quinta-feira, 29 de março de 2012

Short Cuts de quinta

Despedida


Mais um que sai de cena. Millôr. Que em verdade deveria ser Milton, mas já nasceu dando um drible no escrivão e na vida. O drible, aliás, foi a marca dele enquanto esteve por aqui. Driblar a vida, a tristeza, a frieza, a burrice, a burocracia, a prepotência e (parece, o drible preferido dele) a ditadura.


Millôr driblou tudo isso com a maestria de um garrincha.  O Brasil está um pouco mais sem graça.

Eu vou, vocês ficam.

Charge de Chico Caruso para a saída de cena de Chico Anysio

Outro que também pegou o caminho de cima foi o Chico Anysio. Tão bem retratado na charge (ai acima) de um outro Chico, o Caruso, partiu deixando pelo menos 200 personagens que, definitivamente, não vão, nunca, sair de cena. 

Os personagens do Chico Anysio me remetem à minha primeira infância. O programa de TV que ele já fazia no início dos anos 70 é parte das minhas lembranças auditivas e visuais mais distantes. Hora do programa do Chico era hora de rir diante da TV. 

Sem contar que, pra nós, crianças, aquilo de ele aparecer transfigurado em dezenas, centenas de personagens, era parte da emoção provocada por aquela caixa mágica, que a gente só estava começando a descobrir, chamada Televisão.

Chico Anysio
Já no fim da vida, ele passou a reclamar mais do que sorrir. Mas Chico podia reclamar, ele tinha crédito de sobra. É outro, que partindo, deixa o Brasil menos bem humorado. 

Pra não desesperar

Pra que o dia não se torne tristeza e desespero, com tantas perdas assim, fecho o post com um novo clip de Leo Cavalcanti (e participação de Tulipa Ruiz)

Tulipa e Leo
 Sem (Des)esperar é a sexta faixa de Religar (2010), seu elogiado álbum de estréia. O clipe, de direção, roteiro e fotografia de Nina Cavalcanti, Eugenio Vieira e Pedro Palhares será exibido dia 31, sábado, às 20h no Cine Matilha Cultural (São Paulo), antes do show gratuito que Leo fará às 21h30 no espaço Matilha Cultural.


terça-feira, 27 de março de 2012

Feito um picolé no sol

Nico
Era o início dos anos 80. Eu, nordestino, bicho de zoológico no Sul maravilha, encantava a todos e me encantava com tudo. Magali Gomes era um dos meus encantos. Pra ela eu cantava Gonzaguinha, sempre que ela me pedia.

E ela me apresentou um camarada exótico. Nico Nicolaiewsky. Que mais tarde, ganhou o mundo e ficou conhecido como um dos integrantes do grupo Tangos e Tragédias, que ainda hoje lota o palco de qualquer teatro onde se apresente, principalmente no Sul.

De Nico, guardo a primeira música, que cansei de escutar nas noites de solidão, através das ondas da Ipanema FM, onde o meu amigo de escola, Mauro Borba, já era gente grande. Tempo bom. Feito um picolé no sol.



Feito Um Picolé No Sol

Nico Nicolaiewsky

Quero um barco meio mar
Um meio, não achei, não veio
Pra sair do charco feio
Quero um barco meio mar
Um porto meio lar
Um corpo feito pra se amar e sem receio
Meio assim doente, de repente
Cheio desse olhar ausente
Meio louco
Meio um sufoco
Meio coca-cola
Meio mal dá bola
Meio inconsequente
Como se no meio da cidade
Na velocidade
Na saudade
Na maldade à toa
Nessa claridade, tanta coisa boa se desmancha feito um picolé no sol
E feito um picolé no sol eu quero estar agora
Pra esquecer do mal que tá lá fora
Me esperando pra cobrar a taxa
Tá com a mão toda suja de graxa
Tô ficando meio assim xarope
Dessa lenga lenga, já amarrei o bode
Pode crer que tudo tem a ver com tudo
Tem a ver com o mundo
Tem a ver com ser perfeito
Tá na rua, tá na banca de revista
Tô na pista e não te desconcerta
Sempre alerta
Na notícia esperta
Nesse compromisso
Numa dose certa
Veio como onda, bomba
Longa história nua e sem certeza, sobre a mesa tua
Crua e sem semente, mente me confunde
Funde a minha e a tua neste instante, ante
Vejo um pôr do sol brilhante
Como nunca dantes me arriscara e fui tomar a cara
Um primeiro passo
Dum segundo passo
Dum terceiro passo, eu acho
No caminho dessa descoberta, não tem compromisso
Com trilhar o que já foi trilhado
Deixo tudo ali do lado e parto cego e sempre em frente
Um tanto quanto alucinado
E nado para estar presente
Nada como estar assim ciente
Sem estar cansado
Sem estar à margem
Sem estar doente
Sem faltar coragem
Sem querer fazer charminho
Sem querer carinho
Sem querer carona
Quero um barco meio mar
Um porto meio lar
Um corpo feito pra se amar
Crua e sem semente
Mente me confunde
Funde a minha e a tua neste instante
Um primeiro passo
Dum segundo passo
Dum terceiro passo...
E depois
Só nós dois
Tudo mais
Tanto faz
Quero amor
Quero luz

