pai e meu irmão, Iram. Ficamos ali, meio à toa, falando sobre livros e autores. Como numa brincadeira de meninos, ficamos lançando nomes de livros pra ver se ele os tinha. Não falhou um.

Até que, lá pelas tantas, ecoou um silêncio no ambiente. Que só foi quebrado pela voz do Viegão.

Ele manifestou um desejo de ter livros escritos por nós em sua biblioteca. A história terminou em risadas. E agora, em um filmezinho de inverno. Inconsequente.

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Brasil sem João Gilberto



João passou por aqui.
Enquanto esteve, inventou acordes, mudou a rima, quebrou a regra da sinfonia, destoou em perfeição.

João se foi.
Em algum lugar, juntou-se a Tom e Vinícius.
Uma nova bossa deve surgir dai.

Valeu, João.
O Brasil te agradece a passagem.
E não vai te esquecer.



Os ipês de Brasília



Toda vez que o inverno começa, em Brasilia, é sinal de florada dos ipês. Sim, eles se antecipam às outras árvores como quisessem assumir a dianteira do processo natural que transforma a cidade em um jardim monumental.

E sempre conseguem.

Impossível não registrar. Impossível não se alegrar. Impossível não ter a lembrança do "semeador" Ozanan Coelho. E, por ele, faço questão de escrever e registrar.



quinta-feira, 6 de junho de 2019

Short Cuts de Quinta - 06062019



O que eu sou

Dormi pensando nisso. Acordei na madrugada, pensando nisso. Não tenho dúvidas do que sou. Sou poeta, corro nas ruas, nasci numa ilha, cresci no mundo, amo e gosto de ser amado. Trabalho e justifico o que ganho. Ganho menos do que mereço. Mais do que preciso. Meus medos existem e eu os trato como merecem. Nada além. E isso também me traduz.

Ando entristecido com meu país. Não acredito em solução fácil, nem em ninguém que se sustente por plataformas digitais. Esses são como o vento. Passam. Mas receio que, como os ventos mais intensos, possam deixar um rastro de destruição mais ancho do que eu tenha capacidade de imaginar. A covardia do desmonte exigirá um tempo imenso para recuperar o que se destrói agora com a delicadeza comum aos ogros. Acho que não estarei aqui para ver o conserto do meu país. Mas isso é detalhe. O conserto virá. E muitos verão. É o que importa.

Quando o sono me falta, a poesia me salva. Quando perco a calma, a poesia me salva. Quando o dia vira noite e nada se justifica a poesia também me salva. Contradigo a tese dos que imaginam que “poeta bom, meu bem, é poeta morto”. Gosto de estar vivo. E vou insistir com a vida até onde seja possível. Se eu sair antes do tempo, sairei contrariado. Tenham certeza. Qual é o tempo? Ah, isso lá de adivinhação não me é dado o direito. Fico, então com a poesia. Como disse, a poesia me salva.

Tenho consciência da finitude do ser. Sou, portanto, enquanto estiver por aqui. Depois disso, serei mera lembrança. Estou. E enquanto estou uso o meu desassossego pra enfeitar os meus dias. Ainda que isso provoque o asco de alguns. Há, em outra medida, quem se comova de alegria. Isso me traduz. Não parece poesia?

Não tenho a perfeição como meta. Sou poeta. E a estes não cabe o desejo de perfeição. Meus imperfeitos são a minha cara. São a minha letra. São a minha música. Danço conforme meu corpo pede. É o que tenho. Danço ao sabor das ondas, ouvindo Billie, Pessoa ou Manoel de Barros. Danço no Quadradinho ou em Cochabamba. No Quartier Latin ou em Asakusa, com a mesma alegria dos que usam a música como bem primal, que não mede fronteiras.

Não tenho herança a deixar. Sou parte dos que se veem com valor imaterial. Valho mais em memória do que em espécie, eu creio. Por isso digo: Minha tristeza passa a cada nova linha de poesia. Quem quiser me guardar me encontrará repartido nas linhas de Borges, De Neruda ou Eduardo Galeano. Soa pretencioso, mas é mesmo. Com o tempo, descobri que tenho na boca o mesmo sabor do vinho que eles beberam. E meus olhos veem a mesma graça na vida que eles enxergaram.

