sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pra terminar bem o ano

Ano que vai.
Ano que vem.

E a gente aqui, imaginando...
Vai ser melhor, sim.
Vai ser diferente.

Bom pro mundo.
Bom pra a gente.

Playing For Change Imagine

sábado, 25 de dezembro de 2010

Mucuripe

Foto: Chico Albuquerque
Meus olhos correm a barra do mar. Mucuripe. De onde saem centenas, milhares de barcos para pescar, todos os dias. Mucuripe. Onde os homens chegam aos primeiros raios de sol, com seu barquinhos frágeis feito uma casca de côco, cortanto a linha do horizonte, até chegar à praia.

Mucuripe. O mercado dos peixes toma vida. Gritos, gritos, cheiro de peixe, gente, cheiro de mar, vida que balança à deriva. Comida que mata a fome de quem tem. E os barcos lá, a partir e chegar numa sequência sem fim, que nunca acaba ao por do sol. Nem nunca cessa ao nascer do dia. Mucuripe.

Diante do vai e vem, do frenesi dos pescadores e seus peixes, meus olhos param em um barco desfeito, ou quase. As ondas lambem sua borda num breve convite à viagem. Ele lá. Imóvel. Esquecido no tempo. Barco sem mar, sem gente, sem rumo, sem rota. Mucuripe.

Berço da vida, cemitério de barcos. E a vida em ondas, indo e vindo, como o mar.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal nos tempos da blogosfera

A Margarida Marques nos mandou esse videozinho de Natal. É genial e vem bem a calhar nesses tempos em que tudo, mas tudo mesmo, tornou-se possível através da internet. Curtam aí. Se Jesus Cristo tivesse nascido nos dias de hoje, a notícia teria corrido o mundo assim:

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Saudade da terrinha

Pra fechar o dia de hoje, recebo um vídeo lindo, que me encheu de saudades do lugar onde morei por mais de 20 anos, onde meus filhos nasceram e onde eu, verdadeiramente, virei gente - o Mato Grosso do Sul.

Na condição de jornalista, percorri vales, estradas e montanhas; rios, corichos e pantanais. E cada um desses lugares, com seus seres encantados, me pertenceu e me tomou pra si. Na condição de cidadão, de pessoa, de vivente, me completei de sabores, cores e versos.

Por isso estou aqui me deliciando com as imagens do pantanal de Aquidauana que me chegam através da Fernanda Preto. E depois de ver e me emocionar com a beleza do filme, encontrei na ficha técnica velhos e bons amigos. A Ana Teresa, Donana - do roteiro precioso; o Junior, da animatronic; as músicas de Guilherme Rondon, do Paulinho Simões, do Marcio de Camilo, do Toninho Porto; e o Gregório Medeiros.

É um jeito bacana de terminar esta terça-feira. Beijos saudosos, cheios de pantanal, para todos.


PROMO-PANTANAL OF AQUIDAUANA-ENG SUB from mauricio copetti on Vimeo.

Feliz Natal, Feliz ano novo!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Olhar de fotógrafo


Fazia horas que Ferreirinha não me mandava uma. Hoje, ele veio com duas. Brasília vista do alto. A cidade, às vesperas de trocar de mãos, se mostra mais inteira e ampla do que nunca. É como se, olhando do alto, a gente pudesse perceber o que de fato existe: uma cidade maior que suas crises.

Na foto de cima, Ferreirinha abriu sua grande angular e disparou em direção ao Congresso. A linha do horizonte dá a idéia do que os criadores de Brasília sonhavam, 50 anos atrás. Um lugar vasto, sem barreiras e sem bloqueios.

Na foto de baixo, Ferreirinha se volta para o lado Oeste do Eixo Monumental. E a gente vê uma obra ainda por ser concluída, mas já imponente: a nova feira da Torre. Brasília é assim, surpreendente em tudo. Na imagem, como na vida real, o que já está pronto deslumbra. O que está por fazer, desafia.

Oscar, 103

Deu na coluna do Cláudio Humberto: Oscar Niemeyer recebia visitantes de Brasília quando um deles perguntou como se sentia, ao completar 103 anos de idade. A resposta do genial arquiteto: “Uma merda. Preferia estar completando vinte”.



Busquei na internet uma imagem do arquiteto aos 20 (foto acima). Achei a ficha de inscrição dele, na Escola Nacional de Belas Artes, em 1929, quando ele tinha 22 anos. Foi ali o começo de quase tudo, segundo ele mesmo. As grandes amizades, a definição pelo desenho e pela arquitetura; e o encontro com Lúcio Costa, que viria a dirigir a Escola em 1931.

Engraçada essa vida. Aos vinte anos, a gente costuma desejar ter vida longa, quem sabe, passar dos cem. Exatamente o ponto em que Niemeyer se encontra agora. 103 anos de vida. E ele, sabiamente, desejando ter vinte.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Desejo de filho

O dia ainda não tinha amanhecido direito quando abri a caixa de mensagens. Havia várias. Entre elas, uma me remetendo ao Blog do Gabriel, meu filho. Segui a dica e encontrei um raciocínio curto, direto, claro e objetivo:

Vontade de correr para o futuro e ver se deu certo. Depois voltar com a certeza: funcionou.

Me emocionei ao perceber que o desejo dele é também o meu, em vários momentos do dia; em muitos estágios da vida. De pronto, fiz um compromisso: sempre que for preciso, corro junto. Vou até lá, contigo, buscar essa certeza. Ou, construí-la. Sempre que for preciso, meu filho.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Cicciolina de cada um

Ontem foi dia de visita ilustre no Congresso Nacional. Tiririca, nosso palhaço campeão de votos "chegou, chegando, para abalar geral". Tem gente que diz que o Congresso é isso mesmo. Se subir um muro, vira hospício. Se jogar uma lona por cima, é circo. Com o Tiririca presente, essa segunda opção fica bem mais factível.

Tem outros que ficam revoltados com a eleição de um sujeito que, teoricamente, não deveria estar lá. Digo teoricamente porque persiste ainda a impressão de que ele é analfabeto, apesar dos testes feitos pela Justiça. A estes eu sugiro cautela. Uma breve revisada na história e a gente descobre que os "tiriricas" da vida não são privilégio da sociedade brasileira. Ou da América pobre.

Nos anos 80, a eleição de Cicciolina para o Parlamento Italiano teve um pouco de escárnio eleitoral, uma certa quantidade de protesto ao conservadorismo e muita irreverência. Cicciolina era uma atriz pornô famosa. Seus mais vistosos atributos, os seios fartos, eram parte do mote da campanha que invocava uma jornada "de peito aberto". Sua principal estratégia de campanha era mostrar os seios enquanto "seduzia" os eleitores com os seus projetos.

Campanha na rua, ela foi eleita com 20 mil votos. Trocou a pornografia pela política. Há quem pense que é a mesma coisa, mas não é. Cicciolina, entretanto, sempre teve um desempenho melhor na primeira. O parlamento não fez com que ela largasse a vida de atriz. Dois anos depois de eleita gravou mais uma safra de filmes, causando furor aos seus nobres pares. Defendia o fim da guerra nuclear propondo: "vamos aquecer o mundo fazendo amor".

Mas ela entrou mesmo para o folclore político mundial em 1991, às vesperas de estourar a Guerra do Golfo. Lutando pela paz, ofereceu-se para transar com George Bush e Saddam Hussein em troca de uma conciliação entre ambos. “Um de cada vez”, era a ressalva. Nenhum dos dois topou, a guerra começou e ainda teve um segundo turno com o Bush filho.

Com o nosso Tiririca, não corremos o risco de ter uma proposta dessa, mas certamente, haveremos de dar umas boas risadas. Ou, quem sabe, de nos "atracarmos no choro", como dizem os gaúchos.



 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Porque o dia foi perfeito

Dia destes, achei duas pérolas: Duas versões da música Um dia perfeito. Uma com o próprio autor, Lou Reed, e outra, uma nova versão, com Susan Boyle. Susan é aquela senhora inglesa que ganhou um concurso e virou celebridade do dia pra noite.

