quinta-feira, 26 de junho de 2014

Zoe e o Mar



Zoe foi ver o mar
Pela primeira vez
Queria mais
Pisou na areia
Em busca de uma
Linda sereia


Zoe  brincou no mar
À espera de uma sereia
O mar salgou
As pernas de Zoe
Que se esbaldou
Entre a espuma e
A areia


Zoe, que foi pro mar
Brincou na areia
Dançou na água
Rolou na espuma
Pisou na areia
Imaginando
Como seria
Aquela
linda
sereia


Zoe, é filha de Aime, que é minha afilhada. Aime é irmã de Tessai e filha de Liliana, que nasceu na Argentina mas vive na Bolívia. Liliana é minha comadre querida, desde os tempos de universidade, desde os tempos de Rio Grande do Sul. Zoe viu o mar pela primeira vez esta semana, na Bahia.

terça-feira, 24 de junho de 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

Short Cuts - Diários da Copa 6

Carta para Rudá 2

Caro amigo.

Dia difícil, esse.
Uma prova de alto nível para o coração. Para os cardíacos. 


Primeiro, por perceber a emoção achando espaço em nosso cotidiano. Nos roubar do plano real e nos transportar para o onírico, por uns minutos. Nos carregar para onde algo ainda é capaz de nos tomar quase todos (uma multidão, bem mais que 90 milhões em ação) e nos prender os olhos, e nos tirar o fôlego, como se ali, naquela esfera redonda houvesse uma dose de magia que não se traduz, insuspeita e que nos faz sentir melhor.

A isso chamamos – futebol. Estranha magia que nos torna um pouco iguais. Meninos, meninas, iguais. Não importa o resto.


Esta semana, Rudá, meu pai me escreveu. O velho Viegas, falava de um pedido de neto. Uma bola de meia. As bolas de meia da minha infância eram valiosas porque eram feitas por nós mesmos. Uma herança de conhecimento. Uma transferência de cultura. De meu avô pro meu pai. Do meu pai pra mim. E agora, pros netos dele. Na infância, precisávamos de pouco para ser feliz. Uma bola de meia, um terreno baldio, um grupo de crianças, dois times e, como diz o Felipão, a alegria nas pernas. Um bando de Bernards.

Hoje, não vimos a bola na rede. O grito ficou engasgado. Segunda tem mais. Quem sabe...

Bituca, Juscelino e os meninos do Clube da Esquina.
Li a tua resposta à minha primeira carta. Sabe, Rudá, eu tenho um carinho especial pelas montanhas de Minas. Pelos rios, pelas matas, pela gente de Minas. Cedo aprendi a admirar uns meninos que criaram um certo Clube da Esquina. E meus ouvidos nunca mais perderam a sonoridade das Geraes.

Darcy Ribeiro
Antes deles, descobri João Guimarães Rosa. Andei por suas veredas e sertões. Imaginei tipos que, mais tarde conheci pessoalmente. Em Montes Claros, terra de Darcy Ribeiro, caminhei pelas ruas como se sentisse a presença dele, das suas confissões escritas, tão bem descritas, de seus amores, de suas loucuras sãs. Conheci Jacy, mãe de Paulinho Ribeiro, com quem saboreei picadinho com quiabo (certamente o mais gostoso que já provei). 

Sim, o horizonte de Minas, entrecortado por montanhas faz o nascer do sol ser especial. Nem mais, nem menos que o horizonte daqui. Um horizonte especial.  O daqui, moldado pelas linhas e curvas do comunista mais cristão que já conheci, Niemeyer,  é também especial.

Jk, o fundador.
Mas o horizonte imaginário, aquele pensado por outro mineiro, Juscelino, merece crédito também. Não só o do comunista. Por vezes me pego olhando e imaginando, que sujeito corajoso e visionário esse tal Juscelino.

Imagine que por meio da liderança dele milhares de trabalhadores se viram instados a acreditar no sonho coletivo de construir uma cidade. Do nada. Do zero. Nascida no meio do mato, do eixo de uma cruz ou do centro de uma asa. Para ser o que é hoje. É coisa de visionário, sim.

