domingo, 28 de fevereiro de 2010

Criança pensa. André faz música.

André Trento vive em Porto Alegre. E vive de fazer música. Nos conhecemos fazendo campanha política. Eu envolvido com a produção dos programas de TV e ele responsável pela trilha sonora, na campanha de Yeda Crusius ao governo do RS, em 2006.

André é exigente e dedicado. Lembro que, mesmo durante a campanha, arrumou tempo para produzir o grupo de Rap “Legítimas”, composto só por meninas gaúchas, que terminou ganhando um prêmio em São Paulo, com a música “Erga a Cabeça”.

No ano passado, ele foi premiado com o Quiquito de melhor trilha sonora, no Festival de Cinema de Gramado, pelo filme “Em Teu Nome”, de Paulo Nascimento. O filme conta a história de um jovem estudante brasileiro, exilado por conta do envolvimento com a luta armada, nos anos 70.



Agora André anda às voltas com um novo projeto. Está cuidando da trilha sonora de um musical infantil, baseado em um livro de Lya Luft – Criança Pensa. O musical está sendo produzido pelo grupo portoalegrense Teatro Novo. André me disse que está quase tudo pronto para a estréia, dia 14 de março, na sala Carmen Silva, do Shopping Navegantes, em Porto Alegre. Daqui a uns dias ele me manda uma mostra do novo trabalho.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poeminha sem asas ou "O anjo caído"


Doce imagem celestial
Do alto da catedral
Habita, agora, outro plano
Em meio a tralhas e restos
No chão como qualquer mortal

Fruto de que capricho?
Uma reforma no altar?
Um castigo do bispo?
Um descuido estelar?

Nada, pura coincidência
Calhou de parar cá embaixo
Como uma santa imprudência
Justo no meio da crise
Que transformou a cidade
Numa ilha de indecência

Um desastre sem proporção
Um martírio interminável
Coisa que até Deus duvida
E que ninguém sabe ao certo
Qual será a saída

O anjo caiu na roubada
A reforma da igreja, parada
sem data pra terminar

O fiel olha à distância
Com a imagem na lembrança
Do anjo erguido a flutuar

Por enquanto, meu amigo
O anjo está de castigo
Sem data pra arribar

Tem o olhar petrificado
A imagem de cara pro chão
Num silêncio consternado
Quem sabe, fazendo oração.

(Poesia de Maranhão Viegas, com foto de Alessandro Dantas, mostrando detalhes da reforma interna da Catedral de Brasília)

Homens que vão para o mar!


Conheci o Renzo Vasquez coordenando uma campanha, em Campo Grande. Ele era pouco mais que um adolescente, aprendendo a ser auxiliar de produção. Depois disso, fizemos campanha, em São José dos Campos, trabalhamos juntos em SP e, há muito tempo, só o vejo em rápidos contatos na internet.

Hoje, nós conversamos mais demoradamente e pusemos a vida em dia. Renzo virou um diretor reconhecido. Me disse que depois de fazer muitos comerciais em SP, conseguiu sua cidadania italiana e está há um ano morando em Londres. Já fez de tudo um pouco por lá, mas está focado no aperfeiçoamento daquilo que mais ama: a direção de filmes. Me contou que se prepara para dirigir um filme, ano que vem, nos Estados Unidos.

Incrível essa capacidade que o mundo virtual tem de fazer com que a vida dê um salto, em tão poucos segundos. No filme da minha memória, me lembro dele, correndo em busca de pedidos que às vezes pareciam impossíveis, em uma produção de campanha.

O olhar espantado, misto de angústia com incompreensão, no rosto daquele menino, deu lugar a um experiente diretor. Ao que parece, Renzo rompeu as barreiras da geografia e se fez cidadão do mundo.

Assumiu o compromisso de me mandar notícias de Londres. Um retrato londrino sob o prisma de um jovem diretor brasileiro. Acho que virão coisas boas de lá. Quem quiser conhecer um pouco mais o trabalho que o Renzo já fez é só entrar na página dele.

Na nossa conversa rápida ele revelou que seus pais decidiram morar perto do mar, na Bahia. Mais precisamente, em Trancoso. Montaram uma pousada por lá. Renzo diz que Regina, 55; e Francisco, 59, se cansaram da vida urbana de terapeuta e engenheiro. Decidiram mais, queriam aprender os segredos do mar e da convivência íntima com ele. Ela já tem curso de mestre em navegação. Ele já é capitão. E nas horas vagas, tocam uma pousada.

Quando o Renzo perguntou o motivo da virada na vida, Francisco não teve dúvida e respondeu: “Existem os homens que morrem, os que vivem e os que vão para o mar. Penso que me encaixo melhor nessa última alternativa.”

Camillo a caminho

Márcio De Camillo, músico e compositor sul-matogrossense, me escreve pra dizer que está a caminho de Brasília. Vai representar o MS na Pré-Conferência de Cultura em Brasilia dias 07, 08 e 09. Aproveitando a passagem por aqui, marcou um Show no Feitiço Mineiro dia 11 de março, que cai numa quinta-feira e me convida para prestigiá-lo.

Convite feito, convite aceito. Estarei lá, na primeira mesa. E aproveito para convidar também a todos que estejam em Brasília. O Márcio faz parte de uma geração brilhante de compositores, que faz um POP matogrossense (que, longe de ser regional, é do mundo) com muito estilo e alta qualidade.

