terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A vida não para

O quê aprendemos em 2020? Há quem tenha centenas de respostas para essa pergunta. Há quem não tenha nenhuma. A última edição de 2020 do “Caminhos da Reportagem” lançou-se ao desafio de ir em busca de quem quisesse falar sobre a experiência de viver um ano em que a pandemia foi o protagonista e nós, coadjuvantes. 

Não por acaso, encontrou gente sofrida, gente preocupada, gente com alguma medida de medo e tristeza. A conversa reuniu no espaço de um programa uma monja, dois professores, um neurocientista, dois médicos, uma mãe e uma trupe circense. O circo deu a linha e o pensamento se encarregou da costura. Embaixo da lona, ou fora dela, a vida é sempre um espetáculo. 

E foi com a sensação de viver um espetáculo circense que as respostas foram surgindo, de forma natural e certeira. Algumas conclusões foram inevitáveis: Tudo passa. Inclusive a pandemia. E o mais importante: A vida não para. 

Ficha técnica
Reportagem: Maranhão Viegas
Produção: Gracielly Bittencourt
Imagens: Rogerio Verçosa
Edição de texto: Francislene de Paula
Edição de imagens e finalização: Jerson Portela e Rivaldo Martins
Arte: Eudes Lins



domingo, 29 de novembro de 2020

Don Diego

Capa do jornal Crônica, de Buenos Aires,
em 26/11/2020


bola de meia
bola de gude
do grude na bola
sem hora
sem meia

bola na areia
no barro
na chuva

pelota
miúda
en la calle
suscia

alejo estás ahora
mirandome
desde arriba
tu nueva morada
blanca nube
cielo azul

el mas divino
ser humano
el mas humano
ser divino

tus passos
ayer en la cancha
ahora 
bailan como
alas bienditas

 tiempo
passado
traspassado
eterno

hasta siempre!
Diego

domingo, 1 de novembro de 2020

Das horas úmidas de meu pensamento

     


As horas do domingo escorregam lá fora. Pela janela acompanho um chuvisco. Que não sabe se vai ou se fica. As horas escorregam lá fora. Aqui dentro observo a tua dor fininha, a tua alegria, a tua desvontade de fazer algo que exija mais do que sair da cama.

Minto. Quando abri os olhos de manhã, foi o cheiro de café quem me tirou do sono. Me invadiu as narinas e me trouxe de volta à vida real. Sabor de pão com manteiga invadindo uma manhã que ainda se disfarçava de madrugada.

Estavas ali. E num instante, estavas por cima de mim. Tua renda preta roçando meu peito e me chamando para levantar. Como? – eu me pergunto. Teu corpo sobre o meu é um convite para ignorar o tempo, para derreter-se em carinho e perder-se entre os lençóis. 

Um beijo. Um espreguiçamento. E o corpo se move em direção à janela. O amor em cheiros imaginários tem o seu valor. Lá fora, já desde cedo, as horas úmidas passavam. O asfalto molhado. Os pássaros aquietados. Só alguns poucos se arriscavam num canto suave e molhado. Domingo de horas passantes. Lentidades.

Então veio a mesa. Ah! Nossa mesa sempre está em flor. Pode faltar manteiga (melhor que não falte), mas não faltam flores. As flores me levam pra outros rumos. Lembram as coisas que já vivemos. Lembram as ruas floridas de Santiago, no dia em que dançamos enquanto uma orquestra jovem soltava seus acordes clássicos e populares em troca de aplausos. E nós, lá no meio, admirados e felizes, nos permitimos um tango. Que inveja sentiram alguns de nossa liberdade.



As flores tem o dom de fazer isso comigo. O leite em pó torna o café moreno. O açúcar é minha perdição. Ovos revoltos, pão. E um riso que não se mede. Sim. Essa é a fórmula de nossa mesa matinal, em um domingo de quase chuva e quase frio. E as hora lá, passando umedecidas, do lado de fora da janela.

Conto uma velha piada que te faz sorrir. Sempre. Sabe, preta, em Portugal há um grande índice de consultas aos oftalmologistas depois do pequeno almoço. E nem preciso seguir para que espalhes os teus dentes adiante do contorno dos lábios e dispares em uma gargalhada. Um muxoxo. A piada é velha. E, ainda assim, te faz gargalhar.