Minhas letras são minha Pátria. Meu tesão não guarda desaforos. Tenho impaciência aos indolentes. Minha vida, meu grande sertão veredas, cavalgo em desalinho. Recebo a coragem que necessito olhando nos olhos de quem me atiça. Xangô e Yansã me acompanham nas manhãs de inverno. Buda, Ganisha, Yemanjá e Ogum me refrescam a alma no calor. O deserto onde pisaram Jesus, Maria e José me povoa no outono. E os bichos de São Francisco colorem minha primavera. Sou brutalidade delicada nas quatro estações. Não mexam comigo. Eu não ando só.   

domingo, 19 de maio de 2019

Intimidade




Subo a escada rumo ao céu estrelado
À ponta uma lua envolta de estrelas
Subo a escada rumo ao céu estrelado
Crendo poder esticar o braço
E alcançar o infinito

Subir rumo ao céu noturno
É aventura de menino abusado
Cheio de ignorância corajosa
Como quem fosse capaz
não entendendo de medo
de preencher o vazio
de desvendar o segredo

O vazio não me cabe
É um risco vazado
Um traço mal traçado
O vazio só faz sentido aos ateus

Aos vazios um alerta
Uma dose diária de poesia me preenche
Sou repleto a cada novo amanhecer

Escada
Noite
Lua
Céu 
Estrela 
Dia

O tempo é o que há de mais íntimo em nós.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Short Cuts de maio – 16


O abraço



O sol não saiu às primeiras horas do dia. Quinta-feira de maio. Dia preguiçoso, cinzento. Outono desajeitado no Planalto Central do Brasil. A chuva de ontem à noite, extemporânea, deixou o asfalto úmido. O tempo anda estranho, mesmo.

Sigo meu caminho. A certa altura, avisto de longe um abraço luminoso. Meus olhos se afastam do resto. Num zoom, me aproximam da cena. O uniforme é de um gari. A mulher atravessava a rua. Custo a compreender aquilo. Mas abraço quente dispensa compreensão. É abraço.

O caminhão de lixo segue sem esperar o gari. Ele sorri. Ela sorri. Se abraçam novamente. Tem alegria, tem conhecimento, tem intimidade. Fica nítido que ele trocou a distância do carro de lixo por um abraço. Fica claro que ela se satisfez com o encontro inesperado.

Ela compartilha com ele um copo de café. Ele bebe. Se despedem. Ela fica com o rosto iluminado de alegria. O gari corre. Numa satisfação que dá pra ver de longe. Alcança o carro de lixo.   

O tempo anda estranho. Mas não há estranheza que resista à alegria de um abraço sincero. De um afeto, de uma quentura. A vida segue.

Nossa senhora da Exibição



Nunca pus no ar um telejornal sem evocar as bênçãos de “Nossa Senhora da Exibição”. Exibição, que fique claro aqui, não de ser exibida, mas de mostrar o melhor possível do nosso trabalho. Muita gente estranha, mas não diz, nem pergunta nada. Ninguém contesta. A maioria aceita o meu dito, talvez, com receio de – desacreditando – atrair maus fluidos. Nas poucas vezes em que Manuela Castro, amiga querida e excelente jornalista, apresentou telejornais sob meu comando, ela, sim, sempre perguntou: Essa santa existe? E a minha resposta sempre foi afirmativa, sem titubear: Sim. Ela existe.

Manu, no seu jeito escrachado de ser, sempre duvidou, sem desacreditar. Mas nunca se satisfez com a minha resposta. Até o dia em que construiu, ela própria, a sua interpretação daquilo que eu dizia. No entender dela, a minha “Nossa Senhora da Exibição” é na verdade católica ninguém menos que Santa Clara, protetora dos jornalistas.