Brindo a vinda dele aqui com um vídeo em que ele canta junto com Geraldo Rocca, outro mestre da música sul-matogrossense. É só um aperitivo. Dia 11 de março, no Feitiço Mineiro, tem mais.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Música do dia


Para começar a sexta-feira e abrir alas para o fim de semana, vamos com Toninho Porto. Músico competente e inspirado, forjado nas noites campograndenses, Toninho absorveu os sotaques do mundo ao seu bom instrumental, depois de viver por mais de uma década na Europa, circulando por países africanos e pelo mediterrêneo. Ouça "Desumanidade",faixa do CD Nômade, um belo exemplar desse laboratório de sons, fruto das experiências da viagem musical de Toninho.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Coisa de criança


De Milão, na Itália, Eliane Oliveria me conta:

Acordou cedo, olhou para o Lorenzo, filho dela e, toda emocionada, disse:
Filho, você é meu tesouro! Ao que ele, imediatamente respondeu:
Mãe, você é minha tesoura.

De Belo Horizonte, em Minas Gerais, Maurilo relata no pastelzinho, com um misto de preocupação filosófica:

Contaram para a Sophia, filha dele, que aquela figura ali, dentro do oratório, era a Maria. Sophia olhou e depois de um tempo decidiu:

Agora vou fechar essa portinha e ela nem vai poder encontrar mais o seu namorado.

Num Zás! A Revolução Criança mudando o rumo do Cristianismo.

Em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, minha cunhada Lisete, que é professora, tinha problemas para explicar as variações da Língua Pátria para a Júlia, sua filha.

Júlia: Mãe, eu já escovi o dente!
Lisete: Júlia, não é escovi, é escovei!

Tempos depois, volta a guria toda feliz:
Mãe, eu já comei tudo.
Ao que a Lisete retruca:
Filha, não é comei, é comi.

Levou tempo até desfazer a confusão naquela cabecinha.

Essa última aconteceu em Campo Grande, MS.

Mariana, minha filha, brincava com umas amigas quando a Mara lembrou:
Crianças, amanhã é a chegada da primavera!
Mariana refletiu, fez cara de bem informada e mandou:
Sim. E depois de amanhã, chega o “primo Viro”

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Um dia, depois de outro dia...


Não há dor maior do que a dor de não poder fazer nada.
E não há exercício maior que a capacidade de superar a dor.

Está fazendo 26 anos que eu e a minha turma de faculdade vivemos uma experiência assim. Diante da violência, a perplexidade e a impotência. Eram tempos diferentes. Tempos em que lidar com determinados tipos de acontecimentos significava expor ainda mais as vítimas da violência. Havia despreparo e medo. E a gente, no auge da crença de que tudo era possível, só pensava em tudo de bom. Não imaginava ter que carregar aquela dor imensa, por tanto tempo.

Corria o ano de 84. Duas de nossas amigas do curso de comunicação dividiam o apartamento numa cidade vizinha ao Campus. Tudo era tão perto que, na hora de vir para a faculdade, havia uma alternativa de descer do ônibus, percorrer uma trilha por um pequeno bosque e alcançar as quadras de esporte da universidade gastando apenas cinco minutos de caminhada.

Ninguém imaginava que algo ruim pudesse acontecer com alguém tão perto de nós. Mas, naquele dia, no espaço de cinco minutos, as duas foram perseguidas, atacadas e violadas. Era uma e meia da tarde quando aconteceu. E aquela tarde, e aquele horário, e aquele pavor, marcaram pra sempre a vida delas e a nossa.

Depois da violência, elas foram acolhidas e cuidadas. Primeiro, por nós, no diretório acadêmico. Depois, pela família de uma delas. Elas se recolheram. Optaram pelo silêncio. Preferiram cuidar das feridas físicas e emocionais sem fazer alarde. E sem pedir ajuda da polícia para encontrar e punir os maníacos.

Elas seguiram no curso até o final. Mas ninguém é capaz de dimensionar o esforço que fizeram para vencer o trauma, a vergonha, a dor... O tempo de faculdade acabou. A vida tratou de nos separar a todos. Ontem, encontrei uma delas na internet. E foi emocionante.

Ela me disse da vontade de reencontrar a amiga de quem também se distanciou. Comemorou uma reaproximação e a perspectiva de um dia poderem, juntas, conversar sobre o acontecido. Não por masoquismo. Para entender o que uma e outra fizeram para sobreviver.Para falar da reconstrução de suas vidas. Para servirem de exemplo.

Durante quase uma hora ela teclou com avidez. Eu quase podia ouvir a sua voz saltando da tela. Fez comigo o que imaginei ser um ensaio para a conversa definitiva que ainda vai ter com a outra amiga. Uma vida passada a limpo em poucos minutos.

O bom da história foi ficar sabendo que superou os traumas, que venceu os medos e que comemora a família que tem. Um companheiro para a vida toda (como ela mesma diz) dois filhos lindos e uma paixão incontrolável por gatos.

Pediu-me que falasse dessa história no blog. Tremi nas bases diante de tão complexo desafio. Mas não tive como negar-lhe o pedido. Com a franqueza de quem sabe que não pode fazer muito no passado, pedi-lhe que me perdoasse se em algum momento da vida ela tenha pensado que lhe faltei.

E assumi o compromisso de tentar traduzir essa história de dor em algo maior. Algo capaz de contar o ocorrido preservando-lhes a imagem. Sem pieguice, sem exageros. Ela sorriu, através das teclas. Ela é uma prova viva de que a vida dá voltas. E de que, nem sempre, o medo e a violência – por mais medonhos que sejam – são capazes de nos tirar a esperança.

Vou torcer para que elas se encontrem de fato. E para que possam ler essa página da vida do ponto de vista dos vitoriosos. Não há como pensar de outro jeito. É isso o que elas são. Um dia, após o outro. Vitoriosas.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dejame que te cuente, limeño!


Maria Isabel Granda Larco ou, simplesmente, Chabuca Gandra, nasceu no Peru, em 1920 e tornou-se uma cantora conhecida e respeitada no mundo todo. Sua canção mais famosa, “La Flor de La Canela”, é encantadora e, para muitos, uma espécie de hino popular do Peru.

