quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Vem com tudo!!!


Valeu, Renatinha Sanches (autora original da postagem).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O arco e o cinza



O arco da promessa, 
no chumbo do céu de Brasília.

A vida segue seu rumo, 
o tempo muda, 
tudo passa, 
feito uma tarde 
que ameaça chover, 
sem nos meter 
medo algum.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Com uma pequena ajuda...

Joe Cocker, na apresentação histórica em Woodstock, 1969. 
Eu era menino ainda.
Nas tardes de sábado, em Foz do Iguaçu, os primeiros acordes daquela guitarra distorcida anunciavam o início de um programa que marcou época na TV brasileira e na minha quase adolescência. Se não me falha a memória, o programa batizado de "Rock é Rock Mesmo" ou "Rock Concert".

Hoje me dou conta de que aquele som e a imagem editados misturavam dois monstros sagrados do mundo do rock - Joe Cocker e Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin. Sim. Não por acaso, o editor de imagem responsável pela abertura do programa juntou a trilha sonora marcante da interpretação única de Joe Cocker para a canção dos Beatles, com a imagem do cabelão loiro e sacodido de Robert Plant,  band leader do Led Zeppelin, cantando Whole a Lotta Love.


Ouvir aqueles acordes e ver aquela imagem, daquele loiro cabeludo, de microfone na mão e usando um jeans surrado, camisa aberta, peito exposto, era sinal de que um desfile de clássicos iria começar, comandado pela apresentação deliciosa de um jovem jornalista musical chamado Nelson Motta.

Nelson Motta
Hoje, madrugada de 23 de dezembro, abro os jornais e recebo a notícia de que Joe, aquele cantor visceral, que ficou mundialmente conhecido depois de sua apresentação em Woodstock, em 1969, ao cantar uma versão bluseira de With a little Help from my Friends, nos deixou. Morreu aos 70 anos, vitimado por um câncer de pulmão. Justo o pulmão que lhe garantiu fôlego para arrancar do fundo da alma os acordes vocais que lhe marcaram a carreira e a vida.


Descanse em paz, Joe.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Eu me lembro

Porque a sexta-feira já começou. Moska e Clarice. Eu me lembro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Filha, conta comigo!


Ontem, 17.12.2014, terça-feira, foi a final de um certo concurso de culinária, desses tão em moda na TV do mundo todo. No caso aqui, era o MasterChef Brasil. Eu nunca tinha visto um episódio. Não acompanhei nada. Pra ser sincero, não fazia ideia da existência dele.

Maurilo e Sophia
Mas hoje, depois do jantar, quando abri o computador encontrei um comentário do Maurilo Andreas, meu grande amigo, mineiro, publicitário e pai da Sophia. De todas as qualidades dele que conheço, ser pai me parece ser a que mais o identifica com o mundo.

A sua Sophia o faz escrever coisas lindas. O faz pensar coisas intensas e surpreendentes. Por ela, ele se faz gigante, da ponta do dedão do pé, até o último fio do cabelo. É assim que o vejo. De longe e de bem perto. Eu me divirto e me emociono com as coisas deles. E, à minha medida, me espelho nesse amor mútuo de pai e filha. Desejando ser parecido, no jeito de amar, de respeitar e de ser amigo e cúmplice da minha Mariana.

Pois bem, como eu dizia, abri o computador e o Maurilo fazia um comentário sobre uma cena, uma única ceninha de 32" desse tal programa, que durou não sei quantas semanas e teve não sei quantos concorrentes.

As duas finalistas, diante dos jurados. 
A cena de que ele falava se deu no último programa, eu creio. Na disputa final entre duas concorrentes que lutavam pelo prêmio máximo - algo como três meses de curso em Paris, no CordonBleu, mais um monte de outras coisas do gênero.

Na cena, uma das concorrentes, a que tinha mais carinha de menina, Elisa, a que parecia mais frágil e ao mesmo tempo mais concentrada no que fazia, se depara com um obstáculo quase intransponível: Uma tampa de compota que não abria.

