segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Salve, George!

Divulgação - EMI
Há 9 anos, no dia 29 de novembro de 2001, em Los Angeles, morria George Harrison. Ele tinha 58 anos. Seu corpo foi cremado e, dizem, suas cinzas foram jogadas no Rio Ganges, na Índia. George morreu em decorrência de um câncer que lhe havia atingido o cérebro. Na época, o comunicado da família foi elegante e sincero: “Abandonou este mundo como viveu: consciente de Deus, sem medo da morte e em paz, rodeado de familiares e amigos”.

Na semana passada, All Thing Must Pass, primeiro álbum solo do músico inglês, foi relançado em LP. Pra fechar a segundona e lembrar do mais tímido dos Beatles, Here Comes the Sun. Salve, George!

El guincho - Bombay

Pra começar bem a segunda-feira, o som do grupo espanhol El Guincho. Edição de tirar o fôlego e música de alto nível. A música Bombay está no album "Pop Negro" do grupo catalão e foi escolhida como uma das melhores do ano pelas revistas especializadas da Europa.

domingo, 28 de novembro de 2010

O metaleiro que a Mariana mais ama

Mariana, minha filha, tinha uns cinco anos. Decidida como sempre foi, queria ir a um show da Disney, patrocinado por uma agência de viagem. O show aconteceria no teatro Dom Bosco, num fim de tarde de domingo.

Eu e Mara levamos os dois, ela e Gabriel. Ele não agüentou a confusão e chorou pra vir embora. Estava armado o conflito. Mariana queria ficar. Gabriel, chorando pra sair. No palco, Lizoel Costa, jornalista dos bons e amigo de confiança, era um dos guitarristas da banda que animava o evento.

Colocamos Mariana na primeira fila, fiz um sinal para o Lizoel e combinei que ele a deixaria em casa quando o evento acabasse. Ele topou. Fomos embora. O tempo passou muito além do previsto para o retorno e os dois não chegavam. Numa época em que os telefones celulares ainda não eram tão comuns, só nos restava confiar no Lizoel e rezar para que tudo estivesse bem.

Antes que a angústia se apoderasse totalmente de nós, o Lizoel tocou a campainha. Alívio geral, ele explicou – eu queria vir logo, mas a Mariana me intimou a "tomarmos algo"  antes de voltar para casa. E eu não tive como resistir.

E lá se foram para o primeiro boteco que encontraram, repartir uma coca-cola. O Lizoel, tiozão, se achando o máximo. Ao fim da coca ele chamou o garçom, mas ela tomou-lhe a frente. Puxou da bolsa o dinheiro pra “pagar a conta”. Mariana é assim desde pequena, nunca deixa barato.

Lembrei dessa história hoje porque recebi uma mensagem do Lizoel. Na década de 80, ele era um dos  integrantes do “Língua de Trapo”, grupo que fazia música e humor,  surgido no movimento que ficou conhecido como  “vanguarda paulistana”.

´"Lingua de Trapo" - o Lizoel é o barbudinho, segundo
da esquerda para a direita, lá atrás.
No e-mail, Lizoel conta um episódio marcante na vida dele e do Língua. Era uma semifinal do Festival dos Festivais, na Globo. O show acontecia no Maracanãzinho. E o Língua tinha sido classificado com a música “Os metaleiros também amam”.

Ao final da apresentação, empolgado que só, o “metaleiro” Lizoel literalmente acaba com a guitarra, ao vivo e a cores, em cadeia nacional. O detalhe: a guitarra, uma Dolphin Starlock, tinha sido conseguida por empréstimo junto à fábrica de instrumentos musicais, só para aquele show.  A cena, primeira do estilo a acontecer numa apresentação de um grupo brasileiro, ficou registrada para sempre. Sobretudo na memória dos patrocinadores. 
Ele me mandou o link com a cena e eu o coloquei aí embaixo. Vale a pena assistir. O Lizoel é o guitarrista barbudinho e sem camisa, com ar de sádico, que destrói a guitarra novinha, ao final da apresentação. Tenho certeza de que se a Mariana soubesse desse episódio naquela época, era capaz de exigir que ele fizesse o mesmo no show da Disney.

Memórias de quando não estive aqui


Um dia, eu, filho mais velho, saí de casa para estudar fora. E meus irmãos cresceram me olhando de longe. Fui o primeiro a viajar  de carona. O primeiro a morar em pensão. O que esteve em outra cidade longe da família. A primeira namorada foi minha. A primeira glória e a primeira decepção, também. Além de tudo, fui o primeiro a estar no Japão.

Claro que há um certo glamour nisso. Mas há a carga de ser o que tem a obrigação de descobrir tudo sozinho. O que não tem ninguém pra lhe orientar. Na minha vida de cigano, partir e chegar era uma constante. Como na música do Milton, partir e chegar, são dois lados da mesma moeda. Pra quem fica, resta a imagem da saída. Do outro lado da estação, há sempre os que estão chegando. É a outra ponta da história. Não me arrisco a dizer o que é melhor ou pior.

Mas o fato é que fiquei longe deles. Cresceram me vendo através do imaginário, me lendo pelas cartas e me aceitando, ou não, de acordo com o que a realidade lhes permitia. Dessa forma, terminei funcionando como um escudo, para o bem ou para o mal, das dificuldades naturais do crescimento e da convivência com os outros - os amigos ou os adversários deles.

Certa vez, um dos meus irmãos, o terceiro na escala de nascimento, se viu cercado por uma turma disposta a resolver no braço questões típicas da  adolescência. E o cerco se deu a poucos metros da casa de meus pais. Cercado, sozinho e prestes a levar uma surra, ele avistou de relance o meu quarto irmão surgir na porta da cozinha. Era o que ele precisava. Meu irmão terceiro sempre foi um sujeito safo. E não perdeu a oportunidade.

De onde estava gritou: Iram (meu quarto irmão) chame o nosso irmão mais velho (que sou eu) para me ajudar a resolver esse problema aqui. A frase mágica surtiu o efeito necessário. Houve um silêncio sepulcral, seguido de uma apreensão quase palpável na turma dos que o ameaçavam.

Meu irmão, o quarto, correu para dentro de casa como se tivesse entendido a gravidade da situação. Em busca do irmão mais velho, pensaram os outros. Meu irmão terceiro, o que estava cercado, agora era uma ilha de esperança e fé. Todo pimpão por fora. Mas sabia, por dentro, que algo não estava certo. Entretanto, contava com a astúcia do outro para se safar. Ele havia de ter uma idéia luminosa, pensava.

Não deu um minuto e o Iram, meu irmão quarto, retorna esbaforido e se planta à porta da casa. O silêncio imperava. A tensão também. No espaço daqueles poucos segundos, uma vida inteira transcorreu. Até que ele, o quarto irmão, bradou de lá: - Olha, o nosso irmão mais velho (que sou eu) não vai poder te ajudar. Ele está viajando, está no Rio Grande do Sul.