A música traduz com poesia a alma do povo peruano, espelhada num personagem real – Vitória Angulo, uma mulher marcante, para quem Chabuca escreveu a canção. Um pouco dessaa história está relatada em um curto documentário que tem a filha de Vitória como narradora. Você poderá assisti-lo logo ali, abaixo.

Está fazendo 27 anos que Chabuca Granda morreu. No Brasil, ela tornou-se mais conhecida pela voz de Caetano Veloso. Ele gravou “La Flor de La Canela” no disco “Qualquer Coisa” (foto acima), de 1975. Depois, bebeu da poesia de Chabuca outra vez, dando ao seu disco o nome de outra de suas canções – “Fina Estampa”.

Porque hoje ainda é sábado, eu lhes convido a ouvir “La Flor de La Canela”, na voz de Caetano.



O mundo é um moinho... um caldeirão, ou um freezer!



Tempo quente em Porto Alegre. Acabo de falar com o Henrique Franke, meu sobrinho. E ele me informa que o calor é insuportável. Nas últimas semanas, Porto Alegre ferveu. Os termômetros superaram os limites do razoável. Na foto aí acima, em frente ao estádio Olímpico, do Grêmio, um flagrante de 38 graus.

Tio, só tomando uma gelada pra suportar! Diz o Henrique. Tome duas. Uma por mim.

Coincidência ou não, acabo de receber um e-mail da minha comadre Giselle, que hoje vive em Annecy, na França. E ela reclama: Compadre, o frio é intenso. Fica tudo lindo, coberto de neve (é só olhar na foto), mas é quase insuportável.

A despeito da beleza das imagens da França e do impacto da onda de calor por aqui, é razoável dizer que é cada dia mais difícil identificar com clareza as estações do ano. O melhor é que o Henrique aumente o estoque de cerveja em Porto Alegre. E que a Gisele não deixe de abastecer de lenha a lareira. Ah! E não vamos nos esquecer: daqui a pouco acaba o horário de verão. Teremos de volta mais uma horinha de sono.

Equilíbrio distante


Brasília está um caos.
É verdade.
Não sei se as pessoas se dão conta.
Não existe situação similar na história desse país.

Os poderes, à prova.
Uma fina linha de separação entre o possível e o intangível.
O Executivo aprontou. Presunçosamente, achou que ninguém veria.
O Legislativo assentiu, pela subserviência.
O Judiciário farejou a brecha.
E pôs o pé, impedindo que a porta da impunidade se fechasse.
Não fosse isso e teríamos ido a reboque, como quase sempre.

Ninguém imaginava.
Ninguém esperava.
Ninguém sabia o que fazer.
E, de verdade, ninguém sabe o que vai dar.

O certo é que temos um governador preso e outro em vias de ser impedido de governar.
O incerto é o que virá.

A história se escreve em uma página impar.
Somos papel, tinta, escrita e escritor, ao mesmo tempo.
A compreensão não é pra agora.

É incompreensível, por enquanto.
Só por enquanto.

"Pastelzim" de boas idéias




Dias destes, estava assistindo a TV e vi uma reportagem sobre formas de manifestação de carinho. Era algo como a tendência que nós adultos temos de nos expressar através de grunidos incompreensíveis, sempre que nos deparamos com um bebê e queremos demonstrar alegria.

É como se a gente precisasse dizer – Olha, não dá pra entender o que você quer dizer, mas dá pra entender o seu sentimento. E dá pra perceber como você parece estar feliz agora. E por isso, eu quero devolver essa compreensão tentando me expressar numa linguagem que não significa nada além da felicidade de estar te entendendo. Uma linguagem que parece com a que você usa agora e que, por similaridade, – eu deduzo – você vai entender tudo o que eu quero dizer.

Traduzindo, é como se você quisesse dizer para aquele serzinho minúsculo: bebezinho, que coisa mais linda que você é. Tão lindo que me transforma em um bobo e eu nem ligo pra isso porque, confesso, sou feliz com você também.

Aí, me veio a imagem do Maurilo (não é erro de digitação, é assim mesmo, Maurilo, o cara aí da foto acima) conversando com a filha dele pela câmera do lap top. Aquele baita homenzarrão, transformado em uma montanha de sensibilidade, a quase 500 quilômetros, a distância entre BH e MOC, traduzindo o seu amor pela filha com um conjunto de grunidos intraduzíveis. Todo dia, no final da tarde era aquilo. Comecei a prestar atenção e a gostar ainda mais dele.

Ele se juntou à nossa equipe de campanha, em Montes Claros, em 2008, por um acaso desses que a vida nos impõe. A vinda dele serviu pra preencher uma ausência ocasional. Foi-se um cara, veio o Maurilo. Eu não sabia nada dele. Mas não demorei muito a saber e a compreender aquele novo companheiro de jornada.

Bom texto, boas sacadas e uma leveza para conduzir problemas e sugerir soluções que contrastava com o seu tamanho e peso. Sem a gente se dar conta, chegou-se à conclusão de que troca foi boa. Ficamos amigos de verdade. E o tenho na minha lista de contatos que fica permanentemente ligada.

Foi assim que tomei conhecimento da mais recente travessura do Maurilo. Ele escreveu um livro infanto-adulto, que foi ilustrado pelo parceiro dele no trabalho. Eles formam o que no meio publicitário a gente costuma chamar de dupla de criação. O Maurilo, redator e o Rogério Fernandes, diretor de arte, pariram o “Freak Children”. Um livro delicioso não só pelo texto, mas também pela riqueza das ilustrações.

Selecionei uma historinha das que mais curti. Mas quem quiser conhecer outras tantas e mais do trabalho deles é só visitar o “pastelzinho”, blog que o Maurilo assina e pegar as coordenadas com ele. Sempre gostei muito de BH e de Minas. Por bons motivos. O Maurilo e o Rogério aumentaram as razões desse gostar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

SERÁ O SÃO BENEDITO!


