terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Abaporu


O menino janta. Junto com seus pais. Sopa. Uma deliciosa sopa de legumes. Milho, batatas amassadas, pimentão, tomates, berinjelas, batata baroa, abobrinha, noz moscada... E, para dar um gostinho, pedaços de músculo bem fritos. Sal, caldo de legumes e muita água pra garantir o caldo. A perfeição em forma de sopa.

O prato certo para enfrentar a noite fria  e chuvosa. À mesa, pedaços de pão, queijo branco e manteiga. Um limão cortado ao meio para pingar umas gotas no prato. Hum!!!! Delícia. Simples e saboroso.

O Jornal Nacional  na TV. Notícias que, por nada, seriam capazes de melhorar o clima. Quem quer saber de violência diante de um prato de sopa? Quem?

Nada de importante no ar. Até que surge uma informação capaz de mobilizar a todos: Uma exposição sobre a arte de Tarsila do Amaral, a artista brasileira que melhor soube traduzir a Semana da Arte Moderna. O menino interrompe - Eu gosto muito de Tarsila do Amaral. Os pais se entreolham com um certo espanto. A mãe provoca - Não sabia que você gostava dela. Gosto, sim. E conheço bem os quadros de Tarsila - dizia ele de boca cheia.

Novo olhar de espanto entre os pais. O menino com os olhos fixos na tela da TV. A sopa lá. Silêncio. Vocês não acreditam?  Não é isso. Apenas estamos admirados com esse seu "profundo" conhecimento sobre a arte de Tarsila.

Pois, eu conheço sim. Tem aquele... o Abaporu...

Sim...

Tem outros...

Quais outros você conhece?

Aquele... Vocês não conhecem??

Silêncio.

Aquele...

O pai, bem sério, entra como se fosse ajudar: Sim, tem vários outros...

A mãe séria e cada vez mais admirada com o rumo da conversa, segura no ar uma colherada de sopa que seguia em direção à boca. O pai e o menino se entreolham. Silêncio no ar. Até que o pai solta:

Tem uma série...

O Abaporá...

O Abaporé...

O Abapori...

O Abaporó...

Todos anteriores ao Abaporu.

E a mesa explode numa gargalhada só. Inclusive o menino, que dizia conhecer muito da arte de Tarsila. A sopa, depois do riso, fica melhor ainda.


  

3 comentários:

  1. Delícia de crônica, Maranhão. Tão ou mais saborosa que a sopa. Deu até pra sentir o cheirinho da sopa no ar...

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  2. Gostoso de ler e de comer. Quase uma sopa de letrinhas!

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  3. Senti como se estivesse à mesa sorvendo a sopa e partilhando dessa deliciosa conversa em família igualmente deliciosa. Impagável meu caro novo velho amigo!

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