Abrir aquela compota passou a ser um desafio não só dela, mas de todos que estavam ali, da família aos apresentadores, passando pelos amigos e pelos jurados da competição. Uma aflição só. E o tempo passava. E ela sofrendo e todos em volta também.

Até que ela surpreendentemente vira-se para o local onde estava a família dela. Olha e pede ajuda: - Pai, abre aqui pra mim, por favor. E correndo em direção ao pai, entrega o vidro. O pai, não era um qualquer. Era um pai, com P maiúsculo, da mesma forma que aquela filha não era uma filha qualquer. Era uma filha, com F maiúsculo.

Havia naquele pedido menos de fraqueza e mais de confiança. Menos de medo e mais de carinho. Menos dúvida e mais de certeza. Havia cumplicidade e delicadeza. Parecendo frágil, Elisa fez o que lhe pareceu mais óbvio, pediu ajuda. E ela nem imagina o quanto foi gigante ao fazer aquilo. Pedir ajuda é uma arte que anda meio esquecida nesses tempos atuais.

Ajudar é um gesto de gentileza que hoje pertence mais aos dicionários antigos do que aos rápidos verbetes, por vezes, ininteligíveis dos whatsapps da vida.


O pai de Elisa virou uma espécie de Maurilo. Gigante. Uma de suas mãos cobriu a tampa, enquanto  a outra segurava o vidro. Bastou um movimento, zás!, a compota se abriu. Ela pegou o vidro, correu para o prato, completou a sobremesa no tempo certo.

Elisa recebe o resultado da prova, sob o olhar do pai. 
Minutos depois ela se sagrava vencedora na disputa. Pouca gente percebeu, mas ela já era vencedora desde o momento em que recorreu ao amor do pai. Sim, aquilo foi um gesto de ajuda, mas foi ainda mais de amor, de confiança. Um gesto nobre e raro nesses tempos de individualismo e auto-suficiência. 

A cena está ai embaixo, pra quem quiser ver. Vale a pena. É emocionante. No filme completo do programa, na parte em que ela recebe o prêmio, lá pelas tantas o pai, ao comentar a vitória da filha, mete a mão no bolso e retira de lá a tampa. E a exibe como um troféu. Viva o amor! A delicadeza, a confiança e a cumplicidade!

Aquele pai, aquela filha, aquele momento… Era sobre isso o comentário do Maurilo. É o que me faz ficar emocionado ao pensar na minha filha também. É como a gente poder dizer ao vivo, e em público: Filha, conta comigo! A qualquer tempo, a qualquer hora, em qualquer situação.

Eu e minha Mariana


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Bailongo!


Volta e meia, Mauro Di Deus me estende a mão e me alcança, sempre, um bom programa cultural. Desta última, me fez chegar ao show "Bailongo", de Yamandu Costa e Guto Wirtti. O Yamandu eu já conhecia de outras plagas. Guto foi uma grata surpresa. Ver os dois, juntos, foi uma viagem agradabilíssima.

Yamandu Costa e Guto Wirtti
Os dois contam histórias curtas, enquanto nos encantam com uma música popular vestida em roupa de gala. Sim. O que eles tocam é mais do que clássico, transcende ao convencional. É algo que beira o inexplicável, o intraduzível.

É um passeio musical que percorre o quintal do Brasil e a varanda do mundo. Vai do chamamé ao tango. Da Vaneira a Villa Lobos. Num roteiro que é provinciano e universal, ao mesmo tempo. É preciso escutá-los de perto para compreender. Yamandu e Guto são amigos de infância que nunca se perderam. Talvez, por isso mesmo, o show deles é como uma viagem no tempo. Um resgate, com tudo o que isso possa significar. 

É como encontrar um velho amigo, um amor antigo, uma alma em sintonia, e perceber que o tempo e a distância não foram capazes de apagar da lembrança o que houve de melhor e o que ficou preservado para sempre.


Guto e Yamandu caminham juntos há tempos. E tocam como quem estivesse em uma brincadeira de criança. Com tamanha intimidade com seus instrumentos, com cumplicidade imensa no olhar, com afinação e improviso que - aos olhos de quem os vê tocando - tudo parece muito mais simples e fácil do que verdadeiramente o é.