(Mariza Poltronieri)
Enfim o ano começa, após o carnaval. Depois de todas as festas e férias encerradas retornamos a rotina. Claro que 2010 promete ser um ano festivo, tem copa do mundo, tem eleições presidenciais.

Como bom brasileiro, que gosta de viver o coletivo, serão períodos de muitos encontros, que convidam a conversas animadas e confrontos de opiniões, tudo acabando em pizza, pipoca, comidinhas rápidas ou mais apuradas, com o jeito da casa de cada um.

Todo início de ano cada setor apresenta o que será a tendência na moda de vestir, de decorar e também na moda de comer. Sim, a gastronomia também tem moda. E em que apostam os pesquisadores? Segundo o instituto inglês “The Food People”, o que vai cair no gosto dos consumidores será:

• Comida confortável ou cozinha afetiva, aquela que estamos acostumados a fazer para amigos e familiares, será também oferecida nos restaurantes e programas de TV;

• Pratos com poucos ingredientes e preparações simples serão mais valorizados;
• Receitas personalizadas, serviços e produtos de acordo com o gosto do freguês;
• Quanto menos produtos industrializados melhor. Ingredientes locais ou produzidos em pequenas empresas darão o toque do cardápio;
• Comida de rua, aquelas em trailers e barraquinhas virarão coisa chique;
• Quais os países que estarão nas mesas em 2010? Pratos e ingredientes do sul dos Estados Unidos, Brasil (principalmente, da Amazônia), México, Argentina, Peru, Escandinávia, Vietnam, Korea, Japão, Marrocos e Líbano.

Como toda tendência, nada é absoluto e podemos escolher o nosso jeito.Para encerrar este artigo, passo uma receita adaptada, dica em salão de beleza, que preparei e foi um sucesso. Um tira-gosto de pimenta dedo-de-moça que, acredite, não fica com muita ardência e tem o sabor maravilhoso da pimenta.

Antepasto de pimenta

Ingredientes:

• 1 xícara de chá de pimenta dedo-de-moça fresca, fatiada grosseiramente, sem sementes
• 1 xícara de chá de azeitonas verdes sem sementes, fatiadas
• 1 dente de alho amassado
• 1 folha de louro
• ½ xícara de folhas de manjericão picadas
• 1 xícara de café de vinagre de vinho tinto (tem um ótimo no mercadão municipal de Maringá!)
• 1 xícara de café de azeite extra virgem
• Sal a gosto
• Óleo de canola para fritar

Preparo:

Aqueça o óleo em uma frigideira e frite a pimenta picada por cerca de 5 min. Retire com uma escumadeira e escorra em papel absorvente.
Misture todos os ingredientes colocando o azeite por último. Leve para gelar. Sirva com torradas ou pão francês.

Mariza Poltronieri é culinarista em Maringá, PR. E tem espaço garantido aqui, para escrever sempre que quiser sobre alquimia gastronômica. Ou, sobre o que ela desejar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Música do mundo


No início da década de 80 eu era um jornalista iniciante e Toninho Porto já estava na estrada com o seu baixo, sua guitarra e sua sonoridade. Eu o conheci tocando em bares da noite campograndense. Pouco tempo depois ele sumiu numa aventura que o levou a ficar por quase dez anos em Viena, na Áustria.

Nesse meio tempo, ele absorveu o jeito de viver na Europa, aprimorou sua técnica sem perder a brasilidade. Fez inúmeras turnês em companhia de bons músicos europeus, africanos e asiáticos. A experiência lhe rendeu não só a confirmação do amor pela música, mas o domínio da técnica e a sensibilidade ampliada. Toninho, que quando conheci já era bom, ficou muito melhor.

Muitos anos depois, nos encontramos no aeroporto de Congonhas, numa viagem de volta a Campo Grande. Ele me falou da experiência vivida, do filho que agora o acompanhava e do sonho de retornar a Campo Grande e de construir um estúdio em Bonito. A viagem foi curta para tudo o que tínhamos que falar.

Já em Campo Grande, outra coincidência nos juntou: meu filho Gabriel e o enteado dele, o Caio, estudavam na mesma escola e eram como unha e carne, não se largavam pra nada. Nos reaproximamos.

Em um determinado momento, chegamos a fazer um trabalho juntos. Eu e Ecilda Stefanello coordenávamos uma produção de vídeo e chamamos o Toninho para produzir a trilha sonora. A música dele é um luxo capaz de engrandecer qualquer trabalho.

Hoje, revirando meus discos, encontrei o primeiro CD feito por ele depois de voltar ao Brasil. Há nesse trabalho uma mistura deliciosa de sotaques e culturas. O som do mediterrâneo se incorpora à batida na corda que nunca deixou de ser brasileira. O resultado é uma música do mundo.

Buscando na internet encontrei outra peça linda: Marcos Mendes e Maria Cláudia (grandes e bons amigos) cantando Toninho Porto. Vídeo que eu os convido para assistir agora. E, claro, com alguma dose de saudade do Toninho, do Marquinhos e da Maria Cláudia.

Hora de recomeçar

Música pra começar bem a quinta-feira. Com alto astral, com fé e com muita persistência. Bom dia a todos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Quem é do mar não enjoa


Há em mim um tanto de mar que nem eu sei medir. Creio que isso venha de nascença. Na ilha onde eu nasci, havia mar por todos os lados. Há também o fato de meu avô ser barqueiro e atravessar sem medo a Baia de São Marcos, vindo de Alcântara para São Luis, trazendo de lá o que pudesse no seu “Bela Rosa”.

O barco eu não conheci. As histórias sim. Sei até como meu avô se desfez dele. Lamento apenas que tenha sido antes de eu virar gente pra poder navegar junto com ele.

