sábado, 30 de julho de 2011

Infinito Circular

Ontem assistimos, toda a família, um documentário sobre os Novos Baianos. Uma viagem no tempo. Uma delícia. Dessas coisas que não podem se perder nunca. Agora não vai dar  tempo de escrever muito. Mais tarde eu escrevo. O texto já está na cabeça. Por enquanto, fiquem com esse aperitivo.

Adele

Pra fechar a sexta e iniciar o sábado. Rolling in the Deep.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Caminhada


Acabo de receber um presente. Com olhar de fotógrafo, Ronaldo Ferreira tratou de me surpreender com um instante eternizado pela sua lente. Eu e Gabriel. Gabriel e eu. O texto que compõe a imagem me veio de uma só vez, desde o momento em que vi a foto. Valeu, Ferreirinha. Fechei bem o dia. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mônica pra estrada

A história recente da moda brasileira, virou exposição itinerante e vai viajar pelo país a fora, no espaço de um ano, a contar de agora. A responsável por essa viagem imagética, por esse misto de painel de fotos/arte sustentável, que recebeu o nome de “O Boom na moda brasileira”, é a jornalista e ecodesigner Mônica Horta.

Imagens exclusivas de profissionais como Paulo Borges,
Adré Hidalgo e DJ Mau Mau, clicados nos anos 90
A exposição conta a história recente da moda brasileira e homenageia os seus principais protagonistas. São dezenas de registros fotográficos, divididos em duas partes: Metade das fotos foi feita no início dos anos 90. São imagens surpreendentes, como as de Alexandre Herchcovitch e Gisele Bündchen (nos bastidores).

A outra metade, é composta de imagens feitas durante edições mais recentes do SPFW. E também emociona, porque registra flagrantes de grandes nomes, imprescindíveis para a história da moda em nosso País, como Marcelo Sommer e Lino Villaventura.

Mônica Horta, de quem eu já falei aqui no blog, vai além do simples registro. Ela compõe um documento substancial, uma referência para todo aquele que queira entender o que aconteceu e quem foram os responsáveis pelo salto gigantesco dado pelo mundo da moda, no Brasil.

Além disso, Mônica transforma o lúdico em lição de respeito ao meio ambiente. Cada uma das molduras das suas fotos é composta por materiais recicláveis - como  garrafas pet, madeira, colagens de tecidos ou botões. Há também espaço para a utilização de matéria-prima natural, como bambu, cabelo de milho e couro.

Ronaldo Fraga e sua moldura trabalhada
com fibra de taboa, fios de telefone e botões

A exposição começou esta semana na FNAC de São Paulo, mas deve passar pelas principais capitais brasileiras, incluindo a Capital Federal. Mônica prometeu me avisar quando vier pra Brasília. Por enquanto, a bola está com SP. mas a gente pode curtir um pouco das fotos por aqui.

Grandes nomes em imagens inéditas,
com molduras feitas a mão, com rendas garimpadas em brechós

domingo, 24 de julho de 2011

Uruguai, Campeón!

Negro amor

Dylan, na foto original

Zé, na capa do disco-homenagem
Faz quarenta e seis anos. Era 1965 quando Bob Dylan gravou "It's All over now, Baby Blue". Uma canção de desilusão. Ou de despedida. Ou, mesmo, de amor. Há várias versões atribuindo a quem a música se endereçava. Uma delas diz que era para a Joan Baez, companheira, musa , melhor amiga... Tudo, desde o início da carreira de Bob.

Ontem, ainda sob o impacto da morte da Amy, me dei um presente. Comprei o DVD em que o Zé Ramalho canta Bob Dylan, em versões de livre poesia. De cara, me emocionei com a interpretação de Negro Amor (versão que leva a assinatura de Caetano e  Péricles Cavalcanti, para o original de "It's All over now, Baby Blue", de Bob Dylan).

Resolvi vasculhar a blogosfera até achar o que queria. E achei. Aí embaixo, está o original da canção de 1965, na voz do próprio Dylan.



Agora, a versão de Caetano e Péricles, na voz de Gal Costa, num quadro do programa Fantástico, da TV Globo, em 1977. Doze anos depois da canção ter sido lançada, Gal fazia uma daquelas interpretações que - pelo menos para mim - soam como definitivas.



Quarenta e seis anos depois, Zé Ramalho reinventa a música "Negro Amor". Com a autoridade de quem mais se aproxima, aqui no Brasil, da história e do estilo de artista que transformou Bob Dylan em um ícone da música folk e do Rock, em todo o mundo.

Não é novidade que Bob é um dos ídolos do Zé. Também  se sabe de longa data que as canções de Dylan tiveram força  e influência definitivas na formação musical de Zé Ramalho. Fazia tempos, Zé Ramalho avisava que queria fazer uma homenagem ao seu ídolo maior. Por aqui, as canções de Zé Ramalho, seja pela temática, seja pela extensão das letras, sempre nos remeteram a uma influência inquestionável do trabalho de Dylan.