Falamos da vida, com suavidade e ternura. Falamos dos erros cometidos em explosões que revelam o nosso cansaço e o nosso limite. Quando, meu Deus, nos veremos livres outra vez? Não há tristeza em nossa voz. Há uma constatação firme, circunspecta, consternada de que o horizonte não nos mostra ainda um ponto final para essa dor pandêmica.

Compramos vinhos e fazemos planos. Os vinhos aplacam as dores e dão sabor à alma. Por isso, os temos e os tomamos. O que vai ser desse dia? O que vai ser desse tempo? Quem contará essa história e de que forma isso vai acontecer? Tantas perguntas sem resposta. Tanto vazio no ar para um domingo que vai deixando as horas escaparem pela janela úmida. Não sei. E não sei se saberemos.

Sei apenas que nosso barco segue lento e constante em direção ao que vai no leme de nossas cabeças. Via láctea brilhante e intensa como a que vimos deitados lá fora, no tempo, naqueles dias de Pirenópolis. Navegar impreciso. Preciso. Necessário.

 
Lembras dos pães de Bismarque? Das músicas de Chico Filho. Dos chapéus de Cabocla. Lembra? Por favor, não esqueças. É a memória desse tempo que ainda nos manterá vivos e eternos.

Na mesma da hora, quando a chuva deu uma trégua e a janela se iluminou com uma nesga de sol, era o sinal: Caminhamos?



sábado, 24 de outubro de 2020

O mundo é uma bola


 

Em 1970, eu tinha oito anos. Lembro vivamente a imagem de um homem magro, calçando um Conga (uma das poucas marcas de calçados esportivos à época no Brasil), calção azul e camiseta regata amarela, correndo pelas ruas da minha Madre Deus, com uma bandeira do Brasil nas mãos. 

 

Olhei intrigado. Intrigação de menino. Por que ele está fazendo isso? Perguntei à minha avó. Pelé. Ela respondeu. E seguiu falando, depois de uma pequena pausa. Pelé ganhou a copa do México. Era 1970. E eu nunca esqueci aquela cena. 

 

Depois, acompanhei ao largo, encantado como um súdito, a trajetória do Rei do Futebol. O mais legítimo que o Brasil já teve. Fazia com a bola o equivalente ao que Platão, Sócrates e Nietsche fizeram com o pensamento. Um Einstein dentro das quatro linhas da relatividade futebolística. 


Foto: Assessoria CBF
Foto: Arquivo CBF

Faz oitenta anos que ele nasceu para ser rei na eternidade. Neste 23 de outubro, todos se rendem à evidência que seus pés comprovaram, cada vez que a torcida assistindo a um espetáculo gritou “gol de Pelé”: o mundo é uma bola.  


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Diário de pandemia - Nossa língua portuguesa

Moisés Rabinovici
Já faz algum tempo, meus dias começam com o Moisés Rabinovici me enviando, pelo WhatsApp, as manchetes diárias dos jornais do exterior. Rabino (como a intimidade recém conquistada me permite chamá-lo) é um correspondente internacional de longa vivência e expert em Oriente Médio, que tornou-se próximo a mim por conta do trabalho conjunto, na TV Brasil.

Além de traduzir as manchetes internacionais ele as contextualiza, nos fazendo acreditar ainda mais numa versão pessoal do dito popular que sentencia: "Para bom entendedor, uma manchete basta".

Pois hoje, entre as tantas manchetes enviadas estava a da edição impressa do jornal português "Diário de Notícias".

"PAÍSES ENCOSTADOS AO TURISMO VÃO PASSAR AS PASSAS DO ALGARVE"

Li e reli sem encontrar o sentido. Corri os olhos para o restante do texto e percebi que o Rabino, prevendo a falta de entendimento, traduziu a manchete do português de Portugal para o português brasileiro.

"PAÍSES QUE DEPENDEM DO TURISMO PASSARÃO DIFICULDADES ECONÔMICAS" 

Na hora, mandei-lhe uma mensagem:

Querido Moisés Rabinovici. Sua providencial tradução do português de Portugal para o português do Brasil é um pequeno exemplo do oceano que distancia nossa “Língua Pátria” da língua da nossa “Pátria avó”.

