quinta-feira, 30 de maio de 2013

Pedras que rolam

Um jogo a três. Eu, meu pai e, numa dimensão qualquer,
o velho Opílio Viegas a mexer as pedras do tabuleiro.  
Pode um quarto de hospital ser um lugar quente? Aconchegante? Aconchego e quentura são palavras que não combinam muito com hospital. Estar ali, por si só, pressupõe necessidade de saúde, de estar bem. Os quartos de hospital estão mais para risco e desconforto do que para o sossego.

Hoje, experimento estar aqui para fazer companhia ao Viegão. Ele ainda não tem previsão de alta. Só sai depois de vencer a pancreatite. E enquanto fica, nos revezamos entre dias de mãe e noites de irmãos.

Antes de chegar aqui, pensei em algo que transfigurasse o quarto do hospital. Meu pai gosta de ler, Comprei-lhe Mia Couto de presente. Um pra ele e um pra mim.

Lembrei dos tempos de São Luis e de meu avô. Lembrei como os jogos de tabuleiros (damas, dominós, etc.) sempre o fizeram feliz. E lembrei de ter aprendido a jogar com ele. Pensei que de alguma forma, meu avô estaria por perto agora, como sempre esteve, mesmo já não estando aqui.
Opílio Viegas.

Antes de vir para o hospital, coloquei um tabuleiro de xadrez na bolsa, para testar a memória do meu pai. Para brincar com ele. Para roubar das horas duras de um quarto de hospital, uns minutos de prazer.

E assim foi que as horas se passaram. Falamos de política e religião; de índios e estradas; de futebol e literatura. Quando o assunto se foi, puxei o tabuleiro de xadrez. Meu pai riu. Disse que nem lembrava mais das regras. E eu disse que lembrava sim, porque jogar xadrez é como andar de bicicleta, nunca se desaprende.

E jogamos duas partidas. E ele pediu pra dormir.
E por não ter violão à mão, por não saber fazer música como Chico ou Mercedes, corri para o computador e escrevi.

Enquanto isso tudo acontece, imagino as risadas de meu avô preenchendo o vazio do quarto. O velho Opílio passou por aqui e fez rolar as pedras do nosso xadrez. As minhas, seu neto. E as de meu pai, seu filho. Partilhamos, por uns instantes, o universo preto e branco do tabuleiro. Entre reis e rainhas, bispos e peões, cavalgamos as horas tristes de um quarto de hospital como quem rompe o horizonte em direção ao mar.

O mesmo mar que me viu nascer. O mesmo mar em que navegou o seu barco, "Bela Rosa".  O mesmo mar que nos une, na condição de navegantes precisos, preciosos, dessa vida incerta e bela.

10 anos no rio de janeiro...


Por Antônio Ângelo de Souza*

Rio de Janeiro, por A.
por certo era o lugar certo
para os de tupã os de sá os de villegaignon
depois para os de luanda das gerais dos crateús
(da fenícia...)
para todos como eu, os sem lugar
por destino virar alimento para os deuses
entrar pela boca banguela
de seus ídolos de pedra
por vingança sobreviver
vencer a onça fome, a doença inseto
prosperar
aterrar o mangue desmontar o morro
rasgar túneis romper canais
erguer palácios plantar favelas
buscar o céu cair no mar
maravilha de cenário
lugar errado para uma cidade.
por acaso ou vocação
houve de ser cortesã
metrópole provinciana
disparatada zoneada dissolvida
melodia sincopada
de ritmo sinuoso
houve de ser samba,
ser verso reverso perverso
de si mesma, essência extraída
do embate atlântico
-- crista eriçada
dorso curvilíneo --
ombros de areia e floresta
lugar comum
de sua gente
enigma
de sua própria natureza.

*Antônio Ângelo de Souza é um amigo de longa data. Dos tempos de jornalismo sul-matogrossense, dos tempos das aventuras pantaneiras. Ângelo tem um dos melhores textos que já li. Quando ele decidiu deixar o jornalismo as redações perderam em qualidade e criatividade. 