domingo, 25 de março de 2012

A música venceu

Manhã de segunda-feira, despretensiosa. Dessas em que a gente espera que nada de mais aconteça. Sem perspectiva, sem tesão. Uma manhã desbotada. No caminho para o trabalho penso na solenidade que exige terno e gravata, apesar do calor de Brasília. Penso no discurso que preparei e que espero que funcione bem.

Penso no lugar para estacionar o carro e o quanto terei que caminhar sob o sol. Por aqui é assim. Escassez de vagas, mais carros que espaço pra estacionar... Nessas horas a gente compreende porque se diz de Brasília uma cidade com cabeça, tronco e rodas.

Já no local do evento, uma plateia pela metade. Meia dúzia de discursos e um anúncio surpreendente: a presença do maestro João Carlos Martins, que faria em seguida uma espécie de palestra show. Opa! A manhã de segunda-feira começava ali uma guinada, uma retomada de significância, que a transformaria, em pouco, num dia especial.

João aparece no palco. Cabelos grisalhos, mãos retorcidas, vozeirão imponente e um sorriso sincero grudado no rosto. João é um brasileiro, filho de português. Conta a sua vida em segundos e com a mesma velocidade, emociona e faz calar. O pai dele era apaixonado por piano, mas não conseguiu tocar por conta de um acidente. Acidentes, aliás, são uma constância na vida de João. Da mesma forma que os renascimentos.

Aos oito, fez o primeiro show. Aos dezoito, a primeira apresentação internacional. Sucesso inquestionável. Orgulho e resgate. Os dedos de João ao teclado carregavam a alma do pai, que nunca conseguiu tocar, e apontavam para um longo e promissor estrelato.

Em poucos minutos de fala, João contou como foi perdendo os movimentos das mãos. Primeiro, um acidente, uma ruptura no músculo. Depois, por sobrecarga e repetição, a atrofia da outra mão. João desistiria da carreira pela primeira vez. João enfrentou um câncer, subiu aos céus e sucumbiu ao inferno várias vezes, como um personagem extraído da Divina Comédia.

Enquanto ele fala, viro os olhos para a plateia. Aquela que estava vazia, começa a se encher. Olhos atentos, vidrados no palco, corações contritos. A narrativa daquele homem, direta e sem floreios, dá a ele um caráter de fênix, renascido das cinzas. Quanto mais a vida exigiu, mais ele se encheu de coragem para  dizer que aceitava o desafio.

Atrás dele há um teclado. Num determinado momento, João vai até lá. Silencia. Por um instante, de pé diante do equipamento, o vejo como se fizesse uma reverência, como quem reza. São segundos de contemplação... Como quem faz um pacto, um entendimento cúmplice entre a matéria e o homem. Como quem diz: "Eu te respeito, tu me respeitas e eu vou te tocar". João põe o microfone de lado e começa a dedilhar (com os poucos movimentos que lhe sobram) um clássico de Tom Jobim - Luiza. O som vence o silêncio e dá provas reais ao que se pensava impossível.


Aquele senhor grisalho, cujas mãos travadas me fazem traçar um paralelo com outro grande mestre das artes - O Aleijadinho,  não faz idéia do que fez com a minha manhã de segunda-feira. Corro ao camarim. Tenho o privilégio de estar perto, à medida de um abraço. Ao segurar-lhe as mãos, aquelas mesmas mãos cheias de história e vida, minha segunda-feira fez-se, como um passe de mágica, uma manhã definitiva de domingo. A música venceu, outra vez.


sexta-feira, 23 de março de 2012

O verão que passou

Porque as águas de março já levaram o verão. Porque é bom começar assim o dia. Porque, em qualquer língua, em qualquer lugar, Tom Jobim é um clássico. E porque a vida segue... Águas de março, deliciosa, em versão francesa de Stacey Kent, gravada em 2010, no album "Raconte-moi".


quinta-feira, 22 de março de 2012

Histórias de Ana - Memórias da Profissão

Mário Schwarz, Ana Tebar e eu, nos estúdios da
campanha do Referendo das Armas, em 2005.
Já fazia alguns anos que eu não encontrava a Ana Maria Tebar. A Ana é dessas mulheres que entram na vida da gente pra nunca mais sair. Num passado recente, ela viveu os seus momentos de poder, sendo uma das mulheres mais decisivas na estrutura do governo paulista. Foi durante todo o governo a assessora mais próxima de Orestes Quercia, enquanto ele governou São Paulo. Mas isso não afetou sua vida. Ana continua como sempre foi, simples, competente, sensível e moderna. A mais pura tradução de uma grande mulher.