Guto conta a história de como encontrou o seu "Baixolão", um instrumento menor, muito menor, que um Ciello, mas com uma sonoridade tão grave quanto a batida firme no peito, de um coração apaixonado. Yamandu visita Lupicínio Rodrigues, seu conterrâneo, e dá a Nervos de Aço uma interpretação doce e viril ao mesmo tempo, uma interpretação única, que por pouco não nos tira da cadeira e nos faz sair dançando em meio à plateia.

Talvez eu não consiga traduzir aqui o significado da música que eles fazem. Melhor mesmo é assisti-los. E comprovar a genialidade desses dois jovens músicos brasileiros. Eles, sim, representam o que o Brasil tem de melhor em sua essência.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Carta para Margot

Se estivesse aqui, Margot
faria aniversário hoje. 


Desde que você partiu, Margot, esse país está estranho.
Já teve um pouco de tudo.
Mas, nesses últimos tempos, o que sobra e nos assombra
mesmo é intolerância, Margot.

Se você estivesse aqui, estaria indignada.
Aquela indignação firme e elegante que sempre foi a sua marca. 

Na sua ausência, comadre, uma juventude sem liderança ganhou as ruas.
Uma seleção brasileira perdeu a copa em casa.
Uma eleição estranha, sem viço, atravessou o tempo e nos deixou com a sensação de uma espinha entalada na garganta. 

Nos resta, depois disso, um país dividido entre o incerto e o duvidoso.
Como eu disse, um país estranho. Você não está aqui (ainda bem) pra ver a profusão de mal-feitos cometidos por aqueles que deveriam nos dar exemplos, Margot. 

Nós, que aqui estamos, vamos tentando aplacar a incerteza com a poesia possível.
Com a determinação de quem sabe que é preciso seguir fazendo.
Tudo isso, Margot, deixa o país estranho.
Mas a gente tem suportado. 

Entretanto, querida comadre, desde que você se foi há uma falta imensa do seu
sorriso e da sua mansidão. Da sua ternura. Da sua clareza de ideias.
Pra isso, Margot, infelizmente, não há remédio. 

Talvez, seja por isso que eu tenha resolvido vir aqui te escrever.
Te mirar silencioso nos olhos, nas fotos que insistem em permanecer aqui,
nessa vida virtual, como quem ignora a realidade real.
Como quem pudesse driblar a distância e zombar da morte. 

Por onde quer que você ande, Margot, em qualquer dimensão que seja. 
Saudade, comadre, saudade.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Diamante verdadeiro

Chove em Brasília.
A cidade fica cinza.
A segunda fica cinza.
O cinza me remete à Bethânia e seu Diamante Verdadeiro, de Caetano.
Mas encontro Cássia, em outra de suas versões definitivas.
Já me basta.
Já me satisfaz.
Jé me acalma.
O cinza de Bethânia na voz de Cássia
é a mais perfeita tradução
da segunda chuvosa de Brasília.

Voilà!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Short Cuts de tarde quase perdida

Dilema de tarde perdida:
Meio Nero, meio Joana. Não sei se queimo ou se ardo em chamas. 
O dia hoje está confuso. 
Um clima de angústia que altera os sentidos da gente. 
Parei um pouco pra pensar num dilema quase Shakespeareano:
 Não sei se Nero, ou se Joana D’Arc. 
Eis a questão. 
Do jeito que as coisas estão, não sei se toco fogo ou se viro carvão.

No meio disso me aparece o Maurilo Andreas com uma historinha daquelas capazes de jogar um balde d'água no meu pequeno incêndio e quase me matar de rir:


Outro dia no barbeiro ouvi o seguinte diálogo.
Cliente: 
- Só apara porque aqui em cima a coisa tá feia, tô ficando careca mesmo.
Barbeiro:
- Que nada, você até que tá bem. Precisa ver o pessoal que vem aqui, aquele povo que faz implante. Fica ridículo.
Cliente:
- Eu fiz implante.
(breve silêncio)
Barbeiro com voz sumida:
-       Mas o seu não tá ruim, não, viu? 