O mar que sempre me atraiu um dia quase me levou. Eu tinha cinco anos e ia para a praia bem cedo, comprar peixe com meu pai. Isso era quando a areinha, praia que ficava no fim da Madre Deus, recebia os barcos dos pescadores e ainda permitia que meninos tomassem banho pulando do trapiche pro mar.

Me lembro de olhar encantado para eles. Corriam e saltavam com uma intimidade e um domínio de dar inveja. Eles e o mar. E eu olhando. Até que um dia, criei coragem. E também me fui. Ninguém me disse que eles sabiam nadar e eu não. Na minha ingenuidade, achava que era possível estabelecer com o mar um combinado: eu pulo ai dentro e você me diz o caminho de volta. Mas não foi assim.

Corri pela ponte de madeira que acabava no mar e saltei, pelo prazer de saltar, pela sensação de liberdade. Meu pai ficou me olhando. Junto comigo, saltaram outros meninos. Eu fiquei no fundo por alguns instantes. Eles pulavam e, como uma flecha, estavam com a cabeça fora d’água. Eu não. Tenho a imagem até hoje. Contei três deles passando por mim antes de me faltar o ar. Num impulso, me ergui e para minha sorte, medo, a falta de ar, a angústia fizeram com que a minha cabeça fosse para fora do mar.

A primeira visão que tive foi a do meu pai, já sem camisa em posição de pular. Também por impulso, ele me puxou pelos cabelos, agarrou o meu braço e me tirou da água. Levei tempo até entender que, da mesma forma que aprendi a andar em terra firme, o amor pelo mar exigiria que eu aprendesse a nadar. Eu aprendi.

Quarenta anos depois, em 2005, eu e meu pai nos encontramos no mar, de novo. Desta vez, distante de São Luis. Nos encontramos em Garopaba, Santa Catarina. O mar era diferente, mais frio. Mas o respeito por ele era o mesmo. A foto que está aí acima é na verdade uma montagem. Eu e meu pai não entramos juntos no mar. Quando um entrava, o outro ficava olhando. Mas, por uma dessas coincidências da vida, nós fomos fotografados quase no mesmo ângulo, na mesma praia, em momentos diferentes, mas muito parecidos.

Então, achei justo eternizar esse encontro: eu, ele e o mar. As fotos são do Marcelo Domingues, marido de minha irmã. O trabalho de colocar a minha imagem e a do meu pai na mesma cena é do José Luiz Cerozzi, grande amigo, diretor de arte com quem trabalho há mais de 20 anos. A base da foto é a cena em que meu pai carrega a prancha. A minha imagem foi inserida na foto com a fusão do mesmo mar.

O resultado é uma declaração de amor. Ao meu pai. Ao meu avô. Ao mar.

Café e Catopê


No dia do meu aniversário, em 2008, eu estava em plena campanha, em Montes Claros. Em ano de eleição, meu aniversário é comemorado assim, entre uma edição e outra, correndo contra o “dead line” e na pressão da estréia dos programas políticos. Nos últimos anos, por força de uma mudança nas regras da eleição, o início da exibição do programa eleitoral, na TV e no rádio, tem coincidido com a minha data de nascimento, 20 de agosto.

Com eu dizia, lá em Montes Claros, além do carinho de Jorge Calábria e Soraya, que abriram espaço pra uma pequena comemoração, e de resto, de toda a equipe reunida para cuidar da campanha, recebi um presente especial do Tino Gomes.

Ele havia acabado de editar o seu CD “Catopezeira Brasilis” e estava dando início à turnê de lançamento, evidentemente, por Minas. Tino é um poeta de mão cheia, músico de grande qualidade e montesclarense de nascimento. Conhece e canta aquelas ruas, becos e costumes como poucos.

Hoje, segunda de carnaval, amanheceu um dia lindo e eu comecei a manhã tomando um café com Mara e Mariana, ao ar livre, ouvindo Tino e sua Catopezeira. Um pouco, pra destoar dos batuques usuais ao carnaval. Um pouco, pra matar a saudade de Minas.

Pra quem não sabe, o Catopê é uma manifestação folclórica do norte de Minas, um cortejo dançante de origem africana, parente das congadas e maracatus.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Olhar de fotógrafo



O domingo é de carnaval e de expectativa em Brasília. Dois assuntos predominam nas rodas e nas ruas. O começo da festa e o fim da farra. A festa é popular. A farra é política. A festa só termina na quarta-feira de cinzas. A quarta de cinzas também será importante para a gente saber se é de verdade que começou o fim da farra.

Enquanto as respostas não surgem, eu dou um tempo de sambas e investigações e me delicio com o olhar de fotógrafo do Ronaldo Barroso. São deles as fotos aí em cima e elas têm o mérito de mostrar um lado pouco percebido de Brasília. Sim, Brazlândia também é Brasília.

Das regiões administrativas (antigas cidades satélites) Brazlândia é a mais distante. Fica a 59 quilômetros do Plano Piloto. É uma cidade de 53 mil habitantes que guarda traços interioranos, vocação agrícola e grande apego religioso.

O nome dela está diretamente ligado às famílias fundadoras. Uma delas, a dos “Braz” foi das primeiras a chegar nas terras da chapada do Vão dos Angicos. No início dos anos 30, as famílias conseguiram, por influência política, que o povoado fosse elevado à categoria de distrito de Santa Luiza (hoje Luziânia). Foi quando o lugar recebeu o nome de Brazlândia, em homenagem à família mais numerosa da região.

Juscelino Kubitschek decidiu trazer a Capital Federal para o Plano Piloto e, com isso, mudou o rumo da pequena Brazlândia. Já em 1958, foram desapropriados mais de mil alqueires da cidade. Apenas a área que circundava a sede urbana de Brazlândia não foi transferida para o Governo.