Passa um tempo e ele me devolve a escrita: "Pro rádio, ninguém entenderia a manchete do Diário de Notícias, sem tradução. Trabalhei, quando no Oriente Médio, para a rádio portuguesa Renascença. Lá eles me apresentavam, para não passarem vergonha, como o "Brrrasileiro do Medio Oriente". Todo dia recebia da produtora as mancadas que tinha dado. "Seu burro: reunião de cúpula é cimeira; israelense, iasraelita; palestino, palestiniano...". Participava de um programa de entrevistas aos sábados com um título ótimo: "De Fio a Pavio".

São essas diferenças que nos tornam únicos. Nos distanciam e, ao mesmo tempo, nos remetem à nossa origem mesma. Filhos nascidos de uma só raiz.

sábado, 13 de junho de 2020

Diário de Pandemia - Crônica de sexta 12.06.2020

O amor prevalecerá. 
Nas coisas mais simples. 
Um café com pão e manteiga. 
Um sorriso por trás das máscaras. 

Um afago. 
Um carinho. 
Um cuidado. 

O amor prevalecerá no abraço, 
depois que o isolamento passar. 
O amor prevalecerá 
porque esta é a condição humana. 
Amar. 

Não fosse isso, seríamos nada. 
Seríamos o vazio existencial. 
A terra seria estéril.
E dificilmente, haveria pólen suficiente para 
o labor indispensável das abelhas.

Por isso, e porque não há o que justifique 
alguém no mundo nascer para a solidão, 
o amor prevalecerá. 
Ponto inicial. 

sábado, 6 de junho de 2020

Diário da Pandemia - Crônica de sexta 06.06.2020

Cronica de Sexta, escrita originalmente para o Repórter Brasil, da TV Brasil. Todas as imagens foram captadas por um i-phone 7, entre os dias 01 e 5 de junho de 2020. O texto contrapõe a pressa do tempo e a lentidão das horas. A edição é de Carlos Aguiar (Bazooka).

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Diário de pandemia - 01.06




HAI CAI DO SILÊNCIO

LONGO CAMINHO
SILÊNCIO A TEU LADO
CALADO E SÓ



HAI CAI DA DOR

TEMPO ESTRANHO
CORAÇÃO DOLORIDO
CHORO CONTIDO





HAI CAI DO ALÍVIO

POR HORA SOFRO
A NOITE SE DESENHA
E A DOR SE VAI





sexta-feira, 15 de maio de 2020

Diário de pandemia - MÚSICA NO VARAL


Foto: Maranhão Viegas 

A TARDE NEM COMEÇAVA
NO CÉU HAVIA UM SINAL
NOS FIOS COMO UMA PAUTA, 
UMA CIFRA MUSICAL

UM BANDO DE PASSARINHOS
EM CANTIGA SEMINAL
LONGE DOS DRAMAS DO MUNDO
ENFEITANDO NOSSO QUINTAL

DESCANSAM EM BREVE PARADA
COISA DE NÃO TER HORA
PLANEJAM VOOS RASANTES
PRA PASSAR DEPRESSA O AGORA

QUE AGORA NÃO TEM MAIS JEITO
ESTÁ DESFEITO O QUE FOI
MAS LOGO VEM BOA HORA
E A TRISTEZA DESSE TEMPO
A GENTE MANDA EMBORA


domingo, 10 de maio de 2020

Diário de pandemia - domingo - 10.05.2020

Puçás



A vida inteira vi meu avô tecendo redes de pescar. Puçás, como se chamam essas redes em Alcântara, lugar de seu nascimento, no interior do Maranhão.

Era um ritual contínuo, cadenciado e silencioso. As mãos íam e vinham, num bailado suave e preciso. Enquanto as horas passavam nas tardes de meu avô. Linhas de náilon, aos poucos, tomavam forma de instrumento de pesca. A transparência do novelo, a dança certeira e ritmada da agulha,  carecia da destreza do pescador para vencer o jogo com o mar e tirar dali o alimento, em forma de peixe. Pequenos milagres cotidianos.

Nunca vi meu avô lançar uma rede ao mar. Mas nunca foi preciso ver.

A exatidão dos nós ao tecer, a firmeza das mãos naquelas linhas, me davam a certeza de que havia ali um entendido de marés.

Meu avô passou boa parte  da vida longe do mar.
Hoje, tenho a consciência de que o mar nunca se afastou dele.

Opílio Viegas, meu avô.
No nosso último encontro em sua ilha, São Luis.