Não preciso contar que o pau comeu em dois tempos naquele dia. Na rua, da pior maneira que podia acontecer; e em casa, depois de tudo, quando os dois irmãos - o terceiro, todo lanhado, e o quarto, entre o riso e o choro, ajustaram as contas.

Até hoje, não sei ao certo qual dor me dói mais. A de estar distante e não poder ajudar ou a de não estar presente e poder cair na briga junto com eles. Hoje, a memória e a chuva me permitem rever o passado com o olhar de compreensão. A minha ausência foi presente pra eles. Nos bons e nos maus momentos.


O terceiro, é o de camisa branca. O quarto, é o de regata.
O que estava viajando sou eu, o da frente. Depois tem Isa e
Guga. E todos, um dia, andaram na minha primeira bicicleta.  


sábado, 27 de novembro de 2010

Um outro Dylan

Um guri novo, de apenas 19 anos, vem impressionando o público pelo estilo de cantar e pela qualidade das músicas. Dylan Leblanc nasceu em Louisiana e carrega consigo a essência da folk music. Bebe da fonte em que outro Dylan, o Bob, bebeu e virou lenda. O guri promete.

Do album de estréia dele, "Paupers Field". Pra fechar a tarde de sábado.



Uma historinha de amor

Maurilo Andreas, do Pastelzinho, esses dias me chamou pra mostrar essa animação. Ela foi feita por um espanhol, Carlos Lascano, que é simplesmente um gênio do "Stop Motion". Não há muito o que dizer. As imagens, a trilha e a delicadeza da história falam por si.


A SHORT LOVE STORY IN STOP MOTION from Carlos Lascano on Vimeo.

Faça humor, não faça guerra

No dia em que as forças legais do Rio de Janeiro puseram para correr aquela corja de bandidos, criando uma imagem que impressionou o mundo, eu, Mara e Gabriel jantávamos juntos, em casa. A TV da cozinha ligada mostrando o Jornal Nacional e aquelas cenas que a gente se acostumou a ver em paisecos que vivem em guerra civil.

Mas as cenas não eram importadas, eram "made in Brazil". Um silêncio. O texto contrito de um Bonner impactado. A Globo de sempre, competente e asseada. Todos os repórteres com coletes à prova de bala. Azuis como os da ONU. A polícia chegando em tanques de guerra da Marinha. Os bandidos correndo mata a dentro, morro a baixo.

Em meio a isso tudo a Mara me sai com essa:

O Cabral (Sérgio Cabral, governador do RJ) já convocou a polícia, os bombeiros e a marinha...
Se aparecer um índio vira o Village People.


E a gente conclui: Guerra no RJ, se não tiver uma sacanagem, das duas uma: Ou não é guerra, ou não é no Rio.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Música pra fechar a sexta

Direto e reto, com os ingleses  do "The Mariner's Children", a música Coal. Porque hoje é sexta. Porque chove em Brasília. Porque o dia foi longo. E porque amanhã é sábado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O blog é Mil.

Tempos atrás, lendo o Blog do Noblat, vi que ele comemorava um número redondo de acessos. Não lembro ao certo se eram um ou dois milhões de acessos. Sei que era bastante. Pois hoje, quando abri o Google Analytcs, um programa que mede a frequência de visitas no blog, fiquei feliz como uma criança:

Pela primeira vez, desde o dia 17 de janeiro de 2010, quando o Blog entrou no ar,  atingi a marca de mil visitas em um período de um mês. Para ser mais exato, foram 1010 visitas entre os dias 23 de outubro e 22 de novembro.

Sei que é uma besteirinha de número, se comparado à imensidão do universo, da blogosfera, onde os indicadores são sempre superlativos. Mas, tô aqui contendo a minha alegria, tamanho o orgulho que sinto por ter atingido essa marca "cabalística".

E isso só foi possível graças aos meus ilustres companheiros de jornada, leitores anônimos, visitadores virtuais das minhas anotações. Atingir milhões de leitores não é bem a minha meta. Mas, como sou um otimista inveterado, não descarto essa possibilidade. Se um dia chegarmos lá, prometo, faço uma festa. Nesse momento, o que eu posso garantir mesmo, a cada um de vocês que vem aqui com alguma frequência, é continuar escrevendo, contando histórias, fazendo poesia, da forma mais prazerosa possível.

Por fim, quero lhes dizer: É muito bom tê-los como companhia. Obrigado, voltem sempre, leiam mais e sintam-se à vontade para colaborar, sugerir, participar. A casa é também de vocês. Mil vezes, valeu!

domingo, 21 de novembro de 2010

Meu maestro, de novo!

O meu maestro está com o violão.
Eu, lá atrás, brincando de cantar.
Mesmo em meio à  correria da campanha, sempre arrumei algum tempinho para escrever algo aqui, em respeito aos meus poucos e bons leitores. Um texto curto, uma crônica, um causo... uma poesia.

Escrever é um dos grandes prazeres da minha vida. A escrita tem me dado grandes amigos e muitas alegrias. Hoje, mais uma vez, fui surpreendido por um presente do Luiz Theodoro, a quem carinhosamente chamo de "meu maestro soberano".

Tempos atrás, postei uma poesia minha aqui no blog. Não demorou muito, Lula me escreveu com uma pergunta instigante: Posso musicar essa pérola? Claro! Respondi, já cheio de orgulho. O tempo passou e a pegada da campanha me fez esquecer aquele pedido e, obviamente, o que poderia resultar dele.

Lula trabalhou em silêncio. E esta semana me mandou o resultado. Uma música linda. Uma melodia que, por vezes, lembra o melhor de Paulinho da Viola, misturado a um quê de Chico Buarque. Pode ser pretensão minha. Se for, me desculpem, mas não tenho como não lamber a "cria".

Obrigado, meu maestro! E é com o maior orgulho que divido com vocês, em primeira mão, a mais recente parceria de Lula Theodoro e Maranhão Viegas. Ah, com um detalhe, no post original, a poesia se chamava "Agulha e Linha". Lula rebatizou a canção.

Razão sem Paixão
Letra: Maranhão Viegas
Música: Luiz Theodoro

Cerzir a cortina da vida
vagar à inconstância do tempo
Que memória ainda tens?
De mim, da rua, do vento...

Ah, essa tua mania de invadir as tardes
de soprar as roupas brancas no varal
e sumir sem dar aviso
Lufada de ar perdida

Música que não se ouve mais
poesia da eternidade
razão sem paixão,
capaz!

Memórias da profissão – Votos fugidios

Havia um coronel da Polícia Militar muito famoso, em Mato Grosso do Sul, Adib Massad. Para ele, não tinha bandido bom. Era muito duro no combate aos criminosos, o que ajudou a construir a sua fama. Casos complicados? Chamem o Adib, ele resolve tudo. Às vezes, diziam, utilizando-se de métodos nada convencionais. Mas resolvia.

