domingo, 31 de março de 2013

Manoelices


"As coisas muito claras me noturnam."
Manoel de Barros

Nunca é tarde

Porque hoje é domingo de Páscoa. Dia de renascer. Dia de acreditar. Dia de achar que o tempo não para e que nunca é tarde pra tentar alcançar um sonho.

sábado, 30 de março de 2013

Minha ilha

Vejo o mundo a partir da minha ilha.
Um dia desses, Mara me propôs um exercício. Quando você fecha os olhos, de onde enxerga o mundo?  Ela me perguntou. Nunca havia pensado nisso. Fiz para experimentar. Quando fecho os olhos vejo o mundo a partir de São Luis. Quis saber por que, qual o significado daquilo? Ela me explicou que uma amiga, uma vez lhe disse que quando a gente fecha os olhos, o lugar de onde a gente enxerga o mundo é o lugar da gente.

Acho que faz sentido. Embora tenha andado muito, montanhas, vales, serras, campo e neve, sertão e cerrado, quando fecho os olhos vejo o mundo a partir do meu mar. Da minha Madre D'eus. A partir da minha ilha.

Victor e Marcia.
Me lembrei disso por conta do recado que recebi do Antônio Victor Rego. Um grande amigo sobre quem já falei aqui no blog. Victor é artista plástico. E hoje, passeando pela sua página no Facebook, descobri que ele havia me mencionado.

O quadro do Victor que dei de presente ao meu pai.
A tela que ilustra a página do Victor.
São Luis dos pincéis dele e do meu olhar pro mundo. 
É que o Victor postou uma nova tela para ilustrar a abertura de sua página. Uma imagem de São Luis. E o Victor achou que foi com ela que eu tinha presenteado o meu pai. Foi um engano, mas eu garanto que tanto ele quanto eu ficaríamos bastante orgulhosos de tê-la também.

A que eu tenho, aliás, que dei de presente ao Viegão, é uma imagem da Ponte de São Francisco, na maré vazante. Coisa de mestre.

Êh, Victor! Seu recado me fez fechar os olhos e voltar à ilha, neste fim de tarde de sábado. Foram poucos segundos de viagem. O suficiente para comprovar que é de lá, da minha ilha, que eu enxergo o mundo quando os meus olhos estão fechados.

Home alone sessions

Um sábado que ainda não se decidiu se será de sol ou de chuva. Vou indo. Impressionado.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Descendo a estrada

Feriado em Brasília. Ruas vazias
e um arco-íris no meio do caminho da gente, por trás da Torre de TV.
Acordei mais tarde. Fruto do cansaço da semana corrida. Comemorei o feriado (é mais do que santo, pra mim. É sagrado.) Sem o peso do relógio, livre da espada do tempo, abri o computador (abro por hábito e prazer, independente de haver sol lá fora) e vi o recado do Guilherme Rondon: "Ouço sempre que quero ficar feliz." Escrito bem acima de um arquivo de vídeo.

Pensei - se funciona pra ele, talvez funcione comigo também. Acordei com vontade de ser feliz. Dei dois clics. E foi a primeira coisa que realmente me lembro de ter escutado hoje. E foi uma sensação de paz e leveza imediata.

A música, a letra, o improviso, a facilidade de cantar e a felicidade de ouvir. Acho que era a isso tudo que o Guilherme se referia. Funcionou comigo. Tente ai. Talvez funcione, também, com você. Descendo a Estrada. No projeto Música de Graça, com Rafael Alterio, Adriana Sanchez, Guilherme Rondon e Bosco Fonseca.

  

quinta-feira, 28 de março de 2013

Gol - A magia do futebol


Por Rodrigo Teixeira*
Rodrigo, menino bom de bola.
E a cabeçada heróica e certeira.
O futebol sempre faz parte da vida de um garoto. A maioria inclusive já nasce fatalmente com o time escolhido pelo pai. Eu, por exemplo, já nasci Colorado. Sim. Internacional de Porto Alegre, campeão do mundo, tricampeão brasileiro e dono da maioria dos títulos do RS. Esta escolha pelo time acaba marcando a vida futebolística do ‘craque em evolução’. Não dá para esquecer as megadiscussões que presenciei dos familiares, uma parte colorada outra gremista. Era um pega-pra-capar. É até hoje. 
O time mágico do Internacional, em 1976. 
Como o Internacional da década de 70 era uma verdadeira máquina, tive a sorte de ver meu time ser campeão brasileiro três vezes. E é claro que quando ‘entrava em campo’ eu era o Falcão, Batista, Lula, Carpeggiane, Valdomiro, Figueroa, Biro-Biro, Dada Maravilha… quantas vezes corria depois de um gol vibrando como se aquele campinho do interior do RS fosse o grande Beira-rio, a casa oficial do Colorado, o estádio mais bonito do Brasil.

