sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Aurora de A a Z


Por Mariza Poltronieri
“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”
João Guimarães Rosa

Aurora é a primeira de uma série de nove mulheres. Um nome ao acaso que meu avô escolheu e que poeticamente iniciou uma saga cor-de-rosa. Por sorte deste mesmo acaso, nunca se soube qual seria a última a nascer e esta ganhou um nome cigano, não menos poético, Zairene. Para quem quiser acreditar, o início A, Aurora e o fim Z, Zairene.

Das nove mulheres, Aurora foi a única que não se casou, preferiu ser a tia, com todos os excessos de carinho que alimentam ou estragam. Passou seus 95 anos distribuindo afagos e pitacos, para quem quisesse e para quem não quisesse, assim, de um jeito italiano de ser.

Muitas histórias pitorescas acompanham essa quase centenária senhora, a última delas é que assim como escolhemos uma roupa de festa, Aurora já escolheu sua mortalha, a roupa final de sua existência terrena. Fala nisso com a segurança de quem usou muito bem a vida e dela quer se despedir, com pompa e circunstância. Demos muitas risadas deste assunto.

Tia Aurora
Daisa, minha irmã bailarina, fez faculdade de moda e soltou esta pérola, “Estudamos muitos trajes no curso, mas nunca falamos de mortalha”. Sugerimos que era um bom nicho de mercado, para todos os gostos e o slogan seria “Você ficará lindo(a) de morrer!”. É muito bom rir de assuntos que incomodam, uma boa lição desta tia.

Durante toda a vida ela trabalhou como um mercador. Vendia sonhos para meninas casadoiras, belas peças que comporiam um pomposo enxoval. Saia de porta em porta, na cidade e arredores, no interior do Rio Grande do Sul, para parlar seu italiano misturado com português.

Conversa boa também se convertia em boa venda. Todos felizes e satisfeitos. Idas e vindas, mala sem rodinhas, vendeu assim até os 82 anos, sem preguiça e muito feliz.A vida da Aurora é como na frase de Guimarães Rosa, multiplicada de coisas boas e ruins, regada de bom humor e cheia de coragem.


Nota do Maranhão Viegas: Mariza acaba de me escrever. E o que ela me escreve é o que me leva a republicar esta postagem, originalmente publicada em setembro de 2011. O que Mariza escreveu está aí abaixo. Meus sentimentos, Mariza. Valeu, Tia Aurora. Descanse em paz. 

* Ontem, 29.11.2012,  tia Aurora, 96 anos, saiu de cena desta vida.
Sim, a vida dela foi um espetáculo, de drama, de humor, de aventura, de amor. Alguém assim não morre, sai de cena. Beijo tia Aurora, aplausos. Você foi o melhor personagem que essa vida pode ter. Adeus. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Como se fosse pra Margot

Margot,
como se estivesse aqui.

Desde que Margot morreu há um  vazio em meu peito.

Há dias penso nela. Na saudade que a ausência dela produz. E acho que tenho que conversar com ela de alguma forma. Hoje, criei coragem.

Dias destes, Rodrigo Teixeira escreveu um texto depois de ter visto o filme “Gonzaga – de pai para filho”. Me lembro dele ter dito que chorou ao fim do filme, por conta da reconciliação entre um e outro. Por conta da forma como aconteceu.

Hoje, dia de desastres em casa, fui salvo por um convite – Vamos ao cinema? Aceitei. Fui.

Gonzaguinha significava mais, pra mim, do que Gonzagão. Desde sempre. Quando me entendi por gente, ele – Gonzaguinha – já falava a minha língua. A da poesia. Gonzagão era só uma imagem e um som. Uma referência de raiz.

Durante a faculdade, uma das minhas grandes “virtudes” era cantar no mesmo timbre nordestino do Gonzaguinha. E eu tinha chão pra isso. Vinha da mesma região, tinha a mesma magreza, a mesma tristeza nos olhos. E o mesmo encantamento pela vida.