Enquanto esteve no comando do temido GOF – Grupo de Operações de Fronteira, reinava a segurança para uns e o temor para outros. E ele ficou lá por um longo período, ao mesmo tempo, fazendo baixar os índices de roubo, contrabando e tráfico de drogas e, com toda certeza, reduzindo o número de bandidos também. Por muitos anos, naquela faixa de Fronteira entre o Brasil e o Paraguai, o coronel foi a lei.

Convivi bem perto dele durante uma semana. Coronel Adib foi escalado para resolver um seqüestro que comoveu a população. Um menino de quatro ou cinco anos, Paulinho, filho de um médico muito querido, que depois viria a ser eleito prefeito da cidade de Cassilândia, passou quase sete dias nas mãos de um grupo de seqüestradores.

Eu era repórter da TV Morena, afiliada da Rede Globo, e fui destacado para cobrir o caso. A comoção pelo seqüestro era tão grande que o governador à época determinou ao secretário de Segurança que transferisse a Secretaria para Cassilândia enquanto as investigações durassem. Sete dias depois de iniciada a caça aos seqüestradores, Paulinho foi solto, são e salvo e os bandidos presos. Nós, jornalistas, conhecemos melhor o coronel Adib sua fama e seus métodos.

Tempos mais tarde, de tão famoso na região, o coronel resolveu disputar o cargo de vereador, em Dourados. Foi uma missãodifícil. Certa vez, depois de passar o dia em campanha, o coronel resolveu fechar os trabalhos fazendo uma última parada num boteco de beira de estrada, onde um grupo de homens bebia e jogava bilhar.

A imagem do coronel assustava qualquer que fosse a circunstância. Tinha um olho vazado, conseqüência de um tiroteio em que só ele sobrou pra contar a história. O coronel desceu do carro e parou na porta do bar. Um frio subiu a espinha dos que estavam presente. Ele não disse nada e começou a apontar com o dedo, contando em voz alta como quem confirmasse o número de pessoas ali. Havia sete homens, contando o dono do bar.

Adib deu meia volta e foi correndo em direção ao carro. Retornou com sete bonés e sete camisetas nos braços. Mas não encontrou viva alma no boteco. Não houve sequer um corajoso para esperar pela volta do coronel para descobrir o que ele queria. Vai que não fosse para distribuir brindes de campanha?

Mesmo enfrentando esse tipo de dificuldade, naquele ano, o coronel Adib foi venceu a eleição como o vereador mais votado de Dourados.

sábado, 20 de novembro de 2010

A um clic de uma preciosidade

Em 1964 os Beatles desembarcaram pela primeira vez nos Estados Unidos. A primeira participação deles, ao vivo, em um programna de TV foi no The Ed Sullivan Show e atingiu um índice recorde de audiência: 74 milhões de telespectadores.  Dois dias depois, no dia 11 de fevereiro, eles se apresentaram no Washington Coliseum, num show histórico, que durou exatos 40 minutos.

Foi o suficiente para deixar uma multidão de jovens à beira do histerismo. Eram tempos diferentes. As imagens, em preto e branco, e uma direção em cortes secos,  sem nenhum efeito especial, mostravam um grupo de meninos se esforçando para tirar o melhor de suas guitarras, suando em bicas nos seus terninhos e nitidamente impressionados com o comportamento do plúblico.

Os equipamentos, comparados aos que existem hoje, eram primários. O praticável onde estava montada a bateria de Ringo era mudado de posição, de tempos em tempos, numa ginástica insana para permitir melhores ângulos de visão à platéia.

Tudo muito simples. E tudo espetacular. Uma seqüência de clássicos levou ao delírio milhares de fãs. A música dos Beatles dava ali um passo definitivo rumo ao sucesso.  A ponto de um dia John não se conter em uma entrevista e mandar: "Somos mais famosos que Jesus Cristo".

Agora, o vídeo completo desse primeiro show dos Beatles nos EUA está ao alcance de todos. Graças a uma iniciativa da Apple, que liberou essa relíquia para marcar o início das vendas de todas as músicas do grupo pela loja virtual iTunes.

Foi uma longa jornada de negociação entre os executivos da Apple e os representantes dos Beatles até que se tornasse possível, pela primeira vez a comercialização dos clássicos dos Fab Four, pela internet.

Em média, cada música sairá por US$ 1,29. Os álbuns completos custam US$ 12,99. As coletâneas custam, cada uma, US$ 19,99. O box completo, US$ 149.

Se eu fosse você, clicava aqui e gastava 40 minutos para assistir essa preciosidade. Eu lhe asseguro, serão 40 minutos da mais pura emoção.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Paul McCartney do Brasil

Há uma antiga canção de Tavito e Ney Azambuja, gravada em 79, que fala de coisas do passado, lembranças do tempo de escola e de amores juvenis. A música é "Rua Ramalhete". A um determinado momento, a letra meio profética, pergunta: "Será que algum dia eles vêm aí, cantar as canções que a gente quer ouvir?"

Eles, os Beatles, nunca vieram. Mas a vinda de Paul McCartney ao Brasil, um dos dois últimos integrantes da banda que ainda estão vivos,  é uma sacodida na alma de milhares de pessoas que um dia sonharam com a passagem deles por aqui, pra cantar as músicas que serviram de trilha sonora para boa parte das nossas vidas.

Não tendo todos, a gente se agarra ao sonho. Todos juntos, sonhando ao redor de um. E Paul, o Beatle mais melódico, mais romântico, mais emocional, tem dado conta de cuidar bem dos nossos sonhos, por onde quer que passe.

Embalado por essa onda - de que sonhar não custa nada - o site Rock'n'Beats, do portal da MTV juntou 20 nomes da nova cena do rock nacional e MPB, para revisitar o repertório dos Beatles e Paul McCartney. O resultado foi batizado de "Indie on the Run" e seu conteúdo está logo aí abaixo. É a nova geração da música brasileira, gente como Tulipa Ruiz e Apanhador Só,  Vivendo do Ócio, The Name, Monique Maion, Sabonetes, Instiga, Seychelles e muitos outros que mostram nesta seleção que seguir sonhando, mais do que possível, é necesário.

Então, separe um tempinho, aperte o play e aumente o som, que isso aí é rock'n'roll.
Latest tracks by indieontherun

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Encontros virtuais e amizades reais

Marcia - Olá, Maranhão. Um e-mail que você mandou para outra pessoa, falando de textos novos em seu blog, veio parar em minha caixa de mensagens. Não achei ruim, não. O blog é bom, os textos também. Fiquei preocupada porque, talvez, a pessoa para quem a mensagem foi originalmente destinada pode não tê-la recebido. Abraço, Marcia.