Eu tive a sorte de ter algum talento para a bola. Jogo direitinho, para ser bem modesto. Acho que quanto pior de bola, mais fanático o garoto se torna quando adolescente e adulto. Não é meu caso. Também depois de tantos anos o Inter não ganhando nada, durante os anos 80 e 90, só consegui me empolgar mesmo nos últimos minutos do segundo tempo, em 2006, quando já era evidente que o Inter iria ser campeão do mundo em cima do Barcelona. Nunca quis me tornar um profissional da bola. Pra mim, basta as peladas com os amigos. Mas levo a sério. Sempre levei. 

Lembro de um jogo na escola, devia estar com uns 9 anos. Estudava em escola pública, Januária Leal era o nome, o que na época não era demérito nenhum. Estava rolando aquele jogo que tem gosto de final, com todos os guris bons de bola e mais velhos. Lá estava eu parado na grande área esperando o escanteio. O parceiro do time cobrou e a bola veio alta, em minha direção. Percebi que vinha certinho para a cabeceada. Pulei e powwwwww: tive meu momento de homem-beija-flor Dadá Maravilha. A bola encobriu o goleiro e estufou a rede. 

Neste momento o guri vira herói e não foi diferente comigo. E esta é a mágica do futebol. Pode ser no Maracanã ou num campinho de beira de banhado, o gol é o instante supremo da bola e do homem. Do guri que vestiu a camisa do time do seu pai ainda no berço. É o momento mágico do futebol.

Rodrigo Teixeira é um grande amigo. Jornalista competente, músico dos melhores que já encontrei e parceiro de longas jornadas acreanas. Rodrigo vive em Campo Grande, MS, mas é cidadão do mundo. Escreve por ofício e por prazer. Da mesma forma que produz música e poesia. E hoje, nos brindou com essa história maravilhosa. É a primeira. Não será a última. Ah, não será, mesmo! Seja bem-vindo, RodTex. 

Equilíbrio, delicadeza e força

Equilíbrio. Mais do que uma palavra, um estado de espírito. Vasculhando a internet, encontrei um filme curto, feito por um diretor chamado Tobias Hutzler. Um filme sobre a delicadeza e a determinação do espírito.

Nele, mais do que qualquer coisa, se percebe o valor da concentração e da disciplina. A persistência que leva ao belo, quase mágico. Uma alegoria poética que pode se aplicar a qualquer lance da vida. Com equilíbrio se vai mais longe. Como se todo o sentido estivesse em buscar no equilíbrio algo intangível, que passa pela beleza e pelo amor.

Quer apreciar? Gaste uns minutos ai. São poucos. Menos que seis. Mas valem a pena. Pode acreditar.




No mesmo  momento em que encontrava o vídeo acima, ainda sob o impacto do equilíbrio e da beleza do filme, Mariana, minha filha, me mostrou outro vídeo. Desta vez, um clip de uma moça conhecida no mundo artístico como PINK.

É um vídeo de tirar o fôlego. Também exige equilíbrio, mas revela uma força quase sobre-humana dos dois protagonistas. São movimentos fortes de uma dança meio de disputa, meio de acasalamento, meio de discórdia, meio de poesia, meio de busca por algo que passa pela beleza e pelo amor.

Como o título da música diz, uma tentativa. Dois exemplos de beleza, equilíbrio, força, concentração e persistência. É a vida em estado imagético. É a vida, como só ela pode ser.  

quarta-feira, 27 de março de 2013

130 anos

Porque o dia chuvoso pede. Porque é quarta-feira. Véspera de quinta. E porque eu gosto demais dessa moça roqueira e doce. Agridoce. 130 anos.

terça-feira, 26 de março de 2013

Henrique e o voo inverso

Cláudio, Binho, Joana, Henrique, Cláudia e Bruno.
Henrique está longe de casa. Como é dado aos pássaros novos, criou asas e voou. Antes, voava, experimentava novos horizontes e voltava. Agora, voo solo. Jornada mais longa e promissora. Exige fôlego e depende mais de si do que dos outros.