O Lou Reed é um velho ícone do Rock, personagem principal da cultura pop, junto com o grupo que ele liderava, o Velvet Underground, e o seu mentor Andy Warhol. Entre os dois Lou e Susan, há uma distância imensa. Distância de estilo, distância de vida, de pensar. Mas há uma coisa que os une. A beleza da música interpretada de forma diferente, mas igualmente emocionante.

E os três, Lou, Susan e a música se unem a mim, hoje, de uma forma muito especial. Porque o dia foi perfeito. E porque o dia foi perfeito, aí estão as duas versões. Primeiro, a mais recente, com Susan. Depois, com Lou Reed, a versão na voz do seu autor, numa apresentação feita em 1998.




domingo, 12 de dezembro de 2010

Lenine em Brasília, de casa cheia

Acabamos de chegar do show do Lenine. Uma delícia de show. Casa cheia, gente bonita e ele lá, dono e senhor do palco. Sessenta pilas bem investidos. Pra fechar o sábado com perfeição. Poesia e paciência. Valeu, Lenine. Volte quando quiser que a gente vai tá aqui, te esperando. Na maior paciência.



sábado, 11 de dezembro de 2010

Projeto 2011

Marina Tebar, filha da minha querida amiga Ana Tebar, me escreve informando que faz uma pesquisa e precisa de ajuda. Ela explica que a pesquisa é simples, rápida e se resume a uma única pergunta:

Quais os seus projetos de vida para 2011?


Pensei um pouco, não muito. E os dedos rapidamente invadiram as teclas pra traduzir o que me veio à cabeça. Jogo rápido, o que eu escrevi está aí:

Primeiro, quero que 2011 seja um ano ímpar. Começar assim, já é certeza de acerto. Se nada do que eu desejar acontecer, pelo menos esse pequeno desejo eu não tenho como errar.

Depois, havendo espaço, quero um bocado de outras coisas:
  • Saúde - pra dar conta de tudo o que é desafio - que eu sei, vai surgir.
  • Alegria - Quem é que encara desafio com tristeza?
  • Coragem - pra recomeçar sempre que for preciso, pra traduzir os meus medos e para enfrentá-los com alguma perspectiva de vitória.
  • Companhia - para dividir as alegrias e partilhar o que quer que seja que me deixe triste.
  • Competência - pra fazer o meu conhecimento virar dinheiro e assegurar a minha tranquilidade.
  • Quero que a poesia e a paixão não me faltem. Eu não saberia viver sem elas.
  • Quero o básico, porque ele é sempre mais difícil de conseguir. (O supérfluo nunca me faltou. Tem sempre alguém que garante o lugar da gente nas festas onde há boa bebida e boa comida).

 
Por fim, quero vinho. Muito vinho. Desconfio que ele, o vinho, guarde a essência da magia que nos faz continuar acreditando, a cada fim de ano, que a vida vai realmente ser melhor no ano que vem.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A arvorezinha da minha vida

Dica do Maurilo, do Pastelzinho. Bela dica. Valeu, Maurilo. Bom pra deixar a sexta-feira mais leve.


Little Tree Little Me from Firman Widyasmara on Vimeo.

Green door

Renzo em ação. Green Door é o primeiro vídeo-dança da série
Renzo Vasquez mal fechou a campanha vitoriosa para o governo do Rio Grande do Norte e já está de volta às lides de "filmmaker" na Europa. Ele acaba de me escrever contando que juntou-se à dançarina Sílvia Razuk num novo projeto áudio-visual que busca do "diálogo perfeito" entre a dança e o vídeo.

O projeto tem a cara e a inquietude do Renzo. Quem não conhece a história dele pode encontrar mais informações num texto que postei aqui no blog, tempos atrás.

Green door é o título do primeiro video-dança idealizado e realizado pela dupla brasileira em parceria com a dançarina Italiana Neda Ponzoni  e surgiu a partir de uma pesquisa que envolve a dançaterapia.

Renzo explica que a dançaterapia propõe uma busca dentro de si mesmo e a sua prática ajuda a trazer à tona conflitos e contradições internas. Da forma como ele fala, é possível imaginar um percurso poético para alcançar o equilíbrio e a harmonia.

Produzido em Milão, na Itália, no início deste mês, Green Door é o primeiro de uma série de vídeo-dança que será realizada na Europa. Vou propor ao Renzo um combinado: Quando Green Door estiver finalizado, vamos postá-lo aqui, em primeira mão.

A menina, a vitrine e o choro

Menino de 10 anos é abandonado em rodovia no interior de SP. Ele estava em transporte escolar junto com outros estudantes e professor. Garoto foi deixado em ponto de ônibus por causa de bagunça.

A notícia aí acima foi manchete dos principais sites de informação, nesta quinta-feira. E foi assunto do nosso almoço também. Falávamos dessa onda de intolerância e despreparo das pessoas, que faz com que a vida seja mais difícil a cada dia. Mas o assunto sério cedeu lugar, rapidamente, para as histórias de família porque Mariana lembrou, não de um caso de abandono, mas de um episódio em que ela se perdeu da gente.

Corria o ano de 92. Mariana tinha 4 e sempre foi muito espevitada, dona de si, etc. e tal. Tanto que eu e Mara sempre a orientamos: Na hora do aperto, nada de pânico. Aja com tranqüilidade. Por exemplo: Caso um dia você se perca no shopping, entre na primeira loja que enxergar. Todas as lojas do shopping têm um microfone usado para informar sobre casos de crianças perdidas.


Você fala com o primeiro funcionário que encontrar, diz o seu nome, a sua idade, o nome dos seus pais e diz que se perdeu deles. O cara vai tomar as providências. Você espera um pouco e logo a gente chega. Sem drama, viu?

Assim foi. O tempo todo. Todo dia a gente orientava, lembrava, repassava as orientações. É que, sabendo a Mariana que tínhamos, uma hora ia acontecer dela se perder. Até que um dia... Aconteceu.

Estávamos conversando com uma amiga, no shopping e, quando nos demos conta, aquele toco de gente independente já não estava mais entre nós. Mara se apavorou. E eu disse a ela que tivesse calma, mas também estava nervoso. Combinamos os três de sair em direções diferentes. Tudo o que eu queria é que ela lembrasse das nossas orientações.

Já tínhamos dado uma boa procurada e o susto já era grande o suficiente para fazer tremer as pernas quando avistamos a nossa amiga fazendo sinal. Ela havia encontrado a Mariana. Corremos em direção a ela, que acabara de entrar em uma loja.

Nós nem precisamos entrar para sentir um alívio geral. Era uma loja de móveis e havia um sofá exposto na vitrine. Nele, bem à vista de todos, estava Mariana, chorando um choro copioso, mas estava lá, sentadinha no sofá da vitrine, à nossa espera. Corremos para abraçá-la e agradecer ao pessoal da loja.

Filha, o que houve? Você esqueceu as orientações que a gente te deu? Por que está chorando tanto? Não pai, eu não esqueci, dizia ela, entre um soluço e outro. E começou a explicar: Primeiro eu me perdi. Aí pensei, tenho que entrar na primeira loja, entrei.

Procurei o primeiro moço da loja, achei. Falei pra ele tudo direitinho, meu nome, seu nome, disse que tava perdida e pedi para ele anunciar no microfone. Aí, ele disse: Aqui não tem microfone, mas você senta aqui e espera que eu já vou lá na administração avisar que você está perdida.

Pronto, pai. Fiz tudo direitinho, mas na loja não tinha microfone. Aí, eu comecei a chorar. Até que você e a mamãe apareceram aqui.