Havia uma menina, a Magali Gomes, que sempre me pedia pra cantar uma música de Gonzaguinha. E eu sempre cantava. Pra mim, era um tempo de descobertas. Mundo novo. Agonia interior pelo que haveria de vir. Pelo desconhecido.

Hoje, no cinema, isso tudo veio, de volta.

Gonzagão e Gonzaguinha
O filme começa com um pensando no outro. E termina com um admirando o outro. Respeitando o outro. E com os dois saindo de cena quase ao mesmo tempo.

Se Margot estivesse viva, eu certamente estaria ligando pra ela pra falar do filme. Como fiz muitas vezes. Quando li um livro, quando vi um filme ou quando ouvi uma canção.

Hoje eu diria assim:

Querida Margot, se você ainda não viu, precisa ver esse filme.
E ela, do outro lado do telefone, diria – Maranhão! Vou ver, claro que vou.

O tempo inteiro, a música dos dois permeia a vida. Uma música costurada de vidas. Ou, duas vidas costuradas pelo som. Ao gosto do freguês.

O fato é que, hoje, compreendo melhor. Cada um tinha suas razões para ser como era. Gonzagão desiludido pelo binômio preconceitual – preto e pobre. Gonzaguinha desiludido pela sensação de abandono. Onde essas duas estradas se cruzariam? Muito tempo depois. Doses cavalares de solidão e angústia depois.

A vida imitando a arte.
Mas eles se encontraram. E o filme é bom por isso. Alguém vai dizer – é clichê demais. E daí? – Eu pergunto. Um clichê que funciona e que, mais do que “Lula – o filho do Brasil”, pode ser, de fato, candidato a um Oscar.

No transcorrer do filme, as músicas da minha vida, na voz do Gonzaguinha, vão ganhando sentido. “Quando eu abrir a minha garganta, essa força tanta... E se eu chorar e o sal molhar o meu sorriso... Não se espante, cante, que o teu canto é a minha força pra cantar...” E por aí foi. O filme inteiro.

Até o momento em que Gonzaguinha, reconciliado com a vida e com o pai,  anuncia Gonzagão. A frase do filme é a frase da vida real. Eu fui invadido na memória. O texto veio inteiro e eu me lembrei daquele dia, daquele show, daquele encontro. Ou reencontro, dos dois.


Rodrigo tinha razão. O texto e o filme fazem chorar.
Margot, como eu queria que você estivesse aqui.      

sábado, 17 de novembro de 2012

O Arquiteto

Oscar, o Arquiteto, anda doente. São 104 anos. Uma vida... Dia quinze de dezembro ele faz 105. Por conta da doença dele e do tempo que esteve no hospital, muita gente andou espalhando que Oscar havia morrido. Balela. Superficialidade apressada, típica da Geração Facebook. Olha, curte, copia, posta. Depois, confere se é verdade.

Oscar, o Arquiteto, está doente, mas segue firme.

Hoje, lendo o Correio Braziliense, não resisti à charge assinada pelo Thiago. É de uma preciosidade fabulosa. E retrata bem o espírito de Oscar. O cartunista traduziu a vida do Arquiteto em seis quadrinhos.

Um espírito moleque, de quem brinca com a doença com o mesmo prazer de quem vive intensamente a vida.  Pois, que venham os 105, Oscar! Estamos aqui na torcida.


Minha irmã

Isa, minha irmã. Em foto de Marcelo Domingues.

Minha irmã 
foi ver o eclipse,
do outro lado do mundo.


O eclipse 
viu minha irmã,
do outro lado do mundo.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Três canções

Três canções. Uma sexta. Uma véspera de sábado.

Nestes dias de tempo nublado, o chumbo das nuvens nos remete ao passado próximo. Incrível a capacidade de guardarmos sensações.
Coisa da máquina humana.
Rever. Reviver.
Seguir em frente.



