terça-feira, 17 de junho de 2014

Short Cuts - Diários da Copa 6

Carta para Rudá 2

Caro amigo.

Dia difícil, esse.
Uma prova de alto nível para o coração. Para os cardíacos. 


Primeiro, por perceber a emoção achando espaço em nosso cotidiano. Nos roubar do plano real e nos transportar para o onírico, por uns minutos. Nos carregar para onde algo ainda é capaz de nos tomar quase todos (uma multidão, bem mais que 90 milhões em ação) e nos prender os olhos, e nos tirar o fôlego, como se ali, naquela esfera redonda houvesse uma dose de magia que não se traduz, insuspeita e que nos faz sentir melhor.

A isso chamamos – futebol. Estranha magia que nos torna um pouco iguais. Meninos, meninas, iguais. Não importa o resto.


Esta semana, Rudá, meu pai me escreveu. O velho Viegas, falava de um pedido de neto. Uma bola de meia. As bolas de meia da minha infância eram valiosas porque eram feitas por nós mesmos. Uma herança de conhecimento. Uma transferência de cultura. De meu avô pro meu pai. Do meu pai pra mim. E agora, pros netos dele. Na infância, precisávamos de pouco para ser feliz. Uma bola de meia, um terreno baldio, um grupo de crianças, dois times e, como diz o Felipão, a alegria nas pernas. Um bando de Bernards.

Hoje, não vimos a bola na rede. O grito ficou engasgado. Segunda tem mais. Quem sabe...

Bituca, Juscelino e os meninos do Clube da Esquina.
Li a tua resposta à minha primeira carta. Sabe, Rudá, eu tenho um carinho especial pelas montanhas de Minas. Pelos rios, pelas matas, pela gente de Minas. Cedo aprendi a admirar uns meninos que criaram um certo Clube da Esquina. E meus ouvidos nunca mais perderam a sonoridade das Geraes.

Darcy Ribeiro
Antes deles, descobri João Guimarães Rosa. Andei por suas veredas e sertões. Imaginei tipos que, mais tarde conheci pessoalmente. Em Montes Claros, terra de Darcy Ribeiro, caminhei pelas ruas como se sentisse a presença dele, das suas confissões escritas, tão bem descritas, de seus amores, de suas loucuras sãs. Conheci Jacy, mãe de Paulinho Ribeiro, com quem saboreei picadinho com quiabo (certamente o mais gostoso que já provei). 

Sim, o horizonte de Minas, entrecortado por montanhas faz o nascer do sol ser especial. Nem mais, nem menos que o horizonte daqui. Um horizonte especial.  O daqui, moldado pelas linhas e curvas do comunista mais cristão que já conheci, Niemeyer,  é também especial.

Jk, o fundador.
Mas o horizonte imaginário, aquele pensado por outro mineiro, Juscelino, merece crédito também. Não só o do comunista. Por vezes me pego olhando e imaginando, que sujeito corajoso e visionário esse tal Juscelino.

Imagine que por meio da liderança dele milhares de trabalhadores se viram instados a acreditar no sonho coletivo de construir uma cidade. Do nada. Do zero. Nascida no meio do mato, do eixo de uma cruz ou do centro de uma asa. Para ser o que é hoje. É coisa de visionário, sim.

Milhares, milhões de vozes espalhadas pelo país afora.
O nosso hino nunca foi tão nacional. 
Hoje, Rudá, não foi dia de gol. Mas o país não entrou em choque por isso. Ao invés de convulsões sociais, houve o hino cantado em voz alta (e como é lindo esse hino cantado assim). Acho que estamos um pouco mais maduros em nossos sonhares e quereres. Por mais que haja uns que insistam em dizer que não. 

Hoje, o que fica do meu dia é a grata lembrança de um encontro inusitado. Logo cedo, quando acordei, vi no chão da sala de minha casa um beija-flor aquietado. Me aproximei dele e ele permaneceu ali. Compreendi que não estava bem. Deduzi que seu voo fora interrompido por uma porta de vidro e ele estava zonzo, a espera de se recuperar para seguir voo.

Peguei-o em minhas mãos sem que ele reagisse. Dei-lhe água e fui com ele, na palma da mão, em direção ao quintal de minha casa, que dá para uma reserva florestal. Por duas vezes tentei colocá-lo no galho de uma árvore. Ele não quis.

Um novo voo, a partir da palma da mão. 
Entendi que ele queria ficar mais um pouco. Precisava de mais fôlego. Eu me permiti ficar ali, esperando que ele se recuperasse. Houve tempo para um registro. Ele, em minha mão. Protegido, resgatado para a vida. Descansado e seguro.

Num instante, zás. Ele se foi. E eu, me vi pleno de alegria por ter tido um início de dia assim. É o que me faz terminar bem esta carta. É o que me dá a certeza de que, às vezes, é importante demais saber que o pássaro em nossa mão deve voar em busca de seu próprio rumo.

Um grande abraço.


Um comentário:

  1. Você escreve que é um enfeite. Que nem passarinho na palma da mão.

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