Felizmente, ele se permite manter alguma produtividade e, de vez em quando, invade as noites do Facebook com preciosidades, como esta, que ele escreveu para celebrar os seus dez anos de Rio de Janeiro. Seja bem-vindo Ângelo. Sinta-se em casa. 

Quinta chuvosa

A manhã se arrasta chuvosa e lenta.
Preguiça de sair da cama.
O dia pede café.

Lá de Minas, Dora Prado manda uma receita. Coisa simples, como o dia pede. Bolo de Milho e café. Mandou até foto, pra provar que a ciência é útil e a química funciona. Mais do que isso? Só a paz que a gente precisa pra enfrentar o resto do dia. Valeu, Dora!

P.S. - Dora Prado é assessora de imprensa, em Belo Horizonte. Mas também se arrisca com maestria nas lides culinárias. Hoje, ela acertou no tempo, no sabor e na memória. 



O bolo de Milho da Dora Prado.

Receita de Bolo de milho

Bolos de liquidificador geralmente são muito práticos, mas esse é fácil demais! 
Molhadinho e perfeito.

* 3 OVOS INTEIROS
* 1 LATA DE MILHO VERDE (ESCORRIDA A ÁGUA) 
* 1 LATA DE LEITE CONDENSADO
* 100G. DE COCO RALADO
* 1 COLHER DE SOPA DE MANTEIGA
* 1 COLHER DE SOPA DE FERMENTO

BATER TODOS OS INGREDIENTES NO LIQUIDIFICADOR POR APROXIMADAMENTE 4 MINUTOS.
DISPOR EM UMA FORMA MÉDIA PREVIAMENTE UNTADA E ENFARINHADA.
ASSAR EM FORNO MÉDIO (180°C) POR 30 MINUTOS.

** Este bolo fica úmido porque não leva farinha.




quarta-feira, 29 de maio de 2013

O último vendedor de gelo

Monte Chimborazo - Equador
Esta é a história de Baltazar Ushca. Um camponês que desde criança aprendeu com o seu pai o ofício de explorador das minas de gelo do Monte Chimborazo, no Equador. Seus irmãos trocaram a vida dura nas geleiras pelo trabalho urbano, na construção civil ou no campo.

Baltazar, segue ainda hoje, vivendo de vender gelo. Diz que sonha com o dia que um dos netos se interesse pela atividade, mas reconhece que a vida fora da montanha é mais fácil, menos sacrificante.

Baltazar Ushca
A história de Baltazar é a história de uma cultura popular que está a caminho do fim. Porque as geleiras diminuem a cada dia. Porque a tecnologia tornou mais fácil, rápida e lucrativa  uma atividade rudimentar, romântica e exigente. Porque não há mais pessoas como ele, dispostas a enfrentar o frio e a montanha em nome de uma tradição.

O último vendedor de gelo é um documentário emocionante, de 14 minutos, dirigido e produzido por Sandy Patch, que mostra a força de um trabalhador solitário e obstinado. Baltazar jura que vai buscar o gelo do Chimborazo até que seu corpo aguente. Até o fim de sua vida.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Careqa, a ladeira, a memória

Carlos Careqa
Carlos Careqa fez o meu dia recomeçar. Ele e o Oscar Rocha. O Oscar porque postou em sua página (o facebook também serve pra isso, hiatos de vida inteligente). O Careqa por que me emocionou firmemente com o seu disco.

Reunir músicas e pessoas, como ele reuniu, tem algo de magia. Chico, Nei Lisboa, Marcelo Preto, Mário Manga, Mairana Aydar (pai e filha)... Tanta gente e tanta arte que resultam em muito mais que uma ladeira da memória.

Careqa e Chico, no estúdio.
Careqa é catarinense de Lauro Müller, mas criou-se em Curitiba desde os cinco anos de idade e hoje vive em São Paulo. Faz música e poesia como poucos. E acaba de lançar o disco "Ladeira da Memória", que é uma coletânea de músicas que encantaram a vida dele.  E que agora vão encantar a nossa também.