Não sou católico praticante. Professo uma fé pessoal e intransferível que aceita boas energias de muitos credos. Aliás, devo dizer que convivem em meu santuário pessoal, em absoluta harmonia (diga-se de passagem) Jesus, Maria e José, atravessando o deserto; Xangô; Fernando Pessoa; Iansã; Buda; Eduardo Galeano; Ganysha; Ogum e São Francisco. Formam em silêncio circunspecto o meu primeiro time de acompanhantes-protetores.

Eu sempre me alegro das coisas simples. Despretensiosas. Que dão um sentido lúdico à vida. Brincando, reforço a minha fé. Distribuo um pouco de leveza aos que me rodeiam e me sinto mais protegido.

Em tempos estranhos, como os que vivemos agora, toda proteção é bem-vinda. E a leveza com as coisas da vida, fundamental.

domingo, 5 de maio de 2019

A primeira vez em que eu morri


Entre eu e Liliana, Clarice e Mariana. 
Liliana Baya me visitou. Veio de uma longa viagem, que ela diz, "de amores". Nos conhecemos priscas eras. No início da faculdade. Ela, uma argentina criada na Bolívia. Eu, um maranhense deslocado para o Sul do Brasil. Estávamos em São Leopoldo e, para os outros, éramos uma espécie de animais de laboratório.

Tudo o que se falava nas salas de aula carecia, ao final, de uma opinião nossa. "Como é na Bolívia?" "E como é no nordeste?" Certamente não foi só por isso, mas houve uma contribuição enorme dessa circunstância para que nos aproximássemos e virássemos amigos profundos.

Depois, ela casou e teve duas filhas. A primeira, Tessay, foi meu laboratório de paternidade. Eles eram estudantes de arquitetura e quase não tinham tempo para cuidar de filhos. Eles tinham cálculos na cabeça e quase não dormiam. Nós, estudantes de jornalismo, tínhamos um mundo aberto para as teorias, para a filosofia, para as contradições da vida... Nossa matemática era poética. Nosso cálculo era a paixão.

Tessay cresceu em braços de futuros jornalistas. Viramos compadres. Padrinhos sem exigência de documento. Depois que a segunda filha de Liliana nasceu, Aymé, ela foi embora de vez para a Bolívia. Nossos olhares ficaram mais distantes. Mas nossos corações nunca se afastaram. Ao contrário, o tum-tum-tum do nosso peito bateu sempre mais perto da alma. Apesar de uma Cordilheira dos Andes a nos separar.

Esta semana, Liliana veio me visitar. E rever seus amores daqui, também. Meus pais, Mara, Mariana e Gabriel inclusos. Foi num jantar com Mariana que ela resgatou uma história, que eu havia deixado esquecida em uma dessas gavetas memoriais distantes.

Eram os idos anos 90. Bem no início. Ela saíra de Cochabamba em direção a Sao Paulo. A viagem implicava em uma parada para troca de aeronave em Puerto Soares, na fronteira com o Brasil, bem ao lado de Corumbá. Sentada, esperando que duas horas se passassem sem demora, ela puxa conversa com uma brasileira, que também aguardava o novo voo.
- Eu sou de Campo Grande, disse a mulher.
-Ah, é? Tenho compadres vivendo lá. São jornalistas. Ele, Maranhão Viegas, trabalha na TV Morena, falou Liliana.
- Ah, eu conheço.  Morreu faz pouco tempo! (Disse a mulher para Liliana com ares de quem conta uma novidade velha.)

Minha comadre gelou. E quis tirar a dúvida. Me descreveu. E, a cada traço meu descrito, uma nova confirmação da mulher me sepultava para além dos sete palmos a que todo mortal faz jus.

Liliana entrou em pânico. Pensou na Mara e na sua filha recém nascida. Tão jovem, a comadre. E já viúva! Como poderia criar uma criança assim? Entre um raciocínio triste e um pânico avassalador, decidiu interromper a viagem para São Paulo, atravessar a fronteira, entrar no Brasil por Corumbá e ir até Campo Grande ver a sua comadre. E conhecer os detalhes de minha vida interrompida. Foram seiscentos quilômetros feitos em pé, dentro de um ônibus lotado.