Pra alegria de todos e contrariando o coro dos descontentes, o que poderia ser uma cilada musical resultou em um belíssimo disco. Está tudo lá no novo disco de Zé Ramalho "Tudo está mudando". Uma homenagem digna. Até na foto escolhida pelo Zé para ser a capa do disco (fotos lá de cima). Fã e ídolo se misturam na mesma batida. Quer ver só? clica aí e assista "Negro Amor". Quarenta e seis anos depois, Bob Dylan, incorporado no Zé Ramalho.

sábado, 23 de julho de 2011

O mundo está mais pobre

Mariana, minha filha me ligou. - Pai, onde você está? Estou a caminho de casa, já chego. - Pai, você viu?... (com a voz meio embargada). Cinco segundos de apreensão. Cinco absurdos segundos, até ela soltar a voz. - A Amy... Foi encontrada morta, agora há pouco.

Amy Winehouse. Era de quem ela falava, com o coração dolorido, eu sei. Do mesmo jeito que um dia eu também falei pra ela, com o coração cheio de dor, sobre a partida da Cássia Eller. Crônica de uma morte anunciada. De alguma forma, a gente já esperava. Não há surpresa, há dor. Os meus ídolos e os da Mariana, continuam os mesmos. Exatamente como na canção. E como diz a minha comadre Margarida Marques, hoje, o mundo acabou de ficar um pouco mais pobre.

Em minha cabeça vai ficar para sempre uma das interpretações mais envolventes da Amy, Back to Black, ao vivo, em Londres. Justo a música que eu mais ouvi durante o período de campanha politica, quando eu vivi no Norte de Minas Gerais, em 2008. O disco foi presente de Mariana, antes de eu embarcar. Ele embalou muito a minha solidão. A minha companhia. A minha vida. E embora ela já tenha ido daqui, vai continuar embalando.

Back to Black. Quando escuto essa música de olhos fechados, enxergo Billie Holliday. E penso comigo que as duas se completam. Amy e Billie. Pra Mariana. No melhor de Amy. Pra matar a saudade. E para carimbar o passaporte da Amy para a eternidade.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Tempo de Pipa

Pra terminar o dia e levantar o astral.
Tempo de pipa. De Cícero, um moleque carioca que acaba de lançar na internet um primeiro disco solo: Música de apartamento. A crítica é boa e o cara vem ganhando espaço como poucos. Tá aí. Pra arribar.
Tempo de Pipa. Depois de assistir o clip, se quiser baixar o disco inteiro é só clicar aqui.

Mick, o reinventor

Pouca gente no mundo pop tem a vitalidade de Mick Jagger. Os Rolling Stones vão bem, obrigado. Mas ele não sossega o facho, nunca. Enquanto descansa, produz jóias raras. E está sempre inventando moda. Agora, Mr. Jagger vem de novo. Em ondas, lembrando o mar, da poesia de Vinícius. E não vem só.

A mais nova traquinagem do líder dos Stones atende pelo nome de  Super Heavy. É um grupo composto por ninguém menos que Joss Stone, Damien Marley, A. R. Rahman, Dave Stewart e, claro, ele próprio, Mick Jagger. 

Na quarta-feira desta semana, o site dos quatro liberou um vídeo de cinco minutos com as primeiras imagens deles em estúdio. É uma pequena amostra do que virá no disco. O lançamento oficial do CD do quarteto, cuja capa será essa foto que está ai acima, está marcado para 20 de setembro. Pelo aperitivo, eu já fiquei alucinado. Estou na fila. Veja o vídeo e tire as suas próprias conclusões.

O pedido

Uma saudade, um pedido, um sentimento. Elomar é um sujeito nobre. Um nobre do sertão, como João Guimarães. Como os nobres que se encontram no sertão de Minas. Como as saudades de Minas. Como as saudades, enfim.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Paisagens

* Por Marcia Braga

O Rio de Janeiro continua lindo!
Embora alguns afirmem que não se vive de paisagem. Assim, penso nos irmãos Coen, que fizeram um filme movidos pelo desejo de nos mostrar a paisagem de neve em Dakota do Norte (Fargo/1996). O imenso branco do lugar.

Penso em John Ford, que se apaixonou pela região que viria a ser cenário de vários de seus filmes. Na descrição de Canudos, já perto da sua destruição, que a visão panorâmica de Euclides da Cunha nos deixou: "... lembra uma cidade bíblica fulminada pela maldição tremenda dos profetas..."