Maranhão - Querida Marcia. Não houve engano, não. É que você faz parte de uma lista de pessoas com as quais me correspondo com certa freqüência. É uma lista de leitores do meu blog. Para preservar o endereço das pessoas, mando para um integrante do grupo, com cópia oculta para todos os outros. Não se preocupe, o e-mail chegou para quem devia e muito obrigado por visitar o meu blog e gostar do que encontra por lá. Abraço, Maranhão.

Marcia - Mas, peraí! Eu não tenho hábito de ler blogs, não o conheço, não sei como fui parar na sua lista pessoal de leitores. Você pode me ajudar a entender? Marcia.

Maranhão – Querida Marcinha! Eu penso estar falando com a minha amiga jornalista, com quem trabalhei por quase três anos na TV. Se for, deixe de onda , abra logo uma cerveja – mais uma, certamente - e saboreie os textos.

Se não for a Marcia que eu conheço, peço desculpas pela invasão virtual. Não foi proposital. Mesmo assim, reforço, seja bem-vinda ao mundo dos blogs. E ainda bem que você começou pelo meu. Espero que não se incomode e continue a ler meus textos. Mas lhe asseguro, vou compreender se a sua decisão for a de pedir a retirada do seu nome da minha lista. Abraço, Maranhão.

Marcia – Não, não sou a sua amiga Marcia Jornalista. Sou a Marcia, pessoa comum, tradutora e vivo no interior de São Paulo. Mas por favor, não tire o meu nome da lista. Gosto dos textos e quero continuar a ser informada sobre novas postagens. Quanto à cervejinha, é uma boa idéia. Já abri uma aqui, nesse momento. Abraço, Marcia.

A história descrita aqui aconteceu de verdade, na noite do último domingo. Foi uma troca de e-mails que começou perto das dez da noite e acabou quase à meia noite. É portanto uma história real, apenas com alguns detalhes de identificação dos personagens preservados, para evitar novas invasões virtuais.

E assim, a Marcia tradutora, que não era a Marcia jornalista, entrou por acaso na minha lista de leitores e, por que não, na minha vida. É essa boa junção casual e imprevisível, que a internet proporciona, o que mais me fascina. Um acaso virtual promovendo uma amizade real. No mundo em que as amizades verdadeiras e despretensiosas são cada vez mais raras, é um bom motivo para se comemorar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Memórias da redação

No almoço de hoje, em companhia de Ronaldo e Silvio, dois jornalistas, lembrávamos tempos idos, nas redações. As de agora - dizia Ronaldo - lembram os aeroportos do  poema de Quintana: todos os aeroportos do mundo são iguais, excessivamente sanitários e com anúncios de Coca-Cola.

Por conta da conversa, viajei de volta no tempo e lembrei de uma passagem que reúne a pressa das redações, a luta pela boa informação e a piada que não pode ser perdida mesmo com o "dead line" batendo perigosamente à sua porta.

Havia uma greve de eletricitários que conturbava a cidade. Faltava pouco para o tele-jornal começar. Não havia computadores na redação, nos idos dos anos 80, naquela emissora de TV. Cada lauda do jornal era datilografada em blocos de sete folhas, entremeadas com papel carbono. Fico pensando, como a gente dava conta daquilo?

A redação frenética. Uns, apurando os efeitos da greve, o caos nos hospitais, no trânsito. Outros em busca do andamento das negociações. Os mais experientes tinham autonomia de vôo e sabiam o que fazer. Os jornalistas novatos batiam cabeça. Entre eles, uma jovem jornalista, rica de conhecimento, mas crua na profissão, queria ajudar de qualquer forma. Apesar da timidez.

Timida, chegou-se à mesa onde eu - chefe de redação - comandava aquele pequeno exército de jornalistas enlouquecidos. Posso ajudar? Sim, respondi sem tirar os olhos da lauda que escrevia. Pegue um retorno com o Benito, presidente do sindicato dos eletricitários. Ela se foi.

Logo voltou. De novo, meio sem jeito, não querendo incomodar e já incomodando: como eu falo com ele? perguntou. Pelo telefone. respondi, direto e reto. E segui fazendo a minha lauda. O dead line se aproximando cada vez mais. Àquela altura, alguns olhares já se voltavam para o inusitado diálogo entre eu e ela.

Ele se foi  e voltou uma vez mais. Metade da redação esperando para saber qual seria a próxima pergunta. Onde eu acho o telefone do Benito? Na agenda, respondi pensando quase em voz alta: - ai, meu Deus. E ela saiu desabalada em busca de uma agenda. Encontrou. A redação parou quando ela, desavisadamente fez mensão de voltar com uma nova pergunta. E veio: Qual o sobrenome do Benito?

Silêncio total. Num lapso pensei - perco o jornal, mas não perco a piada: Mussolini, respondi fazendo cara de sério. Sem titubear, danou-se a procurar um improvável Benito Mussolini na agenda. A moça ainda teve tempo de levantar a cabeça e começar a dizer - Maranhão, não tem nenhum Benito Mussolini na agenda. Foi quando a redação veio abaixo, numa explosão de risos.

O jornal foi ao ar sem a nota retorno. E o episódio virou uma dessas histórias que ninguém mais esquece.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Margot e a saudade

Margarida Marques, a quem nos acostumamos a chamar carinhosamente de Margot é dessas mulheres que entram na vida da gente pra nunca mais sair. Ela entrou na nossa vida, definitivamente. É madrinha de Mariana, é meio anjo da guarda, além de todos os outros predicados possíveis. Pelo menos um deles eu não posso me furtar de registrar: Margot tem os cabelos brancos mais lindos e assumidos que já encontrei.

Pois hoje, pra fechar a segunda-feira, ela me escreveu. Motivada pelo texto que postei, falando de poesia e de Leminski, ela saiu do silêncio. E disse que não conseguiu publicar um recado como gostaria, no "pé" do texto. Não resisti de tanta lindeza. O que ela me mandou, penso, não é pra ficar guardado. Com a devida "vênia", Margot, vai ser publicado. Um beijo, comadre. Minha saudade e meu amor são iguais.

Meu querido, só você mesmo poderia lembrar de Leminski e sua excelente poesia numa manhã de segunda-feira, o que, com certeza tornará minha semana bastante melhor. De quebra, proporcionar que escutasse mais uma vez Ceriema, cuja versão, confesso que, embora respeitando Inezita, prefiro as de amigos daqui, que você conhece muito bem.

Quanto ao lançamento do livro, diga ao Mauro que gostaria muito de poder estar presente, pois gostava imensamente do Adão, a quem tive a honra de receber em minha casa para jantar. Um ser humano dos melhores, que transparecia uma dignidade rara de se encontrar. Pena que nos deixou cedo, empobrecendo ainda mais o já debilitado cenário político do país.

