segunda-feira, 20 de junho de 2011

Das coisas que o ouvido escuta

As manhãs da TV Senado, alguns anos atrás, tinham muito de especial. Não pela TV em si. Pelas pessoas. Pela equipe. Em especial mesmo, havia uma reunião de pauta, ali pelas nove da manhã, onde a gente dava conta de tudo que rolava no Senado e um pouco mais.

Invariavelmente, as reuniões terminavam com uma profusão de assuntos. Da moda à culinária, do futebol às crises financeiras, sempre passando pela política. Graça, Érica, Luciana, Dinalva, Aloísio, Myrian, Juliana e eu dávamos a partida na reunião. Depois chegava mais gente.

Parte da equipe da reunião de pauta: (a partir da esquerda)
Juliana, Érica, Solange e Dinalva
Lembro de um dia, não sei por quê, alguém começou a falar sobre letras de músicas. E sobre como as pessoas entendiam errado o que os cantores diziam. Um erro cometido nestas circunstâncias adquire valor eterno, como um diamante. Nunca mais aquela frase errada sai da cabeça. Quer um exemplo?

Graça: "Trocando de biquini sem parar".
Muita gente canta, até hoje, um trecho errado da música de Cláudio Zoli, “Noite do Prazer”. A certa altura, ele diz, na letra: “...tocando BB king, sem parar...” E não são poucos os que cantam “... trocando de biquini sem parar...” A Graça, por exemplo. É uma que acreditava que a música era, de fato, assim. E, diz ela, ficava se perguntando onde, diabos, haveria sentido para “trocar de biquíni sem parar?” Isso é coisa de doido – sentenciava. Até que um dia, foi apresentada à música de BB King e descobriu o sentido correto da letra. Já era. O erro ficou, para sempre.

Luciana lembrou que uma amiga dela adorava uma música do Alceu Valença, que até hoje faz muito sucesso. No original, a música se chamava “La Belle de Jour”. Mas a amiga da Luciana sempre se empolgava. E, na hora de cantar o refrão, tascava: “... a velha biju...”, ao invés de “La Belle de Jour”.

Dinalva, que é de Cavalcante, cidade histórica (não turística. A Dinalva odeia os turistas que tiram o sossego do lugar) contou algo mais instigante ainda. Diz a Didi que procissão em Cavalcante é das coisas mais sérias que pode haver. E que ela conheceu uma moça que era católica fervorosa, mas era absolutamente inconseqüente nas rezas. Rezava como o ouvido entendia, sem se importar com o sentido das frases. Ou melhor, atribuindo a elas o sentido que melhor lhe coubesse.

Na hora da “Ave Maria”, a Dinalva se continha pra não morrer de rir. A amiga carola começava, sempre bem alto, pra todo mundo ouvir, como que numa demonstração inquestionável de fé: “Ave Maria, cheia de graça, a senhora é tão moça, bonita é sua voz...” E por aí ia.

Ah, o ouvido! Meu irmão mais novo, o Guga, um dia me ouviu cantando uma música do Zeca Baleiro e levou um susto. A música chamava-se “Telegrama”. E num determinado trecho, ela diz assim: “... Mas hoje, eu recebi um telegrama, era você de Aracaju ou do Alabama...” Meu irmão passou um bom pedaço da vida cantando errado. Pra ele, mesmo sem fazer muito sentido, a frase soava assim: “...era você, era Caju, era Castanha...” Isso, Caju e Castanha, que formam aquela dupla famosa de cantadores de embolada. O sentido é pouco, quase nenhum, mas a frase e impagável.

Hoje, isso tudo me veio à cabeça, porque descobri que eu mesmo fui traído pelo ouvido. A Globo está se preparando para relançar a novela “O Astro”. E está resgatando a música “Bijuterias”, do João Bosco, que tocava na abertura da novela. Provocado pela memória, comecei a cantá-la inteirinha. E Mara duvidou que um trecho falasse sobre “ir urgente ao dentista”. Me olhou com cara de desconfiada. Me provocou.

Fui ao Google. Santo Google. Resgatei a letra e a música e acabei com a dúvida. Ponto para a minha memória. De quebra, descobri meu próprio erro eterno. A última frase da música eu sempre entendi, desde priscas eras, assim: “... transparente feito bijuterias, vacilou perde a alma...”. Aquilo nunca fez muito sentido pra mim. Mas eu também nunca me dignei a gastar tempo em busca do verdadeiro sentido da frase.

Hoje, exatamente agora, acabo de descobrir que todo esse tempo, cantava a frase errada. No original, João Bosco diz “...transparente feito bijuterias da Sloper da alma”. A frase faz sentido para os cariocas. Pra mim, só faz agora. Uma vez mais, graças ao São Google. Se você também não sabia, clique aqui e descubra o sentido da frase que encerra a música de João Bosco.

4 comentários:

  1. O jornalista e amigo José Clauber, me escreve, comenta o post e eu divido o comentário com vocês:

    Frases erradas de músicas, acho que fazem parte da vida de todo mundo. Me lembro de "errar' o sentido de uma do Roberto Carlos. Desde pequeno na minha casa, sempre e muito, se ouviu o Rei. Em uma das músicas ele dizia: Nos lençois macios amantes se dão... e eu com minha irmã Célia ficávamos pensando do que se tratava aquilo(tinhámos uns 6 ou 7 anos de idade). E ficávamos horas tentando descobri o significado daquela palavra: Amantisidão, kkkkkkkk! Nós entidíamos tudo junto. Dia desses estávamos rindo, lembrando da nossa dificuldade em entender.

    Abraço, Maranhão.

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  2. Zecca Freitas, grande amigo de boas batalhas eleitorais por este Brasilzão a fora, também me escreveu comentando o post. Reproduzo aí embaixo porque a mensagem dele é genial. Valeu, Zecca, grande abraço.

    Muito legal, Maranhão. Me faz lembrar o colega da escola pública primária de Catanduva que ao cantar a primeira estrofe do Hino Nacional saía com um sonoro: “virundum piranga imagem plástica”.

    Abraços,Zecca

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  3. Meu Deus!!! O José Clauber,(que não conheço) acabou de me decepcionar. Então não era "a mantisidão" dos lençóis??? Não sei o que seria a tradução disso, talvez alguma coisa ligada a maciez, sei lá. Puxa, não sei se fico feliz ou triste com essa descoberta!
    Beijos,
    Isa

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  4. ''Trocando de bíquini sem parar'' essa realmente todo mundo troca.
    Agora eu tenho uma caprichada, e sempre cantei errado (já me dá vontade de rir só de lembrar).
    Bem a música é Exagerado de Cazuza, e o trecho é ''E por você eu largo tudo, carreira, dinheiro, canudo''.
    E eu sempre cantei assim: E por você eu largo tudo, carreira de Neruda mudo (kkkkkkk)
    E tem outra do Cazuza ( Pro dia nascer feliz)e meu tio Paulino canta assim: Me dê de presente o teu pis.
    Taí, ele quer o pis pasep pro dia nascer feliz.
    Se eu lembrar de outras eu volto.
    Abraços!
    Andressa Domingues

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