Henrique Scalco Franke é meu sobrinho. Filho do Cláudio e da Binho. Irmão de Bruno, Cláudia e Joana. Saiu do Sul e seguiu pro Nordeste. Fez agora o mesmo que eu fiz, anos atrás. Apenas invertendo os rumos.

De vez em quando, Henrique, a saudade bate. E a gente sente uma dorzinha, uma melancolia, bem no meio do peito. É assim que funciona. Nossa humana condição de estar sempre partindo, principalmente no começo da jornada, nos impõe dores de amor.

Mas a vida é surpreendente e, quase sempre, nos mostra que nossas escolhas mais juvenis fazem todo o sentido. Sua estrada é longa e nela, certamente, haverá belos horizontes e lindos dias pela frente. E quando a saudade bater, não tire de vista: Se for preciso, faça um curto voo de volta.  Onde quer que você esteja, será sempre bem-vindo ao regressar.

Como na música que você postou faz pouco tempo.  93 Million Miles, de Jason Mraz.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Horizonte Mandela

A arte de Marco Cianfanelli.
Para que a África jamais se esqueça de Nelson Mandela.  
Estava lá no Blog da Fernanda van der Laan e eu resolvi compartilhar aqui. São imagens que mostram a construção de um novo horizonte, um horizonte distinto, na África do Sul. O que eu chamo de um "Horizonte Mandela", feito para que ninguém esqueça o homem, sua história, sua luta.

Nelson Mandela foi e é a personalidade mais impressionante daquele continente. Passou 27 anos preso por acreditar que algo estava errado nas relações entre brancos e negros. O tempo de prisão não lhe amedrontou as convicções. Ao contrário, serviu para amadurecer o pensamento e tornar o corpo mais resistente.

Saiu de lá para disputar e vencer uma campanha presidencial. Foi um presidente digno. Sue mandato mostrou que ele tinha razão. A África, depois de Mandela, é outra. Nelson Mandela é um ex-presidente honrado. Tão singular que ganha agora um monumento artístico. A obra reconstrói a sua imagem na linha do horizonte africano, como uma tatuagem no ar.

O monumento foi construido com 27 barras de ferro que simbolizam cada um dos anos em que ele esteve na prisão. É obra do artista Marco Cianfanelli. Foi inaugurada no ano passado, no mesmo dia e no mesmo local onde Mandela foi preso, 50 anos antes.

É um reconhecimento de seu povo à sua luta em defesa de direitos iguais para todos e pelo fim do apartheid. Vistas de perto, são barras de ferro. Vistas de longe,  formam o rosto de Nelson Mandela. Como se este estivesse mirando o infinito. E enxergasse, apesar de tudo, um belo horizonte. Um horizonte Mandela.






Short cuts Paraíba

A hora do Planeta e a hora do capeta

Hora do Planeta, Paris. A Paraíba não é Paris.
Mas é planeta, também.

João Pessoa não é Paris. E eu não estava em Paris na hora do Planeta. Mas lá, como cá, as luzes se apagaram. Em defesa simbólica do meio ambiente. Na Paraíba, nos pegou, a mim e ao Celso, caminhando de volta ao hotel. Eu e ele sabíamos a razão da escuridão.  O resto do povo, desconfio que não. Numa passada de ouvidos alguém de sotaque local dizia: "Hora do capeta? Por isso tá nesse breu!"

Os patins

Na calçada da praia os meninos, bem pequenos, deslizam, perigosos e ousados, sobre patins. Deve haver alguma quantidade de anjos da guarda de plantão. Zás! Zum! São eles voando como flechas entre as pernas dos maiores. No meio deles, uma menina maiorzinha, que perdeu o tempo e a coragem da aprendizagem. A mãe segurando o arremedo de patinadora. Passos de sofreguidão e medo de cair. Um breve descuido, um susto. E se ouve uma reclamação com sotaque carregado, quase uma praga: "Me segure! Não se distraia que eu caio!"

sexta-feira, 22 de março de 2013

Beatles, em dois tempos

Os óculos de John

Um tiro levou Lennon e deixou marcas definitivas.
Nos óculos e no mundo.

Ontem Yoko Ono postou a foto ai acima em sua página na internet. São os óculos de John Lennon ensanguentados. É uma marca visível do que restou daquele fatídico dia, em 1980, em frente ao edifício Dakota, perto do Central Park, em que um tiro à queima roupa tirou de cena o mais famoso dos Beatles.