Me acabei na risada.
Na hora me lembrei de um episódio ocorrido em terras gaúchas.


Na cidade do interior, o Clube Principal era o centro do mundo nos dias de festa. 
Lá, se sabia de tudo e de todos.
E havia um ritual: Os homens chegavam e já se juntavam em um canto, numa rodinha de amigos. 
As mulheres, não. 

Antes de entrar, paravam na parte mais alta da porta principal, davam uma olhada pro salão, de forma a enxergar quem já tinha chegado, se usava ou não o mesmo vestido da última festa, e coisas assim. Nada, nenhum detalhe passava despercebido.

Numa dessas, duas amigas se encontraram. Trocaram beijos e cumprimentos. Uma delas olhou para o centro do salão, avistou algo incomum disparou:

- Olha lá, aquela mulher, de bigode!!! 
A amiga virou-se, olhou bem e disse: É minha irmã!
Sem perder o tom, nem descer do salto, a primeira emendou a galopeira:

- Mas, como ficou bem o bigode pra ela!!!!!

Assim, sob o riso besta, a tarde queima. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Foto de Sioma, poesia de Karine

Sioma Breitman e sua esposa
Karine me manda um link que me leva ao acesso privilegiado ao seu mais recente filme, Sioma. Assisto e fico emocionado. Um curta que conta a história da fotografia, que resgata outras histórias, que perpetua a sensibilidade.

Um fotografo judeu-ucraniano, Sioma Breitman, radicado em Porto Alegre, desde o início do Século passado, registrando com seu olhar poético o cotidiano, a sociedade, as transformações do mundo. Se estivesse vivo, estaria completando 110 anos agora. Suas fotos venceram o tempo e a distância, tem vida eterna.

Karine Emerich é minha amiga desde os tempos da faculdade de jornalismo, no Sul. Desde que a conclusão do curso nos separou, ela já fez curso de cinema em Cuba, já viveu quase uma década em Portugal e, já faz alguns anos, voltou para o seu “porto seguro”, de onde esgrime com maestria a direção de uma câmera de cinema. Sua lente, sempre atenta e poética, tem produzido filmes e documentários de grande valor.

Marcio Martins, Denise Neumann e Karine Emerich.
Amigos do tempo da faculdade de Jornalismo, na UNISINOS.
O subtítulo de Sioma – “O papel da fotografia” lhe cai bem. Mas poderia ser outro, sem nenhum prejuízo: Sioma – “A poesia fotografada”. O curta, de 15 minutos,  tem ritmo e emoção. É dirigido em conjunto por Karine Emerich e Eneida Serrano, pesquisadora e fotografa dedicada a desvendar história em forma de imagem.

Karine e Eneida
As meninas foram buscar, por meio de anúncios de jornal, as pessoas por trás das fotos. Famosos e anônimos desfilam num roteiro poético e numa edição harmoniosa, sob uma trilha sonora de fino trato. Há trechos emocionantes dos filhos de Sioma – já senhores de idade – relatando a paixão do pai pela arte de fotografar e a relação inseparável dele com a sua Roleiflex.

O "Negrinho José" no passado e hoje. 
Há emoção também no reencontro do fotografado com a sua foto. O presente, o “negrinho José”, morador de rua em Porto Alegre, cara a cara com o passado, o menino negro, de olhos vivos e lábios grossos, registrado pelo olho mágico de Sioma.

Helena, noiva sob a lente de Sioma. 
As senhoras, seus vestidos de noiva, suas histórias duradouras de amor eternizadas no famoso estúdio fotográfico da Rua da Praia, uma tradição na metade do Século XX, em Porto Alegre. Também permeia o documentário a imagem do caráter, traduzida nos olhos anônimos do cidadão de rua. Sioma era um mestre.

A força do caráter, nos olhos anônimos. Por Sioma. 
Por enquanto, o filme já recebeu pelo menos dois prêmios importantes, um no Festival de Cinema de Gramado e, outro, no Recine - Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Mas tudo indica que a carreira será longa.