Penso em Tolstoi, que fugiu de casa com mais de 80 anos de idade, para morrer sentado no banco de uma pracinha. E em Umberto Eco, que ambientou seu romance "O Nome da Rosa" por duas razões já confessadas: envenenar um monge e incendiar uma biblioteca.

Aliás, o fogo parece ser o destino de muitas delas. A do mexicano Octávio Paz consumiu-se em chamas. Vocês conseguem imaginar o que era a biblioteca de Octávio Paz?

Sobre as paisagens, lembro-me de Manuel Bandeira:

"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
O que eu vejo é o beco."

*Marcia Braga é jornalista e professora do curso de Jornalismo
da FUNORTE, em Montes Claros, Minas Gerais.
Sua auto-definição é um poema:
"Meia dúzia de palavras
sobre a minha origem: sou mineira de BH, jornalista e artesã,
de palavras e objetos".

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Alma

A perfeição desse filme de animação é comovente. Como comovente é também a história que ele conta. Algo que nos obriga a pensar na vida, no sentido dela, na alma. Pra fechar a noite de quarta, enxergando a alma. A tua, a minha, a de todos nós. Alma.  

Alma from Rodrigo Blaas on Vimeo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O cerrado vai ao litoral

Acabo de receber uma mensagem dos meninos da música de Mato Grosso do Sul. Marcio de Camilo foi o porta-voz da turma, que reúne Celito Espíndola, Paulinho Simões, Jerry Espíndola, Guilherme Rondon, Dino Rocha e tantos outros, incluindo o próprio Marcio e o seu projeto "Hermanos irmãos", de quem já postei bons materiais aqui no blog.

É que essa turma toda reunida está participando do projeto  "Música do Brasil Central" que começa a acontecer hoje, no CCBB do Rio de Janeiro. Quem estreia as apresentações é o grupo "Chalana de Prata", uma invenção de Paulinho, Guilherme, Celito e Dino, que deu certo e que espalha pelo Brasil o melhor da música que também considero "minha".

Quem estiver no Rio, eu aconselho a não perder. E vou ficar na torcida pra que o projeto passe também por aqui, pelo CCBB de Brasília. Caso venha, aviso logo, vou ficar no gargarejo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A fada dos dentes

Um filminho de animação pra terminar a noite de segunda. A história, os desenhos, e a direção são de Izabela Melamed. A música, aliás, bueníssima, é de Jack Brewer. Boa noite. Bons sonhos.


Tooth Fairy Affair from Izabela Melamed on Vimeo.

domingo, 17 de julho de 2011

Sayonará

Em matéria de futebol, meu coração hoje é japonês. É que a seleção feminina de futebol venceu a poderosa seleção americana, na final da Copa do Mundo. Depois de um 2 X 2 no tempo normal e na prorrogação, venceu a disputa nos pênaltis. Nos pênaltis, eu disse! Confira clicando no link aí embaixo:

http://globoesporte.globo.com/futebol/mundial-feminino/noticia/2011/07/japao-segura-pressao-americana-e-vencem-o-mundial-nos-penaltis.html

Olhando o movimento

Acabo de assistir o documentário LENNONYC, lançado em 9 de outubro de 2010, dia em que o compositor faria 70 anos. Não há como não se emocionar. O diretor Michael Epstein sabia que tinha que fazer algo diferente, ao contar uma história já tão explorada. E ele conseguiu.

Usou fitas de áudio inéditas, produzidas durante sessões de gravação em estúdio, depoimentos de integrantes da banda e de produtores que trabalharam com ele nos seus últimos anos de vida. Usou a riqueza do acervo de Yoko e o seu testemunho amadurecido.

O filme mostra um Lennon instigante e em transformação. A história se desenvolve sobretudo no período em que ele se muda para Nova York, entre 1974 e 1980, ano em que foi assassinado. Propositadamente, o diretor não cita, em nenhum momento o nome do seu algoz. É a história de John em mutação. Do artista pop, líder dos Beatles, ao pai dedicado do filho Sean, que teve com Yoko.

Há espaço para a militância pacifista; para o "fim de semana perdido"- em que ele quase se mata de tanta embriaguez;  para o imigrante em busca do direito de ficar nos Estados Unidos; para o gênio da criação musical; para o amante; para o homem; para o ícone.

Quando o filme termina a gente fica com a sensação de que a partida de John Lennon foi mesmo precipitada. Um tiro. Uma ruptura com o real. A interrupção de um sonho. Um ponto final numa frase inacabada. Impossível não se emocionar.

Dançando nas nuvens

Ela nasceu Virginia Katherine McMath, em Independence, EUA, no dia 16 de julho de 1911. Foi uma premiada actriz/dançarina/cantora do cinema e teatro norte-americano. Tornou-se famosa adotando "Ginger Rogers" como nome artístico. O nome Ginger surgiu,quando ainda menina, a sua prima mais nova não conseguia dizer Virginia e então dizia "Ginja".