Quanto a você, que no momento deve estar feliz por ter vencido mais uma batalha, sinto sempre a sua falta, aliás, eu e muita gente, pois deixou uma lacuna em Mato Grosso do Sul, não apenas em nossos corações, mas no árido meio jornalístico.

Beijos mil,

Margot

Três ou quatro coisas de Leminski

Paulo Leminski nasceu em Curitiba, em 44. Foi um estudioso da língua e cultura japonesas e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. Sua obra tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos brasileiros dos últimos anos.

Conheci Leminski muito rapidamente, em Curitiba. No Bar do Cardoso, que era um dos lugares que ele gostava de frequentar. Não sei se o bar ainda existe. Também não sei se o Cardoso - um senhor de idade, já no início dos anos 80, quando estive lá - ainda vive. Só Leminski, apesar de morto, continua cada vez mais vivo em minha poesia.

Aliás, falando isso, me lembro de um raciocínio de Milton Nascimento, que terminou virando canção. Ele, Milton, se referia à admiração, ao amor que sentia por John Lennon. E escreveu: "Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim que perguntar carece - como não fui eu que fiz?".

Assim, penso em Leminski. E nesta manhã de segunda, feriado do Dia da República, reproduzo três ou quatro coisas de Leminski que me tocam tão fundo que eu mesmo me pergunto: Como não fui eu que fiz?

Eu

eu quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora
de dentro de meu centro
este poema me olha

Incenso Fosse Música

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Haicai

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

 Eu no retrato, não sou um. Sou três por quatro.

foto: Miki Persona para ilustração d'os gemeos









domingo, 14 de novembro de 2010

O canto da Siriema

Alex Freitas, jornalista que atua ali pelas bandas de Mato Grosso do Sul, me manda a foto de uma das aves símbolo daquela região. Não só pela beleza, mas principalmente pelo canto, a siriema (que alguns escrevem Ceriema ou, ainda, Ciriema) adquiriu, por mérito, esse status emblemático.

O nome Siriema deriva das palavras em tupi “çaria” (= crista) + “am” (= levantada). É uma ave típica dos cerrados do Brasil, possui porte imponente e cauda longa.

Ela já inspirou diversas canções pelos rincões desse imenso Brasil. Uma das mais conhecidas foi escrita por Nhô Pai e Mario Zan, e ficou famosa na voz de cantores tradicionais da nossa música sertaneja, como a dupla Tonico e Tinoco.

A foto que ilustra esse texto, segundo o Alex me conta, foi feita no caminho para o Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema. Um lugar que ele descreve como maravilhoso, mas ainda desconhecido do grande público por falta de infraestrutura.

Alex, valeu a colaboração. Além de provocar uma boa lembrança, me fez ir atrás da música, que havia tempos, eu não escutava. Reparto com você a alegria de ouvi-la novamente, na voz inconfundível de Inezita Barroso. Repare que na abertura e o encerramento da música os violeiros se esmeram para imitar o tão falado "canto da siriema"

Pra não esquecer o livro

Mauro di Deus me liga. Estava tomando uma cerveja com Sabino e a conversa rendeu pro meu lado. Sabino me foi apresentado pelo Mauro, há algum tempo, lá no Congresso. 

Nos aproximamos mais durante a última campanha para o governo do DF. No dia em que a eleição se resolveu, nos encontramos no palco montado na Esplanada dos Ministérios.

Ele, microfone na mão, comandando a festa e esperando a chegada dos protagonistas, Dilma e Agnelo. Eu, saboreando aquela estranha sensação que se tem quando um trabalho chega ao fim. Ferreirinha, estava lá e registrou o nosso encontro.

Mauro e Sabino, pelo visto, gastavam o tempo com uma boa conversa regada a cerveja. Sobre o Mauro já falei aqui no blog, neste post. E ele sempre tem boas histórias pra contar. Desta vez, além de me fazer inveja pela cerveja que bebia e pela companhia, ele  ligou para que eu nãoesquecesse do livro que será lançado no próximo dia 24, na Câmara Federal.


Reprodução do convite de lançamento do livro

O livro é o resultado de um trabalho coordenado pelo Mauro e conta a história da vida do parlamentar Adão Preto, um camponês gaúcho que se elegeu graças aos votos da gente do campo, a quem ele representou com dignidade até a morte.

A empolgação do Mauro não deixa dúvidas sobre a qualidade do livro e dá pra perceber isso nas palavras dele: "Sou suspeito pra falar, pois afinal, sou o "pai" da ideia. Mas o livro ficou duca! A pessoa que eu convidei para escrevê-lo, a Ana Backes, fez um trabalho muito bom. Você poderá conferir esse meu entusiasmo no próximo dia 24, quando faremos o lançamento aqui no Salão Nobre da Câmara Federal". Está combinado, então. Nos vemos por lá, Maurinho.

sábado, 13 de novembro de 2010

Elisa, Grazi, Vik, lixo e luxo

Dei a minha passada diária no blog da Elisa Mendes. Encontrei a Grazi, do blog nalata e assisti o trailer do documentário "Lixo Extraordinário" do artista plástico brasileiro, Vik Muniz.

Ganhei a manhã. Pelas meninas, pela leitura sobre reciclagem de lixo, pela preocupação com o nosso futuro e por saber um pouco mais sobre as atividades do Vik. Pra quem nunca ouviu falar, preste atenção: mesmo que você não tenha o hábito de ler sobre artes plásticas, certamente você já teve contato com pelo menos uma obra dele. Se deu a sorte de estar na frente da TV, depois do Jornal Nacional e viu a abertura da novela Passione, da Rede Globo, então, o trabalho do Vik estava lá.

Pois esta é, seguramente, a sua obra de maior alcance. Graças à encomenda da Rede Globo, há alguns meses, toda noite, a grande maioria dos brasileiros tem uma breve oportunidade de conferir um exemplar da arte feita por Vik Muniz. Um misto de escultura, instalação e fotografia serve de moldura para a história de amor e paixão dos personagens brasileiros e italianos da novela.

Se não prestou atenção ou não teve tempo de sentar à frente da TV, como milhões de telespectadores fazem, veja aí o filme da abertura.



Vik Muniz está na estrada das artes plásticas há mais de 20 anos. Tem obras espalhadas em alguns dos principais museus do mundo e é hoje um dos artistas plásticos mais respeitados da nova geração. Seu mais recente feito associou criatividade, apuro técnico, preocupação ecológica e solidariedade.

Ele é o personagem principal de um documentário premiado, produzido e dirigido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley. A história é simples: registra o processo criativo de Vik trabalhando em conjunto com catadores de lixo do aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Um dos maiores lixões do mundo, o Gramacho, recebe 7 mil toneladas de lixo por dia.