Mariana, aos 4: Sem perdão, pela má informação.
Hoje, essa história é motivo de risadas. Mas a Mariana não nos perdoa a má informação. A gente tinha dito que em todas as lojas havia um microfone para anunciar crianças perdidas. Justo na que ela escolheu para pedir ajuda, não tinha.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Darcy na cabeça

Ontem foi dia de Darcy. Festa no Beijódromo, Lula do Brasil e José Mojica do Uruguai na UnB, muitos convidados e muito calor. Um sol escaldante marcou a solenidade de inauguração do espaço destinado a guardar o acervo de Darcy e a estimular o livre pensamento, as idéias revolucionárias, a paixão pela vida. Houve quem, literalmente, levasse Darcy à cabeça - para se proteger do sol e, quem sabe, para arejar as idéias.


Paulinho Ribeiro fez um discurso emocionado, cheio de citações e referências à vida, ao pensamento e aos amores de Darcy. Teve que falar alto até quase perder a voz. É que lá no fundo, numa área defronte ao palco, um grupo de estudantes - tomados por um espírito de porco qualquer, natural dessa fase da vida onde protestar contra tudo e por qualquer coisa é item obrigatório da cartilha do aprendizado - gritava sem parar, palavras de ordem em defesa da educação, contra a corrupção, pela libertação da palestina, pela falta de dinheiro para construir a casa do estudante... Só interrompiam os gritos por outros gritos quando o nome de Lula era citado.

Mas a tarde foi de uma eomoção pessoal e intransferível para mim também. Gabriel, meu filho, assistiu a tudo comigo. Sob um sol de quase 40º. Ouviu Paulinho, ouviu Lula, ouviu Mojica e conheceu meus amigos montesclarenses: Ucho, irmão de Paulinho, e João Rodrigues, artista plástico e ex-secretário municipal de cultura de Montes Claros.


Ucho e João - bons amigos do sertão, no Planalto Central

Ucho foi quem me viu primeiro. Me chamou, falou que tem lido o blog e pôs a casa à disposição para uma temporada de descanso. Dessa casa, onde Ucho se refugia eu já falei aqui. Depois, veio João, emocionado com a orquestra de Rabecas que ele ajudou a criar. Me disse que o projeto resiste, mas que a luteria não existe mais. Falou da emoção daqueles homens rudes e verdadeiros, que nunca tinham saído para tão longe do sertão e que ficaram encantados com Brasília, com os presidentes, com a festa, com tudo.

Vi Paulinho de longe, um aceno e um sorriso, suficientes para compreender a alegria daquele momento. Laura eu vi de perto. Um abraço de agradecimento pelo convite e por estar ali. Darcy na cabeça e ouvidos atentos ao que disse o presidente José Mujica, antes de se despedir: Um monumento como o beijódromo só tem razão de existir se for ocupado de verdade para produzir novos pensamentos, para fazer mais pela vida. Para perpetuar a paixão, combustível que moveu Darcy no curtíssimo período em que esteve entre nós. É isso.

Desconetar para conectar

A quarta-feira começa com uma mensagem do Jorge Calábria, um dos sócios da produtora Casca de Noz, de BH, me propondo assistir um comercial tailandês. Jorge explica que o comercial fez com que ele pensasse nesse volume de conexões diárias a que estamos submetidos e a perda de um tempo precioso que poderia ser melhor investido nas relações humanas.

É contraditório e é real. Tenho um amigo que costuma dizer que os computadores são máquinas que foram inventadas para resolver problemas que antes a gente não tinha. De fato, os computadores chegaram com a promessa de tornar a vida mais fácil. Tornaram. O mundo todo a um clic das mãos. Das compras de supermercados, bancos, a educação à distância até os namoros, quase tudo tornou-se uma possibilidade virtual.

Aí descobrimos que a essência da contradição está em passar mais tempo plugado do que tocando a vida normal. A gente não se dá conta, mas agregada às facilidades que a web nos permite está também a perda, quase que total, da nossa privacidade. Basta entrar na rede mundial de computadores para ver todos e também ser visto por todos. Vivemos na prática a Aldeia Global a que Marshall McLuhan se referia, no início da década de 60, quando ninguém ainda sonhava com internet e computadores caseiros.

As estatísticas mostram que os brasileiros estão entre os campeões no ranking dos que passam mais tempo ligados à internet. O trabalho, que antes encerrava quando a gente deixava o local de trabalho, agora invade a nossa casa, as noites e madrugadas, a bordo de notebooks, Ipads, Iphones e que tais. O dia, na prática, ficou muito mais curto do que parece. Já não se limita às 24 horas reais. E esse é o aspecto que nos faz concluir que os computadores, se por um lado, tornaram tudo mais fácil, por outro, complicaram enormemente a nossa vida.

À nossa identidade, juntamos, sem perceber, mais um número - o de IP ou Internet Protocol. É essa assinatura virtual que revela nossos hábitos, os sites que visitamos, as conversas que temos, os nossos gostos e manias. Não há mais um lugar por onde você passe sem deixar um rastro de que esteve lá. Quem controla isso tudo? Quem compreender melhor e dominar os sistemas e processos de tecnologia da informação, os hackers, as polícias inteligentes e os bandidos astutos.

A reflexão que o comercial tailandês nos propõe é mais simples, mas vai um pouco além. Quando estamos plugados, conectados, estamos ao mesmo tempo em contato com milhões de pessoas, totalmente expostos e absolutamente solitários. Nós, a máquina e um mundão de seres virtuais. Por isso, vale o exercício. Nem toda a virtualidade do mundo substitui algo que só a máquina humana carrega: a capacidade de traduzir emoção e sentimento em gestos inteligentes.

Como em tudo, o excesso, no uso da virtualidade também faz mal. Por isso, agradeço ao Jorge e divido com vocês a simplicidade deste comercial. Não precisa entender ou falar tailandês. A mensagem é clara.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Olhar de Fotógrafo

Luis Andrade adotou o Pantanal como terra do coração. Diretor de cinema e fotógrafo profissional, ele não perde uma chance de registrar as belezas que passam diante dos seus olhos. Luis é também pai de um menino fantástico, o Pipo, sobre quem já falei aqui.

Neste fim-de-semana, Luis me mandou uma sequência de fotos que não só tem a capacidade de traduzir o vigor da natureza local como, também, mostra que a simplicidade ainda é o melhor jeito de enfrentar e vencer problemas que, às vezes, julgamos intransponíveis. Quem explica é o próprio Luis:

“Há algum um tempo, quando fazia umas fotos em Corumbá, teimei em fotografar umas vitórias régias que havia avistado de longe, do alto de um grande barco de turismo no Rio Paraguai. Descobri, na prática, que não seria uma missão tão simples assim. A natureza se encarregou de cercar as exóticas plantas com um outro tipo de vegetação, parecido com um capim colonião, alto, denso e impenetrável.


Tentamos com vários tipos de embarcação, mas nenhuma conseguia furar o caprichoso obstáculo natural. Indo por terra, descobrimos que havia uma única passagem, por uma pequena colônia de pescadores, às margens do rio. A comunidade ocupava uma área conhecida como "Parque Cacimba da Saúde", que, óbvio, não fazia jus ao nome.


Era uma área degradada, poluída, insalubre. Uma favela no meio de um paraíso ecológico. Entretanto, foi ali que encontramos os filhos de uns pescadores, com suas pequenas canoas feitas de tronco de angelim, típicas da região. E foi só assim, com a força dos remos dessas crianças pantaneiras, que alcançamos as plantas aquáticas. O resultado da aventura está logo aí abaixo e mostra que o esforço valeu à pena”.




Nensê...


Conca, o herói. Foto: Fernando Soutello/Folhapress
 Mencionando duas torcedoras "roxas" do Fluminense, a Graça e a Marcinha Torres (a jornalista), estendo minhas congratulações a todos os torcedores do time campeão brasileiro de futebol - 2010. Um título justo, para um time que há um ano esteve à beira do rebaixamento.

Com garra, competência e dedicação soube fugir do perigo da segundona e fechar 2010 com o título de melhor time do Brasil. Parabéns!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pra começar bem o domingo

No site oficial do Paul McCartney há um sinal de que a recente turnê que ele fez pela Améria Latina deixou marcas e saudades. Paul postou um vídeo em preto e branco, com imagens emocionantes e com a música "Here Today", que ele fez em homenagem a Lennon, como trilha sonora.