Alice Urbin entrega prêmio do Festival de Gramado a
Eneida e Karine. 
Também por enquanto e exatamente porque ele segue disputando festivais, só é possível ver-lhe o trailer. Mas não demora e a gente vai poder deleitar-se com a volta ao passado no imaginário eternizado de Sioma.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Carta pra Mariana


Querida mamadhi! 
(Parece uma bobagem. Mas desde que aquela novela, gravada em parte na Índia, passou na TV, Mariana me chama de papadhi e eu retribuo. Não importa a tradução, não tem valor literal. Importa o significado do gesto carinhoso. Isso é dela e é meu. Uma bobagem carinhosa.)

Você não pode ir ao show do Paul McCartney, como tanto havíamos planejado. Sua angústia, disfarçada de labirintite, não deixou. Mas você esteve lá comigo o tempo todo. E eu te conto agora como foi.


Naquela tarde de domingo, chovia a cântaros em Brasília. Eu, sua mãe e seu irmão levamos capas de chuva. Seu irmão não usou. Estranhamente, a cidade estava úmida e alegre, ao mesmo tempo.

Não foi difícil entrar no Mané Garrincha. De repente, ele começou a se encher de gente. Um barulho de formigueiro. Formigas humanas exaltadas, quase em êxtase, pela possibilidade de ver ao vivo a parte mais buliçosa e criativa que restou do The Beatles. Paul é isso e muito mais.




O tempo foi passando e Paul demorou a entrar. Houve uma certa impaciência, a ponto de fazer soar algumas vaias. Mas era o Paul quem viria por ali e isso lhe dava algum crédito no atraso. Enquanto ele não vinha Gabriel, seu irmão, me confessou que estava lá um pouco por mim. Nem era tão fã assim dele. E também para poder dizer um dia que viu um show de um ex-Beatle, o que até pra ele, é um privilégio. Ouvi quieto, com a certeza de que ele se surpreenderia ao final.


Quando o relógio bateu uma hora e dez de atraso, as luzes anunciaram a entrada de Paul em cena. Atraso? Que atraso? Magical Mistery Tour abriu o show que iria nos tirar o fôlego, várias vezes, a partir dali.


Mamadhi, foi incrível. Um desfile de 39 músicas. 25 clássicos dos Beatles. Incluindo Get Back. Entre uma e outra, Paul mostrou porque permanece no topo há tanto tempo. Mesclou músicas novas e antigas sem que a nova geração percebesse a diferença entre o velho e o novo.


Eu percebi e me emocionei quando ele tocou quatro músicas do disco "Band on the Run", o primeiro gravado depois de deixar os Beatles, em 1973. Eu sabia de cor e salteado aquelas músicas. Elas fizeram parte da trilha sonora da minha adolescência e eu tenho aquele disco entre as "raridades" que guardo em vinil. São músicas antigas que carregam um frescor juvenil, ainda hoje. E tem o timbre inconfundível dos Beatles em seu DNA.

George Harrison
Por duas horas, ele engatilhou uma música na outra, um sucesso ao outro, sem nos deixar tomar fôlego. Nesse tempo, não se afastou do palco para tomar sequer um copo d'água. Tudo o que fez foi trocar de instrumentos. Várias guitarras, baixo, violão, piano e até um "ukekelê" com o qual ele segurou, por eternos dois minutos, uma homenagem ao amigo George Harrison, cantando "Something". 

Ele se surpreendeu. Eu compreendi.
Uma multidão de pequenas luzes de celulares tomou conta e iluminou o Mané Garrincha já aos primeiros acorde de "Let it Be". Foi lindo. Sua mãe se emocionou. Eu me emocionei. E seu irmão… Bem, a uma certa altura seu irmão agradeceu por ter ido, emocionado e feliz. Nos entreolhamos com carinho e com olhos de "eu sabia que isso ia acontecer".


A força bruta do show explodiu com "Live and let die". Literalmente, uma explosão de som, imagens e fogos de artifício. Uma apoteose que faria até Joãozinho Trinta chorar de emoção.


Paul interrompeu o show quando as duas horas se completaram. Um falso fim. O povo não arredou o pé. Ele voltou ao palco outras duas vezes para completar quase três horas de espetáculo. O tempo todo, se esforçando em um português limitado e gentil. O estádio quase veio abaixo com 46 mil pessoas cantando "Hey Jude".  