Aos 19 anos estreou em Hollywood no filme Inconstância, produzido pela Paramount. Conheceu Fred Astaire na década de 1930 e com ele fez dez filmes musicais, tornando-se uma das suas mais célebres parceiras. Em 1941, ela recebeu um Óscar de Melhor Atriz pelo seu papel em Kitty Foyle, num papel dramático. Trabalhou em Hollywood até 1971, casou-se cinco vezes e fez quase 100 filmes entre musicais, comédias e dramas.

Se  estivesse viva, Ginger teria completado 100 anos ontem. Hoje, nesse domingo ensolarado de inverno, os dois devem estar dançando nas nuvens. Pra comemorar.

Por aqui a gente também comemora revendo uma das cenas mais clássicas do cinema mundial. Vale a pena gastar seis minutinhos para assistir Fred Astaire e Ginger Rogers cantando e dançando "Let's Call The Whole Thing Off",  a música de George e Ira Gershwin. Trilha sonora do filme "Shall We Dance" (1937)



sábado, 16 de julho de 2011

Por que é tão difícil?

Porque minha comadre Margarida Marques chega na semana que vem. Porque a voz desse negão é um espetáculo.  Porque eu já falei dele aqui no blog. Porque hoje é sábado. E porque se fosse fácil, não era pra nós. Charles Bradley. "Why Is It so Hard".

Dobrada à moda do Porto

(Poesia) *Álvaro de Campos e (Texto) *Mariza Poltronieri

Um dia, num restaurante,
fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor
como dobrada fria.
Disse delicadamente
ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada
(e era à moda do Porto)
nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão,
nem num restaurante.
Não comí, não pedi outra coisa,
paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância
de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos
era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor,
porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Tia Anita é uma mulher bonita aos seus oitenta e poucos anos. Pele invejável para qualquer mocinha, sem nenhuma plástica ou maquiagem. Ela é irmã de minha mãe Olívia, também uma mocinha de oitenta e um. A casa original dessas garotas é a casa das nove mulheres, todas elas longevas e faceiras. Adoro saber que o sangue delas corre em minhas veias. Tenho grandes chances de passar dos cem anos, com carinha de oitenta, serelepe pimpona.

E o que tem o meu centenário a ver com Álvaro de Campos? A Dobrada à Moda do Porto, nossa dobradinha com feijão branco. Tia Anita fazia como ninguém, mas a história é uma delícia. Todos os anos, até seu Luís mudar para o mundo dos sonhos, passávamos as férias no litoral gaúcho, em uma praia chamada Arroio Teixeira.

Durante muito tempo, sem conhecer outro litoral, achei que uma praia era feita de água gelada, ondas de afogar e muito vento, muito mesmo, com areia fininha queimando minhas canelas absurdamente brancas. Normalmente na volta, passávamos por Curitiba para visitar tia Anita e comer sua deliciosa dobradinha. Ela e meu tio Fernando eram donos de uma churrascaria e a tal dobradinha era um dos pratos mais requisitados. Também serviam uma deliciosa perdiz no espeto, forrada de queijo parmesão. De comer e aplaudir, agradecendo a Deus por tamanha felicidade.

Eu tinha nove ou dez anos e não via a hora de chegar e devorar aquelas tirinhas brancas e seu tempero maravilhoso. Comia e imaginava que devia ser um tipo de macarrão. Ingenuamente, como quem já sabe a resposta mas não sabia, perguntei à minha mãe o que era dobradinha. “É bucho de boi!”, respondeu com todas as outras explicações, “o estômago do boi”. Ai, olhei para o prato fumegando, creio que já era o segundo e parei no meio da garfada. Dobradinha nunca mais.

Passou muito tempo até fazer as pazes com a Dobrada à Moda do Porto, um preconceito infantil. Hoje, como culinarista, sou um tanto quanto chinesa, tudo o que cresce, anda, nada ou voa é de comer, até que se prove o contrário.

E a poesia ? Concordo plenamente com Fernando Pessoa e seu heterônimo Álvaro de Campos. O amor, assim como a dobradinha tem que ser muito quente. Frio, nem um nem outro dá para engolir.

*Álvaro de Campos é um dos heterónimos mais conhecidos do poeta português Fernando Pessoa.
*Mariza Poltronieri é culinarista em Maringá, PR. E tem espaço garantido aqui, para escrever sempre que quiser, sobre alquimia gastronômica. Ou, sobre o que ela desejar.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Eu também não trocaria...

Não resisti. Mariana, minha filha acaba de me mostrar um clip lançado à rede poucos dias atrás por uma banda independente - a Soulstripper. É uma brincadeira muito legal, de gente grande que conta suas histórias amorosas, dsilusões e cafajestices com uma linguagem de criança. "É Rock'n Roll de menino pra menina", diz Bruno Fontes, vocalista da banda.