Yoko usou a foto para alertar: Daquele dia pra cá, mais de um milhão de americanos foram mortos por armas de fogo. John se foi, mas ainda está entre nós.

Beatles na capa do Correio, edição de hoje.
Please, Please me

Os Beatles também estão na capa do Correio Braziliense de hoje. É que faz exatos 50 anos do lançamento do primeiro LP deles, que iria marcar definitivamente a história da música e a vida dos jovens de todo o mundo.

Canções que viraram clássicos. O mundo nunca mais foi o mesmo depois desse disco. Os Beatles já não existem mais. Mas continuam entre nós.

O tango em mim


Depois que eu cresci, ouvia meu pai dizer que ele dançava um tango com tal maestria que dava doze passos sobre uma lajota. Ele sempre jurou fazer isso, sob os olhares atônitos de minha mãe. Se algum dia ele deu mesmo doze passos em uma lajota, não foi com ela. Mas, verdade ou ilusão, os seus doze passos e o tango viraram lenda na família.

O folclore persiste ainda hoje, e só faz aumentar a beleza e a admiração por um bom tango. Os pais da Dora Prado, lá em Minas, dançavam tango e fizeram com que a imagem deles, dançando, se perpetuasse em sua memória. Dora adora os pais e tem paixão pelo tango.

Depois que eu virei gente, entendi a sonoridade que escutei desde quase criança, nas ruas da fronteira onde cresci, depois de deixar o Maranhão. O tango está em minha alma mais pueril. Nas noites argentinas da Rádio Mitre. Nas teclas do bandoneon desavisado de Astor Piazzola.

O tango está para mim como o imaginário do "seu" Viegas, que ainda hoje jura ter dado doze passos numa lajota qualquer dessa vida. Doze passos em seu imaginário. Doze passos, meus também.

CARO EMERALD "TANGLED UP" (OFFICIAL VIDEO) from // Videodrome on Vimeo.

domingo, 17 de março de 2013

Luiz, uma ponte física imaginária

Meu professor de física, Luiz Evangelista, o que me ensinou a gostar de filosofia ainda na adolescência, foi alcançado pelo meu texto, em Cambridge. Obra e graça da Marisa Poltronieri, que rebateu pra ele o que escrevi no blog. De lá, ele acaba de me escrever. E eu, emocionado, reproduzo e divido aqui com todos vocês.

Luiz Evangelista, nosso professor de Física,
(graças a quem começamos a amar a Filosofia)
em dois tempos. Na época da escola...
 
... e hoje. Lá longe, na Inglaterra. A paixão é a mesma. 

Caríssimo Maranhão.

Recebi o texto, com as fotos, com uma emoção indizível.

Imagine!

Estou fora de casa, em Cambridge, num clima de solidão e melancolia muito fortes, olhando para uma paisagem antiga. Há pouco, estive lendo alguns versos de Keats e outros de William Blake.  Vocês (você e Mariza, que me escreveu antes) me atingiram em cheio!

Lembrei-me de ter feito, há uns quatro anos, um poema sobre os lugares e as pessoas que amamos, e que fala, em poucas linhas, de como os carregamos dentro de nós, até mesmo depois do "triste Aqueronte, o insuperável".  

O poema (uma miséria de texto)  surgiu a partir de uma frase de Jorge Luís Borges (já que a Argentina anda em moda). Eu tentei recitá-lo em nosso primeiro encontro dos últimos anos, lá na BR-3 de Maringá, em 2011, na hora do almoço,   mas estava tão emocionado que ele não saiu. Vai, agora, abaixo!

Que emoção ser lembrado como professor de filosofia!

Do fundo do coração (em latim pedante: ab imo pectore),

Luiz.




                                                     BORGEANA

Os lugares a gente carrega,
os lugares estão em nós.
(J. L. Borges)

Os lugares e os mortos a gente carrega;
os lugares e os mortos estão em nós.
Quiséramos que eles estivessem onde estamos;
queremos que eles estejam onde estivermos,
                depois de nossas vigílias,
além do triste Aqueronte,
onde toda lágrima será enxugada.
Lá, naquele dia em que
nada perguntaremos.


Luiz Roberto Evangelista
Department of Physics
Universidade Estadual de Maringá




sábado, 16 de março de 2013

Coração civil

Pra fechar o sábado e abrir o domingo. Com o coração em paz.

