domingo, 27 de janeiro de 2019

Correspondências 2019 – Carta para Karen Cristina

Foto: Kurt Arrigo
São seis da manhã e ainda é escuro lá fora. Resultado do horário de verão, ao qual meu relógio biológico costuma desobedecer numa rebeldia civil permanente. Acordo e não quero ver o noticiário. Porque ele está cheio de lama. Brumadinho não é Mariana. E não será leve.

A lama, aliás, assume por esses tempos o sentido mais explicito da imagem deste país. Para onde quer que se olhe, há lama. E, não raro, ela insiste em vazar de seus frágeis reservatórios, morro abaixo, espalhando um rastro imensurável de destruição e dor.
Ando farto de dor. Busco um limite que me permita avançar sem perder o rumo. Sem perder a graça.

Recorro a um presente que recentemente ganhei de meu pai. “Úrsula”. Um exemplar da série “Prazer de ler”, editado pela Câmara dos Deputados. Sim, para decepção dos rasos e ignorantes, a Câmara dos Deputados, tal qual um conjunto importante de outras instituições públicas, não produz só corrupção e escândalos. Produz conhecimento de alta qualidade, também. Poucos dão valor a isso, é verdade. Mas é real e inegável.


A publicação original deste livro aconteceu em 1859. É, fico sabendo, o único romance abolicionista de autoria feminina em todo o mundo lusófono naquele período. Escrito por uma negra que não teve acesso à educação formal. Uma autodidata, portanto. Maria Firmina dos Reis nasceu de uma relação ilegítima em 1822, não conheceu o pai, mas nem por isso deixou-se levar pela tragédia. Maranhense, fez o caminho inverso ao que se costuma ver. Deixou São Luis em direção ao interior. Foi viver em Guimarães, foi ser professora, foi ser alguém muito à frente do seu tempo. E assim sendo, foi-se. E assim sendo, ficou para sempre.

Resgatada agora, sua escrita destoa pela cor de sua pela original e pela consistência em resistir ao preconceito, pela insistência em romper limites. Isto, priscas era, no Século XIX.

Interrompo a leitura para atender outro chamado do meu relógio biológico: Hora do café. Ah, delícia de meus dias. Café. Não só o prazer de tomar. Me seduz o preparo. A água fervente na chaleira, o pó à espera no coador, o chiado da água, o barulho fino da transformação, o café invadindo a garrafa térmica, aquele cheiro de manhãs completas tomando a cozinha, o quarto, a sala, a casa toda. Café!


Penso nas coisas que me dão alegria. A contradição de ser alegre fazendo notícia. Duvida? Mesmo nestes tempos sombrios é possível. Mesmo com toda trama, com todo drama. Mesmo tendo de estar atento para as sabotagens do inimigo íntimo, do que vive ao lado, do que nos espreita mais do que cuida de sua vida. Mesmo assim.

O jornal de sexta, por exemplo. A dor de contar a tragédia da lama em Brumadinho exigiu de todos nós atenção e zelo. Exigiu capacidade de decidir em curto prazo. E exigiu decisões precisas, sem chance de erro. Num instante aquela redação passou de um conjunto de indivíduos dispersos e tristes a uma orquestra sinfônica em perfeita harmonia. (Tá bem, nem tanto assim – uma orquestra menor, de Câmara, vá lá, mas sem espaço pra erro e sem medo de tocar.)  

O resultado, no ar, não traduz nem de longe as dificuldades técnicas e operacionais que vivemos. Ao contrário disso, dá ao telespectador a sensação de que uma estrutura gigantesca produziu aquilo. Assim, somos gigantes sem ser. Assim, atravessamos o mar de dúvidas e incertezas que nos transforma em ilha ameaçada de mar, prestes a submergir num oceano de desconfiança. Ou, quem sabe, a resistir como ponto de fuga em mar revolto. Assim, encontramos alegria de fazer, mesmo acerca dos que só imaginam haver espaço para amargura.

Pão com manteiga, café forte e quente, verde na janela e passarinho cantando lá fora. O tempo nublado é preguiçoso por natureza. A preguiça de me mover só não alcança meus dedos no teclado do computador. O tempo nublado é preguiçoso. E eu recorro à correspondência para fugir à tragédia cotidiana.

Porque hoje é domingo. E porque a vida insiste em vir em ondas, como o mar. Desde muito antes de Vinícius se dar conta disso.


Brasília, 27 de janeiro de 2019.     

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