Neste fim de semana, junto com o Zé Cerozi (outro grande amigo de longas jornadas), estive em sua casa, em São Paulo. A casa da Ana se traduz em história. Cada peça, cada móvel, cada louça tem lá uma razão de ser. Ana não abre mão da memória, do cigarro e de um bom whisky (nossa conversa foi temperada com um Royal Salute, guardado há anos para aquele reencontro).

Lá pelas tantas, Ana lembrou de um episódio, fruto da relação muito próxima que teve com Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro. E contou uma história deliciosa que, ao registrar aqui, me esforço para tornar perene. É a primeira, da série que vou batizar de "Histórias de Ana"


Um dia, aparece um senhor já velhinho com um monte de papéis nas mãos, diante da minha mesa. Era o Oscar. Queria falar comigo e não com o governador (Orestes Quercia, na época). Pensei calada, o que poderia passar pela cabeça daquele gênio da arquitetura que o conduzisse a mim e não à maior autoridade do Estado?


Oscar trazia uma preocupação. A construção do Memorial da América Latina já estava bem avançada e ele identificara um erro em uma laje, uma daquelas que costumam ter em suas obras, avançada sobre o nada, como que sustentada pelo ar. O diagnóstico do arquiteto era definitivo, a laje teria que ser demolida para corrigir o erro. Senti um frio na espinha. 


Diante de tamanha responsabilidade, insisti para que ele mesmo falasse com o governador. Ele não quis. Despediu-se gentilmente, dizendo acreditar que falando comigo o problema seria resolvido. Mais tarde, num momento adequado, conversei com o governador, expus o encontro que havia tido e o teor preocupante da conversa. 


Quercia pensou, chamou técnicos e engenheiros. Eles comprovaram o erro. A laje foi derrubada. E Oscar, tranquilizado. 


Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer
Passado um tempo, recebo um telefonema dele, Oscar, pedindo uma outra reunião. Voltei a suar frio. No dia marcado ele apareceu em companhia de Darcy Ribeiro, outro que considero um gênio brasileiro. Darcy, espalhafatoso, falava com os braços, amplo em seus gestos. Dizia a todos que quisessem ouvir para aproveitar a experiência do velhinho (Oscar) enquanto ele ainda estava ali. Por ironia do destino, Darcy já se foi. Oscar permanece aí, pensando e criando, aos 104 anos de idade. 


Desta vez, os dois desenrolaram papéis e argumentos sobre a minha mesa. Oscar, com a fala mansa, dizia que, depois de muito refletir, chegara à conclusão de que faltava uma marca ao Memorial da América Latina. Algo de impacto, que ficasse pregado nos olhos e na memória de todos que por ali passassem. E lentamente foi desenrolando um papel onde se via o desenho de uma mão espalmada e um corte ainda sangrando. Era isso o que ele chamava de marca definitiva. Uma elegia, uma referência explícita às Veias Abertas da América Latina, descritas com maestria no livro do escritor uruguaio Eduardo Galeano


Outra vez, ele recusou-se a falar com o governador. Dizia que falando comigo era o suficiente. E eu, assustada com tamanha responsabilidade, não tinha outra alternativa senão defender as suas idéias junto ao governador. 


A história comprova que Oscar estava certo. A mão espalmada, com as Américas sangrando, está lá. E é o símbolo maior daquele memorial. 

quarta-feira, 21 de março de 2012

A vida como música, sempre

Sérgio, Celito, Humberto, Jerry, Geraldo, em cima.
Embaixo, Alzira e Tetê. Os Espíndola, em família.
Da minha recente passagem por Campo Grande, deduzo que o tempo é matéria incapaz de interferir nas sinceras amizades e na sensação de pertencimento que tenho por aquele lugar. Meu reencontro com a cidade que tanto me deu (dois filhos, muito respeito profissional e uma imensidão de histórias inesquecíveis) foi completo.

Percorri as rotas internas do Parque das Nações Indígenas, como fiz centenas de vezes, durante os 23 anos em que vivi por lá. Uma sensação indescritível de posse daquela paisagem, daquele cheiro de mato, daquele verdor, do lago e do horizonte.

Lembranças dos tempos de um jovem jornalista traduzidas na percepção de um homem maduro. Meus limites são outros, minhas ambições estão mais centradas. Mas o meu prazer de viver acentuou-se.

Conversando com Gisele Brum, com as Maristelas Yule e Brunetto, com Ecilda Stefanello e Margarida Marques, passei o tempo em revista. Nos lembramos de outros tempos, de outras gentes, de velhas canções. Falamos da vida como quem fala de música. Com mais admiração do que com lamentos. Comemoramos a permanência do vigor em nossos corações.