Obrigado, Careqa. Minha terça recomeçou, com uma ladeira cheia de poesia. Feliz e contente. Já encomendei o meu disco. Se fosse você, que me lê agora e certamente vai gostar de gastar menos de dez minutos pra assistir o making off postado aí embaixo, faria o mesmo.  Boa terça.

Seja simpático

Pra começar a terça-feira. Jerry Espíndola e Pétalas de Pixe. Seja Simpático.

domingo, 26 de maio de 2013

Tempo de estio

Vinhos suspensos, até o novo encontro.
Meu pai está no hospital. Ontem estive com ele. Hoje estarei de novo. Há um revezamento de irmãos em torno dele e de minha mãe, nestes tempos em que eles, nossos pais, vão-se tornando mais frágeis e exigindo de nós mais carinho e atenção.

Viegão encara uma uma dieta compulsória à base de soro, glicose, alguns medicamentos contra dor e nada mais. Nem sólido, nem líquido. Até que a pancreatite aguda ceda e se descubra os motivos dela. Depois da primeira noite no Hospital das Forças Armadas, tendo minha irmã como companhia, a enfermeira entrou e perguntou se estava tudo bem. E antes da resposta, lhe disse (trazendo nas mãos o café da manhã de minha irmã) que ele não poderia comer nada. Dieta zero. E insistiu: Está tudo bem com o senhor?

Minha irmã diz que os olhos dele ficaram compridos pro café dela. Depois ele olhou pro soro e disse: "É a primeira vez que tomo café da manhã a conta-gotas e na veia". Não é o que a gente queria, mas a temporada no hospital é necessária. Disciplinado, ele já estabeleceu uma rotina. Lê um livro de Borges e escreve cartas.

Suas cartas são, em maioria, cartas de despedida das obrigações que ocupava na maçonaria. Secretário disto, coordenador daquilo... Viegas está se desligando das obrigações formais para ter um pouco mais de tranquilidade. Está correto, ele quer gastar mais tempo lendo e escrevendo do que correndo de um lado para outro.

Quer gastar mais tempo fazendo o que gosta. Experimentando comidas e vinhos (claro que isso vai exigir uma dose de paciência até que ele esteja plenamente recuperado. mas tenho certeza, não demora).

Não faz muito tempo, tivemos uma tarde dessas de vadiagem plena e saborosa. Eu, ele, Mara e Dona Isabel, minha mãe.  Foi um dia desses que o tempo não vai apagar. Nem a distância. Nem nada. Era um sábado e o convite pra um passeio/almoço,  foi aceito de pronto. O passeio incluiu comprinhas com Dona Isabel. O almoço incluiu vinho com o Viegão.

Tempos de  "Nuca"
e ele me ensinando judô. 

Quando criança, tomava banho de chuva com meu pai.
Depois de adulto, fui eu quem o levou pro mar. 
Entre um gole e outro, eu e o pai falamos da vida. Dos desejos, dos bons e maus jeitos. Conversa de "homeninos". Um experimentando o outro, numa medida em que só a maturidade permite. Falamos da França que ele não conhece e que prometi levá-lo. Falamos de amores, de internet, de sonhos e desejos.

Um Catena Zapata regou nosso paladar e nossas ideias. Viegão estava impossível. Depois do almoço, levamos os dois para um café na livraria Cultura. Eles não conheciam o espaço superior, onde se toma café e gasta as horas com leitura ou com o que quiser.

Meu pai ficou encantado. Os olhos dele pareciam olhos de menino em loja de brinquedo, tamanha era a fartura de livros, autores e títulos. De repente, percebi que ele se afastou. Pediu ajuda, pediu um livro e foi pro caixa.

Não demorou muito,  veio ele com um presente duplo pra mim.  Dois volumes de Gertrude Stein. E uma dedicatória de fazer chorar.







Nuca (que é como ele me chama desde menino) Uma tarde igual a esta deve ser perpetuada na memória. Nada melhor para guardar momentos que dificilmente se repetirão que um livro. Este é teu livro e este é teu pai e admirador. Viegas. Brasília - DF. 14 de abril, de 2013. 