A música e o album já existem há dois anos. O grupo é do interior de São Paulo. Novo mesmo, na história, é o videoclip, iniciativa do produtor Paul Domingos, dono de uma produtora chamada "Lunática Filmes".  

O nome da faixa que vocês vão ver aí embaixo é um primor: "Não Trocaria um sorvete de Flocos por Você". E faz parte do album "As garotas e todos os problemas que vem com Elas". Não é genial? Falar o quê mais?

Corra, aperte o play e assista logo!

Olhar de fotógrafo

foto: Ronaldo Ferreira
Fim do dia. Passo na UnB (Universidade de Brasília) para apanhar o Gabriel, meu filho. Juntos, temos que atravessar novamente a cidade para buscar a Mara, no anexo do Palácio Buriti, sede do governo local. Quero evitar o Eixo Monumental, que nesse horário fica paralisado com tanta gente voltando pra casa.

foto: Gabriel Viegas
Decido cortar pelo setor de Embaixadas Norte. Via rápida, transito livre. De repente, o fim do dia resolve se mostrar diante de nós. Uma profusão de nuances, de cores, por sobre a silhueta da cidade. Penso comigo: Brasília é linda.

Foto: Maranhão Viegas
Gabriel pensa a mesma coisa. Reduzo a velocidade. Gabriel pega o meu I-phone e começa a fotografar. Nada profissional. Nada para ganhar concurso. Apenas um registro para aquele momento único.

Foto: Ronaldo Ferreira
Do outro lado da cidade, no mesm horário, Ronaldo Ferreira, fotógrafo profissional, também se encanta com o céu do fim do dia, em Brasília.

foto Ronaldo Ferreira
Super profissional, ele aponta a sua lente para o horizonte e dispara. Tiro certeiro. Nada para ganhar concurso. Apenas para registrar aquele momento único.

foto Ronaldo Ferreira
Em lugares diferentes, no mesmo dia e horário, nós três ( e mais quantas mil pessoas, hein?) tivemos a mesma idéia de ceder uns minutos da nossa vida para olhar para o céu. Céu de Brasília. Nada profissional. Sem pretensão de ganhar concurso. Apenas para admirar um pouco a poesia do fim do dia.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Vida longa, Mr. Rock

O dia já tinha terminado. Mas resolvi recomeçar. Esticar por mais algum tempinho. É que hoje é o dia do Rock'n Roll. E não dava pra ir domir sem registrar isso aqui, ignorando os vários alertas, enviados pelos amigos que me leem diariamente.

Muita gente já escreveu hoje sobre isso. E, de verdade, não sei se meu conhecimento me premite fazer algo mais bonito, ou mais brilhante, ou mais consistente. Nem mesmo sei se quero fazer algo assim. Queria só dizer da minha satisfação de enxergar nessa manifestação sonora algo que mais une do que desune.

Nem falo das peças lindas que já foram criadas e que estarão eternizadas em nossas mentes, em nossos corações. Meus ídolos são os mesmos de milhares, de milhões de pessoas, de todas as idades, espalhadas por esse mundão de meu Deus.

Elvis, Raul, Hendrix, Janis, Kiss, Beatles... a lista é imensa, infinita. Se tivesse que achar a ponta desse novelo, não teria como ter certeza. Mas penso aqui comigo, que seja ela qual for, vem da Louisiana, passa por New Orleans, tem raiz negra e DNA de Blues.

No fundo, no fundo, acho que todo mundo, um dia, bebeu dessa fonte. Então, porque acho que já estiquei demais o dia, fecho essa jornada com o Bob Dylan e The Byrds. Feliz dia do Rock'n Roll!

Pra fechar a quarta

A Julieta Venegas é uma das minhas cantoras preferidas. Jovem mexicana que faz sucesso mundo a fora e sobre quem eu já falei aqui no Blog, contando uma história engraçada, que envolve uma outra grande amiga minha, jornalista, a Ada Liz Cavalheiro.

Esse clip que está ai abaixo não é novo, mas é muito legal. Uma delícia, para encerrar a noite de quarta.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Naqueles tempos...

Em 1980, quando cheguei ao Rio Grande do Sul, estava em pleno andamento uma revolução cultural. Na música, no cinema, no teatro, nas artes, enfim. Para mim, era o início do meu curso de jornalismo na UNISINOS. Era a descoberta de uma terra que não era a minha, que não era tão quente quanto a minha, que não tinha os sabores da minha terra e ainda assim, era fantasticamente provocante.

Foi assim que descobri Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil. Eles eram os caras de ponta, ousados demais, fazendo cinema na bitola "super 8". "Deu pra ti Anos 70" e "Coisa na Roda", dois dos primeiros filmes feitos por eles, viraram  clássicos. Estavam plantadas ali, consciente ou inconscientemente, as raízes do bom cinema gaúcho que existe hoje.