No caminho de volta para o hotel, no carro da Ecilda, o cd tocava uma música de um jovem cantor chamado Dani Black. Descubro que é mais um da estirpe dos Espíndola. Filho de Tetê. A música tem o DNA da família. A poesia do Geraldo, a afinação da Tetê, a leveza de Alzira, o vozeirão do Sérgio, a irreverência de Jerry, os traços do Humberto e a sensibilidade de Celito.
Dos tempos da TV Morena, ao lado de Ecilda Stefanelo,
à esquerda; e Carmen Cestari, à direita.

Impossível não lembrar dos tempos de repórter, na TV Morena. Um dia, há muito tempo, nos idos anos 80, a Família Espíndola se reuniu para um show conjunto, lá em Campo Grande. Todos os cantores da família, mais o Humberto (artista plástico de primeira grandeza). Eu era iniciante na profissão, mas desde sempre fui um apaixonado por música. Ciro de Oliveira, editor do MSTV, também era apaixonado por música. E apoiado por ele, fiz uma das mais longas reportagens da minha vida, mostrando os detalhes do show.

Foram quase quinze minutos, de um total de vinte reservados ao telejornal. A reportagem ficou linda aos meus olhos e aos olhos dos que, como eu, também amam a música. Mas devo admitir que aquilo foi um absurdo, do ponto de vista do jornalismo de TV. Um lindo absurdo. "Seu"Jorge Zahran, um dos diretores da TV Morena à época também achou que foi demais. Demorou um pouco, mas a Ecilda, à época, diretora de jornalismo, e o Ciro o convenceram de que a minha demissão seria um prejuízo para a TV, para o jornalismo e para a música, afinal. E se comprometeram a conter os meus ímpetos e cortar os meus textos.

Fui salvo da degola. Lançando os olhos no passado, sou capaz de me orgulhar por aquela doce irresponsabilidade.  Os Espíndola, em família, ficaram agradecidos e talvez nunca tenham notícia do tamanho do perrengue que enfrentei por aquela ousadia. Não tenho cópia desse material, mas, do que me lembro do conteúdo, não mudaria uma virgula. Mudaria a veiculação dele. Aquilo valia um especial, não cabia em um telejornal.

Na porta do hotel, Ecilda percebe o meu encantamento com a música e me dá o disco de presente. Caminho em direção ao quarto, feliz e contente. Tenho que escrever pra Tetê Espíndola e falar sobre o filho dela, sobre a música  dele, sobre os velhos tempos. Falar da vida, como música, sempre.


terça-feira, 20 de março de 2012

Blue Jeans

Lana Del Rey acaba de divulgar o vídeo oficial da canção Blue Jeans. É como Lana. Uma lindeza. Bom pra fechar o dia. Bom pra dormir ouvindo a chuva. Bom. Muito bom.

Chuva sem fim

Vejo através do vidro 
que chove muito lá fora 
da mesma forma que chove 
internamente em mim.

Não é chuva passageira
também não é tempestade
É uma chuva de beira
dessas que molha tudo
até o que não se queira.

O que eu mais queria agora 
é que a chuva lá de fora 
parasse de chover aqui 
Ou que levasse pra longe
essa melancolia sem fim

Chove... 
Chove muito lá fora
Não sei se por ser outono...
Não sei se por ser assim...

Mas a chuva que cai lá fora
que é a mesma em mim
Não dá mostras de que acabe 
Não dá mostras de ter fim. 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Carne e Osso

Pra fechar a noite de segunda. Pra começar melhor amanhã. Carne e Osso. Zélia Duncan e Paulinho Moska. Do DVD Zoombido II 

Bandoneones



Os passos são lentos pelas ruas de Montevidéu. Há um ritmo diferente nessa cidade. É como se as pessoas inventassem um novo tempo. Livre da correria e da disputa insana, tão característica dos tempos em que vivemos.  

Os casarões antigos são marcas dessa distinção, desse tempo. Sua arquitetura casa-se com a velocidade das pessoas. São partes de um conjunto que se integra – gentes e prédios -  em respeito a esse clima de tranquilidade.

Vivendo o tempo lento das ruas de Montevidéu, meus olhos correm as fachadas dos prédios até dar em uma placa que anuncia: Loja de Bandoneones. Bandoneon vem a ser um tipo de gaita imortalizado por Astor Piazzola. Suas características são marcantes não só pelo formato peculiar, assemelhando-se a uma sanfona, mas em tamanho reduzido.

Normalmente, o bandoneon é tocado de forma visceral, sobre o joelho. O tocador extrai dele uma sonoridade envolvente – umas vezes, triste, emocional; noutras, exuberante. Ao movimento dos braços alargando ou encolhendo o fole, o bandoneon pulsa como um coração em êxtase.