O vídeo mostra cenas dos cinco shows realizados em novembro, na Argentina, em Porto Alegre e São Paulo. E, ao final, Paul põe um agradecimento especial aos 300 mil fãs que o acompanharam de perto na jornada. Vale a pena assistir.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Corrida contra o tempo


Esta é uma das primeiras fotografias do Beijódromo, nome popular dado ao Memorial Darcy Ribeiro, construído dentro da Universidade de Brasília. Fiz a foto depois de deixar Gabriel na universidade e me surpreender com a retirada dos tapumes que protegiam a obra.

O que se vê agora é o fino traço João Filgueiras Lima, o Lelé, dando forma, contornando com realidade aquilo que um dia foi um sonho gerado no caldeirão efervescente que era a cabeça de Darcy.

Homens e máquinas correm contra o tempo para vencer os últimos desafios estruturais que ainda se impõem. Mas a sensação é de que nada vai atrapalhar a inauguração da obra, prevista para a segunda-feira, 06/12, às três da tarde.

Laura Murta, da Fundação Darcy Ribeiro, me escreveu emocionada, dizendo que uma das atrações da festa de inauguração, que vai ter a presença de dois presidentes – Lula, do Brasil e Mojica, do Uruguai, entre tantos outros convidados – será a Orquestra de Rabecas de Montes Claros.

Já falei sobre essa orquestra aqui. Um projeto fabuloso, surgido através das mãos do artista plástico João Rodrigues, que alguns anos atrás foi secretário de Cultura de Montes Claros. O projeto identificou uma vocação nata de um grupo de agricultores que queria não só aprender a tocar, mas também, se dispunha a aprender a fabricar os seus próprios instrumentos musicais.

Com a ajuda deles fizemos uma das mais belas peças de campanha, uma homenagem ao Dia da Independência do Brasil, em 2008. Vale a pena rever esse trabalho aqui. E quem gostar, pode curtir a apresentação da Orquestra, ao vivo, segunda-feira, durante a inauguração do beijódromo.

O roteiro dessa peça é meu. A direção é de João Flores e a edição e finalização, da “Casca de Noz”, uma das mais respeitadas produtoras de Belo Horizonte.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Rio que nasce

Quero fechar essa sexta-feira com a certeza de que o dia, sim, recuperou-se. Acabo de receber da AB Produtora o videoclip finalizado da música "Rio Paraíba", de Mário e Luiz Theodoro. Sou suspeito pra falar, mas devo dizer, estou emocionado com o resultado do trabalho.

Aliás, quero aqui fazer um elogio público à equipe com quem trabalhei neste projeto: o Helenito 1011, o Aylton, o Bruno, o Alexandre Queiroz, o Please No, o Michel, enfim, todo o pessoal da AB que mostrou, mais uma vez, competência, seriedade e dedicação na produção deste trabalho. Eu não imaginava diferente.

E, claro, um agradecimento sincero também aos amigos Mário, Luiz, Armando, Macarrão e Gabriel, por acreditarem na capacidade de fazermos, juntos, um projeto tão bacana quanto este. Agora, vamos deixar de papo e curtir, em primeiríssima mão - Rio Paraíba.

A tonga da mironga...

As coincidências valem. Sem saber que o meu dia começou atrapalhado à bessa, Lula me manda um texto que tem tudo a ver. Eu explico: Acordei mais tarde do que queria. Perdi a hora da ginástica - meus filhos e minha mulher me gozam, dizem que ginástica é coisa de velho, das antigas. Dizem que o moderno agora é "perdi a academia". Não ligo. Perdi a ginástica e isso pode estragar o dia de uma pessoa.

Eu tinha dentista às oito e Gabriel tinha que estar na faculdade às oito, também. Quem conhece Brasília sabe que estar na UNB e no Setor Comercial Norte, no mesmo horário é impossível. Trânsito pesado de sexta, um bando de gente mais nervosa ao volante do que eu. No caminho, me dei conta de que tinha deixado a carteira com documentos, cartões e dinheiro em casa. Olhei pro Bi. Tive vontade de xingar o xingamento mais profundo da minha alma. Algo como mandar tudo "pra tonga da mironga do kabuletê".

Ele me olhou sem dizer nada, mas comprendendo a minha raiva. Apressou-se em mexer no dial, no rádio do carro. Pros modernos (como meus filhos e minha mulher) que não entendem, mexer no dial significa mudar a sintonia.  Buscou, buscou, até que encontrou a rádio "Força Aérea". Oito horas em ponto. Hora cívica, ele sabia que o Hino Nacional ia começar a tocar.

Tive vontade de rir. Relaxei. Ele começou a cantar o Hino e eu fui junto. Liguei pro dentista, avisei da impossibilidade de chegar e remarquei o dia e o horário. Ali, naquele momento, com aquele hino e com o Bi cantando, decidi que iria lutar para fazer a sexta ficar melhor. Algum tempo depois, quando abro o computador, recebo o texto que está aí abaixo, do Lula. Ok. A sexta começou de novo. Boa leitura, bom dia a todos.


1970.Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o disco "A Arca de Noé", fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino.

Encontram o Brasil em pleno "milagre econômico". A censura em alta, a Bossa em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais. O poeta é visto como comunista pela cegueira militar e ultrapassado pela intelectualidade militante, que pejorativa e injustamente classifica sua música de easy music.

No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria. Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois.

Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles "tonga da mironga do kabuletê", que significa "o pêlo do cu da mãe". O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiram o poeta. Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves. Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa. E o poeta ainda se divertia com tudo isso: "Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô".

Fonte: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

No vídeo que vem aí, em seguida, Vinicius de Moraes e Toquinho são os convidados do "Senza Rete", um programa da TV Italiana, na década de setenta, apresentado por Paolo Vilaggio. Depois de um medley das suas canções mais conhecidas eles cantam uma versão em italiano da música "A tonga da mironga do kabuletè". São dez minutos de vídeo, capazes de recuperar uma sexta-feira que parecia irremediavelmente perdida.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Quinta que vai, sexta que vem


Elas estão na terra há mais de 140 milhões de anos. E devem ficar por muito mais tempo. Os dinossauros se foram. Elas ficaram. Dependendo do nosso comportamento em relação ao planeta, a humanidade também passará. Elas ficarão.

Em florestas de eucalipto são um pavor.

Os mais velhos acreditam que quando elas se juntam, no espetáculo popularmente conhecido como  “correção”, a chuva não demora a chegar.

São extremamente organizadas. Se dividem em castas. Se comunicam através do olfato ou do paladar, usando feromônio. Têm uma linguagem limitada, que não passa de 20 códigos. E todas, todas mesmo, trabalham por suas rainhas.

Estamos falando das formigas. Elas são tudo isso aí em cima. Aqui no blog, entretanto, são só mais uma imagem belíssima captada pelas lentes do Ferreirinha, nosso fotógrafo.

Pra fechar a quinta-feira, que vai; e esperar a sexta-feira, que, não tarda, vem.

Darcy e o beijo universal

Não tive a oportunidade de conhecer Darcy Ribeiro pessoalmente. Mas conheci seus vestígios bem de perto, o que considero um privilégio. Darcy nasceu em Montes Claros, Norte de Minas Gerais, à beira do sertão por onde passou, viveu e escreveu João Guimarães Rosa. Na mesma cidade em que viveu e compôs o maestro Godofredo Guedes, pai do Beto Guedes, um dos integrantes do "Clube da Esquina", movimento musical que surgiu em Minas e marcou a música brasileira.

Só isso já faria a cidade especial. E ela é mesmo. Lá em MOC, como carinhosamente a chamam os seus habitantes, os encantos de Minas resistem ao tempo. A praça da matriz, o mercado municipal, os catopés e marujos, a orquestra de rabecas, as quitandas, o morro Dois Irmãos...