Minha mamadhi
Você não foi, Mamadhi.
Mas esteve lá o tempo todo comigo. Eu vi e ouvi o show como quem se reencontra com o tempo.
Paul tocou as músicas de minha infância. Justo aquelas que ele cantava com os Beatles e eu ouvia pelas ruas de São Luis, enquanto voltava da escola pra casa.

E eu que não tive a chance de ver  os Beatles, ao vivo, sou um ser humano mais feliz por esse encontro.
Eu, você e Sir Paul McCartney. For ever.




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lágrimas Negras

Cartaz do documentário "Cuba Feliz"
Um trecho do documentário-musical "Cuba Feliz", gravado em 2000, dirigido por Karim Dridi.  Karin é um magrebino ("magrébin" como dizem os franceses), filho pai tunisino e mãe francesa, que se especializou em fazer filmes sobre o submundo parisiense. Às vezes, porém, ele foge desse nicho. E faz coisas mais belas ainda, como esse filme documental sobre a música de rua de Cuba.

Karim Dridi
O diretor foi buscar algo diverso do que está em Buena Vista Social Clube, de Win Wenders. Ao invés do lado famoso, das estrelas musicais de Cuba, Karin preferiu documentar a música de cantores anônimos. Os filmes não se anulam, não competem entre si. Estão mais para complemento, um do outro. Como se fossem os dois lados de uma moeda valorosa. Com ritmo, poesia e transcendência.

Para Mauro Di Deus, Clarice, Dom Pepe. Porque a semana começa melhor com música. E das boas.

domingo, 23 de novembro de 2014

Ontem, hoje, for ever!

Ontem foi sábado e o Parque da Cidade de Brasília se transformou, por uns instantes na Abbey Road de um Beatle só. Paul McCartney, como se diz na gíria local, foi de Camelo (bicicleta) brindar o verde e a vida. Durou pouco. Dez minutos de uma eternidade. Foi no mesmo parque já cantado e eternizado em músicas do Legião Urbana.

O Parque que é a cara de Brasília,  já tinha em seu genótipo a Legião Urbana, agora é também um pouco Beatles. De repente, a eternidade fugaz de Paul no parque foi parar na capa do Correio Braziliense.


Daqui a pouco, haverá outros momentos eternos.
Paul vai ocupar o Mané Garrincha.
Com músicas que embalaram e continuam embalando uma multidão pelo mundo.
Com canções que me acompanham desde menino.
E assim, me fará um homem mais realizado, só pela chance de vê-lo tocar ao vivo a mágica daquela guitarra. No meio do meu caminho sempre haverá um Beatle. Até daqui a pouco, Paul.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Alfama, de Teresa e Manoel

Teresa, de Sintra. 
Teresa, uma amiga de Sintra, em Portugal, leu o texto da entrevista que fiz com Manoel de Barros, que publiquei também em ecrans d’além mar, a partir do Blog Ruas dos Dias que Voam.

De lá, ela faz um generoso comentário e me apresenta uma poesia inédita de Manoel sobre Alfama, um bairro de Lisboa que em muito me lembra minha Madre D’eus, em São Luis do Maranhão. Aliás, sou apaixonado pelos dois, o daqui e o de lá. Paixão traduzida de forma magistral (agora fico sabendo) pelo lápis e pela letra miúda de Manoel de Barros.

Leia abaixo o comentário da Teresa e, em destaque, o poema de Manoel.  

Manoel de Barros foi agraciado, por cá, com o "Prémio Casa da América Latina", em 2012, pela antologia Poesia Completa, publicada pela Editora Caminho. Como homenagem lisboeta, deixo os versos do poeta sobre Alfama:

Manoel de Barros, em foto de Marcelo Buainain. 
"Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.

Ela pode ser o germe de uma apagada existência.

Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.

Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil.

Ao ouro que trazem da boca do chão.

Andei nas negras pedras de Alfama.

Errante e preso por uma fonte recôndita.

Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!"

                                                            Manoel de Barros