Um pouco mais tarde, por conta da minha vida cruzar com a da Mara, terminei me aproximando de figuras como o Carlos Gruber, a Mica Sauressig e o Nilo Cruz (no cartaz de "Coisa na Roda" aí acima, Nilo é o terceiro, da esquerda para a direita e Gruber é o quarto). Todos eles estudaram com a Mara, quando ela ainda era Franke, no Sinodal, um internato, em São Leopoldo. E de alguma forma tambem estavam naquele momento envolvidos com o cinema ou com o teatro, em Porto Alegre.

No teatro, a montagem de "Marat e Sade" conquistou público e crítica e lotava as sessões nos fins de semana. A peça chamava-se originalmente "Perseguição e Assassinato de Jean-Paul Marat representado pelo Grupo Teatral do Hospício de Charenton sob a Direção do Marquês de Sade”. Um polêmico roteiro ficcionista sobre a Revolução Francesa, escrito em 1964 pelo diretor de cinema e dramaturgo alemão, Peter Weiss.

No rádio tocavam Nelson Coelho de Castro, Bebeto Nunes Alves e Ney Lisboa. Todos eles "filhos" de um camarada chamado Carlinhos Hartlieb. Um gênio de vida curta (como é comum aos gênios). Que foi encontrado morto em uma casa em Garopaba (que virou capa do disco póstumo, que está aí abaixo), quando lá não existia nada além de areia, mato, praia e pescadores. Antes de partir, abriu caminho para uma geração inteira de músicos, que se encarregou de dar expressão e consistência à  nova música popular gaúcha.

Era uma época de pouco dinheiro e muita diversão. Tempo de pegar o ônibus em São Leo e desembarcar em POA. De caminhar pela Independência, descer para o Bonfim, onde os magros e as magras de todas as tribos se juntavam para terminar a noite no Bar João, ou no Ocidente. Claro, depois de assistir um filme de Godard, no Bristol; ou depois de ver um show da banda "Atahualpa y os Panques" no auditório Araújo Viana.

Hoje, não sei direito porque lembrei de tudo isso. Acho que foi a partida da Iara Maurente, uma jornalista gaúcha que esteve por uns tempos em Brasília, mas que já está de volta ao Sul. Conheci Iara através do Mauro di Deus. E nem foi preciso muito para nos transformamos em amigos, como esses amigos de infância - de quem a gente gosta sem querer. Só por gostar. E a nossa amizade virou "pra sempre".

Então, acho que é isso. Esse texto, Iara, é pra dizer que foi boa a tua passagem por aqui. E que eu estou torcendo para que seja melhor o teu retorno aos pagos. A música aí embaixo, encontrei vasculhando a blogosfera. É uma das que o Nei Lisboa cantou no show que a Universidade de Caxias promoveu, no ano passado, para comemorar os 30 anos de carreira dele. Pra te lembrar.

Uma orquídea e um amor

Os dois namoravam há mais de três anos. Ele 38. Ela 25. Mas não havia diferença, nem de tempo, nem de espaço, em seus corações. João gostava da natureza. Maria adorava flores. Os dois faziam planos enquanto caminhavam em um bosque nos arredores da cidade. Passeio de sábado.

A manhã um pouco fria, como são as manhãs de inverno. O silêncio composto da floresta. Pássaros, folhas, galhos secos, vento e montanhas.

De repente, Maria avista uma orquídea. Linda, amarela, nascida num ponto tangencial, onde dois galhos de uma árvore caprichosamente se cruzavam. Uma beleza quase inalcançável, como se tivesse sido criada para ficar ali. Uma composição permanente da natureza. Uma lindeza, à beira de um penhasco.

João enxergou o brilho nos olhos de Maria.

- Quer que eu a pegue pra você.

Maria hesitou um pouco antes de responder.

... – Quero. (Um querer indeciso, que quase não lhe saiu da garganta)

João deu-lhe um beijo antes de partir em direção à flor. Foi a última vez que os dois se beijaram.

A árvore e a orquídea. João e Maria. A flor e o penhasco. O acaso e a tragédia. A natureza viva. Um passo em falso. A queda. O amor despedaçado. Uma vida aqui em cima. O corpo morto lá embaixo.

A orquídea permanece no mesmo lugar de onde jamais vai sair. Maria chora a dor de um amor que acabou, numa manhã fria de sábado. No inverno. No silêncio composto da floresta.