Só um reparo, meu pai. Haverá, sim, outros momentos como este. Se depender de mim, muitos outros virão. E enquanto o senhor se recupera, fiz uma promessa de suspender os vinhos. Só volto a tomar outro em sua companhia. Por favor, trate de ser breve. 

sábado, 25 de maio de 2013

Nas ondas do rádio

Zé, Dan e Teco - Os caras do Fim de Expediente
Sexta-feira eu vinha embora pra casa e, como faço sempre que isso é possível, escutava o programa Fim de Expediente, com o Dan Stulbach, na Rádio CBN. Ouvir rádio, aliás, é dessas manias que trago de infância.

Na minha memória mais remota, me recordo de um fim de tarde no interior do Maranhão, na cidade em que minha avó nasceu, Viana. Mais precisamente, num lugarejo chamado Bacurizeiro (bacuri, pra quem não sabe é um fruto delicioso, que só provei por aquelas bandas, pelo Maranhão, pelos tempos de minha infância). Pois bem, lá, no Bacurizeiro, fazendo um viagem de reencontros entre minha avó Antonieta Gaspar Viegas e sua gente, seus parentes, primos, amigos, lá, naquele fim de tarde, em volta de um aparelho de rádio Transglobe Philco, a válvulas, eu descobri a hora da melancolia.

Ao som do rádio e das cigarras, o dia se punha enquanto amigos de sempre trocavam emoções e experiências de vida. Lá longe, enquanto o dia virava noite, eu, menino de tudo, não sabia muito o quê aquela dorzinha sem razão significava em meu peito. Sabia que ela estava ali, sabia que tinha a ver com aquele lugar, com aquela hora, com aquele veludo que cai sobre o dia antes que a noite se faça por completo. Ali, bem ali, nas ondas do rádio e das risadas dos amigos de minha avó.

O Programa de rádio tem essa magia. Nos faz enxergar imagens sem que elas existam de fato. O segredo de escutar rádio é permitir que a imaginação corra solta. E a partir disso criar imagens. Pode ser um jogo de futebol em que se imagina a bola raspando a trave. Pode ser um conto, uma viagem, uma paisagem ou pode ser uma conversa sobre o tempo passado.

E é essa a magia que ainda há nas transmissões radiofônicas feitas pelo Dan e sua turma (ele apresenta o programa com o Teco e com o , todas as sextas, entre as seis da tarde e as sete da noite. Não os conheço pessoalmente, mas ninguém arriscaria dizer que não somos amigos íntimos.)

Guilherme Arantes (de camisa azul) durante o programa.
Nesta sexta, o convidado deles era o Guilherme Arantes, cantor e compositor dos mais respeitados. Autor de grandes sucessos que embalaram muitos amores da minha geração.  Guilherme não só tem uma discografia rica como tem uma rica história de vida.

Ao longo de uma hora de entrevista ele desfila por assunto variados, traduz os anseios de uma época em que o tempo passava mais lento e as pessoas viviam mais a fundo as suas experiências de vida. Um tempo distinto desse em que vivemos. Um tempo livre da pressa e da instantaneidade.

Entre as tantas boas histórias que ele contou, uma foi emocionante e divertida ao mesmo tempo - a de como ele compôs um dos seus maiores sucessos românticos - Um dia, um adeus.  Ouvir aquilo no fim de tarde melhorou o meu dia. Fez a volta pra casa ser mais leve. E me deu vontade de repartir o programa com alguém.

Há pouco, localizei o programa na internet. Chamei Mara, Mariana e Gabriel. Liguei  computador e aumentei o volume. Por uma hora ficamos ali, em torno do rádio, ouvindo as histórias do Guilherme, dando risadas com o Dan, o Teco e o Zé.

De repente, me veio aquela sensação de menino. Aquela imagem viva de quando estive lá na terra de minha avó, debaixo daquela árvore, ouvindo rádio e sentindo um dor no peito enquanto o dia cedia lugar para a noite estrelada do interior do Maranhão.