Chegou a Campo Grande perto das duas da madrugada. Desceu numa rodoviária inóspita que, aquela hora, abrigava apenas os bêbados, os perdidos e os incautos. Dirigiu-se ao único boteco aberto e implorou por uma lista telefônica (era assim que se descobriam os endereços das pessoas no início da década de 90, do Século passado). Tudo o que ela sabia era o nome da emissora onde eu trabalhava. Ligou. Foi atendida por um porteiro de plantão.

Uma vez mais, ela implorou aos prantos por ajuda. Explicou que chegara da Bolívia e precisava falar comigo. Milagrosamente o porteiro atendeu ao seu pedido e alcançou-lhe o número do telefone da minha casa. À época, eu era diretor de jornalismo da TV e já não era comum que tais pedidos - endereços, telefones pessoais - fossem dados a estranhos. Mas ela conseguiu. E ligou, desesperada.

Quando um telefone toca às três da manhã é preciso atender. Principalmente se a casa for de um jornalista. Sono interrompido e coração aflito, atendi. Ouvi do outro lado uma voz nervosa, falando meu nome em espanhol. Respondi que, sim, era eu. E percebi a pessoa chorando a ponto de ter uma eclâmpsia do outro lado da linha. Aos prantos ela só consegui dizer, "tu não morreu, compadre!!!!" 

Reconheci a voz de Liliana. Corremos para a Rodoviária para buscá-la e entender melhor o que se passava. Entre choros e risos, conversamos até as cinco da manhã. Ela precisava seguir viagem. Fomos para o aeroporto, compramos uma nova passagem. Antes das seis ela seguiu seu rumo.

Pensando com os termos de hoje, fui uma das primeiras vítimas de "fakenews" à época. Mariana ouviu incrédula essa história, contada de viva voz por minha comadre Liliana, sobre a primeira vez em que eu morri.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Correspondências 2019 – Carta para Karen Cristina

Foto: Kurt Arrigo
São seis da manhã e ainda é escuro lá fora. Resultado do horário de verão, ao qual meu relógio biológico costuma desobedecer numa rebeldia civil permanente. Acordo e não quero ver o noticiário. Porque ele está cheio de lama. Brumadinho não é Mariana. E não será leve.

A lama, aliás, assume por esses tempos o sentido mais explicito da imagem deste país. Para onde quer que se olhe, há lama. E, não raro, ela insiste em vazar de seus frágeis reservatórios, morro abaixo, espalhando um rastro imensurável de destruição e dor.
Ando farto de dor. Busco um limite que me permita avançar sem perder o rumo. Sem perder a graça.

Recorro a um presente que recentemente ganhei de meu pai. “Úrsula”. Um exemplar da série “Prazer de ler”, editado pela Câmara dos Deputados. Sim, para decepção dos rasos e ignorantes, a Câmara dos Deputados, tal qual um conjunto importante de outras instituições públicas, não produz só corrupção e escândalos. Produz conhecimento de alta qualidade, também. Poucos dão valor a isso, é verdade. Mas é real e inegável.


A publicação original deste livro aconteceu em 1859. É, fico sabendo, o único romance abolicionista de autoria feminina em todo o mundo lusófono naquele período. Escrito por uma negra que não teve acesso à educação formal. Uma autodidata, portanto. Maria Firmina dos Reis nasceu de uma relação ilegítima em 1822, não conheceu o pai, mas nem por isso deixou-se levar pela tragédia. Maranhense, fez o caminho inverso ao que se costuma ver. Deixou São Luis em direção ao interior. Foi viver em Guimarães, foi ser professora, foi ser alguém muito à frente do seu tempo. E assim sendo, foi-se. E assim sendo, ficou para sempre.

Resgatada agora, sua escrita destoa pela cor de sua pela original e pela consistência em resistir ao preconceito, pela insistência em romper limites. Isto, priscas era, no Século XIX.

Interrompo a leitura para atender outro chamado do meu relógio biológico: Hora do café. Ah, delícia de meus dias. Café. Não só o prazer de tomar. Me seduz o preparo. A água fervente na chaleira, o pó à espera no coador, o chiado da água, o barulho fino da transformação, o café invadindo a garrafa térmica, aquele cheiro de manhãs completas tomando a cozinha, o quarto, a sala, a casa toda. Café!