Não resisti e entrei. Lá dentro era como se o tempo houvesse parado 50 anos atrás. Capas de discos de vinil penduradas nas paredes. Gaitas, peças em madeiras, bandoneons empoeirados, quebrados, desmontados, à espera de um conserto. A imagem dava ideia de uma triste sina: jamais seriam tocados novamente. Ou pior, seus donos os condenaram ao abandono eterno.

Lá do fundo da loja um senhor de cabelos ralos e brancos,  de olhar triste, me observava. Cumprimentei-o. Falei do encantamento dos meus olhos com aquele lugar. Ele sorriu um sorriso de Monalisa, meio indecifrável.

Perguntei seu nome. Bianco, ele respondeu. Tornei a declarar a minha emoção em estar ali. Ele sorriu novamente e disse que tudo ali estava por findar. Que ninguém mais compra bandoneones. Que ninguém mais quer consertá-los.

Mas e a sua arte, de devolver a vida a estes instrumentos, quem serão os seus herdeiros?  - perguntei. Ninguém, ele respondeu, definitivo. Nem seus filhos? - pergunto. Não tenho filhos. Quando eu me for, levarei comigo o que resta dessa história.

Um silêncio imperou entre nós, enquanto eu seguia olhando tudo aquilo. Despedi-me. Sem insistir em dizer algo mais. Quem sou eu para alterar esse destino? Saí levando comigo a imagem triste de um lutier em declínio. Bianco ficou pra trás, com seus bandoneones, com sua herança, em companhia de um cachorro e um papagaio numa gaiola, a quem ele batizou – não por acaso – de Astor. No fundo, estava ali um Piazzola engaiolado pela própria história. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

O presente de um poeta


Há dias estou longe daqui. Mesmo que isso pareça impossível. O Blog está sempre comigo, mas há dias estou longe dele. Não por falta de vontade. Não por desgosto. Não há razão clara, a não ser o cansaço.

Há dias viajo pelo mundo, que se parece mais vasto do que na poesia de Drumond. Fui de Brasília a Montevidéu. Voltei de lá para Brasília e dai, segui ao coração do pantanal. Passei pelas ruas de Campo Grande que tanto me ajudou a ser quem sou. Revi amigos eternos, amigos de sempre e de tudo. Voltei a Brasília e de lá embarquei para Minas Gerais.

Desde ontem, frequento as horas entre montanhas alterosas. Desde ontem, minha paisagem é outra. Rodeada de cheiros e verduras. De cafés e pães de queijo, que transmutam meus dias de reuniões. Amanhã, São Paulo. E depois, Brasília de novo.

Agora há pouco, abri a internet num espaço que tinha para descansar. Caiu em meus olhos um texto de José Castelo, falando sobre Manoel de Barros e publicado no Jornal Valor Econômico. Mesmo cansado, "garrei" na leitura do texto (como eles dizem aqui em Minas) até não haver mais o que ler.

Manoel tem o dom de me emocionar. Desde a primeira vez que o li. Desde o começo deste blog eu declarei o meu amor por ele, pelas palavras dele, pela poesia dele. Basta clicar aqui e você vai comprovar isso, lendo o meu primeiro post.

Pois, hoje, no reencontro com o meu blog, eu abro espaço para a poesia que vence o cansaço. E reproduzo aqui o texto de José Castelo sobre Manoel, que tanto me emocionou.