De repente, senti a mesma dor. Agora, conjugada com a maturidade. Mas ainda assim, uma dor de melancolia. Dessas que só as ondas do rádio são capazes de produzir. Ainda hoje. E, desconfio, pra sempre.

(P.S. O programa a que me refiro está na página da CBN. Ao acessá-la, procure pelo programa Fim de Expediente. E escolha o da última sexta-feira, 24.05, em que o entrevistado foi o Guilherme Arantes. Você vai gastar uma hora ouvindo e vai ganhar o dia. Pode acreditar. Não desligue antes de ouvir a história de Um dia, um adeus, música com que encerro essa publicação.)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

“Analfabeto novamente”

*Por Luca Maribondo 


Na minha opinião, depois que alguém é alfabetizado — ou passa pelo letramento, como dizem as autoridades educacionais mais modernamente — não mais pode retornar à condição de analfabeto. Mas depois que me mudei pra Bali, descobri que não é bem assim. Quando você se muda pra um país de língua completamente diferente da sua, você volta à condição de analfabeto, ao menos parcialmente.


Por definição, analfabeto é quem ou aquele que desconhece o alfabeto, ou não conhece nem o alfa nem o beta, isto é, não sabe nem ler nem escrever, ou quem não tem instrução primária. Por extensão, o cidadão que é muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil. Analfabeto é o sujeito que pratica o analfabetismo: estado ou condição de analfabeto; falta de instrução, sobretudo da elementar (ou seja, ler e escrever).

Faço toda essa digressão em torno de letrados e iletrados porque agora me sinto como um analfabeto. Percebi minha situação na primeira vez em que fui a um restaurante — o que aconteceu na mesma noite em que cheguei, em 18 de dezembro de 2012. Alguém me ofereceu um nasi goreng. Devo ter olhado para o pelayan (garçon) com cara de idiota; ele logo se dispôs a me explicar o que é o tal nasi goreng: arroz frito com legumes, peixes, lula e outros frutos do mar, às vezes com um ou dois ovos fritos em cima.

Nasi Goreng
Foi a primeira vez que me assaltou a questão do analfabetismo. De como a gente se sente impotente diante das coisas mais prosaicas da vida: fazer compras num supermercado, colocar gasolina no carro, fazer uma consulta médica e outras ações que fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa. Foi pensando nisso que comecei a tentar aprender a língua. E logo descobri algo mais assustador ainda: existem duas línguas básicas, o bahasa indonésio e o idioma nativo de Bali.

Alfabeto Balinês
Também descobri uma coisa bem curiosa. Comecei a anotar palavras que são muito semelhantes ao português (algumas são exatamente iguais): fase, festa, final, foto, gás, gitar (guitarra, violão), alínea, alkohol, almanak, âmbar, amplop (envelope), keju, klab (clube), koléga, anagrama, cokelat (chocolate), dadu (dados), bola, apotik (botica, farmácia). Há muitas outras, mas a lista seria exaustiva. Não fiquei surpreso, mas interessado.

Amplop
Eu sabia que os portugueses haviam sido os primeiros europeus a chegar às ilhas da Indonésia — isso em 1512. A ânsia lusitana pra dominar as fontes do lucrativo comércio das especiarias, nos séculos 15 e 16, e os seus esforços missionários cristãos simultâneos, resultaram no estabelecimento de fortalezas e entrepostos comerciais, e de um forte elemento cultural português que permanece na Indonésia até aos nossos dias. E isso fica claro no idioma.


Desde as minhas descobertas idiomáticas e da minha sensação de regressão analfabeta, fiquei pensando que, se fosse honestamente instruído, seria possível recuar no derradeiro instante, decidindo por não tomar contato com o mundo esotérico, exótico, sanguinário e selvagem das pessoas que sabem ler e escrever. Pelo menos em indonésio. Até porque o analfabeto tem pelo menos uma virtude: não comete erros gramaticais ou ortográficos.