Penso nas coisas que me dão alegria. A contradição de ser alegre fazendo notícia. Duvida? Mesmo nestes tempos sombrios é possível. Mesmo com toda trama, com todo drama. Mesmo tendo de estar atento para as sabotagens do inimigo íntimo, do que vive ao lado, do que nos espreita mais do que cuida de sua vida. Mesmo assim.

O jornal de sexta, por exemplo. A dor de contar a tragédia da lama em Brumadinho exigiu de todos nós atenção e zelo. Exigiu capacidade de decidir em curto prazo. E exigiu decisões precisas, sem chance de erro. Num instante aquela redação passou de um conjunto de indivíduos dispersos e tristes a uma orquestra sinfônica em perfeita harmonia. (Tá bem, nem tanto assim – uma orquestra menor, de Câmara, vá lá, mas sem espaço pra erro e sem medo de tocar.)  

O resultado, no ar, não traduz nem de longe as dificuldades técnicas e operacionais que vivemos. Ao contrário disso, dá ao telespectador a sensação de que uma estrutura gigantesca produziu aquilo. Assim, somos gigantes sem ser. Assim, atravessamos o mar de dúvidas e incertezas que nos transforma em ilha ameaçada de mar, prestes a submergir num oceano de desconfiança. Ou, quem sabe, a resistir como ponto de fuga em mar revolto. Assim, encontramos alegria de fazer, mesmo acerca dos que só imaginam haver espaço para amargura.

Pão com manteiga, café forte e quente, verde na janela e passarinho cantando lá fora. O tempo nublado é preguiçoso por natureza. A preguiça de me mover só não alcança meus dedos no teclado do computador. O tempo nublado é preguiçoso. E eu recorro à correspondência para fugir à tragédia cotidiana.

Porque hoje é domingo. E porque a vida insiste em vir em ondas, como o mar. Desde muito antes de Vinícius se dar conta disso.


Brasília, 27 de janeiro de 2019.     

domingo, 20 de janeiro de 2019

Correspondências 2019 - Carta para Juliana Daibert

Querida Ju.



Espero que o seu braço imobilizado não lhe tenha tirado a alegria dos domingos de sol. Acidentes domésticos são ridículos. Mas eles também passam.

Acordei pensando que tinha que lhe escrever. Faz tempo que entrei em um estio de escrita. Desde que começaram as ondas de incerteza, no final do ano passado. As incertezas seguem por tempo demasiado, em meu entender. Talvez, por isso, tenha decidido voltar a escrever. Escrever, como correr, me salva sempre.

Sei que você anda evitando os jornais. É justo e são. As notícias não são boas. Aliás, manchetes alarmantes e notícias desconfortantes são o paradigma do jornalismo. A escola nos ensina isso. É papel do jornalismo tocar no desconforto e partilhá-lo conosco. Não é vício. É necessidade. Embora, para tudo haja medida. E em certa medida, o seu cansaço de notícias ruins é também o de muita gente (eu incluso). É o tempo. O que estamos vivendo agora é ridículo. Mas o tempo também passa.

Na sexta fui ao cinema. Capharnaum era o filme. Um drama árabe-libanês, filmado por uma jovem diretora libanesa, Nadine Labaki, que ganhou a Palma de ouro em Cannes 2018. Não sem razão. A história de Zain, um menino de doze anos, que sobrevive em um mundo de pobreza e guerra é um soco poético no estômago.

Se for assistir, prepare-se. A direção é boa, a história é boa e comovente. Boa parte do filme eu me peguei perguntando em silêncio: Será que eu consigo chegar ao final? E toda vez que isso acontecia, a história aplicava a dose de poesia necessária para seguir por mais um trecho. Várias, muitas vezes isso se repetiu nas duas horas e pouco do filme. Até a catarse final.

Zain é um menino que cuida de muitos irmãos mais novos. É consciência e crítica de uma família desajustada. É criança e é adulto. É poesia e tragédia. Sua história é a mesma de muitos filhos da guerra e da miséria humana. E sendo assim, ele passeia com desenvoltura num universo marcado pela dor e pela violência, pelo amor e pela separação, pela esperança e pela falta de horizonte. É um filme maiúsculo. Trate de ver.