Vik foi lá, pediu autorização para registrar algumas cenas e seus catadores. E depois, com a ajuda deles, reproduziu essas imagens, em grande escala, usando como matéria prima o proprio lixo.As obras foram vendidas e o dinheiro revertido em benefício das pessoas que vivem do lixão.   O filme já fez carreira de sucesso no exterior e recebeu prêmios pelo mundo afora. Vale a pena conferir o trailer.


WASTE LAND Official Trailer from Emily Rothschild on Vimeo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vida cigana

Dalila, que só é Dalila para os estranhos, pra mim é e sempre será "Baiana", mulher do Geraldo Espíndola, me escreve falando sobre o projeto "Brasil Canta MS". A essa altura, a abertura da primeira noitada já está acontecendo. E a parada inicial é em São Paulo, no Memorial da América Latina.

A história é a seguinte: Durante o ano inteiro, o governo investe em um projeto que se chama "MS canta Brasil", que traz cantores nacionais para shows a custo popular. Agora fico sabendo que a Fundação de Cultura de MS fez o inverso, montou uma Caravana Cultural que vai percorrer cinco estados brasileiros, levando algo do bom e do melhor da dança, do artesanato, das artes plásticas e da música popular do pantanal.

É uma oportunidade de conhecer de perto algo mais que a terra dos meus filhos produz, além de gado, de soja e, mais recentemente, de dupla sertaneja romântica. No cardápio cultural que está na estrada tem Geraldo Espíndola, Filhos dos Livres, Jerry, Edneide, grupo de dança corpomancia, além de telas premiadas de Humberto Espíndola e muito artesanato.

Tá dada a dica. Torço pra que eles se acheguem por aqui por Brasília, uma hora dessas.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Olhar de fotógrafo

Ferreirinha sempre me manda uns presentes. São fotos que chegam pelo meu e-mail, com um discreto convite a falar delas. Num dos últimos, ele foi mais ousado. E revelou um desejo: "Quero, um dia, fazer fotos como você escreve poesia."

Besteira, Ferreirinha. Você é que não percebeu. Mas suas fotos já são pura poesia. Em verdade, eu é que gostaria de manejar uma câmera fotográfica unindo a sua técnica e o seu olhar. Então, na pior das hipóteses, estamos empatados.

Eu cá, com os meus escritos. E você, com suas fotos. Quer ver como isso dá certo? Olha aí:

Foto: Ronaldo Ferreira
A abelha,
vadia que só,
viaja
de flor em flor.

Compromisso? Nenhum.

Mas no fim do dia
o mel, além de doce,
vai ter um outro sabor! 

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Los Hermanos, doze passos e uma lajota

O tango carrega consigo algo de tragédia, de drama. Para mim, tango é sinônimo de vigor e paixão. E sempre que penso em tango, me vem à memória um sobrenome: "Piazzolla". Sei que ele um dia foi novo, mas a imagem que retenho na memória é a de um senhor, meio calvo, cabeça pendida em direção ao bandoneón. E, de forma quase automática, a sonoridade de "Adios Nonino" me invade a mente.

Lembro também de uma história comum, dessas que viram lenda na família: Meu pai, seu Innocêncio, se vangloriando de fazer "doze passos numa lajota". Nunca ninguém descobriu qual o tamanho da tal lajota. Muito menos, se algum dia ele teria mesmo conseguido executar os tais doze passos. Mas, enfim, a lajota do "seu" Viegas virou lenda nas reuniões de família. Para desespero de minha mãe, que garante - se houve mesmo, não foi em sua companhia.

Me pego pensando estas coisas por conta da proximidade da chegada de um grupo de jovens "hermanos" argentinos a Brasília. Eles formaram a Orquestra Típica Fernandez Fierro, um grupo de guris que anda disposto da oxigenar o velho tango, atribuindo-lhe uma testura moderna, "sin perder la vigorosidade jamás".

Numa primeira "mirada", parecem uns beatles, com seus cabelos rebeldes e seus óculos escuros. Não são. Lembram um grupo de rock com suas calças jeans e all stars, mas não são. Por vezes parecem uma orquestra sinfônica de verdade, com seus violinos e cielos. Mas estão longe de ser.

O fato é que basta uma olhada para se apaixonar pelo resultado do que fazem no palco. Aos fanáticos do futebol, que poderiam rejeitá-los pela sua origem, digo: não importa que sejam argentinos. Se não o fossem, não seriam o que são. Não haveria paixão, nem poesia. Não conseguiriam arejar o tango com a maestria que alcançam. Que "São" Jorge Luis Borges os proteja.

Entre os dias 19 e 21 de novembro, quando eles estarão aqui em Brasília, vou arriscar propor ao "seu" Viegas que assista esse show em minha companhia. Quem sabe lá, ele se anime. E eu terei a chance de descubrir, finalmente, se houve um dia o mistério dos doze passos numa lajota. Enquanto isso, lhes apresento: Com vocês, a Orquestra Típica Fernández Fierro.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

SapaJohnson 1 X 0 Masquerade

Lelia Broussard é uma cantora de música folk/indie/pop natural do estado do Louisiana, mas já correu os EUA de Philadelphia a New York, fixando residencia em Los Angeles onde gravou o disco "Masquerade" onde se encontra esse clip que está logo aí abaixo.



Olhando assim, grosso modo, lembrei das meninas do Sapabonde, grupo funk/pop/transe/brega brasiliense que começa a ser reconhecido fora dos limites do DF. As meninas daqui prometem ir longe com uma pegada que, pela irreverência e ousadia, lembra os mamonas assassinas, nos seus primórdios.

Detalhe: Não há nada que as compare com as minas de Louisiana. A Bilu toca guitarrra muito melhor que  a Lelia toca cavaquinho. A Tava tem mais aproach do que a guria de vestidinho branco no segundo plano do clip americano. E a Mariana, a Carol e a Juba são mais presença do que qualquer uma das três que estão lá no fundo. Ponto pro Sapabonde e pro João Brasil que fizeram essa mistura definitiva, ligando as meninas de Brasília com o Jack Johnson que rola aí em seguida.
As minas do Sapabonde com mais pegada do que as da Louisiana
Foto: Jornal O Globo
Vai não se enconde Jack (João Brasil) by joaobrasil

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O fino traço do impossível

"Cascata", 1961. Créditos: © The M.C. Escher Company
B.V. Baarn, The Netherlands
Maurits Escher nasceu na Holanda, em 1898. Demorou a ter a seu dom compreendido como arte. Mas tornou-se respeitado quando os americanos enxergaram a magia do seu traço, a capacidade de produzir imagens impossíveis, usando e abusando da ilusão de ótica e dos paradoxos sobre o papel.

A arte de Maurits Escher desembarcou em Brasília no dia 12 de outubro. E fica no CCBB até o dia 26 de novembro. Na forma de um conjunto de 95 peças originais, incluindo as mais importantes da sua vida. A exposição “O mundo mágico de Escher” foi montada para comemorar os dez anos do CCBB, em Brasília. Um presente e tanto para o público, que já quebrou o recorde de visitação.