Também penso que o alfabeto foi inventado por um analfabeto. Ah! E o mundo abunda em alfabetos fora de uso, cujo código se perdeu —além dos povos que nunca tiveram alfabetos e mesmo assim foram felizes, como os nossos índios e os ingleses e norte-americanos (estes dois últimos adotaram o alfabeto romano e dominaram basbaques do planeta inteiro e que tinham alfabetos próprios). 

Antigamente, os analfabetos eram os seres que não iam à escola; agora, são os mais escolados. E descolados. Analfabetos, graças a Deus!

Luca Maribondo
*Luca Maribondo é um grande amigo, aventureiro das lides jornalísticas e publicitárias, que conheci em Mato Grosso do Sul, priscas eras. Luca cansou destas plagas e cumpre um período sabático em Bali. Cronista inveterado, observador das coisas cotidianas, toda vez que bate um banzo, ele escreve. De vez em quando, falamos. E quando ele me manda sua escrita, sempre tenho vontade de dividir com todos.  

Porque hoje é sexta

Sexta.
Prenúncio de sábado.
Ponto final de um sequência de dias intensos.
Na sexta, tudo se desfaz.

A hora passa mais lenta.
O dia nasce já com expectativas de por-do-sol.
Desde o primeiro minuto.

Na sexta, tudo é mais lerdo, preguiçoso.
Essa ideia de que a semana termina antes,
prevalecendo em nossa mente...

Essa vontade de virar as costas para o que foi e 
seguir adiante...
De abrir a porta colorida e sonora do fim de semana...
De tomar banho de chuva...
De ver o tempo passar nas folhas de um livro...

Na sexta, tudo o que é muito chato se desfaz.
Pra se refazer mais leve e com frescor a partir do sábado.


terça-feira, 21 de maio de 2013

Música de ser feliz

Hora de ser feliz com a play list de Mariana
Hoje acordei com saudades de Mariana. E encontrei suas digitais em músicas que, segundo ela, servem para ser feliz.

Mariana, minha filha, é assim.
Às vezes, surpreendente.
Às vezes, intensa. Nunca a mesma.

Há uns dias, eu estava viajando quando recebi um e-mail seu. Assim, do nada. Sugerindo que eu achasse tempo pra ouvir uma play list preparada por ela (nesse inglês instantâneo, play list, é como nossas crianças identificam sua relação de músicas preferidas).

Ela sabia da minha viagem e achou que eu viajei pra ser feliz. E que isso merecia uma trilha sonora. E foi o que ela fez. Organizou uma trilha sonora pra minha viagem e pra minha felicidade.

Coisa boba, simples e absolutamente comovente.
Capaz de me deixar feliz à toa.
Capaz de dar sentido às longas e divertidas horas daquela infância em que nós descobríamos sons e letras, gravadas em vinis de antigamente. Horas de audição que fizeram dela, sem a menor sombra de dúvida, uma menina muito mais feliz do que a média.

Obrigado, filha, pela dose de felicidade que salva.
Obrigado pela play list.  Gostei de todas. Mas essa, ai embaixo, foi uma das que eu mais curti.

sábado, 18 de maio de 2013

Olhar de fotógrafo

Há tempos, Ronaldo Silva não me manda uma foto. Hoje, mandou.
Uma fotografia é o registro de uma realidade presente, que acabou de passar.
Ferreira  com seu olho mágico flagrou um momento de fé. Desses, que mesmo passando, costumam ficar eternizados em seu olhar.

E como diz o poeta e cantador Gilberto Gil:

Mesmo 
a quem 
não tem 
a fé costuma
acompanhar


Andar com fé
eu vou
que a fé 
não costuma 
falhar!

Foto: Ronaldo Silva

domingo, 12 de maio de 2013

Ride

Porque o domingo merece. O filme é longo, mas Lana Del Rey faz a gente nem perceber o tempo passar. Ride - O filme. A música. A moça.