Percorri estradas, vivi caminhos, arrisquei.
Em minha infância, meus quintais cheios de pedras e lembranças, amanheciam invariavelmente azuis.
O tempo passava.
A vida seguia.
Até virar noite, até se tornar dia.


E apesar de tudo, as manhãs cinza chumbo deste novembro incerto têm a estranha mania de alimentar a esperança. 
De soprar nova música.
De resgatar o azul do dia. 
Exatamente como os dias azuis 
da minha infância. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Mudança de estação

Chove de um tanto por esses tempos... Tanto que a gente fica desejoso do sol e do azul do dia. Coisas que não tem por agora. Por isso, música. Mudança de estação. Ou qualquer mudança. Vou de Changes. Pra fechar o dia.

A viagem de Isa e Marcelo


'Caçadores de eclipse' brasileiros vão até a Oceania para ver fenômeno raro
Grupo viaja em cruzeiro para observar o eclipse total de sol.

Costa leste da Austrália atraiu mais de 50 mil turistas do mundo todo.

Flávia Mantovani
Do G1, em São Paulo

Um grupo de turistas brasileiros viajou cerca de 15 mil km e chegou até a Oceania com um objetivo curioso: ver o eclipse total de sol, que ocorrerá entre a tarde e a noite desta terça-feira (13), pelo horário de Brasília, e na manhã do dia 14, pelo horário local.
saiba mais
           
O eclipse total de sol é um fenômeno raro e atraiu mais de 50 mil turistas do
mundo inteiro à costa leste da Austrália, de onde ele será mais visível. A maioria
dos visitantes está nas cidades de Cairns, Port Douglas e Atherton.

O auge do eclipse ocorrerá às 6h38 do dia 14 (horário local) – 18h38 no horário do Brasília –, quando o sol ficará encoberto por cerca de dois minutos.

Brasileiros no cruzeiro pela Oceania. Em pé, da esq. para a dir.:
Sandro Rosa, Heleno e Walkíria Melo, Isabel e Marcelo Domingues;
segurando a bandeira, Amanda Monteiro e Ricardo Melo (Foto: Arquivo pessoal)

De Brasília para a Oceania


Três dos “caçadores de eclipses” brasileiros que viajaram para a região são funcionários públicos e membros do Clube de Astronomia de Brasília (CasB), que reúne astrônomos amadores da capital federal.

Eles saíram do Brasil no fim de outubro e levaram as famílias para fazer uma viagem pela Nova Zelândia e um cruzeiro temático de 15 dias pela Austrália e pelas ilhas da Nova Caledônia.

No roteiro, passeios em museus e pontos turísticos tradicionais convivem com palestras com especialistas sobre temas como “As grandes questões sobre o sol e o futuro da pesquisa solar” ou “A vida e a morte das estrelas”. Na mala, eles levaram binóculos e câmeras para fotografar o eclipse. Também foram distribuídos no navio óculos especiais para a observação da fase parcial do fenômeno e, assim, evitar danos aos olhos.

Eles vão observar o eclipse em alto mar, no percurso entre a cidade australiana de Mackay e as ilhas da Nova Caledônia. O planejamento da excursão para a Oceania ocorreu depois que o grupo do CAsB não conseguiu concretizar outra viagem para ver um eclipse total de sol, em 2010.

O primeiro destino seria a Ilha de Páscoa, mas houve problemas com o transporte e a acomodação e o plano mudou para El Calafate, no sul da Argentina. “Mas as condições climáticas e de observação não eram favoráveis e acabamos desistindo. Um grande erro da nossa parte, pois o eclipse foi fantástico e só vimos observar as fotos de outras pessoas que tiveram mais fé do que nós”, conta Sandro Rosa, que está na Oceania com a namorada, Amanda Monteiro.