Quem for até lá vai se divertir com a sala Multiuso, onde estão experiências interativas que exemplificam os princípios aplicados nas obras e nas intervenções óticas. O público vai vivenciar uma série de experiências que desvendam os efeitos óticos e de espelhamento que Escher utilizava em seus trabalhos. Ao olhar pela janela de uma casa, vai ver tudo em ordem. Em seguida, verá tudo flutuando através de outra janela, da mesma casa. Um filme em 3D, de dez minutos, permite um divertido passeio por dentro das obras do artista gráfico.


"Dia e noite", 1938. Créditos: © The M.C. Escher Company
B.V. Baarn, The Nethe rlands.
Reunir tantos trabalhos de Escher não foi fácil e, provavelmente, essa será a única oportunidade de apreciar tantas obras reunidas fora do museu, na Holanda.

Escher tornou-se famoso por representar construções impossíveis, explorar o infinito e abusar das metamorfoses usando padrões geométricos que se entrecuzam e se transformam em imagens diversas. Água que corre para cima, pessoas que sobem e descem escadas imaginárias, auto-retratos em esferas de metal, pássaros, peixes e lagartos ganhando vida em imensos quebra-cabeças.

Está tudo lá. E é imperdível. Se não for pelo amor à matemática (essência da origem das suas linhas), que seja pelo prazer de voltar a ser criança, como eu e Mara fizemos, brincando de gigantes e anões, graças às descobertas gráficas e ilusionistas de Escher.

domingo, 7 de novembro de 2010

O mundo interligado e atento

Segue chovendo em Brasília. Acordo com o alarme da casa disparando. O vento, tão forte, abriu a janela do banheiro comum, das crianças (Mariana, 22 e Gabriel,18 - serão sempre as nossas crianças). Desço, recolho o jornal, ligo o computador, percorro as notícias e blogs que o trabalho me impõe e, passo então aos sites e blogs que me dão paz e alegria.

Um dos primeiros é o da Elisa Mendes. E dou de cara com um post sobre o TEDxAmazonia. Sem ter noção do tempo, vou clicando em cada link e me apaixonando cada vez mais pelo que está escrito. O TEDxAM é um evento organizado para acontecer neste fim de semana (pena não ter descoberto antes), no coração da Amazônia, num hotel a 45 minutos de barco, de Manaus.

Estão lá, participando do evento, dezenas de pessoas que tem muitas idéias e que acham que as suas idéias, de alguma forma podem fazer o mundo ficar melhor. Lendo sobre o perfil de cada um dos palestrantes - que ao longo do encontro têm espaço para curtas palestras (coisa que varia entre cinco e quinze minutos, cada uma) fui me dando conta de que gostaria de estar lá.

Ainda não foi dessa vez que pude participar, efetivamente. Mas foi só clicar nos perfis, saber das idéias, enxergar novos horizontes a partir do que foi dito e do que está acontecendo, só isso, já me deu a sensação de ter ganho o domingo. Valeu, Elisa. Passei as minhas primeiras duas horas do domingo absolutamente vidrado nas informações que me chegaram através de uma simples olhada no seu blog.

Cada vez mais me convenço de que essa é uma das melhores funções da internet: unir pessoas e idéias distantes. Como aconteceu agora. Você em NY, eu aqui, em Brasília e o povo lá, no meio da Amazônia. Todos nós pensando, juntos, que a vida pode ser bem melhor.

sábado, 6 de novembro de 2010

Ossos de Dinossauros

"Dinosaur Bones" é uma banda canadense, de Toronto, formada em 2008. Desde que surgiu, vem sendo considerada por muitas publicações uma das mais promissoras bandas daquele país, apesar de não ter editado qualquer album.


A qualidade do som deles está acessível no "my Space"  com o EP "Birthright", de quatro faixas que antecede o tão aguardado lançamento de "My Divider". O primeiro album da banda deve ver a luz do dia no principio de 2011.

Enquanto isso, curta aí a bela "Ice Hotels"
.

Almoço chinês, lembrança de natal

foto: Alexandre Dourado
O dia amanheceu chuvoso e preguiçoso, como há muito não acontecia. Almas recolhidas, cachorros também. Tudo andando lentamente, exceto o vizinho da oficina ao lado, que resolveu trocar algumas placas de ferro a partir das sete e meia da manhã.

Acordo, vou ao computador. Mariana também acorda e avisa: tem aula na faculdade. Preparo um café, pão na torradeira nova e espero que ela desça. Lá se vai a baixinha, avisando que depois da aula tem um pagode e não volta tão cedo. A vida segue. A chuva também. O cara do portão chega para consertá-lo. Assim funciona a vida quando se está em casa. Parece não haver nada para fazer e tanta coisa acontece ao mesmo tempo.

Portão consertado, procuro o livro que comecei a ler - 1822, do Laurentino Gomes. Café na cama pra Mara, que passou mal à noite com febre e dores no corpo. O Bi, dormindo. O treino de fórmula um. O cumprimento do vizinho pela vitória na eleição. O Clipping do dia chegando atrasado.

No computador, recebo o e-mail do Assis. Vou atrás do disco, baixo o arquivo. Escuto as músicas. Vou mexer nas fotos e o programa avisa: a versão beta expirou. Se quiser continuar usando, compre outra. Desconfio que outros programas essenciais também estão assim. Bingo. Não vou comprar. Tenho um programa mais antigo que comprei ano passado. Procuro, acho, instalo, reinicio, pronto. A vida virtual volta ao normal.

A fome bate. E não fiz a metade do que havia planejado - ler meu livro. Mara no banho, sinal de melhora. Que tal uma comida chinesa? Vamos lá ou vou buscar? Os dois (o Bi acordou) respondem eu uníssono - vá buscar.

Banho, barba, desodorante, roupa limpa, carro e rua. A chuva persiste. Ô diazinho pra não fazer nada, penso comigo. E concluo que já fiz muito. Um macarrão chop suei, "família feliz" - um prato que mistura legumes e frutos do mar; e bananas caramelasdas para a sobremesa. Enquanto espero, passo no super e compro pipocas de microondas para a tarde. Almoço pronto, cozinha arrumada, uma nesga de sol.


À mesa, falamos do natal. Vamos para Fortaleza. E começam as lembranças dos natais passados. Há diferenças extremas entre as tradições sulistas e nordestinas. Hoje, menos; por conta da globalização. Hábitos sulistas, como árvores cobertas de neve, não eram comuns no nordeste, anos atrás.

Do período de oito anos, do nascimento até deixar o Maranhão em direção ao Sul, me lembro muito pouco. Mas lembro do nervosismo de esperar o "Papai Noel". Criança dormia cedo. Eu resistia. Mas, invariavelmente, dormia antes de ver o bom velhinho chegar com os presentes.