Whitman e Dona Isabel

Dona Isabel, de volta à casa e à leitura. 
Minha mãe, Isabel,  me pediu um livro. Quem me avisou que ela queria foi meu pai, Inocêncio. Tua mãe pediu para comprar um livro pra ela, "Folhas de Relva", disse-me ele, meio desconfiado da própria existência do livro.

Cheguei à livraria e pedi. O rapaz que me atendeu também  fez uma cara de desconfiança quando eu disse que o livro era para a minha mãe. Ele pesquisou e me trouxe um exemplar de Walt Whitman. Eu mesmo comecei a desconfiar do pedido. O que teria feito "Dona Isabel", aos 70 anos,  ir atrás de um poeta revolucionário e maldito americano?

Wlat Whitman, o poeta maldito de minha mãe.
Comprei. Embrulhei e levei de presente. Mãe, está aqui o livro, mas eu queria que a senhora me disse como é que chegou a esse título e a esse poeta.

Ela riu e rindo me explicou. Diz ela:

Eu estava assistindo o programa da Ana Maria Braga. Ai, aquele cara que faz o personagem do Russo, aquele que é bem malvado com as meninas, na novela das oito, chegou para ser entrevistado por ela. Ele é ruim na novela, mas só lá. "Ao vivo", dando entrevista, ele é uma pessoa bacana. 

E a Ana perguntou se ele estava lendo algum livro naquele momento e ele disse que tinha acabado de ler "Folhas de Relva", do Walt Whitman. E falou tão bem do livro que eu fiquei com vontade de lê-lo. Foi isso. 


Faz dez dias que lhe dei o livro. Ela o lê à sua medida (dia destes, pulei umas partes que não gostei. Achei meio tristes, diz ela.) Na semana passada, a leitura foi interrompida por um susto, uma febre, uma infecção e um internação hospitalar.

Hoje, dia das mães, foi ela quem me deu o presente. Está de volta em casa. Retomando a vida ao lado de meu pai e de seu poeta maldito, Walt Whitman. Beijo, minha mãe.  Feliz dia das mães e feliz retorno à sua casa.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Maio

Há muito tempo, eu tinha um poema de Maiakovski na parede do meu quarto. Acho que era Maio.
Depois, mais tarde, conheci Paulinho Simões fazendo música e poesia em Campo Grande. Acho que era Maio.

Maiakovski, maio, poesia, música, Paulinho...
Acho que veio tudo junto, ao mesmo tempo, agora.

Então, porque é maio e porque o dia está terminando (e porque eu quero mesmo que ele termine bem), Mês de maio. Poesia e música de Paulinho Simões.


Mês de Maio

Azul do céu brilhou

O mês de maio 
enfim chegou
 
Olhos vão se abrir 
pra tanta cor
 
É mês de maio
 
A vida tem seu esplendor 

Raio de sol entrou

Pela janela, 
me convidou

Pra tarde tão bela 
e sem calor

É mês de maio

Saio e vou ver 
o sol se por 

Horizontes de aquarela

Que ninguém jamais pintou

E o enxame de estrelas

Diz que o dia terminou 

Noite nem se formou

E a lua cheia 
já clareou

Sombras podem ir, 
façam o favor

É mês de maio

É tempo de ser sonhador 

Quem não se enamorou

No mês de maio, 
bem que tentou

E quem não tiver 
algum amor

Dos solitários

O mês de maio 
é protetor 

Boa terra, 
velha esfera

Que nos leva 
aonde for

No futuro 
quem me dera

Que te dessem 
mais valor.

domingo, 5 de maio de 2013

Memórias da profissão - O repórter

Em ação, como repórter, em começo de carreira.
O cinegrafista da direita, Ramon Carlos, foi meu grande parceiro
de aventuras jornalísticas. Seguramente, um dos melhores com quem trabalhei.
Na metade dos anos 80 eu cheguei à TV Morena, afiliada da TV Globo em Mato Grosso do Sul, na condição de repórter. Foi um passo importante para a minha vida profissional. Deixei o grupo e a Globo, na condição de Diretor de Jornalismo, nos primeiros anos da década de 90.  De lá, guardo boas lembranças e grandes lições.