Ontem, fiz mais um plantão na TV. Por lá também o tempo é de incerteza. Ninguém é capaz de prever com clareza o que acontecerá. Mas algo vai acontecer. A fórmula para seguir? Vou fazendo o que deve ser feito. Da melhor forma possível. Por força do trabalho, mais do que por vontade própria, leio as manchetes e mergulho nas notícias. Sou um dos que as fazem, por força do ofício.

No México, pessoas morrem vítimas de uma explosão de um duto vazado de combustível. Elas estavam roubando combustível. Muitas estavam com as roupas encharcadas de gasolina. Não se sabe ao certo o que provocou a explosão. Mas era uma tragédia anunciada.

Nos Estados Unidos, Trump faz uma proposta indecorosa. Acena com um alento provisório aos chamados “dreamers”, mas pede em troca o dinheiro para construir o famigerado muro na fronteira com o México. Os contrários a ele já disseram que a proposta é uma piada de mau gosto. E tudo indica que a queda de braço entre ele e o resto da turma vai continuar. É o que dá, colocar um menino birrento na presidência de um país. Lembro de uma canção do Chico que fala sobre mirar-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Mais pela rima do que pelo sentido literal. Mas sei que é tarde, é muito tarde, para que nos miremos no exemplo daqueles senhores do Norte.

Comecei a ler o terceiro livro do Yuval Harari. “21 lições para o Século 21”. Logo nas primeiras páginas ele nos faz pensar em algo que não costumamos. O tempo das narrativas. O cálculo dele é preciso. De trinta em trinta anos, desde o Século passado, a começar por 1938, as elites do mundo nos oferecem narrativas que servem de referência para tocar a vida no mundo civilizado (ou, nem tanto assim). Lá atrás, eram três – A fascista, a comunista e a liberal. Em 68, sobraram duas, a Comunista e a Liberal. Em 98, ficamos com apenas uma – a liberal. E agora vivemos a ausência de qualquer narrativa que nos aponte um caminho. E com isso, abrimos espaço para a velha ordem mundial. É como se inaugurássemos o passado, outra vez. Com cercas, muros, nacionalismos, preconceitos e pobreza de espírito. O tempo, nestas condições, é ridículo. Mas ele também passa.

Marcelo Yuka morreu. Ele era um pouco de tudo. Poeta, letrista, músico, ativista social... Era, principalmente, um camarada em ebulição constante. Tanto que nem as balas que o atingiram 18 anos atrás, lhe tiraram o tesão por viver. Enquanto esteve por aqui, fez coisas preciosas. O álbum Rappa Mundi entre elas. Pescador de ilusões, outra.

Um sujeito que vai fazer falta. Nas imagens que os jornais mostraram do velório dele, se destaca a presença de outro visionário dessa geração de artistas, Marcelo D2.

Dias destes vi na TV alguns dos programas de entrevista que o Gil gravou para o Canal Brasil. Gil não é entrevistador. É poeta, é cantor. Não é entrevistador. Isso faz dos programas muito mais uma conversa do que uma entrevista. O que não é ruim. Há momentos em que a presença de Gil é mais forte que seus convidados. Ele sempre começa cantando e tocando uma música. É um momento de deleite e de reverência. Lázaro Ramos chora de emoção. Caetano é cumplice. Dráuzio Varela enternece. Fernanda Torres trava com Gil um diálogo utópico. É das melhores conversas que vi. Veja, quando puder.

O domingo bate à minha janela. Lá fora faz sol. É hora de tomar a dose diária de vitamina D. Recupere-se logo. Enquanto isso, sobreviva às coisas ridículas da vida.
E se aproveite delas. Um beijo. Inorbel.   


Juliana Daibert era só uma menina em 1979, quando nos conhecemos.
Na foto, ao lado da sua mãe, Marilene, na noite em que eu celebrava o fim
do ensino médio. 
A jornalista, hoje.


Brasília, 20.01.2019