O Rio Descoberto foi represado, fazendo desaparecer inúmeras fazendas da região, para a formação do Lago do Descoberto, fonte de água potável, que hoje é responsável pelo abastecimento de mais de 60% da água de todo DF.

Nestes dias de expectativa e incerteza, enxergar o por-do-sol de Brazlândia através das lentes de Ronaldo Barroso é um hiato de bucolismo. Bom pra deliciar os olhos. Bom pra aliviar a alma.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ruy Barbosa, 93


Cresci com esse endereço na cabeça. E hoje sou obrigado a lembrar dele. A Avenida Ruy Barbosa, 93 é o endereço onde eu nasci. E vivi ali, os dez primeiros anos de minha vida, em companhia de meu pai, minha mãe, dois irmãos e meus avós. Se estivesse viva, minha avó, mãe do meu pai, Dona Antonieta Gaspar Viegas faria hoje 110 anos. Ela não está mais aqui, morreu em 1994. Mas persiste em mim muito do que ela significou.

Sou o neto mais velho e não tenho como negar que com ela, tive alguns privilégios. Mas também fui o primeiro a sentir os rigores do que ela considerava “boa educação”, “respeito aos mais velhos” e “limites”.

Dona Antonieta, não era uma figura fácil. Têta, era assim que a chamávamos. Depois que eu saí de casa para estudar fora, aos 15 anos, passei a conviver pouco com ela. Mas havia uma sintonia qualquer que nos ligava fortemente.

Me lembro que ela era benzedeira. Tinha uma oração que ela fazia e que era tiro e queda contra “mau olhado”. Não sei explicar o que é mau olhado. Mas sei dizer que todo mundo sabe exatamente quando foi atingido por um "mau olhado". A sensação é a de que alguém, com uma energia muito forte, nem sempre negativa, te fita e te deixa exaurido em tuas forças.

É dessas coisas para as quais não há uma explicação lógica. Os céticos e os agnósticos costumam contestar esse tipo de percepção. Eu não contesto. Prefiro considerar, afinal, como dizem los hermanos – No lo creo en brujas, pero que las hay, hay!

Minha avó tinha a benzedura como um dos seus mais preciosos bens. Tanto que eu me lembro de recorrer a ela, mesmo quando já vivia distante de casa. Certa vez, eu estava no Rio Grande do Sul e não estava bem. Fui a uma cabine telefônica. Gastei os meus últimos trocados numa ligação. – Vó, queria que você me benzesse. À distância de milhares de quilômetros, ela no Maranhão, eu no Rio Grande do Sul, fiquei um tempo em silêncio enquanto ela rezava.

Depois de alguns minutos ela disse: - Pronto meu neto. Você agora vai ficar bem. E, como num passe de mágica, eu estava mesmo bem. Hoje, minha avó não está mais aqui. Mas tenho a impressão de que, de onde quer que ela esteja, ainda consegue enviar energias protetoras para todos nós.

Na foto, resgatada dos meus tempos de São Luis, aparecem meu avô, seu Opílio Viegas; minha avó Têta; eu; minha irmã Isa e minha mãe Isabel. Com o tempo, cada um deles terá um pouco da sua história contada aqui. Hoje, doze de fevereiro, foi e continuará a ser o dia dela, dia de Dona Antonieta Gaspar Viegas.

Fofão, Clovis e Clowns


De Norte a Sul, o Brasil se sacode. É carnaval.
Nos meus tempos de menino, na ilha de São Luis, havia uma certa magia nessa época do ano. Nada que se compare ao ritmo frenético dos carnavais de hoje. Talvez fosse coisa de quem ainda enxergasse o mundo na medida da altura do joelho dos adultos. Mas a memória é forte e ficou para sempre.

Na rede onde dormi até os meus dez anos, sonhei sonhos incríveis. O balanço da rede me fazia ir e voltar com os batuques, que pareciam vir lá da Praça da Saudade ou lá do Beco do Gavião. O som dos tambores ia e vinha. Uma hora mais distante; outra, mais perto. Até que o sono me tomasse.

O bairro onde nasci, a Madre Deus, era e ainda parece ser o coração da Ilha. Há um pulsar que dura o ano inteiro. Entra ano e sai ano, muda o compasso, mas a harmonia permanece. Ali convivem em absoluto equilíbrio o sacro e o profano. Caixeiras do Divino Espírito Santo; pretas velhas do tambor de crioula; brincantes de boi; sambistas da velha guarda; caboclos de pena...

Há, entretanto, um personagem mítico que está intimamente ligado ao carnaval de São Luis: o “Fofão”. No Rio, ele se chama “Clóvis”, uma variante do inglês “Clown” – palhaço. Em Pernambuco é “Palhaço” mesmo.

Mas a imagem do “Fofão” sempre me remete à minha infância, em São Luis. É uma figura da commedie dellarte, um tipo tradicionalíssimo. É um pierrot, um arlequim do avesso. Usando um roupão de chita colorida e uma máscara nariguda, de papel machê, que sempre que se aproxima de alguém emite um som parecido com uma expressão francesa: Uhlahlah!!!

Na minha infância, eles carregavam uma bonequinha na mão e uma vara para assustar os desavisados. A imagem do “Fofão” me invadiu nessa sexta-feira gorda, de carnaval, na forma de uma exposição de fotografias que está acontecendo no espaço Zumbi dos Palmares, no décimo andar do Anexo IV, da Câmara Federal em Brasília.

