domingo, 5 de maio de 2013

Memórias da profissão - O repórter

Em ação, como repórter, em começo de carreira.
O cinegrafista da direita, Ramon Carlos, foi meu grande parceiro
de aventuras jornalísticas. Seguramente, um dos melhores com quem trabalhei.
Na metade dos anos 80 eu cheguei à TV Morena, afiliada da TV Globo em Mato Grosso do Sul, na condição de repórter. Foi um passo importante para a minha vida profissional. Deixei o grupo e a Globo, na condição de Diretor de Jornalismo, nos primeiros anos da década de 90.  De lá, guardo boas lembranças e grandes lições.

Era uma época em que se praticava um jornalismo um pouco diferente do que se faz hoje. Época em que era elementar saber um mínimo sobre o assunto da reportagem, antes de chegar ao entrevistado ou à fonte. Hoje, com raras exceções, os repórteres parecem não querer gastar tempo com "tamanha bobagem". Exigem que as informações sejam reunidas e repassadas pela assessoria de imprensa. Querem tudo mastigado e ficam nervosos quando alguém não faz o serviço que deveria ser  feito por eles. Mas isso é detalhe. Sórdido, mas é.

Nos estúdios da TV Morena, entrevistando Roberto Freire,
então candidato a presidente da República, pelo PPS. 
Julio Cotting, jornalista.
Esta semana, fui surpreendido com uma mensagem de um amigo virtual, Júlio Cotting, jornalista da nova geração lá em Mato Grosso do Sul, que encontrou um filme com uma edição do MSTV Terceira Edicão, de outubro de 1986.

O Terceira Edição foi um jornal inventado para que pudéssemos ocupar mais tempo com o jornalismo local. Ia ao ar quase na madrugada, mas ia. Era o espaço possível. Um pequeno e aguerrido exército de jornalistas trabalhava as notícias do dia com um pouco mais de tempo na abordagem. As entrevistas eram maiores e havia espaço para algum nível de opinião.

Quem apresentava o jornal era Bosco Martins. Na produção e redação, Denise Dal Farra; na Edição, Luca Miranda e Ciro de Oliveira; a Direção de Jornalismo era de Ecilda Stefanelo e eu fazia parte, junto com Thomas Krause e outros, de um pequeno time de repórteres que topava aquela aventura. Sim, era uma aventura. Trabalhávamos mais para produzir um terceiro jornal, com textos e conteúdos diferentes.

Como eu disse um pouco antes, o Julio me surpreendeu com a cópia inteira (dez minutos) de uma edição do jornal. Nela, para minha alegria, há uma pequena reportagem em que eu apareço exercendo o papel de repórter. Eu tinha 24 anos de idade. Era um menino, recém chegado à profissão. Mas já estavam lá a minha paixão pelo jornalismo e a minha mania de querer fazer bem feito o que quer que eu me metesse a fazer.

O repórter em ação.
O assunto era a falta de bois nos frigoríficos e a entrada em ação da Polícia Federal para confiscar os animais que os grandes pecuaristas escondiam no pasto e sonegavam à indústria. Tempos de governo Sarney. Tempos de inflação galopante. Tempos de incerteza.

No meu caso, um tempo de desafios profissionais. Hoje, olhando para trás, vejo que a minha caminhada valeu a pena. Rever um pouco do jornalismo que eu fiz, lá no começo da profissão, me tranquiliza. Me dá a certeza da escolha que fiz e traduz o respeito que sempre tive pela profissão.
Valeu, Julio. Pelo resgate e pelo presente.

P.S.: Minha reportagem se completa nos quatro primeiros minutos do jornal. Mas assisti-lo inteiro dá uma boa ideia do que era notícia naquele tempo, na Capital do Mato Grosso do Sul.
     

Um comentário:

  1. Saudações saudosistas!
    Grande Maranhão Viegas, me sinto recompensado por ter sido o estopim desta postagem que vem somar muito aos que precisam conhecer um pouco mais do verdadeiro jornalismo e os desafios de trilhar por uma profissão que exige extrema perspicácia para contar histórias, tal como ela são, emitindo opinião com credibilidade sem perder a confiança do patrão, dono do veículo.
    Naqueles tempos de transição, onde ainda havia um ranço autoritário, duvido que a galera de hoje conseguiria se equilibrar na "corda bamba" de atender o interesse do telespectador sem ferir a linha editorial da empresa.
    Vi este trabalho na Morena como telespectador desde meus tempos de guri, quando cheguei de SP em 1982, e de dentro à partir de 1989 como funcionário da Difusora.
    Uma das coisas que tenho como riqueza é minha memória e adoro cultivá-la. Como filho de Técnico em Eletrônica, especializado em conserto de receptores de rádio e TV, pude, desde meus 4 anos de idade, acompanhar e entender programas jornalísticos como, por exemplo, o Jornal Nacional e, hoje, sinto-me como testemunha ocular da história, lembrando cronologicamente dos fatos que vi, entre eles, a revolução islâmica no Irã, a volta dos exilados pelo regime de 64, e por aí vai...
    Nas últimas semanas tenho revisitado este conteúdo para entender, com olhar crítico de 40 anos, todas estas transformações e o papel histórico dos veículos de comunicação.
    Até pouco tempo via o papel da TV Globo de uma forma muito radical de esquerda, mas pensando com meus botões me senti na necessidade de ser mais justo e me perguntei: "A sociedade é reflexo da TV ou é o contrário?". Na busca da resposta sigo viajando no tempo e encontrando estas pérolas, como o "MSTV", da TV Morena em 1986, e "A aventura do homem nos anos 70", da TV Globo em 1980.
    Acredito que resgatando memórias e contextualizando-as podemos formar opiniões positivas para construção de uma sociedade cada vez mais esclarecida de seu passado e consciente de suas aspirações, porque um país sem memória é país sem futuro e história.
    Abraços McFlydianos!

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