Estive em MOC pela primeira vez para fazer uma campanha de prefeito, em 2004. Foi assim que conheci Paulinho Ribeiro, um louco bom, um visionário, sobrinho de Darcy. Paulinho foi uma espécie de filho que Darcy nunca teve. Entre milhares de outras coisas, foi o responsável por retirar o tio às escondidas do hospital onde lutava contra o câncer. Quando o fim se mostrou próximo, Darcy decidiu: queria passar os seus últimos dias na casa que Niemeyer construiu pra ele em Niterói, no Rio de Janeiro.

Pelas mãos do Paulinho, entrei na casa em que Darcy se refugiava, uma chácara cercada de verde por todos os lados, nos arredores de Montes Claros. Livros, quadros, objetos pessoais, a varanda da casa, os passarinhos, tudo lá remete a um pequeno paraíso. Uma ilha de tranqüilidade.

Aprendi a ver Darcy pelos olhos e gestos de Paulinho, que hoje é quem cuida do acervo memorial dele. Há uma semelhança física e mental impressionante entre os dois. Um livre pensar e uma pressa em viver que certamente vem da raiz, está no DNA.

Mas lembro com muito carinho também da mãe de Paulinho, Dona Jacy Ribeiro, escritora que foi casada com o irmão de Darcy, Mário Ribeiro. Mario é até hoje um dos prefeitos mais lembrados e respeitados de Montes Claros.

Muitas vezes, em minhas passagens por MOC, fui à casa de Jacy comer picadinho de carne com quiabo e ouvir as suas histórias. Ela é apaixonada por livros e por imagens de São Francisco. Num desses dias, conversando sobre Darcy, ela correu à estante e puxou o livro “Confissões” em que Darcy repassa a sua vida. Cheia de orgulho, abriu o livro em uma das últimas páginas, onde Darcy faz uma declaração de amor à “sua melhor cunhada”, citando Jacy.

Ontem, recebi uma mensagem de Laura Murta, amiga querida, neta de Flor e Zezão, sobre quem já falei aqui. Laura trabalha como assessora da Fundação Darcy Ribeiro, me mandou o convite para a inauguração oficial do “Beijódromo” na UNB. A obra é mais uma dessas idéias alucinantes de Darcy, que João Filgueiras Lima, o Lelé, deu forma real. Um espaço para convivência, para a arte e cultura e, por fim, um espaço livre para beijar. Um beijo universal. A cara do Darcy.



Em sua homenagem, termino este post com um trecho do livro “Confissões” em que ele fala sobre a emoção de escrever e de viver. Intensamente, viver. (Todas as fotos são do acervo da Fundação Darcy Ribeiro)

"Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. (...) Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo. (...) Quero muito que estas minhas Confissões comovam. para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. (...) Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras." (Darcy Ribeiro, Confissões, Ed. Cia. das Letras, 1997, p. 11-12)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Brasil quer mesmo é ser louro

Foto: Correio Braziliense
O Mário Theodoro, além de novo amigo, é irmão do meu maestro soberano, músico de primeira linha e pesquisador respeitado do IPEA. Na edição desta terça, do Correio Braziliense, o Marião, largou a viola  de lado e partiu pro ataque na figura de especialista no estudo da questão racial no Brasil. Mandou bem. Ele foi o entrevistado que fechou a série produzida pelo Correio que faz uma radiografia desse tema no Distrito Federal.

Quem não acompanhou a série de reportagens não sabe o que está perdendo. O trabalho é bom e pertinente. Dá só uma olhada no texto de abertura da entrevista do Marião, resultado do trabalho da jornalista Conceição Freitas.

Em Brasília desde os 17 anos, o pesquisador Mário Lisboa Theodoro, diretor de cooperação e desenvolvimento do Instituto de Pesquisas e Estudos Aplicados (Ipea), mora no Lago Norte com a mulher e dois filhos. Apesar de viver numa região administrativa que tem 80% de moradores brancos, 11% pardos e 1% pretos, Theodoro, negro nascido em Volta Redonda (RJ), nunca sentiu o preconceito. “Talvez porque as casas dão para o quintal, não dão pra rua. Então quase ninguém se conhece”. O que impressiona o pesquisador é a Escola-Classe do Lago Norte, criada para acolher os filhos dos moradores, mas que abriga filhos de caseiros, de jardineiros, de empregadas domésticas e crianças da vizinha Varjão. “É um nicho de crianças negras no meio do Lago Norte. Os moradores têm um verdadeiro preconceito com aquelas crianças. Têm medo de serem roubados. Aquela escola é a cara do preconceito brasileiro.”

A reportagem completa você pode ler aqui. Valeu, Marião.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Salve, George!

Divulgação - EMI
Há 9 anos, no dia 29 de novembro de 2001, em Los Angeles, morria George Harrison. Ele tinha 58 anos. Seu corpo foi cremado e, dizem, suas cinzas foram jogadas no Rio Ganges, na Índia. George morreu em decorrência de um câncer que lhe havia atingido o cérebro. Na época, o comunicado da família foi elegante e sincero: “Abandonou este mundo como viveu: consciente de Deus, sem medo da morte e em paz, rodeado de familiares e amigos”.

Na semana passada, All Thing Must Pass, primeiro álbum solo do músico inglês, foi relançado em LP. Pra fechar a segundona e lembrar do mais tímido dos Beatles, Here Comes the Sun. Salve, George!

El guincho - Bombay

Pra começar bem a segunda-feira, o som do grupo espanhol El Guincho. Edição de tirar o fôlego e música de alto nível. A música Bombay está no album "Pop Negro" do grupo catalão e foi escolhida como uma das melhores do ano pelas revistas especializadas da Europa.

domingo, 28 de novembro de 2010

O metaleiro que a Mariana mais ama

Mariana, minha filha, tinha uns cinco anos. Decidida como sempre foi, queria ir a um show da Disney, patrocinado por uma agência de viagem. O show aconteceria no teatro Dom Bosco, num fim de tarde de domingo.

Eu e Mara levamos os dois, ela e Gabriel. Ele não agüentou a confusão e chorou pra vir embora. Estava armado o conflito. Mariana queria ficar. Gabriel, chorando pra sair. No palco, Lizoel Costa, jornalista dos bons e amigo de confiança, era um dos guitarristas da banda que animava o evento.

Colocamos Mariana na primeira fila, fiz um sinal para o Lizoel e combinei que ele a deixaria em casa quando o evento acabasse. Ele topou. Fomos embora. O tempo passou muito além do previsto para o retorno e os dois não chegavam. Numa época em que os telefones celulares ainda não eram tão comuns, só nos restava confiar no Lizoel e rezar para que tudo estivesse bem.

Antes que a angústia se apoderasse totalmente de nós, o Lizoel tocou a campainha. Alívio geral, ele explicou – eu queria vir logo, mas a Mariana me intimou a "tomarmos algo"  antes de voltar para casa. E eu não tive como resistir.

E lá se foram para o primeiro boteco que encontraram, repartir uma coca-cola. O Lizoel, tiozão, se achando o máximo. Ao fim da coca ele chamou o garçom, mas ela tomou-lhe a frente. Puxou da bolsa o dinheiro pra “pagar a conta”. Mariana é assim desde pequena, nunca deixa barato.

Lembrei dessa história hoje porque recebi uma mensagem do Lizoel. Na década de 80, ele era um dos  integrantes do “Língua de Trapo”, grupo que fazia música e humor,  surgido no movimento que ficou conhecido como  “vanguarda paulistana”.

´"Lingua de Trapo" - o Lizoel é o barbudinho, segundo
da esquerda para a direita, lá atrás.
No e-mail, Lizoel conta um episódio marcante na vida dele e do Língua. Era uma semifinal do Festival dos Festivais, na Globo. O show acontecia no Maracanãzinho. E o Língua tinha sido classificado com a música “Os metaleiros também amam”.

