sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ruy Barbosa, 93


Cresci com esse endereço na cabeça. E hoje sou obrigado a lembrar dele. A Avenida Ruy Barbosa, 93 é o endereço onde eu nasci. E vivi ali, os dez primeiros anos de minha vida, em companhia de meu pai, minha mãe, dois irmãos e meus avós. Se estivesse viva, minha avó, mãe do meu pai, Dona Antonieta Gaspar Viegas faria hoje 110 anos. Ela não está mais aqui, morreu em 1994. Mas persiste em mim muito do que ela significou.

Sou o neto mais velho e não tenho como negar que com ela, tive alguns privilégios. Mas também fui o primeiro a sentir os rigores do que ela considerava “boa educação”, “respeito aos mais velhos” e “limites”.

Dona Antonieta, não era uma figura fácil. Têta, era assim que a chamávamos. Depois que eu saí de casa para estudar fora, aos 15 anos, passei a conviver pouco com ela. Mas havia uma sintonia qualquer que nos ligava fortemente.

Me lembro que ela era benzedeira. Tinha uma oração que ela fazia e que era tiro e queda contra “mau olhado”. Não sei explicar o que é mau olhado. Mas sei dizer que todo mundo sabe exatamente quando foi atingido por um "mau olhado". A sensação é a de que alguém, com uma energia muito forte, nem sempre negativa, te fita e te deixa exaurido em tuas forças.

É dessas coisas para as quais não há uma explicação lógica. Os céticos e os agnósticos costumam contestar esse tipo de percepção. Eu não contesto. Prefiro considerar, afinal, como dizem los hermanos – No lo creo en brujas, pero que las hay, hay!

Minha avó tinha a benzedura como um dos seus mais preciosos bens. Tanto que eu me lembro de recorrer a ela, mesmo quando já vivia distante de casa. Certa vez, eu estava no Rio Grande do Sul e não estava bem. Fui a uma cabine telefônica. Gastei os meus últimos trocados numa ligação. – Vó, queria que você me benzesse. À distância de milhares de quilômetros, ela no Maranhão, eu no Rio Grande do Sul, fiquei um tempo em silêncio enquanto ela rezava.

Depois de alguns minutos ela disse: - Pronto meu neto. Você agora vai ficar bem. E, como num passe de mágica, eu estava mesmo bem. Hoje, minha avó não está mais aqui. Mas tenho a impressão de que, de onde quer que ela esteja, ainda consegue enviar energias protetoras para todos nós.

Na foto, resgatada dos meus tempos de São Luis, aparecem meu avô, seu Opílio Viegas; minha avó Têta; eu; minha irmã Isa e minha mãe Isabel. Com o tempo, cada um deles terá um pouco da sua história contada aqui. Hoje, doze de fevereiro, foi e continuará a ser o dia dela, dia de Dona Antonieta Gaspar Viegas.

4 comentários:

  1. Sei como é: minha avó também benzia, uma tia também e eu adorava!E saravatudo também. Eram sábias em sua simplicidade e manipulação dos chás para tudo! Uma das melhores coisas da minha vida foi ter passado boa parte da minha infÂncia com meus avós, naquela época era 3 meses de férias e até hoje não sei como eles nos aguentavam, todos os netos ao mesmo tempo. Bjs.

    ResponderExcluir
  2. Ah as avós!!!Eu tenho o nome das minhas duas avós:Claudia Geni...a D. Geni é das minhas mais fortes referências na minha formação como mulher,mãe e dona de casa. Nunca mudo nada do que ela me ensinou desde as receitas até a forma de limpar as coisas e arrumar os tachos e copos no armário. É mais forte do que eu!!! Ensinou-me a rezar, a ser devota de Maria. Das suas 36 netas, sou a unica que aprendeu a cozinhar,costurar e a bordar com ela. Ensinou-me coisas que já não se usam mais nos dias de hoje e que entretanto são fundamentais na minha forma de ver a vida.
    Mãe de 9 filhos nascidos de parto normal, foi para o outro lado em 2006 e eu até hoje não consigo apagar da minha lista de contactos do telemóvel o seu número...sinto mesmo muitas saudades....

    ResponderExcluir
  3. Mariangela e Maranhão
    Ao lermos também relembramos de nossas avós, mas achavamos por que também eram maranhesenses, a minha e a do Paulo. A dele não era benzedeira, mas tinha uma amiga qualhira que lhe benzia os descendentes. A minha Raimunda Pinheiro Viégas tinha a varanda cheia de ervas peduradas. Lembro de Saiá como era chamada, curando as três netas, eu e minhas irmãs, de catapora. Nos benzia todos os dias e deixava sob nossas camas pipocas queimadas, não me pergunte por que, só sei que passavamos o dia comendo-as escondido, pois não eram para serem comidas.
    Karla e Paulo

    ResponderExcluir
  4. Oi meu bem,
    Assim como tenho o cuidado de guardar tuas crônicas e comentários, tenho anotadas as rezas da nossa avó Têta, ditadas pela própria, nos idos da nossa adolescência. É claro que as palavras no papel precisam da entonação correta e sobretudo, da fé, que só quem já foi benzido conhece. Mas,a título de curiosidade ou em caso de emergência, podemos tentar, com o devido respeito a nossa inesquecível Têta.
    Beijos,
    Isa

    ResponderExcluir