Outro membro do grupo, Marcelo Domingues, já havia ido sozinho para a China em 2009 para observar o fenômeno, mas só conseguiu fazer imagens da fase parcial, já que o tempo estava nublado. Agora, ele está com a esposa, Isabel, no cruzeiro pela Oceania. “A observação de um eclipse solar em um mesmo local é extremamente rara, daí a necessidade de nos deslocarmos para os pontos onde esses eclipses ocorrem”, diz Marcelo.

Ele lembra que o último eclipse solar visível do Brasil ocorreu em 2006, e a totalidade só pôde ser observada em Natal, no RN. O próximo no país ocorrerá apenas em 2046.
Além de funcionário público, o outro membro do grupo, Ricardo Melo, é professor de física da Universidade Católica de Brasília. Ele foi ao cruzeiro com os pais, Heleno e Walkiria.

Segundo Ricardo, a viagem até agora está “perfeita”. Ele só torce para que a previsão de céu nublado  no momento do eclipse não se cumpra. “Esperamos que o céu esteja limpo para que possamos fazer o maior número de fotos possíveis”, diz.


Telescópio montado na praia de Palm Cove, na Austrália, onde será
visto o eclipse (Foto: Greg Wood/AFP)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sobre bichos e presépios

Dani e Carol. Cachorro, não! Ovelha!
Carol e Dani são filhas de minha irmã. Ela e Marcelo, meu cunhado, fazem uma viagem de férias e as meninas divididem o tempo entre as casas das duas avós. E a gente reforça o time na guarda das meninas, para que a saudade dos pais não cresça.

Ontem, elas foram jantar lá em casa. Bife na chapa, feito pela tia Mara; pão, manteiga e coca-cola. Eu e Seu Viegas fomos de vinho. Um cardápio simples, mas delicioso.

Conversa vai, conversa vem, Carol, a mais velha, dispara em minha direção:

Tio Nuca, tem cachorro no presépio?

E eu respondi rápido, de bate-pronto: Que eu saiba, não.

Então, na mesma hora, Carol vira-se para Dani e sentencia:

Viu só, não tem cachorro no presépio. Você vai ser ovelha!

domingo, 11 de novembro de 2012

Lianne

Minha norinha, Clarice, me apresentou Lianne Las Havas. "Você vai gostar, sogro." Sim. Ela estava certa. Eu gostei. Lianne tem uma suavidade deliciosa na voz. Canta como quem brinca de cantar. Sem esforço. Bom pra fechar um domingo de chuva. Não é necessariamente motivo de comparação. Mas, enquanto a ouço, imagino um espaço preenchido pela falta que Amy Winehouse faz. Valeu, Clarice! Valeu, Lianne. Age. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Desistir, jamais!

Já que não há como evitar a luta diária, que pelo menos ela seja divertida. E que tenha a leveza de uma criança, que dá ao "monstro" uma dimensão possível. Um tamanho que nos permita, inclusive, vislumbrar a vitória da batalha. Nem que seja só de mentirinha. Nem que seja só uma fantasia, que nos alimente e dê forças para enfrentar a batalha real.

domingo, 4 de novembro de 2012

Um trem para as estrelas

Abro o domingo com um filminho de animação e uma bela música. Juntos, constituem um trabalho leve e emocionante. Bem ao ritmo deste domingo chuvoso em Brasília.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Três punhados de terra

Por Benedito Costa*




Liège morreu aos 16 anos. Conhecemo-nos assim: ela deixou algo escrito na carteira do colégio e respondi. Tornamo-nos amigos virtuais numa época sem smartphones e o laminado verde da carteira sendo nossa tábula. (Nesse colégio, as turmas iam até os professores e isso explica usarmos a mesma carteira em horários distintos.) Ficamos amigos numa época em que uma criança de 16 anos imagina saber tudo sobre o mundo, a vida, as estrelas e o pó. 