Ao final da apresentação, empolgado que só, o “metaleiro” Lizoel literalmente acaba com a guitarra, ao vivo e a cores, em cadeia nacional. O detalhe: a guitarra, uma Dolphin Starlock, tinha sido conseguida por empréstimo junto à fábrica de instrumentos musicais, só para aquele show.  A cena, primeira do estilo a acontecer numa apresentação de um grupo brasileiro, ficou registrada para sempre. Sobretudo na memória dos patrocinadores. 
Ele me mandou o link com a cena e eu o coloquei aí embaixo. Vale a pena assistir. O Lizoel é o guitarrista barbudinho e sem camisa, com ar de sádico, que destrói a guitarra novinha, ao final da apresentação. Tenho certeza de que se a Mariana soubesse desse episódio naquela época, era capaz de exigir que ele fizesse o mesmo no show da Disney.

Memórias de quando não estive aqui


Um dia, eu, filho mais velho, saí de casa para estudar fora. E meus irmãos cresceram me olhando de longe. Fui o primeiro a viajar  de carona. O primeiro a morar em pensão. O que esteve em outra cidade longe da família. A primeira namorada foi minha. A primeira glória e a primeira decepção, também. Além de tudo, fui o primeiro a estar no Japão.

Claro que há um certo glamour nisso. Mas há a carga de ser o que tem a obrigação de descobrir tudo sozinho. O que não tem ninguém pra lhe orientar. Na minha vida de cigano, partir e chegar era uma constante. Como na música do Milton, partir e chegar, são dois lados da mesma moeda. Pra quem fica, resta a imagem da saída. Do outro lado da estação, há sempre os que estão chegando. É a outra ponta da história. Não me arrisco a dizer o que é melhor ou pior.

Mas o fato é que fiquei longe deles. Cresceram me vendo através do imaginário, me lendo pelas cartas e me aceitando, ou não, de acordo com o que a realidade lhes permitia. Dessa forma, terminei funcionando como um escudo, para o bem ou para o mal, das dificuldades naturais do crescimento e da convivência com os outros - os amigos ou os adversários deles.

Certa vez, um dos meus irmãos, o terceiro na escala de nascimento, se viu cercado por uma turma disposta a resolver no braço questões típicas da  adolescência. E o cerco se deu a poucos metros da casa de meus pais. Cercado, sozinho e prestes a levar uma surra, ele avistou de relance o meu quarto irmão surgir na porta da cozinha. Era o que ele precisava. Meu irmão terceiro sempre foi um sujeito safo. E não perdeu a oportunidade.

De onde estava gritou: Iram (meu quarto irmão) chame o nosso irmão mais velho (que sou eu) para me ajudar a resolver esse problema aqui. A frase mágica surtiu o efeito necessário. Houve um silêncio sepulcral, seguido de uma apreensão quase palpável na turma dos que o ameaçavam.

Meu irmão, o quarto, correu para dentro de casa como se tivesse entendido a gravidade da situação. Em busca do irmão mais velho, pensaram os outros. Meu irmão terceiro, o que estava cercado, agora era uma ilha de esperança e fé. Todo pimpão por fora. Mas sabia, por dentro, que algo não estava certo. Entretanto, contava com a astúcia do outro para se safar. Ele havia de ter uma idéia luminosa, pensava.

Não deu um minuto e o Iram, meu irmão quarto, retorna esbaforido e se planta à porta da casa. O silêncio imperava. A tensão também. No espaço daqueles poucos segundos, uma vida inteira transcorreu. Até que ele, o quarto irmão, bradou de lá: - Olha, o nosso irmão mais velho (que sou eu) não vai poder te ajudar. Ele está viajando, está no Rio Grande do Sul.

Não preciso contar que o pau comeu em dois tempos naquele dia. Na rua, da pior maneira que podia acontecer; e em casa, depois de tudo, quando os dois irmãos - o terceiro, todo lanhado, e o quarto, entre o riso e o choro, ajustaram as contas.

Até hoje, não sei ao certo qual dor me dói mais. A de estar distante e não poder ajudar ou a de não estar presente e poder cair na briga junto com eles. Hoje, a memória e a chuva me permitem rever o passado com o olhar de compreensão. A minha ausência foi presente pra eles. Nos bons e nos maus momentos.


O terceiro, é o de camisa branca. O quarto, é o de regata.
O que estava viajando sou eu, o da frente. Depois tem Isa e
Guga. E todos, um dia, andaram na minha primeira bicicleta.  


sábado, 27 de novembro de 2010

Um outro Dylan

Um guri novo, de apenas 19 anos, vem impressionando o público pelo estilo de cantar e pela qualidade das músicas. Dylan Leblanc nasceu em Louisiana e carrega consigo a essência da folk music. Bebe da fonte em que outro Dylan, o Bob, bebeu e virou lenda. O guri promete.

Do album de estréia dele, "Paupers Field". Pra fechar a tarde de sábado.



Uma historinha de amor

Maurilo Andreas, do Pastelzinho, esses dias me chamou pra mostrar essa animação. Ela foi feita por um espanhol, Carlos Lascano, que é simplesmente um gênio do "Stop Motion". Não há muito o que dizer. As imagens, a trilha e a delicadeza da história falam por si.


A SHORT LOVE STORY IN STOP MOTION from Carlos Lascano on Vimeo.

Faça humor, não faça guerra

No dia em que as forças legais do Rio de Janeiro puseram para correr aquela corja de bandidos, criando uma imagem que impressionou o mundo, eu, Mara e Gabriel jantávamos juntos, em casa. A TV da cozinha ligada mostrando o Jornal Nacional e aquelas cenas que a gente se acostumou a ver em paisecos que vivem em guerra civil.

Mas as cenas não eram importadas, eram "made in Brazil". Um silêncio. O texto contrito de um Bonner impactado. A Globo de sempre, competente e asseada. Todos os repórteres com coletes à prova de bala. Azuis como os da ONU. A polícia chegando em tanques de guerra da Marinha. Os bandidos correndo mata a dentro, morro a baixo.

Em meio a isso tudo a Mara me sai com essa:

O Cabral (Sérgio Cabral, governador do RJ) já convocou a polícia, os bombeiros e a marinha...
Se aparecer um índio vira o Village People.


E a gente conclui: Guerra no RJ, se não tiver uma sacanagem, das duas uma: Ou não é guerra, ou não é no Rio.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Música pra fechar a sexta

Direto e reto, com os ingleses  do "The Mariner's Children", a música Coal. Porque hoje é sexta. Porque chove em Brasília. Porque o dia foi longo. E porque amanhã é sábado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O blog é Mil.

Tempos atrás, lendo o Blog do Noblat, vi que ele comemorava um número redondo de acessos. Não lembro ao certo se eram um ou dois milhões de acessos. Sei que era bastante. Pois hoje, quando abri o Google Analytcs, um programa que mede a frequência de visitas no blog, fiquei feliz como uma criança:

Pela primeira vez, desde o dia 17 de janeiro de 2010, quando o Blog entrou no ar,  atingi a marca de mil visitas em um período de um mês. Para ser mais exato, foram 1010 visitas entre os dias 23 de outubro e 22 de novembro.

Sei que é uma besteirinha de número, se comparado à imensidão do universo, da blogosfera, onde os indicadores são sempre superlativos. Mas, tô aqui contendo a minha alegria, tamanho o orgulho que sinto por ter atingido essa marca "cabalística".

E isso só foi possível graças aos meus ilustres companheiros de jornada, leitores anônimos, visitadores virtuais das minhas anotações. Atingir milhões de leitores não é bem a minha meta. Mas, como sou um otimista inveterado, não descarto essa possibilidade. Se um dia chegarmos lá, prometo, faço uma festa. Nesse momento, o que eu posso garantir mesmo, a cada um de vocês que vem aqui com alguma frequência, é continuar escrevendo, contando histórias, fazendo poesia, da forma mais prazerosa possível.

Por fim, quero lhes dizer: É muito bom tê-los como companhia. Obrigado, voltem sempre, leiam mais e sintam-se à vontade para colaborar, sugerir, participar. A casa é também de vocês. Mil vezes, valeu!

domingo, 21 de novembro de 2010

Meu maestro, de novo!