Era uma época em que se praticava um jornalismo um pouco diferente do que se faz hoje. Época em que era elementar saber um mínimo sobre o assunto da reportagem, antes de chegar ao entrevistado ou à fonte. Hoje, com raras exceções, os repórteres parecem não querer gastar tempo com "tamanha bobagem". Exigem que as informações sejam reunidas e repassadas pela assessoria de imprensa. Querem tudo mastigado e ficam nervosos quando alguém não faz o serviço que deveria ser  feito por eles. Mas isso é detalhe. Sórdido, mas é.

Nos estúdios da TV Morena, entrevistando Roberto Freire,
então candidato a presidente da República, pelo PPS. 
Julio Cotting, jornalista.
Esta semana, fui surpreendido com uma mensagem de um amigo virtual, Júlio Cotting, jornalista da nova geração lá em Mato Grosso do Sul, que encontrou um filme com uma edição do MSTV Terceira Edicão, de outubro de 1986.

O Terceira Edição foi um jornal inventado para que pudéssemos ocupar mais tempo com o jornalismo local. Ia ao ar quase na madrugada, mas ia. Era o espaço possível. Um pequeno e aguerrido exército de jornalistas trabalhava as notícias do dia com um pouco mais de tempo na abordagem. As entrevistas eram maiores e havia espaço para algum nível de opinião.

Quem apresentava o jornal era Bosco Martins. Na produção e redação, Denise Dal Farra; na Edição, Luca Miranda e Ciro de Oliveira; a Direção de Jornalismo era de Ecilda Stefanelo e eu fazia parte, junto com Thomas Krause e outros, de um pequeno time de repórteres que topava aquela aventura. Sim, era uma aventura. Trabalhávamos mais para produzir um terceiro jornal, com textos e conteúdos diferentes.

Como eu disse um pouco antes, o Julio me surpreendeu com a cópia inteira (dez minutos) de uma edição do jornal. Nela, para minha alegria, há uma pequena reportagem em que eu apareço exercendo o papel de repórter. Eu tinha 24 anos de idade. Era um menino, recém chegado à profissão. Mas já estavam lá a minha paixão pelo jornalismo e a minha mania de querer fazer bem feito o que quer que eu me metesse a fazer.

O repórter em ação.
O assunto era a falta de bois nos frigoríficos e a entrada em ação da Polícia Federal para confiscar os animais que os grandes pecuaristas escondiam no pasto e sonegavam à indústria. Tempos de governo Sarney. Tempos de inflação galopante. Tempos de incerteza.

No meu caso, um tempo de desafios profissionais. Hoje, olhando para trás, vejo que a minha caminhada valeu a pena. Rever um pouco do jornalismo que eu fiz, lá no começo da profissão, me tranquiliza. Me dá a certeza da escolha que fiz e traduz o respeito que sempre tive pela profissão.
Valeu, Julio. Pelo resgate e pelo presente.

P.S.: Minha reportagem se completa nos quatro primeiros minutos do jornal. Mas assisti-lo inteiro dá uma boa ideia do que era notícia naquele tempo, na Capital do Mato Grosso do Sul.
     

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um abraço e um conforto

Celso Grecco
Celso Grecco é um novo velho amigo. Desses que entram na vida da gente para ficar, para sempre. Hoje, está sendo um dia difícil para ele. Sua mãe nos deixou. E por essas razões que a própria razão desconhece, eu fui a primeira pessoa a alcançá-lo pelo telefone depois dele receber a notícia.

Quis dar-lhe um abraço, mas Celso já estava na sala de embarque, preste a seguir para São Paulo. Lembrei de uma conversa que tivemos sobre música, fé, poesia e paixão. E lembrei que ele me falou sobre uma poesia que escreveu e que foi musicada. Uma poesia, quase oração.

Busquei na web e encontrei. Não consegui abraçá-lo ainda. Mas dou-lhe aqui o meu abraço virtual. A música é mesmo linda, quase uma oração. E cabe como um conforto nesse momento de dor.