No dia seguinte, embaixo da rede, lá estava o presente. E eu me odiava por não ter resistido ao sono. Entretanto, o que importava era saber o que tinha merecido. Brinquedos de plástico, carrinhos, bolas de futebol. O que quer que fosse, era válido, era deslumbrante abrir o pacote e poder sair à rua para comparar os presentes e - principalmente - brincar.

Mara lembrava de outras tradições. Quatro semanas antes, a contagem regressiva se dava pelo acendimento de velas especiais. Uma a cada domingo e o natal cada vez mais perto. A cada vela acesa, cantoria e orações. Até que chegava o dia em que a sala era trancada aos menores. "Papai Noel" estava trabalhando.

E na Noite de Natal, a árvore repleta de velas, brilhos e presentes, era um sonho. Antes de abri-los, cantos em alemão, orações, puxados pelos avós e tios. A meia-noite não chegava nunca. Diante de tantas memórias, Mara lembrou de uma história engraçada. O primo dela, Norberto, como todas as outras crianças da família, era obrigado a ir à missa do Galo. Norberto, por ser o mais velho deles, garantia uns goles de trago antes de cumprir a obrigação religiosa.

Certa vez, Norberto só teve tempo de sentar-se no banco da igreja e ver o início da missa. Não demorou muito, estava cochilando entre os primos. Num determinado instante, o padre falou mais alto - a ponto de acordá-lo: "... e a virgem Maria estava grávida..." Norberto não se fez de rogado, esfregou os olhos e exclamou bem alto, de forma a que todos ouvissem na igreja: - Mas bah, tchê! a gente não pode dar um cochilo que a "virgem" já está grávida!

Silêncio geral na igreja e o "ôpa" (avô em alemão) fuzilando o Norberto. Naquele ano, todos os outros primos ganharam um troco por acompanhá-lo à missa. Menos o primo Norberto.

Baiãozinho do Assis

Assis Medeiros é um pernambucano, quase paraibano, quase maranhense. E é músico, dublê de jornalista. Conheci Assis quando trabalhei na TV Senado.Ele terminou ficando mais próximo da Mara, que também trabalhou um período por lá. Ele e ela foram companheiros de departamento. E ele adorava as piadas e as cucas de nozes que a Mara fazia. Sempre que ele dá notícias ou é para encomendar uma cuca ou para falar de uma nova música.

Ontem, recebi de Assis um e-mail com informações sobre o seu novo trabalho musical "Baiãozinho Nuar" e não resisti: já baixei a minha cópia. Quem quiser conhecer melhor o trabalho do Assis é bom visitar a página dele e conferir. Tendo um tempinho, dá pra baixar os arquivos com o novo som e curtir na íntegra a pegada tecnopop do camarada. Vale a pena.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pássaros no palco

Foto: Bengt Wanselius 
Ana e Mikhail não são meninos. Viveram o que a vida lhes deu como dom, intensamente. Ele, russo, ela, espanhola. Os corpos têm idade cronológica avançada - para bailarinos. 54, ela; 62, ele. Mas continuam no palco a fazer coisas que até Deus duvida. Não mais com os arroubos juvenis. Mas com leveza e maturidade.
 
Nesta quinta-feira eles chegam a Brasília, para uma única apresentação no Teatro Nacional. Merecem tratamento de estrela. Merecem casa cheia. Merecem o que sempre receberam do público, por onde quer que tenham passado: aplauso e admiração.
 
O espetáculo "Três solos e um Dueto", com Ana Laguna e Mikhail Baryshnikov, começa às nove da noite, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Os ingressos custam R$ 300,00 (inteira) e R$ 150,00 (meia). Aí embaixo, uma pequena amostra do que vai acontecer no palco, logo mais à noite. 
 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nas ondas do rádio

No início da década de 70 fui viver, junto com toda a minha família, em Foz do Iguaçu. Meu pai havia sido transferido para lá. Foi um período de grandes mudanças. Saído direto do Maranhão, com oito anos de idade, com uma realidade nordestina, costumes nordestinos, desembarquei no Sul com uma temperatura perto de cinco graus. Foi um contraste absurdo. Não foram poucas as vezes em que nos pegamos pensando coletivamente em voltar correndo para São Luis.

Penso mesmo que esse "desterro" involuntário foi responsável pelos meus primeiros escritos. Vem dessa época algumas cartas tristes, escritas a amigos distantes, incapazes de imaginar o que eu passava. Mas elas eram a forma mais contundente de traduzir a minha saudade e o meu estranhamento a aquele lugar onde a maioria dos vizinhos e amigos falava uma outra língua, que eu não compreendia direito. O tempo se encarregou de me mostrar, havia vida além de São Luis. Até fazer com que a saudade se transformasse em pura memória, sem dor, sem sofrimento.

A segunda parte da minha infância vivi em Foz. E um bom pedaço da adolescência também. E foi como adolescente, alguns anos depois, que descobri o rádio como um companheiro de jornada. Foz do Iguaçu é a ponta do Brasil que faz fronteira com um pedaço da Argentina e outro do Paraguai. Por isso, habituei-me a conviver de perto com um sotaque duplamente castelhano.

Entre as manias que desenvolvi, havia uma que ainda hoje carrego com imenso carinho - dormir ouvindo música.  Eu tinha na cabeceira da cama um radinho que funcionava a pilhas. E que sintonizava, invariavelmente, a Rádio Mitre, de Buenos Aires. O programa que eu ouvia, na hora de dormir, tocava baladas americanas, músicas populares e pop rock argentino. As minhas noites de adolescentes eram embaladas por "The Playters", Mercedes Sosa e um camarada chamado Charly Garcia, entre tantos outros.

Mas era de Charly uma das melodias que mais me marcaram esse período - "Los Dinossaurios". O arranjo de piano e as notas iniciais dessa música me causavam uma comoção, me provocavam uma melancolia inexplicável e me faziam dormir e sonhar.

Não havia a compreensão do contexto, da luta pela libertade, dos tempos de ditadura militar. Não havia a compreensão da letra que falava de pessoas desaparecidas e muito menos havia a capacidade de entender o simbolismo que existia no fato da Rádio Mitre tocar, todas as noites, anos a fio, músicas como aquela.

Hoje, vasculhando a blogosfera, encontrei um vídeo em que o próprio Charly canta essa música. Foi uma volta ao passado distante, à adolescência. E devo dizer que ainda hoje, aquela dorzinha no peito se manifesta aos primeiros acordes de "Los Dinossaurios".

O amor de todas as formas

Antes de sair pra faculdade, Mariana, minha filha, me mostrou esse vídeo. Uma belezura de vídeo. Simples, delicado e emocionante. O amor traduzido em pedacinhos de papel, daqueles que a gente usa pra grudar recados que não pode esquecer. Dá só uma olhada.