Ficção de Maranhão Viegas,
baseada em história real que pode ser lida aqui.

domingo, 10 de julho de 2011

Nando e Os 3

Nando Olival e Fernando Meireles são dois diretores que surgiram para o público e para o cinema brasileiro em 2001, com o filme "Domésticas", que misturava documentário e ficção numa comédia originalíssima.  Para Meireles, foi o primeiro passo de uma carreira de sucesso, que rompeu os limites da fronteira do Brasil e ganhou o mundo, produzindo cinema de qualidade universal.

Agora, há uma grande expectativa em relação ao primeiro filme autoral de Nando, "Os 3", cuja estreia está prevista para 4 de novembro. Diferente de Meireles, Nando Olival seguiu dirigindo comerciais, entre eles alguns da Vivo e os da campanha que sustentou a candidatura do Rio de Janeiro para tornar-se sede das Olimpíadas de 2016.

Só agora, Nando parte para uma aventura solo, em longa-metragem. "Os 3", que custou R$ 1,3 milhões e já se chamou "Ela, ele, eu", sugere ser um filme sobre a passagem da adolescência para a idade adulta. No elenco principal, três atores estreantes - Juliana Schalch, Gabriel Godoy e Victor Mendes. É a prova de fogo para um cineasta que, lá atrás, já mostrou que tem pegada. Curta aí embaixo o trailer.

sábado, 9 de julho de 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Times Like Tihs

Pra fechar a sexta-feira. E começar bem o fim de semana.


Times Like This from Sertac Yuksel on Vimeo.

"Seu" Luís, Maria e a gentileza.

por Mariza Poltronieri*

Guernica - Pablo Picasso
Foram anos difíceis entre 1939 e 1945. A Europa, mesmo distante, abrigava uma guerra que parecia interminável e soprava seu vento assustador nos continentes distantes.Bem longe de lá, numa cidade chamada Guaporé, na serra gaúcha, um menino brincava seus dias comuns com os brinquedos que tinha: pião, pipa, bodoque.

Guaporé foi colonizada sobretudo por imigrantes italianos, mas também alguns alemães, poloneses, russos e austríacos. O menino era neto de italianos. Luís era o seu nome.Luís vinha de uma família numerosa e simples. Enquanto o pai trabalhava no curtume, a mãe cuidava dos cinco filhos e da casa. Em um lugar onde sobra gente e falta condições, Luís ia para a escola para estudar e para comer.

A Itália, na segunda guerra, era um dos países pertencentes ao eixo Alemanha, Itália e Japão. O Brasil, ditado por Getúlio Vargas, simpatizava com o eixo porém apoiou os aliados. O preconceito daquela guerra começou a espirrar em nosso povo miscigenado.

Estranhamente, algumas autoridades começaram a pontuar os brasileiros. Colônias e vilas inteiras, reduto dos imigrantes e seus descendentes ítalo-germânicos começaram a ser perseguidos e torturados. Não se podia falar qualquer estrangeirismo. Os idosos, que não aprenderam o português, ficavam trancados e em silêncio, para não serem alvos de violência. A intolerância também chegou às escolas.

Luís tinha muitos amigos na escola. Todos eles eram brasileiros. Porém, decidiram que somente os negros ou afro-descendentes poderiam ser considerados como tal e receber a merenda. Luís parou de comer e de estudar. O menino aprendeu algo muito ruim e deixou de ser amigo dos negros.

Luís cresceu e virou "seu" Luís, meu pai. Maria era uma mulher muito forte e corajosa. Era negra e analfabeta. Ela foi minha babá quando eu era criança, depois foi cuidar de sua vida, fazer e desfazer casamento, ter filhos. 

Luiz, os filhos (Mariza ao colo)
 os pais dele, em pé.
O tempo passou para todos e nos juntou em uma mesma casa. Luís, Maria, eu e o resto da família, mãe e cinco irmãos. Neste tempo, as coisas aconteciam conforme a responsabilidade de cada um. Os afazeres de Maria se restringiam ao trabalho doméstico, limpar e cozinhar. Também tinha um jeito muito especial com as plantas. Não havia sequer um matinho que não brotasse em suas mãos,flores singelas ou orquídeas se rendiam à sua autoridade.

Maria era brava porém era gentil. Seu Luís, o menino crescido, ia e vinha de Mato Grosso do Sul, botas limpas, botas sujas e dá-lhe Maria. Eu terminei a faculdade e estava em dúvida do que seguir. Não havia mais Getulio Vargas mas tinha Sarney e uma guerra inflacionária. Nada de emprego para engenheiros, fui abrir uma confeitaria. Tudo estava em obras, inclusive a minha vida.

Maria pediu as contas. Queria sair de nossa casa e se aposentar, já estava cansada da rotina de trabalho duro. Seu Luís adoeceu então ela decidiu ficar, paparico no menino que agora precisava mesmo dela. Fazia suas comidas preferidas, trocava seu lençol todos os dias, sempre cheirosos e fofinhos, cuidava de seu cão perdigueiro que já não caçava mais. Se as pernas do seu Luís não se firmavam, somente ela era convidada a amparar-lhe. Ele confiava neste amparo.