Por José Castello | Para o Valor, de Curitiba
Tuca%20Vieira%2FFolha%20Imagem  Manoel de Barros em 2004: "Talvez sirva esta espécie de carta para explicar o divino absurdo e Fernando Pessoa para explicar as raízes da inocência", escreve
Retratos não guardam a objetividade, tampouco a nitidez que deles esperamos. Estão sempre um pouco desfocados. Conservam o recorte da perspectiva. Dependem de uma série de fatores externos, do acaso, do imponderável, que estão muito além das circunstâncias técnicas. Trazem manchas de luz, súbitas obscuridades, deformações. Essas ideias me vêm enquanto tento traçar um retrato do poeta Manoel de Barros.
Aos 95 anos, depois de perder, há quatro anos, o filho do meio, João, o poeta de Mato Grosso do Sul agora vigia à cabeceira de seu filho mais velho, Pedro, que sofreu um AVC. Anda triste, esgotado, oprimido pela rudeza do real. Quase não sai mais de casa. Além da mulher, Stella, só se comunica regularmente com a filha, Martha Barros, que vive no Rio, mas está sempre em Campo Grande ao lado do pai. "Não fala da morte", me diz Martha, "nem gosta de falar de doença". À morte nome algum - poema algum - corresponde e o poeta sabe disso. Cala-se: só o silêncio faz algum sentido, ainda que precário, diante dela.
Ainda assim, ultrapassando seu silêncio e por meio de Martha, experimento lhe mandar um pedido de entrevista. Que responda à mão - Martha copiará depois suas respostas em um e-mail. Que responda aos poucos, aos pedaços, devagar. Explico-lhe que meu tema (o tema desta coluna de "Instantâneos") é o presente. O que lhe peço? - eu me dou conta. Que enfrente e fale de seu doloroso agora. Mesmo assim, escrevo minha carta, admito, sem grandes esperanças, mais para lhe fazer um gesto de carinho. Mais para acariciar, ainda que com palavras, um poeta que muito admiro.
Para minha surpresa, poucos dias depois, e novamente por meio da bondosa Martha, recebo esta resposta:
"Campo Grande, fevereiro de 2012
Caro amigo Castello
No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver.
Como dizer! Eu vi um lagar com olhar de árvore. Pura inocência que o absurdo faz. Pura inocência para desver o certo. Eu queria era mudar a feição das coisas. Assim como desnaturar pela palavra. Ver as coxas rosadas da Manhã na beira do rio era gosto. A gente andava perdido nas Origens.
As palavras não tinham comportamento. Era sempre um Tratado de Descoisas que eu queria fazer. São alguns dos fragmentos que estou aqui mandando a você como respostas às suas sábias perguntas. Repito que sempre andei pelas origens sem me conhecer. Talvez sirva esta espécie de carta para explicar o divino absurdo e Fernando Pessoa para explicar as raízes da inocência. Assim: eu vi uma frondosa formiga ajoelhada no adro!
Mas não havia nem adro nem origens. Grande abraço e obrigado por tudo.
Seu amigo
Manoel de Barros"
"No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada", diz Manoel em carta
Atordoado, mas feliz, releio a carta, sem me dar conta, de imediato, de que, na mesma folha, ela continua em um novo trecho batizado apenas de "1". Talvez seja a tentativa de responder à primeira das perguntas que lhe enviei, em que eu lhe pedia que falasse de seu trabalho poético atual. Eu queria saber apenas o que Manoel tinha a me dizer a respeito das coisas que anda escrevendo. Sei que, apesar da idade avançada, continua a escrever porque li o maravilhoso "Escritos em Verbal de Aves", lançado no fim do ano pela editora LeYa. Livro em que trata da morte de um de seus personagens mais famosos, Bernardo. Sim, as palavras podem enfrentar a morte, agora me dou conta. E Manoel sabe disso.
Assim continuou Manoel:
"1.
Quero repetir uma coisa. É que o absurdo é divino porque o absurdo infantiliza as palavras - como seja: Eu vi um sapo com olhar de garça. Não infantilizei a beleza das garças! Para bem compreender a voz das águas, das árvores, das pedras, precisamos estudar ignoranças - coisa assim: eu vi a bunda do vento e a bunda só tinha o lado de fora. A gente não estudara as coisas por dentro delas. A gente fosse ignorantes! Mais tarde eu quis saber o que o silêncio sabe sobre a solidão das pedras. Ninguém nada sabia. Só um homem abraçou a ignorança.
A gente mais tarde via os caracóis enrolados em suas palavras. Ele se tornara um vate porque suas palavras se enrolavam nas lesmas dos caracóis! As lesmas queriam dormir nas palavras do vate. Agora, dentro da solidão das minhas palavras andam caracóis que fazem confusão comigo. Criaram raízes em minhas palavras e andamos juntos nestas origens.
Agora a gente só queria saber o formato severo dos silêncios. Agora eu vivo por gosto de engolir a linguagem e não porque gosto de compreender. O mundo eu só quero desver.
Sempre fui mais tido como um parvo! Porque eu queria mudar a feição das coisas com palavras. Assim, uma vez eu vi a tarde correndo atrás de um cachorro. A tarde não pegou o cachorro. Mas eu vi de visão. As águas irrompiam de minadouros para mim. Irrompiam como vernos e como as sementes do verbo.
Naquelas cavernas das origens havia Profetas, tontos, crianças e poetas. Eu morava no ente. Eu bem ouvi o tonto dizer: Uma brisa me garça. Achei que algum futuro meu poderia ter esse título (Uma brisa me garça). É pura harmonia letral.
Manoel de Barros"