Maringá em minha vida


A turma, em dois tempos. Nos dias de hoje...
...e nos tempos da escola, em 1979.

Tive várias turmas ao longo da vida.
A mais presente é a de Maringá.
Naquele ano, 1979, meu pai e minha mãe foram me levar 
para estudar lá. Eu queria estudar fora, seguir minha vida de 
viajante, que já tinha começado antes, desde os 15.

Maringá surgiu como uma alternativa. Fui bater no colégio Marista.
Não era tão longe de Foz do Iguaçu, onde meus pais viviam e, sei lá mais porque.
Fui.

Meu primeiro endereço foi a pensão da Dona Santa. uma baiana de Jequié. 
Parecia minha avó. Havia outros "eus" por lá. Gente de todo lado. Uns estudando o ensino regular, uns caxeiros viajantes, uns fazendo curso de aviação privada para tirar brevê de piloto. Fui gostando do lugar desde a primeira olhada. 

Uma casa simples, na Avenida Paraná. 
Com o que os meus pais acertaram pagar, eu teria direito a um pequeno quarto só pra mim. Um quarto com saída externa, de frente para o pátio, no quintal da casa.
Cabia pouca coisa ali. Mas eu tinha pouca coisa. Então cabia tudo. 

O colégio
O Colégio Marista, aos meus olhos, era imenso. E desafiador.
E aquelas pessoas todas, e a minha turma, o terceirão A...
Era uma turma especial. 

Eduardo Esteves foi um dos primeiros a estabelecer amizade comigo. Tanto, que a casa dele foi a minha segunda morada. Seu Joaquim e Dona Rosa, cumpriram o papel de meus pais portugueses. Um casal que trago no coração. A quem agradeço a acolhida como filho.

Depois, fiz novos amigos: Arthur, Chico, Eduardo Bruder, Mariza Poltronieri, Ghyslene Rodrigues, Edna Maria, Edna Marcia, Mauro Faccioni, Ricardo Sandri, Pauletto Porcu, Danilo, Carlos Eduardo Pezzodipane, Alverina Sallé, João Max Preiss, Áuro Fábio...
Incrível como ainda hoje os nomes e sobrenomes vem fácil. Éramos uma turma unida, diferente.
E continuamos a ser. Mesmo mais de três décadas depois. 

Estávamos às portas de um vestibular, às portas de uma nova fase da vida e o desconhecido nos unia. Como a filosofia nos unia, e a poesia, e a música também.

Nossas tardes na casa da Mariza, ouvindo os discos de sua irmã mais velha, a Heloísa, eram memoráveis. Meninos novos ouvindo música de "velhos". Coisa estranha e deliciosa. Meninos novos, lendo livros de velhos. Meninos novos brincando de inaugurar a vida.

Dona Marilene, minha sintonia anti-fome.
Na casa do Ricardo, a gente ía pra comer doces. Os mais lindos e  saborosos, feitos pela mãe dele.
Na casa da Ghy, pra estudar (mas ninguém estudava. Era filosofia pura e devaneio).
Na casa da Edna eu ía filar comida. Dona Marilene, mãe dela, tinha lá um quê de proteção comigo. Mais, de identidade. Algo que nos permitia um entendimento por olhares. Sempre achei que ela sabia quando eu estava com fome da comida dela.  

Durante as olimpíadas Maristas a gente tinha time de quase tudo. 
O feminino de vôlei era uma vergonha. Mas a gente torcia, mesmo assim.
Não estávamos ali pra ganhar troféus. Estávamos ali para viver os últimos dias de 
adolescência. E os primeiros dias do resto de nossas vidas.

Já se vão 34 anos de tempo. E ainda assim, a vida fez o capricho de nos manter por perto. Muitos de nós. Muitos mesmos. 

Luiz, o nosso professor de filosofia. 
A minha turma de Maringá é uma das mais vivas em minha vida. Uma das mais presentes. Luiz, o nosso professor de filosofia, que o diga. Não vamos virar 35 anos sem nos ver. Está quase na hora da gente se juntar de novo. 

O tempo é outro.
A vida de cada um tomou novo rumo.
Mas a essência continua.
Quando nos juntamos, somos de novo aqueles meninos e meninas ávidos de vida, loucos pelo desconhecido e sinceros amigos.

O tempo não para, moçada. Vamos nos ver?