O meu maestro está com o violão.
Eu, lá atrás, brincando de cantar.
Mesmo em meio à  correria da campanha, sempre arrumei algum tempinho para escrever algo aqui, em respeito aos meus poucos e bons leitores. Um texto curto, uma crônica, um causo... uma poesia.

Escrever é um dos grandes prazeres da minha vida. A escrita tem me dado grandes amigos e muitas alegrias. Hoje, mais uma vez, fui surpreendido por um presente do Luiz Theodoro, a quem carinhosamente chamo de "meu maestro soberano".

Tempos atrás, postei uma poesia minha aqui no blog. Não demorou muito, Lula me escreveu com uma pergunta instigante: Posso musicar essa pérola? Claro! Respondi, já cheio de orgulho. O tempo passou e a pegada da campanha me fez esquecer aquele pedido e, obviamente, o que poderia resultar dele.

Lula trabalhou em silêncio. E esta semana me mandou o resultado. Uma música linda. Uma melodia que, por vezes, lembra o melhor de Paulinho da Viola, misturado a um quê de Chico Buarque. Pode ser pretensão minha. Se for, me desculpem, mas não tenho como não lamber a "cria".

Obrigado, meu maestro! E é com o maior orgulho que divido com vocês, em primeira mão, a mais recente parceria de Lula Theodoro e Maranhão Viegas. Ah, com um detalhe, no post original, a poesia se chamava "Agulha e Linha". Lula rebatizou a canção.

Razão sem Paixão
Letra: Maranhão Viegas
Música: Luiz Theodoro

Cerzir a cortina da vida
vagar à inconstância do tempo
Que memória ainda tens?
De mim, da rua, do vento...

Ah, essa tua mania de invadir as tardes
de soprar as roupas brancas no varal
e sumir sem dar aviso
Lufada de ar perdida

Música que não se ouve mais
poesia da eternidade
razão sem paixão,
capaz!

Memórias da profissão – Votos fugidios

Havia um coronel da Polícia Militar muito famoso, em Mato Grosso do Sul, Adib Massad. Para ele, não tinha bandido bom. Era muito duro no combate aos criminosos, o que ajudou a construir a sua fama. Casos complicados? Chamem o Adib, ele resolve tudo. Às vezes, diziam, utilizando-se de métodos nada convencionais. Mas resolvia.

Enquanto esteve no comando do temido GOF – Grupo de Operações de Fronteira, reinava a segurança para uns e o temor para outros. E ele ficou lá por um longo período, ao mesmo tempo, fazendo baixar os índices de roubo, contrabando e tráfico de drogas e, com toda certeza, reduzindo o número de bandidos também. Por muitos anos, naquela faixa de Fronteira entre o Brasil e o Paraguai, o coronel foi a lei.

Convivi bem perto dele durante uma semana. Coronel Adib foi escalado para resolver um seqüestro que comoveu a população. Um menino de quatro ou cinco anos, Paulinho, filho de um médico muito querido, que depois viria a ser eleito prefeito da cidade de Cassilândia, passou quase sete dias nas mãos de um grupo de seqüestradores.

Eu era repórter da TV Morena, afiliada da Rede Globo, e fui destacado para cobrir o caso. A comoção pelo seqüestro era tão grande que o governador à época determinou ao secretário de Segurança que transferisse a Secretaria para Cassilândia enquanto as investigações durassem. Sete dias depois de iniciada a caça aos seqüestradores, Paulinho foi solto, são e salvo e os bandidos presos. Nós, jornalistas, conhecemos melhor o coronel Adib sua fama e seus métodos.

Tempos mais tarde, de tão famoso na região, o coronel resolveu disputar o cargo de vereador, em Dourados. Foi uma missãodifícil. Certa vez, depois de passar o dia em campanha, o coronel resolveu fechar os trabalhos fazendo uma última parada num boteco de beira de estrada, onde um grupo de homens bebia e jogava bilhar.

A imagem do coronel assustava qualquer que fosse a circunstância. Tinha um olho vazado, conseqüência de um tiroteio em que só ele sobrou pra contar a história. O coronel desceu do carro e parou na porta do bar. Um frio subiu a espinha dos que estavam presente. Ele não disse nada e começou a apontar com o dedo, contando em voz alta como quem confirmasse o número de pessoas ali. Havia sete homens, contando o dono do bar.

Adib deu meia volta e foi correndo em direção ao carro. Retornou com sete bonés e sete camisetas nos braços. Mas não encontrou viva alma no boteco. Não houve sequer um corajoso para esperar pela volta do coronel para descobrir o que ele queria. Vai que não fosse para distribuir brindes de campanha?

Mesmo enfrentando esse tipo de dificuldade, naquele ano, o coronel Adib foi venceu a eleição como o vereador mais votado de Dourados.

sábado, 20 de novembro de 2010

A um clic de uma preciosidade

Em 1964 os Beatles desembarcaram pela primeira vez nos Estados Unidos. A primeira participação deles, ao vivo, em um programna de TV foi no The Ed Sullivan Show e atingiu um índice recorde de audiência: 74 milhões de telespectadores.  Dois dias depois, no dia 11 de fevereiro, eles se apresentaram no Washington Coliseum, num show histórico, que durou exatos 40 minutos.

Foi o suficiente para deixar uma multidão de jovens à beira do histerismo. Eram tempos diferentes. As imagens, em preto e branco, e uma direção em cortes secos,  sem nenhum efeito especial, mostravam um grupo de meninos se esforçando para tirar o melhor de suas guitarras, suando em bicas nos seus terninhos e nitidamente impressionados com o comportamento do plúblico.

Os equipamentos, comparados aos que existem hoje, eram primários. O praticável onde estava montada a bateria de Ringo era mudado de posição, de tempos em tempos, numa ginástica insana para permitir melhores ângulos de visão à platéia.

Tudo muito simples. E tudo espetacular. Uma seqüência de clássicos levou ao delírio milhares de fãs. A música dos Beatles dava ali um passo definitivo rumo ao sucesso.  A ponto de um dia John não se conter em uma entrevista e mandar: "Somos mais famosos que Jesus Cristo".

Agora, o vídeo completo desse primeiro show dos Beatles nos EUA está ao alcance de todos. Graças a uma iniciativa da Apple, que liberou essa relíquia para marcar o início das vendas de todas as músicas do grupo pela loja virtual iTunes.

Foi uma longa jornada de negociação entre os executivos da Apple e os representantes dos Beatles até que se tornasse possível, pela primeira vez a comercialização dos clássicos dos Fab Four, pela internet.

Em média, cada música sairá por US$ 1,29. Os álbuns completos custam US$ 12,99. As coletâneas custam, cada uma, US$ 19,99. O box completo, US$ 149.

Se eu fosse você, clicava aqui e gastava 40 minutos para assistir essa preciosidade. Eu lhe asseguro, serão 40 minutos da mais pura emoção.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Paul McCartney do Brasil

Há uma antiga canção de Tavito e Ney Azambuja, gravada em 79, que fala de coisas do passado, lembranças do tempo de escola e de amores juvenis. A música é "Rua Ramalhete". A um determinado momento, a letra meio profética, pergunta: "Será que algum dia eles vêm aí, cantar as canções que a gente quer ouvir?"

Eles, os Beatles, nunca vieram. Mas a vinda de Paul McCartney ao Brasil, um dos dois últimos integrantes da banda que ainda estão vivos,  é uma sacodida na alma de milhares de pessoas que um dia sonharam com a passagem deles por aqui, pra cantar as músicas que serviram de trilha sonora para boa parte das nossas vidas.

Não tendo todos, a gente se agarra ao sonho. Todos juntos, sonhando ao redor de um. E Paul, o Beatle mais melódico, mais romântico, mais emocional, tem dado conta de cuidar bem dos nossos sonhos, por onde quer que passe.