Milhares, milhões de vozes espalhadas pelo país afora.
O nosso hino nunca foi tão nacional. 
Hoje, Rudá, não foi dia de gol. Mas o país não entrou em choque por isso. Ao invés de convulsões sociais, houve o hino cantado em voz alta (e como é lindo esse hino cantado assim). Acho que estamos um pouco mais maduros em nossos sonhares e quereres. Por mais que haja uns que insistam em dizer que não. 

Hoje, o que fica do meu dia é a grata lembrança de um encontro inusitado. Logo cedo, quando acordei, vi no chão da sala de minha casa um beija-flor aquietado. Me aproximei dele e ele permaneceu ali. Compreendi que não estava bem. Deduzi que seu voo fora interrompido por uma porta de vidro e ele estava zonzo, a espera de se recuperar para seguir voo.

Peguei-o em minhas mãos sem que ele reagisse. Dei-lhe água e fui com ele, na palma da mão, em direção ao quintal de minha casa, que dá para uma reserva florestal. Por duas vezes tentei colocá-lo no galho de uma árvore. Ele não quis.

Um novo voo, a partir da palma da mão. 
Entendi que ele queria ficar mais um pouco. Precisava de mais fôlego. Eu me permiti ficar ali, esperando que ele se recuperasse. Houve tempo para um registro. Ele, em minha mão. Protegido, resgatado para a vida. Descansado e seguro.

Num instante, zás. Ele se foi. E eu, me vi pleno de alegria por ter tido um início de dia assim. É o que me faz terminar bem esta carta. É o que me dá a certeza de que, às vezes, é importante demais saber que o pássaro em nossa mão deve voar em busca de seu próprio rumo.

Um grande abraço.


Short Cuts - Diários da Copa 5

Reproduzo aqui a bela crônica que Caetano Veloso escreveu para o Jornal Extra, sobre as suas impressões do primeiro jogo da Argentina nesta Copa e da estreia de Messi no Maracanã. 

A Copa, os argentinos e o Maracanã

Por Caetano Veloso
Caetano no Maraca - Foto reprodução Jornal Extra
"Fui com meu filho mais novo ver Argentina x Bósnia no Maracanã. Fomos de metrô. A estação da General Osório estava cheia. Gostei de ver tantos argentinos nas plataformas. Muitas camisas celeste-e-branco nos vagões (meu filho, admirador do futebol portenho desde pequeno - quando era fã de Riquelme - e devoto de Messi, usava uma camisa do uniforme B da seleção argentina) mas foram os mexicanos que fizeram mais barulho dentro do trem, gritando "México, México" e girando uma matraca ensurdecedora.


Adorei ir vendo as estações se seguirem: General Osório, Cantagalo, Siqueira Campos, Cardeal Arco Verde, Botafogo, Glória, Cinelândia, Carioca, Uruguaiana, Presidente Vargas, tudo me trazendo à mente as zonas da cidade acima. Não sei se na Uruguaiana ou na Central (talvez antes), tivemos de trocar de linha, passando da que vai para o Uruguai para a que vai para a Pavuna. Na espera do trem em que prosseguiríamos, tivemos um trailer do que a multidão argentina faria no Maracanã: grupos enormes de rapazes de azul e branco puxando cânticos lúdico-bélicos com voz mais próxima à de coro de ópera das torcidas italianas do que das guturalidades bárbaras dos ingleses.


Na estação Maracanã, um largo rio desse coral dominava a passarela. Já nas arquibancadas, ouvíamos com emoção os refrãos. Esperávamos alguma torcida brasileira contra a Argentina. Mas os gritos de "Olê olê olê olá, Bosniá, Bosniá" só cresceram quando o time argentino pareceu bem menos enérgico do que a torcida - e os bósnios ameaçaram dominar. O gol da Bósnia encorajou o narcisismo das pequenas diferenças que alimenta a rivalidade entre argentinos e brasileiros. Os torcedores argentinos tinham tomado conta do Maracanã desde a entrada do seu time. O gol contra (será que é a regra nesta Copa?) silenciou os pouquíssimos torcedores bósnios e os muitos brasileiros que os apoiavam. Meu filho profetizou que Ibisevic traria força à Bósnia. E seu gol excitou a torcida anti-rioplatense.