A mostra retrata o carnaval da Bahia e reúne fotos de Marisa Vianna, Augusto Campos, Mario Luna e Raimundo Bandeira. Fica lá até o dia seis de março. Vale a pena ser vista. No meu caso, me permitiu uma viagem de volta ao passado, ao meu tempo de moleque, às minhas noites dormidas ao embalo da rede e ao som dos tambores de São Luis.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ensaio sobre a cegueira

Dias destes, assisti o making off do filme “Blindness” – Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, baseado na obra de José Saramago. A obra é densa. Relata a história de uma epidemia incontrolável e inexplicável, que deixa as pessoas cegas de uma hora pra outra. No filme e no livro, apenas uma pessoa não é atingida pela cegueira, justamente a mulher de um médico que começava a pesquisar o problema.

O filme dividiu opiniões. Muitos adoraram. Outro tanto, odiou. Saramago se emocionou publicamente ao assisti-lo. Mas o que me chamou a atenção foi ver, depois de muito tempo – o filme é de 2008 - o relato dos atores sobre as dificuldades de gravação.

Uma fala comum a todos: o exercício angustiante, desesperador, de passar um tempo sem visão. E as reações diversas ao que era exigido pelo roteiro. Em um dado momento, Gael Garcia Bernal, que assume a personalidade do “rei da Ala 3”, o local onde os primeiros contaminados pela epidemia foram confinados, diz do conflito de experimentar o que ele chamou de degradação humana. Depois de confinados, no filme, eles passam a viver como animais, experimentando os instintos mais primitivos em troca de comida e a espera de uma cura, que não sabem se virá.

Guardadas as proporções, o governo de Brasília, devastado pela corrupção, viveu até hoje um simulacro do que os personagens viveram no filme. A endemia/cegueira atingiu o meio político em cheio. Todos atônitos, sem conseguir enxergar um caminho novo. Todos a esperar uma cura sem saber se ela viria mesmo.

O filme termina com a recuperação gradativa da visão por alguns personagens. Lá fora, um mundo devastado esperava pelos que recomeçavam a ver.

Hoje, Arruda teve a prisão decretada. A Brasília dos políticos está devastada. A cura ainda é uma incógnita. Como no filme, poucos mantiveram a visão. Em Brasília, esse papel coube ao Poder Judiciário.Aos poucos, outros voltarão a enxergar.

A vida imita a arte, outra vez.

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Loucas por voto


Acabo de receber um bem-humorado convite das meninas do PPS de Campo Grande - MS. Elas estão organizando um bloco de carnaval para, entre outras coisas, comemorar os 78 anos do voto feminino no Brasil. A idéia é aproveitar a festa para refletir sobre as conquistas alcançadas e desafios futuros. As meninas alertam que o bloco é suprapartidário, não faz restrições de gênero e tem o sugestivo nome de “Põe na minha Urna”. É sucesso garantido.

Lamento Rasqueado

O rasqueado é um tipo de música bem característico da região de fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Sim, tem rasqueado no Sul também, na fronteira com a Argentina e o Uruguai.

Mas hoje é o rasqueado sul-matogrossense que vem carregado de lamento. É que o Délio, que formava dupla com Delinha, sua companheira de longos anos, encerrou o espetáculo. Partiu para outro plano. Morreu pobre, vítima de um câncer de pulmão. Deixou por aqui um sem número de canções e uma riqueza de memória musical.

"Délio e Delinha" estão impressos como tatuagem no cancioneiro popular do velho Mato Grosso. Dupla de sucesso, eles foram capazes de resistir aos rigores de um casamento (depois de muitos anos, o casamento acabou. O amor e a sintonia musical, não). Eles são de um tempo em que não existia You Tube, internet, my space. Mas eles já estão lá. Quem não viu pode vê-los, para sempre. A ingenuidade da letra de "O sol e a Lua", reproduzido aí abaixo, é uma confissão de amor de um pelo outro. E a prova de que a identidade pela música pode ser bem maior do que um contrato social.

Ontem à tarde a viola de Délio fez silêncio. Um silêncio definitivo. Com essa partida, ele se junta a Zacarias Mourão e Helena Meireles, outros dois grandes ícones da música regional. Vai ter festa no céu. A música boa está garantida.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Longevidade


Às vésperas de completar 80 anos o cearense Mauro Benevides, que foi eleito pela primeira vez em 1955, mostra o vigor de um menino. Seu primeiro mandato foi de vereador, em Fortaleza, pelo antigo PSD. Em 66, filiou-se ao MDB – Movimento Democrático Brasileiro. Ao longo do tempo, o partido mudou de nome. Ele nunca mais mudou de partido. Mauro Benevides já foi deputado estadual, deputado federal, senador e até presidente interino da República.

Hoje, ele é deputado e continua a exercer o mandato com uma disposição de jovem iniciante. É conhecido na Câmara Federal pela assiduidade. Não há um só dia em que ele não faça um pronunciamento. De segunda a sexta, haja chuva ou sol, lá está ele, na tribuna, a falar sobre os assuntos os mais variados. Raramente, quando não consegue espaço para falar, aproveita o recurso regimental do pedido de apartes, elogia o orador da vez e dá o seu recado.

No último sábado, dia da Convenção Nacional do PMDB, o também deputado Eliseu Padilha ao enxergar Benevides relatando memórias de antigas convenções – uma delas, em companhia de um iniciante chamado Tancredo Neves – não resistiu à piada e disparou: “Conta-se que D. João VI, quando chegou ao Brasil, mandou chamar o Mauro para dar-lhe uma condecoração”. Sem perder a linha, Benevides topou o chiste e disparou: “E eu não aceitei, por conta das minhas convicções republicanas.”

Ao final da convenção, o mesmo Eliseu convocou “o mais jovem dos convencionais”, Mauro Benevides, a conduzir os trabalhos que levaram de volta à presidência do partido o deputado Michel Temer.

Fantasia


Acabo de assistir AVATAR. Uma fantástica obra de James Cameron, que está na linha de frente da disputa do Oscar. Assisti em 3D, com meus filhos. É impressionante o que se obtém com os efeitos especiais em quase três horas de filme.