Certo dia nos apresentaram: não sabia que era uma menina, não sabia que tinha nome de vilarejo belga, não sabia que era negra num colégio de brancos (então, éramos exceção), não sabia que tinha morado na China e que por isso usava um ki-fu preto com forro verde (que ela chamava “perereca”)... 

Liège tinha tudo para ser minha amiga, pois era parte do grupo de párias que qualquer colégio tem. Éramos os negros, os católicos, os feios, os pobres, os orientais, os gays, os inteligentes, atributos esses isolados ou justapostos. Um lia Dante, o outro conhecia Dürer e tentava imitá-lo, certa menina fazia cálculos imensos em segundos, “de cabeça”, uma outra se vestia como na geração flower power...


Entre o Natal e o Ano Novo de 1983, soube que minha amiga do ki-fu preto não estava mais entre nós, pois os deuses haviam-na levado, como já o tinham feito com outros jovens sensacionais, invejosos de sua própria criação.
Creio que envelhecemos com esses mortos, e que somos um pouco deles. Deixe Hegel, Levinas, Bakhtin, seja quem for que tenha falado sobre o outro, um só momento! Alimentamo-nos da imagem deles e ficamos pensando como a vida seria com a presença deles. Copiamos seus modos, carregamos conosco seus fardos e seus desejos, lembramos de seu sorriso como estivessem vivos (e Liège tinha um sorriso do tamanho do colégio, farto e ensolarado, um sorriso intercontinental, inter-racial, intergêneros).

De todo modo, eu envelheci e Liège não. Vivo um sentimento díspare em relação à minha amiga morta. Eu não pude ir ao seu enterro, não joguei três punhados de terra em seu túmulo, não chorei na câmara ardente. Hoje, menina, Liège sorri ao meu lado, para um velho. E eu me recuso a matá-la de novo. Gosto dela, assim, presença viva.

Dia de lembrar de Liège: seja num altar xintoísta (como ela ia gostar disso!), seja indo ao cemitério e fazer um banquete à mexicana, seja indo debulhar um terço e chorar à brasileira, caminhando entre rios de cera derretida, fugindo da chuva, seja indo ver o mar e pensar como é ele grande e profundo, como vai e como vem, como está em todo lugar físico da Terra, essas bobagens que pensamos meio enebriados pelos seus mistérios.





*Benedito Costa - É um novo/velho amigo que conheci virtualmente, provocado pelas palavras (sinceras e exatas) do Dary Junior. Este último, um companheiro de tempos atrás, do jornalismo e dos pantanais.  Obrigado, Dary, pela oportunidade de conhecer Benedito e suas linhas. Benedito, seja bem-vindo e sinta-se em casa.

O maior espetáculo da terra

Sexta-feria nublada, em Brasília. O calor senegalês dos últimos dias arrefece. A mudança do clima coincide com o feriado. Dia de fazer nada, de perceber o tempo, de ver a hora passar. Assim, com os dedos livres das obrigações profissionais, percorro o teclado do computador em busca de aventura.

Encontro um filme curto sobre a Cidade do Samba - Rio de Janeiro. Um trabalho esmerado. De paciência e técnica. Imagens agrupadas em horas de gravação e depois aceleradas. Tecnicamente, é o que os diretores de cinema chamam de time lapse, ou, traduzindo, um lapso de tempo.

Olhando assim, o filme pronto e acabado, tem-se a impressão de que pessoas são brinquedos. E a paisagem esplendorosa do Rio, uma maquete.

Sexta-feira nublada em Brasília. Início de novembro. Falta pouco para o carnaval - é o que pensam os sambistas de plantão. O carnaval e o Rio, vistos assim, num lapso de tempo, fazem jus ao título de maior espetáculo da terra.

PS.: O filme foi produzido por Jarbas Agnelli, durante o carnaval de 2011.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O mar e a arquitetura

São Luis, da minha infância desbravadora. 
Eu tinha pouco mais de sete anos. Tempo em que as ruas eram enormes, os prédios gigantes e os espaços adultos eram vistos de baixo pra cima, pela perspectiva de uma criança.