O Maracanã cheio de argentinos torcendo era uma beleza. Senti a força do sentimento de nacionalidade como uma coisa que encontra no futebol um canal de expressão sem vergonha. Meus olhos se encheram de lágrimas. A rivalidade Brasil-Argentina me fazia sorrir. Uma três vezes pintou eco de começo de briga em algum lugar: os assentos batucavam com as pessoas levantando-se de repente para ver (e possivelmente defender-se). Mas nada cresceu. Uns brasileiros à nossa frente, que vaiavam os argentinos e louvavam a Bósnia, revelaram-se ao substituir a frase "soy argentino", num cântico, por "sou vascaíno" - e por dizerem, ao ver que um brigão expulso lá no alto vestia camisa rubronegra, "só podia ser flamenguista".


O fato é que, quando os torcedores brasileiros em peso decidiram responder ao "olê olê Messi" com um "olê olá Neymar", Messi, que parecia inativo, fez um daqueles gols precisos e surpreendentes que só ele faz. Ele pareceu instigado. Foi um diálogo Brasil-Argentina de grande profundidade. No todo, para mim, foi uma experiência exaltante e, de algum modo secreto, animadora. Há Copa, o metrô anda, muita gente que nem sabe onde fica a Bósnia gritou o nome desse país, e nossa íntima Argentina chegou a brilhar num corisco, sem que houvesse tempo e ritmo para que hostilidades brutas aflorassem. Estávamos longe dos palavrões dirigidos a Dilma no Itaquerão. Esses, não dá para perdoar."

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Short Cuts - Diários da Copa 4

Carta para Rudá Ricci. 

Pequena torcedora chega ao Mané Garrincha.
Não é Carnaval, mas parece.
Foto: Xinhua/Liu Dawei
Querido amigo, Rudá

Não é carnaval no Planalto Central do País. 
Mas parece. 

A capital da política, dos escândalos, das propinas, de repente,
cedeu lugar a uma gente estranha - por ser alegre e desprovida de urgências
que não sejam um bom jogo de futebol.

As longas filas que se formaram diante do Mané Garrincha (não adianta, ele nunca será o "Estádio Nacional"), no último domingo, dia do jogo entre Equador e Suíça  foram engolidas em poucos minutos. Não deu tempo de esquentar a cabeça no sol. E se esquentou, não foi o suficiente para romper a barreira do bom humor. 

Brasília está em festa. Vestida para festa. Coberta de verde e amarelo. 
Por uns poucos dias, procura-se um novo escândalo nas páginas dos jornais 
e o maior que encontramos é a paralisia do Cristiano Ronaldo diante de uma 
enebriante Alemanha. 

A Catedral de Brasília, vestida de verde e amarelo. 
Depois da Copa, certamente, as obras e o tal legado da Copa vão servir de combustível para a campanha política. Mas, por enquanto, as ciclovias estão sendo usadas por ciclistas deslumbrados com a arquitetura e com o verde da cidade. 

Os turistas apaixonados e cheios de orgulho pela "Capital Museu A Céu Aberto",  nos fazem lembrar que, sim, é um orgulho viver neste Patrimônio da Humanidade

Por uns poucos dias, nos dividimos entre cuidar do que é nosso e nos envaidecermos com o que temos de melhor. Brasília é um encanto. 
Apesar da política que, por vezes, exala um mau cheiro quase insuportável. 

Sim, Rudá. A Copa está acontecendo. E está dando certo. Não se sabe por quanto tempo, não se tem certeza de que o Brasil seja o vencedor. Mas há pelo menos uma certeza pairando no ar: Está tudo bem diferente do que muitos previam. A expressão "Imagine na Copa", hoje soa envelhecida. Estamos vivendo a Copa. E o Brasil, uma vez mais, se mostra maior que os seus problemas. 

Não é carnaval no Planalto Central do País.
Mas parece. 

domingo, 15 de junho de 2014

Short Cuts - Diário da Copa 3

Mãe de meninos 2
Por Renata Sanches

Renata Sanches
Parir dois mequetrefes e viver rodeada de testosterona é uma experiência única sob os pontos de vista mais inusitados.
Todo um padrão estético é desconstruído, um universo de novos personagens surge, e os mais improváveis paradigmas são questionados.