Tuca%20Vieira%2FFolha%20Imagem  A voz peculiar do poeta: "Agora, dentro da solidão das minhas palavras andam caracóis que fazem confusão comigo. Criaram raízes em minhas palavras e andamos juntos nestas origens"
E aqui fico eu, diante dessa resposta que me empurra para lugares e pensamentos inesperados e me arrasta de meu centro. Quando você pergunta "isso", a pessoa costuma responder: "aquilo". Contudo, com Manoel de Barros, as coisas não se passam assim. Primeira descoberta: em seu tempo, não há linearidade. Como, então, desejar que fale do presente? Como então pensar em instantâneos?
Releio, outra vez, a carta-resposta, em busca de alguma pista mais clara, alguma objetividade, algo a que me segurar. Esqueço que a poesia é um tranco, que nos deixa fora do eixo. A carta está escrita em uma estranha, que mistura o passado com o presente - e não, como eu esperava e lhe pedia, se fixa no presente. Com o filho doente e a idade avançada, com a tristeza a devassá-lo, o presente, por certo, lhe repugna. Ou, pelo menos, não lhe interessa. Na carta-resposta, a palavra "origens" se repete quatro vezes, sinal de que a infância, nem mesmo na escrita, o abandona. A palavra "futuro" só aparece uma vez, quando o poeta pensa no título ("Uma brisa me garça") de um livro que pretende escrever. Sim: a literatura é o lugar do futuro. A palavra presente, porém, não está presente.
Admite Manoel que sempre foi tido "como um parvo". Nunca teve medo nem da ignorância nem da tolice. Ao contrário: sempre as valorizou e nelas se amparou. Ainda agora, quando o mundo o espreme em um deserto, reafirma sua crença. Vê-se, sempre, entre "Profetas, tontos, crianças e poetas". As quatro definições - e não apenas "poeta", como costumamos preferir - lhe caem, na verdade, muito bem. Ato extremo de coragem intelectual. E mais ainda: de nervos capazes de capturar o que só os poetas verdadeiros enfrentam.
Conta-me Martha que seu pai leva a mesma rotina simples de sempre. Na verdade: cada vez mais simples. Ainda escreve, com abnegação, todos os dias. Ainda lê todos os dias. Nisso, nada mudou: o mundo o machuca, mas ele se conserva inteiro. Acorda cedo, escreve ou lê durante toda a manhã e lá pelas 11 horas interrompe o trabalho e toma uma sagrada dose de uísque. Almoça com calma. Dorme um pouco, não muito. Às 15 horas, se levanta para ler o jornal. Abre as correspondências. Faz tudo muito lentamente, mas com grande concentração. Manoel, o poeta das pequenas coisas, das miudezas, dos dejetos, sabe valorizar cada uma das coisas que a vida ainda lhe dá.
Não gosta de computadores. É a filha Martha quem recebe os e-mails, depois faz uma triagem delicada antes de imprimir e lhe passar. É ela, ainda, quem cuida de sua correspondência. Martha é separada. Tem três filhos e três netos. Mora no Rio, no Leblon, mas está sempre em Campo Grande para sustentar a rotina do pai. No escritório, não tem muito trabalho: a correspondência de Manoel, hoje, é pequena. Sua vida está reduzida ao essencial.
"Meu pai gosta de falar bobagem e conversar com gente simples e criança. Fica muito só, por gosto", conta a filha, Martha
Também as leituras de Manoel são muito escolhidas. Relê os clássicos que o influenciaram - em particular, Antônio Vieira. Anda a reler Clarice Lispector. Mas que não se imagine um homem circunspecto e "profundo". Manoel sabe que as delícias e riquezas do mundo estão na superfície, bem à mostra, na nossa cara. É só inventar uma maneira nova para observá-las. Diz Martha: "Meu pai gosta de falar bobagem e conversar com gente simples e criança. Fica muito só, por gosto. Assiste a novelas, gosta de futebol e acompanha os noticiários". Enfim: sob o manto de palavras assombrosas, um homem comum, cada vez mais comum.
Martha é pintora e tem uma parceria criativa com o pai. "Trabalhamos juntos em alguns livros (as iluminuras) que têm mais a ver com um casamento de afinidade poética do que com ilustração". É assim: Manoel sempre reage, ou não reage, por afinidade, ou falta de afinidade. É um homem espontâneo, continua a ser, apesar do presente doloroso. Desde que ficou doente, o filho Pedro está internado em sua casa, com atendimento 24 horas. A sombra do filho perdido há quatro anos, João, ainda o ronda. Conclui Martha, confrontando-me com o real: "Portanto, não há como ele falar do presente, é muito difícil".
Volto a reler a carta-resposta de Manoel. Fala das origens, tenta explicar o "divino absurdo", engrandece a infância. Está sempre em fuga do comum ou, como diz, em busca de "pura inocência para desver o certo". Manoel: poeta do erro. Erro que não é defeito, mas transformação. Um sapo com olhar de garça. A bunda do vento, que só tem o lado de fora. Um homem que abraça a ignorança. Caracóis enrolados em palavras, o formato severo do silêncio, tardes que correm atrás de cachorros. Erros, desvios, improbabilidades, inexistências que a poesia de Manoel, no entanto, leva a existir.
Um mundo despedaçado, em fragmentos, peças soltas que não se encaixam e, quando se encaixam, não formam sentido algum. Resta a alegria das palavras. A alegria de ser poeta. "Eu queria era mudar a feição das coisas", ele me diz. Transformar, distorcer, experimentar, revelar. O tempo todo, Manoel me diz a mesma coisa: só a poesia dá conta do presente.