Mesmo nestes tempos, eu era desbravador. Ía aos Correios levar cartas a pedido de minha mãe. Ía à  padaria do "seu" Mário, no Morro do Querosene, comprar pão massa fina e cem gramas de manteiga, vendidas e embaladas em papel manteiga. Tempos de bondes, galos e quintais.

O bonde no cruzamento da Rua da Paz
Em frente à minha casa, no bairro da Madre Deus, atravessando a Avenida Rui Barbosa, havia a quitanda do "seu" Antônio, pai do meu amigo Junior Carajás, onde eu comprava azeite, banha de porco, camarão, arroz. Coisas que minha avó Antonieta precisava para fazer o almoço.

Fazia tudo isso com a desenvoltura de quem achava que era dono do mundo. Daquele mundo, pelo menos.

Um dia, meu pai ficou doente e "baixou" o hospital - era como se dizia das pessoas que precisavam ficar internadas. Fiquei com meus avós, em casa. Mas havia que fazer as tarefas da escola e a ideia, depois de alguns dias, era que eu tomasse um ônibus e chegasse ao hospital, sozinho. Ora, quem ía ao correio e circulava nas quitandas e padarias, haveria de dar conta de chegar sozinho ao hospital.

Meu avô, meu maior incentivador de novas aventuras, me levou ao Largo do Cemitério, ponto de partida dos ônibus, e me pôs num deles. Meu coração batia mais acelerado do que o normal. Quase ao ponto de sair pela boca. Mas, lá fui.

Já nesse período, os novos ônibus anunciavam tempos modernos.  Eram mais velozes e confortáveis, tinham portas sanfonadas e, eu, nenhuma experiência com ônibus. De saída, ao fechar-se, a porta imprensou minha cabeça. Minhas orelhas ardiam. Foi o primeiro susto. O primeiro constrangimento. As pessoas, no ônibus, comoveram-se ao perceber a minha falta de experiência. Aquele "toco" de gente querendo "ser algo". Dois dos passageiros me ofereceram um lugar entre eles. Aceitei. E perdi a noção do tempo e do espaço.

Sentado entre dois adultos, não havia visão possível para o lado de fora do ônibus. Não havia referência de onde poderia estar. Mais do que isso, não tinha noção de onde deveria descer. O fato é que o Hospital Português, onde meu pai estava internado, passou. A parada onde eu deveria descer, se foi.

Desci onde achei mais familiar, depois de me dar conta de que havia perdido o ponto certo. Um local conhecido como Ferro de Engomar. O nome era uma referência ao formato triangular do prédio e à bifurcação formada pelas ruas que o rodeavam.

Foi por conta desse local que comecei a lembrar dessa história, tantos anos depois. Vi uma foto no Blog  da Teresa, Rua dos Dias que Voam, e a imagem me levou de volta àquela parada de ônibus do Ferro de Engomar, lá em São Luis do Maranhão.

A mesma formação arquitetônica, a mesma emoção e, certamente, lá por trás dele o mesmo mar.

Naquele dia, em minha infância desbravadora, andei muito, dei muitas voltas.  Errei caminhos, segui pessoas erradas, quase me desesperei. Ao fim do dia, cheguei ao hospital em que meu pai estava internado. Bati à porta do quarto. Minha mãe abriu. E eu, sem dizer palavra sequer, me pus a chorar. Minha mãe me abraçou. Todo o meu medo havia sido vencido. Todo o meu temor de estar perdido, superado. Diante da visão de minha mãe e meu pai... Desabei.  Aquela emoção, isso não havia como descrever. Nem todo mar. Nem toda arquitetura.

Café Buenos Aires - Lisboa. 


Ferro de Engomar, em São Luis - MA.