Sabe
menino novo? Que fica olhando pro relógio na noite de natal? Que vai
e volta da porta do quintal, e olha pra cima pra ver se o dia
acabou? Se o céu já está estrelado? Assim. Bem assim estou hoje. É
dia de "Caminhos da Reportagem" na TV Brasil. E é a
estreia de "No rastro da Poesia. No Caminho de Cora."
Tô
que não me contenho.
Dá
meia-noite e não dá 21:45.
Agora,
nesse exato momento, me vem à memória o dia em que li pela primeira
vez sobre o Caminho de Cora. Foi no final de março, início de abril
deste ano. Naquela hora, me subiu um calor pelo corpo. Pensei comigo:
E se eu criasse coragem para fazer a reportagem sobre esse caminho?
Me enchi de força e fui. Atravessei a redação, bati na porta da
chefe e pedi preferência. Se um dia decidirem fazer um “Caminhos
da Reportagem” sobre o Caminho de Cora, eu sou candidato a
fazer.
Dois
meses depois fui chamado pra uma reunião e a notícia veio de
supetão: Você vai fazer o Caminho de Cora. Mas tem que ser no
começo de junho, antes das suas férias. Ai, foi quando deu aquele
frio na barriga. Sabe como? Aquele frio que encolhe o estômago da
gente. Que faz parecer o chão faltar. Ok. Eu desejei. Ele veio.
Agora... é fazer.
A
literatura de Cora passou a frequentar minhas noites. O caminho de
Cora, os meus dias. Assisti gravações antigas em que Cora fala da
vida dela. Vi documentários novos, contando sua história sob o
prisma da emoção de quem não ficou parada, nem respeitou os
limites impostos pelo tempo. Uma caminhante. Uma peregrina. Uma
aventureira incansável.
Aumentei
o ritmo das minhas corridas para aguentar o tranco do caminho.
Comprei botas especiais para suportar a caminhada. Tá certo, eu só
percorreria alguns trechos dos 300 quilômetros do caminho. Não
haveria tempo de fazê-lo todo, nos cinco dias destinados à produção
do material. Mas eu sabia que caminharia muito.
De
carro, fizemos cinco vezes a medida do percurso. 1.500 quilômetros
no total. Subimos morro, enfrentamos estradas de terra, mato, pó e
sol a pino. E descobrimos vida interiorana e poesia, muita poesia,
espalhada pelo caminho. Não só as poesias de Cora (cuidadosamente
postas em lugares estratégicos), que renovam a energia dos
caminhantes cada vez que o cansaço se manifesta.
No
caminho de Cora, a vida é um pouco poesia. Basta permitir o olhar.
Basta querer enxergar. Basta não ter pressa e ter calma.
Hoje,
minha ansiedade é outra. Daqui a algumas horas vai ao ar, em rede
nacional, pela TV Brasil, o resultado do trabalho de uma equipe
briosa, - "chiquitita, pero cumplidora"
como se costuma dizer nos pampas - que forma o Núcleo de
Programas Especiais. Onde são pensados, planejados, gestados e
paridos alguns dos melhores produtos desta TV, entre os quais a série
"Caminhos da Reportagem".
Quase
não acredito na distância do tempo, entre aquela primeira leitura
despretensiosa, que me informava sobre a existência do Caminho de
Cora Coralina, e o quase agora da exibição do programa. Eu o vi na
ilha. E me emocionei muito.
Espero
que a minha emoção se traduza, também, aos olhos de quem o veja na
TV. E que a emoção se espalhe numa medida boa. Na dose certa de
poesia que salva o dia. Como a simplicidade do "seo"
Quinzinho. Como a singeleza da TiaTó. Como a firmeza dos peregrinos
Mário e Marina. Como a coragem das “Mulheres Coralinas”, da Ebe.
Enfim,
o menino que me habita corre feliz em direção ao seu "presente",
que chega já. No rastro da poesia. No Caminho de Cora Coralina.
Meus
agradecimentos à equipe que não mediu esforços para colocar esse
projeto de pé: Mariana Fabre, Sigmar Gonçalves, Hugo Madureira,
Isaias Cipriano, André Pacheco, Rogério Verçoza, Dailton Matos,
Edivan Viana, Suzana Guimarães, Julia Costa e Henrique Correa. E, por uma questão de justiça, agradeço também a todos os que, em alguma medida, contribuíram com a feitura deste sonho real.
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Mariana Fabre e Sigmar Gonçalves, os pulmões do Caminho de Cora. |
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Henrique Correa, Cintia Vargas e Suzana Guimarães. O coração do Caminho de Cora. |
Um
agradecimento especial a Cintia Vargas, Ana Passos, Patrícia Paiva e
Adriana Motta, que enfrentam os leões desse nosso tempo agudo e dão
o norte da nossa jornada diária. E o meu sincero reconhecimento à
TV Brasil, que me deu a oportunidade impar de juntar poesia e
jornalismo - uma fórmula que não me sai da cabeça. Nunca.
"Caminhos da Reportagem"
No rastro da poesia. No Caminho de Cora
Quinta-feira - 23.08.2018 - 21h45
Reapresentação: Domingo 26.08.2018 - 20h00
TV Brasil
O vídeo completo está ai embaixo. Desfrute!!
Lindeza. Histórias e Geografias. Literatura e muita, muita poesia.
ResponderExcluirQuanta sensibilidade! Parabéns Maranhão. Fico aqui imaginando quanto ensinamento é possível com esse vídeo nas escolas. bjs
Parabéns pelo belíssimo trabalho. Imagem e som perfeitos. História emocionante, contada como muita sensibilidade. Foi um prazer assistir!
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