domingo, 11 de março de 2012

Baromes y sevilletas

Milton Nascimento tem interpretações memoráveis em sua carreira. Uma delas é Guardanapos de Papel, que está logo aí abaixo, na versão gravada durante o show Tambores de Minas.


Hoje, caminhando pelas ruas de Montevidéu descobri que a música original é de um uruguaio chamado Leo Masliah. E foi batizada originalmente de Biromes Y Servilletas. Tão linda quanto a versão de Milton Nascimento. Com um detalhe, na versão original, a cidade a que o poeta uruguaio se refere é Montevidéu. Na versão de Milton, numa licença poética, o mineiro se refere ao Rio de Janeiro.

A música cabe como uma luva para as duas cidades, para os dois países, para os dois cantores e para esta viagem. Aí embaixo, a letra em espanhol e a versão cantada pelo autor uruguaio.




Biromes Y Servilletas

Leo Masliah

En Montevideo hay poetas, poetas, poetas
Que si bombos ni trompetas, trompetas, trompetas
Van saliendo de recónditos altillos, altillos, Altillos
De paredes de silencios, de redonda con puntillo

Salen de agujeros mal tapados, tapados, tapados
Y proyectos no alcanzados, cansados, cansados
Que regresan fantasmas de colores, colores, colores
A pintarte las ojeras y pedirte que no llores

Tienen ilusiones compartidas, partidas, partidas
Pesadillas adheridas, heridas, heridas
Cañerias de palabras confundidas, fundidas, fundidas
A su triste paso lento por las calles y avenidas

No pretenden glorias ni laureles, laureles, laureles
Sólo pasan a papeles, papeles
Experiencias totalmente personales, zonales, zonales
Elementos muy parciales que juntados no son tales

Hablan de la aurora hasta, cansarse, cansarse
Si tener miedo a plagiarse, plagiarse, plagiarse
Nada de eso importa ya mientras escriban, escriban, Escriban
Su mania su locura su neurosis obsesiva

Andan por las calles los poetas, poetas, poetas
Como si fueran cometas, cometas, cometas
En un denso cielo de metal fundido, fundido, fundido
Impenetrable, desastroso, lamentable y aburrido

En Montevideo hay biromes, biromes, biromes
Desangradas en renglones, renglones, renglones 
De palabras retorciéndose confusas, confusas, confusas
En delgadas servilletas, como alchólicas reclusas

Andan por las calles escribiendo, y viendo y viendo
Lo que vem lo van diciendo y siendo y siendo
Ellos poetas a la vez que se pasean, pasean, pasean
Van contando lo que vem y lo que no, lo fantesean

Miran para el cielo los poetas, poetas, poetas
Como si fueran saetas, saetas, saetas
Arrojadas al espacio que un rodeo, rodeo, rodeo
Hiciera regresar para clavarlas en Montevideo


quinta-feira, 8 de março de 2012

Um filme sem sexo

Hoje é dia! Há pouco, publiquei o texto da Mariza Poltronieri e fiz dele uma pequena homenagem ao Dia internacional das mulheres. Agora, visitando o blog da Cris Guerra, acabo de rever um trabalho que ela fez há alguns anos, junto com Daniel de Jesus, quando ainda trabalhava na agência Lápis Raro, de BH.

O Filme sem sexo, da Cris e do Daniel, é definitivo. Por isso vale republicá-lo aqui, como lá. Outra vez, por todas as mulheres que passaram, que estão e que permanecerão na minha vida. Por todas as mulheres do Planeta.

A todos os seios do Planeta!


Por Mariza Poltronieri*

Estou em uma família repleta de mulheres.
 Dona Olívia tem 8 irmãs e teve 4 filhas que lhe deram 7 netas.
 Claro que há homens misturados entre nós e são muito-bem vindos.


Também eles se acostumaram a viver neste mundo literalmente cor-de-rosa.
 Quando nos encontramos aos sábados é sempre muito alegre nosso dia.
 Alegre por todas as firulas que só nós mulheres sabemos ter.
 A gente faz de um novo batom um acontecimento, de um novo lingerie um tratado sobre o amor, de um cintinho básico a melhor compra que se fez nos últimos anos, tamanha a versatilidade que damos a ele. Pequenas tolices para um dia de farra. 

Para nós mulheres nada é pouco, tudo é o máximo, a gente enfeita a vida exatamente do jeito que a gente enfeita o corpo.
 Mesmo que a diferença de idade fique no intervalo entre 18 e 82 anos, o gênero humano feminino nos faz iguais. Ao dividirmos nossas emoções o tempo se esgota. Somos somente meninas. 
Dia 8 é um dia bonito. Se o deitarmos eu visualizo um belo par de seios. 
Parabéns a todos os seios deste planeta, inclusive os meus.


Mariza Poltronieri é culinarista, vive em Maringá, é uma pessoa muito querida. Nos conhecemos há mais de 30 anos e hoje, especialmente, faço minhas as palavras dela, em homenagem a todas as mulheres que passaram, que estão e que permanecerão na minha vida.