Numa das primeiras frases ditas, logo no início da fita, fiz uma associação livre e levei um choque: Um comandante militar orienta os seus subordinados sobre a batalha que se avizinha. O quadro é tenso e dramático. Ele diz: Se é que existe o inferno, vocês vão pedir para passar férias lá depois de conhecerem PANDORA.

É a arte premonitória da vida. Foi inevitável lembrar a Brasília dos tempos atuais.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ventania



A estatura física do Mauro di Deus não traduz a dimensão da personalidade dele. A relação é inversamente proporcional. O baixinho Mauro tem uma personalidade gigante. Eu o conheço há muito, desde o Mato Grosso do Sul. Quem nos apresentou foi Maristela Yule. E quis o destino que ficássemos mais próximos aqui em Brasília.

Nas conversas desavisadas que temos vamos descobrindo amigos comuns, construindo outras amizades e, sobretudo, fazendo poesia com o que a vida nos dá em forma de cotidiano. A política está sempre em pauta, como só haveria de ser. Ele e eu nos encontramos sempre aqui no Congresso, onde trabalhamos.

Mas em nossas conversas cabe tudo. Cinema, música, filhos. Como eu, o Mauro é um apaixonado pela vida. Já percebi que uma das paixões dele é o Congresso Nacional. A Instituição, seus habitantes e sua história. Pois, foi numa conversa de hoje à tarde que ele me saiu com uma historinha genial sobre a construção de uma parte do prédio do Congresso.

Me disse ele que lá por volta de 61/62, quando o Brasil experimentava um curto período de parlamentarismo, Niemeyer foi chamado às pressas para construir mais um bloco, colado ao prédio principal do Congresso Nacional, que hoje abriga a presidência da casa.

O limite do prédio original terminava na parede oposta ao Salão Verde. Projeto feito, a parede derrubada deu lugar a um fosso de luz e um jardim. Para cobrir a parede do novo bloco foi convocado, também às pressas, o artista plástico Athos Bulcão, carioca que adotou Brasília e era considerado um “compositor de espaços”. Por onde se anda, em Brasília, há a presença do forte traço dele, seja nos cubos do teatro Nacional ou nos azulejos de desenhos peculiares.

Athos fez o projeto dos azulejos. Eles foram produzidos e entregues para a colocação. O engenheiro responsável pela obra cobrou um diagrama de montagem do painel. Não havia. A solução foi falar com ao autor, mas Athos estava na Europa. E o prazo de entrega da obra estava no fim. Numa época em que não havia internet e as comunicações se davam de forma mais complexa e demorada, foram necessários três dias até contatá-lo.

Cobrado, ele responde: não há diagrama. Perplexo, do outro lado da linha o engenheiro perguntou como fazer para montar a peça. Athos não teve dúvidas: Pergunte aos seus pedreiros quais não sabem ler e entregue a eles a tarefa de montar o painel.

O resultado é uma obra que se chama “ventania”, dá vida e luz ao Salão Verde do Congresso Nacional. Feita por um artista excepcional e por homens iletrados, mas cheios de sensibilidade.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O som cristalino da viola


Quem mora em Brasília e aprecia uma boa moda de viola, não pode perder a apresentação de Marcos e Victor Mesquita. Pai e filho, representantes da melhor estirpe candanga de violeiros, eles participam do projeto “Outras Bossas” da Caixa Cultural. No roteiro, uma homenagem aos mestres da viola Almir Sater, Renato Teixeira e Paulo Simões. Os Shows acontecem nos dias 4 e 5 de fevereiro, às 19h00, no Café Cultural, ao lado do Teatro da Caixa e a entrada é franca.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Olhar de fotógrafo



Tenho muitos amigos fotógrafos espalhados por esse mundão de meu Deus. Alguns deles, de vez em quando, me mandam jóias raras. Por isso, estou pensando em dividi-las com vocês. Assim, repartindo o olhar, olhando através das lentes deles, teremos uma chance de descobrir algo mais. Algo que às vezes passa despercebido do nosso olhar cotidiano.

E eu começo com duas fotos de Alessandro Dantas, fotógrafo radicado em Brasília, dono de uma técnica refinada, capaz de transformar o óbvio em preciosidade. Ele me mandou imagens que mais lhe impactaram em sua recente viagem de férias. A primeira, feita às 5h45, registra o amanhecer numa praia de Anchieta, no Espírito Santo. O brilho do nascer do sol, sob o testemunho solitário de uma garça.

A segunda, uma visão particular do Cristo Redentor. Como diz o Alessandro, lá do alto, sempre a abençoar aqueles que estão aos seus pés. Valeu, Ale!

Num zás!


O ano de 2010 acabou de começar. Mas, esticando bem o pescoço, já dá pra ver o finzinho dele. Vai ser um ano curto. Vai passar como um zás! Quer ver só: Hoje é o início de fevereiro. Amanhã, o Congresso Nacional volta a trabalhar de verdade, mas em duas semanas, no máximo, tudo pára de novo para o carnaval. O país se sacode e com ele, todos nós.

Depois do carnaval e das águas de março – que este ano resolveram fechar o verão bem mais cedo, no Brasil - a páscoa; e depois da páscoa, a Copa do Mundo de Futebol. Nem querendo alguém vai conseguir pensar em outra coisa. O país pára pra torcer e com ele, a gente torce também.

Quando a Copa terminar, bem, aí... Aí já será hora de votar. Hora de escolher presidente, senador, governador, deputado federal e estadual. O país pára pra votar e com ele, a gente vota também.

Depois da eleição? Começam a brilhar as luzinhas de natal. É hora de planejar as festas de fim de ano. É quando a gente lança mão da velha esperança de que, em 2011, tudo vai ser diferente. Outra vez. Preste atenção, vai ser bem rápido.