"Seu" Luís não durou muito. Mudou-se para o lugar onde nos encontramos, no sonho. Maria foi embora, pela segunda vez.

Vinícius, Mariza e Fernanda
Agora era minha vez de cuidar de minha vida, fazer e desfazer casamento e ter filhos. Maria voltou para me ajudar, por minha casa em ordem, ensinar que lugar de cachorro é lá no quintal e que gatos não podem subir na mesa. Fazer bolinho de chuva para mim e mimar meus filhos, cuidar do meu jardim, apenas alguns dias da semana. Ganhei dela uma muda de manjericão, enfiada num vaso qualquer por seus dedos mágicos, que vive até hoje. Já rendeu bons pratos. Maria cansou e foi embora, pela terceira vez.

O tempo passou e Maria adoeceu. Fui a sua casa visitá-la. As orquídeas obedientes estavam em flor, o pé de jabuticabas com os galhos e troncos forrados de pelotas verdinhas. Maria descansava em seu quarto. Levei muitas frutas e coisas gostosas de comer. Ela sabia das coisas e tinha um excelente paladar, para cozinhar e comer. Maria ficou feliz mas sofria, por uns instantes ela se esforçou para ser uma boa anfitriã e agradeceu. Despedi-me com um abraço com gosto de ontem, de muita saudade. Antes de sair, desculpou-se por não me receber na sala e disse que voltasse outra hora para colher as jabuticabas maduras.

Maria foi embora pela última vez.
 
Luiz Poltronieri
Os filhos de Maria, já estão crescidos e trabalhando. Foram eles que me revelaram algo que sequer imaginava. Me disseram que "seu" Luís pagou o uniforme e o material escolar deles durante todo o ensino fundamental.

"Seu" Luís, o menino e meu pai, aprendeu em tempo algo muito bom, com sua amiga Maria, negra e analfabeta: a gentileza e a solidariedade são os melhores remédios para vencer o preconceito.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Encontros

Acabo de ter dois encontros. O primeiro, com o meu maestro soberano, Lula Theodoro. Passamos tanto tempo nos desencontrando que eu até pensei que ele não queria mais ser "o meu maestro soberano". Abandonado, procurei um maestro suburbano. Não encontrei. Ainda bem.

Hoje, quando finalmente nos reencontramos, Lula Theodoro, o meu maestro soberano, me disse que mais uma das nossas viagens musicais está pronta. Uma toada de boi. Quase não me cabia em mim. De tanto feliz que fiquei. Amanhã, vou conhecer a toada. Depois, conto pra vocês.

Depois, tive o meu segundo encontro. Com a poesia de Manoel de Barros. Dessa, não tenho o que dizer. Tenho vontade de ler e gritar bem alto: POR QUE NÃO FUI EU QUE FIZ??????? E recomposto, chorar de tanta emoção, de tanta lindeza que esse sujeito carrega nas palavras.  Coisa simples e besta. De tão linda. (Obrigado, Bosco Martins, por me ajudar a fechar a noite de quinta).

Soberania

Por Manoel de Barros
Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação.

Mas que esses vareios acabariam com os estudos. E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio. E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande saber. Achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam das coisas simples da terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo — o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:

A imaginação é mais importante do que o saber.

Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania  nem pra ser um bentevi.

Texto extraído do livro (caixinha) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.

Quem disse que não dá?

Quem disse que dois
bicudos não se beijam?
Beijam, sim!

Bem no alto.
No infinito azul.
Sobre os galhos secos.
Não importa.

Quando se enxergam
um metade do outro...
Quando se sentem
livres na natureza...

Quando driblam,
sabiamente, as limitações...
Dois bicudos são capazes
do que nos parece impossível.

Lindas cenas de amor.
Dois bicudos,
namorando,
a se beijar.
Quem disse que não dá?

Texto de Maranhão Viegas
para fotos de Roberto Higa

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Feche os olhos, para abri-los

Não carece de palavras.
Poucas, talvez.

Feche os olhos,
a noite se achega.
Para abri-los amanhã.
Uma outra vez mais.


Open.your.eyes from Camille Marotte on Vimeo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Feliz como Cris, por um triz!

Os passos dessa menina
são incomuns.
Seus pés parecem asas.

Um corpo ao vento,
que não cabe em si,
de tão leve.

Suave movimento de quem não tem hora pra terminar.
De quem ultrapassa os limites,
sem produzir arranhões

Sem riscar a tinta,
Sem ferir o esmalte.
Leve como o vento.
Vida feliz, por um triz!

Poesia de Maranhão Viegas,
para fotos de Cris Guerra,
feitas por Cássia Paes.