Quando meus meninos ainda estavam na primeira infância, estar numa loja de brinquedos, entre monstros, Transformers, super-heróis e dinossauros me era inédito; criada que fui em meio a uma profusão de irmãs, amigas, primas , tias, avós, bisavós, laços, rendas e frufrus.

Cada prateleira representava um desafio. Saber qual era o monstro "cool" e qual aquele que era "so last season" exigia perspicácia e informações em doses maciças.
Depois vivenciei a lúdica-nipo-fase, que coincidiu com um projeto meu de trabalho no Japão.



Todo final de semana eu despencava para uma daquelas mega lojas em Akihabara, com 8 andares, listinha em mãos, determinada como um sabujo da realeza inglesa, pronta para a caça implacável.
Virei uma expert em Yu-gi-oh, Pokemons, Bakugans. 


A-háaaaaaa.... vcs não contavam com minha astúcia, e sim, eu descobri que as séries difíceis do Diamonds ficavam nas prateleiras mais baixas!! E sabia que as caixas mais bonitas nem sempre continham as cartas mais raras e cobiçadas.
Minha mala voltou com excesso de peso, 80% composto pela arena do Beyblade, caixas e mais caixas das cards, dos bonequinhos e dos mangás.
Outra lição aprendida: sim, meus mequetrefes são geração século XXI, poliglotas e globalizados na hora de brincar, e jamais se intimidaram com o "mero" fato de estar tudo descrito em Hiragana ou Katakana.


E finalmente o grande teste, o capítulo esportivo!!
 Dividido em fases infinitas.
Um é Real, o outro é Barça. Um é vidrado em futebol o outro inventou de lutar Kenjutsu. Um é Bayern de Munique, o outro é Chelsea.
E como comprar as chuteiras de futebol, de futsal, de society! ??


Depois de muito sofrimento, entre chocada com os preços estratosféricos e pasma com a feiura das opções (qual é a menos pior? Calçar uma da cor de limão-marca-texto ou aquela cujo par vem um pé rosa e outro pé azul?), descubro que muito mais grave que ser Fla ou Flu, Coxinha ou Petralha , Marlene ou Emilinha, Londres ou Paris, é ter que me posicionar entre Nike e Adidas!


Em tempos de Copa, rezo para que, em breve, Nossa Sra. do Bom Gosto os ilumine, e que um dia eles queiram praticar apenas tênis, com seus chiquérrimos uniformes branco ou marinho e sapatos que não brilham no escuro!!!! 

Até lá, o olhar de mãe-coruja já até começa a achar que o topete oxigenado do Neymar não é tão ruim assim, e que uma chuteira amarelo-gema pode ser elegante! 

E bora que a bola tá rolando!

(texto dedicado à Vera Eleonora Kaufmann Kocerginsky com todo meu carinho!)





Short Cuts - Diários da Copa 2

Gentileza Mineira

Essa veio de BH. E foi contada pelo Flávio Chubes. Um registro simples e verdadeiro. Um jeito mineiro de dizer: "Tem uma parte da Copa que não é da FIFA. É onde o Brasil é mais brasileiro. É onde a gente se encontra e se reconhece."  Confira ai a história do Flávio.


Tava pegando o ônibus pro Mineirão. Tinha uma fila pra ir sentado e outra pra ir em pé. Os caras erraram a conta do sentado e um colombiano ficou de pé. Disse pra ele: - Senta no meu lugar. Você tá na minha casa e quero te tratar bem. (Falei exatamente assim)
Papo vai, papo vem, ganhei uma camisa oficial da Colômbia, fechadinha no plástico. Disse que não podia aceitar. ele e os amigos insistiram.
Flávio Chubes
Por quê eu tô contando isso? Porque em tempos de tanta grosseria (com VTNC e tudo), é legal falar de gentileza. Ser gentil só por ser gentil é bom. Mas o negócio ainda cria uma coisa boa em volta da gente, que favorece o aparecimento de outras coisas boas. 
Obrigado pela camisa tricolor, Hugo. Obrigado pela alegria, colombianos. Que dia feliz por tantos motivos.

P.S.: Confesso que o cara deu mais sorte que eu. Vai levar um cachecol lindo do Galo pra Bogotá.