Embalado por essa onda - de que sonhar não custa nada - o site Rock'n'Beats, do portal da MTV juntou 20 nomes da nova cena do rock nacional e MPB, para revisitar o repertório dos Beatles e Paul McCartney. O resultado foi batizado de "Indie on the Run" e seu conteúdo está logo aí abaixo. É a nova geração da música brasileira, gente como Tulipa Ruiz e Apanhador Só,  Vivendo do Ócio, The Name, Monique Maion, Sabonetes, Instiga, Seychelles e muitos outros que mostram nesta seleção que seguir sonhando, mais do que possível, é necesário.

Então, separe um tempinho, aperte o play e aumente o som, que isso aí é rock'n'roll.
Latest tracks by indieontherun

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Encontros virtuais e amizades reais

Marcia - Olá, Maranhão. Um e-mail que você mandou para outra pessoa, falando de textos novos em seu blog, veio parar em minha caixa de mensagens. Não achei ruim, não. O blog é bom, os textos também. Fiquei preocupada porque, talvez, a pessoa para quem a mensagem foi originalmente destinada pode não tê-la recebido. Abraço, Marcia.

Maranhão - Querida Marcia. Não houve engano, não. É que você faz parte de uma lista de pessoas com as quais me correspondo com certa freqüência. É uma lista de leitores do meu blog. Para preservar o endereço das pessoas, mando para um integrante do grupo, com cópia oculta para todos os outros. Não se preocupe, o e-mail chegou para quem devia e muito obrigado por visitar o meu blog e gostar do que encontra por lá. Abraço, Maranhão.

Marcia - Mas, peraí! Eu não tenho hábito de ler blogs, não o conheço, não sei como fui parar na sua lista pessoal de leitores. Você pode me ajudar a entender? Marcia.

Maranhão – Querida Marcinha! Eu penso estar falando com a minha amiga jornalista, com quem trabalhei por quase três anos na TV. Se for, deixe de onda , abra logo uma cerveja – mais uma, certamente - e saboreie os textos.

Se não for a Marcia que eu conheço, peço desculpas pela invasão virtual. Não foi proposital. Mesmo assim, reforço, seja bem-vinda ao mundo dos blogs. E ainda bem que você começou pelo meu. Espero que não se incomode e continue a ler meus textos. Mas lhe asseguro, vou compreender se a sua decisão for a de pedir a retirada do seu nome da minha lista. Abraço, Maranhão.

Marcia – Não, não sou a sua amiga Marcia Jornalista. Sou a Marcia, pessoa comum, tradutora e vivo no interior de São Paulo. Mas por favor, não tire o meu nome da lista. Gosto dos textos e quero continuar a ser informada sobre novas postagens. Quanto à cervejinha, é uma boa idéia. Já abri uma aqui, nesse momento. Abraço, Marcia.

A história descrita aqui aconteceu de verdade, na noite do último domingo. Foi uma troca de e-mails que começou perto das dez da noite e acabou quase à meia noite. É portanto uma história real, apenas com alguns detalhes de identificação dos personagens preservados, para evitar novas invasões virtuais.

E assim, a Marcia tradutora, que não era a Marcia jornalista, entrou por acaso na minha lista de leitores e, por que não, na minha vida. É essa boa junção casual e imprevisível, que a internet proporciona, o que mais me fascina. Um acaso virtual promovendo uma amizade real. No mundo em que as amizades verdadeiras e despretensiosas são cada vez mais raras, é um bom motivo para se comemorar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Memórias da redação

No almoço de hoje, em companhia de Ronaldo e Silvio, dois jornalistas, lembrávamos tempos idos, nas redações. As de agora - dizia Ronaldo - lembram os aeroportos do  poema de Quintana: todos os aeroportos do mundo são iguais, excessivamente sanitários e com anúncios de Coca-Cola.

Por conta da conversa, viajei de volta no tempo e lembrei de uma passagem que reúne a pressa das redações, a luta pela boa informação e a piada que não pode ser perdida mesmo com o "dead line" batendo perigosamente à sua porta.

Havia uma greve de eletricitários que conturbava a cidade. Faltava pouco para o tele-jornal começar. Não havia computadores na redação, nos idos dos anos 80, naquela emissora de TV. Cada lauda do jornal era datilografada em blocos de sete folhas, entremeadas com papel carbono. Fico pensando, como a gente dava conta daquilo?

A redação frenética. Uns, apurando os efeitos da greve, o caos nos hospitais, no trânsito. Outros em busca do andamento das negociações. Os mais experientes tinham autonomia de vôo e sabiam o que fazer. Os jornalistas novatos batiam cabeça. Entre eles, uma jovem jornalista, rica de conhecimento, mas crua na profissão, queria ajudar de qualquer forma. Apesar da timidez.

Timida, chegou-se à mesa onde eu - chefe de redação - comandava aquele pequeno exército de jornalistas enlouquecidos. Posso ajudar? Sim, respondi sem tirar os olhos da lauda que escrevia. Pegue um retorno com o Benito, presidente do sindicato dos eletricitários. Ela se foi.

Logo voltou. De novo, meio sem jeito, não querendo incomodar e já incomodando: como eu falo com ele? perguntou. Pelo telefone. respondi, direto e reto. E segui fazendo a minha lauda. O dead line se aproximando cada vez mais. Àquela altura, alguns olhares já se voltavam para o inusitado diálogo entre eu e ela.

Ele se foi  e voltou uma vez mais. Metade da redação esperando para saber qual seria a próxima pergunta. Onde eu acho o telefone do Benito? Na agenda, respondi pensando quase em voz alta: - ai, meu Deus. E ela saiu desabalada em busca de uma agenda. Encontrou. A redação parou quando ela, desavisadamente fez mensão de voltar com uma nova pergunta. E veio: Qual o sobrenome do Benito?

Silêncio total. Num lapso pensei - perco o jornal, mas não perco a piada: Mussolini, respondi fazendo cara de sério. Sem titubear, danou-se a procurar um improvável Benito Mussolini na agenda. A moça ainda teve tempo de levantar a cabeça e começar a dizer - Maranhão, não tem nenhum Benito Mussolini na agenda. Foi quando a redação veio abaixo, numa explosão de risos.

O jornal foi ao ar sem a nota retorno. E o episódio virou uma dessas histórias que ninguém mais esquece.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Margot e a saudade

Margarida Marques, a quem nos acostumamos a chamar carinhosamente de Margot é dessas mulheres que entram na vida da gente pra nunca mais sair. Ela entrou na nossa vida, definitivamente. É madrinha de Mariana, é meio anjo da guarda, além de todos os outros predicados possíveis. Pelo menos um deles eu não posso me furtar de registrar: Margot tem os cabelos brancos mais lindos e assumidos que já encontrei.

Pois hoje, pra fechar a segunda-feira, ela me escreveu. Motivada pelo texto que postei, falando de poesia e de Leminski, ela saiu do silêncio. E disse que não conseguiu publicar um recado como gostaria, no "pé" do texto. Não resisti de tanta lindeza. O que ela me mandou, penso, não é pra ficar guardado. Com a devida "vênia", Margot, vai ser publicado. Um beijo, comadre. Minha saudade e meu amor são iguais.

Meu querido, só você mesmo poderia lembrar de Leminski e sua excelente poesia numa manhã de segunda-feira, o que, com certeza tornará minha semana bastante melhor. De quebra, proporcionar que escutasse mais uma vez Ceriema, cuja versão, confesso que, embora respeitando Inezita, prefiro as de amigos daqui, que você conhece muito bem.

Quanto ao lançamento do livro, diga ao Mauro que gostaria muito de poder estar presente, pois gostava imensamente do Adão, a quem tive a honra de receber em minha casa para jantar. Um ser humano dos melhores, que transparecia uma dignidade rara de se encontrar. Pena que nos deixou cedo, empobrecendo ainda mais o já debilitado cenário político do país.

Quanto a você, que no momento deve estar feliz por ter vencido mais uma batalha, sinto sempre a sua falta, aliás, eu e muita gente, pois deixou uma lacuna em Mato Grosso do Sul, não apenas em nossos corações, mas no árido meio jornalístico.

Beijos mil,

Margot