terça-feira, 18 de maio de 2010

Roberto y Liliana


Antes de conhecer Roberto Alem Rojo, conheci Liliana Bayá. Que sempre foi apaixonada por ele. Eu e ela nos encontramos na faculdade. Ela, arquitetura; eu, jornalismo. Era o começo dos anos 80, no Sul do Brasil. E nós dois éramos os bichos estranhos, os animais de zoológico no meio da gente sulista. Ela, nascida na Argentina e criada em Cochabamba, na Bolívia. Eu, nascido no Maranhão e, desde os primeiros dias de faculdade, identificado pela minha origem nordestina.

Nós dois éramos referência para análise de tudo. Nas aulas de Sociologia, depois das apresentações dos mestres, abriam espaços para conhecer a visão do nordestino e da andina.

Na aula de Cultura Brasileira, a mesma coisa. Na de Deontologia, lá estávamos nós, outra vez. E assim foi até que ficamos amigos. Liliana já tinha a Tessay. Mais tarde, teve a Aimê, duas filhas, nenhuma com o Roberto. A esta altura, ele, já circulava entre a América Latina e a Espanha como um jovem cineasta.

Formado em cinema pela escola de Cuba, Roberto casou-se (não com Liliana) teve um filho, Andrés (o primeiro que aparece à esquerda, na foto em preto e branco, aí embaixo), aprendeu a fazer filmes e guardar amores. Aliás, o amor dele por Liliana esteve recolhido por muitos anos. Pelas diferenças políticas de uma família e de outra. Separados ideológica e geograficamente, eles seguiram se amando em silêncio. Até que se encontraram de novo, no início dos anos 90.

Ela e ele haviam terminado casamentos anteriores. O amor entre os dois prosseguia a ponto de superar o tempo, a distância... a ponto de superar as ideologias e imposições familiares. Livres das amarras, uniram-se para viver uma grande história de amor.

Conheci Roberto algum tempo depois. Ajudei-o a vencer o medo do Brasil, país que lhe havia roubado a amada por quase dez anos. Nos tornamos amigos de infância. Meu primeiro trabalho com ele foi a tradução de um documentário que ele havia feito no “Salar del Uyune”, uma imensa área de sal petrificado no alto da Cordilheira dos Andes.

Traduzi o roteiro original com a ajuda da Flora Akatsuka e dirigi a versão brasileira, apresentada por Kiko Ribeiro. O documentário foi levado ao ar, primeiro, pela TV Educativa de Mato Grosso do Sul e, depois, enviado à TV Cultura de São Paulo para exibição em rede nacional.



Nos anos 90, por duas vezes, eu e Mara estivemos com eles em Cochabamba. Foi um tempo curto e delicioso, com manhãs de sol aos pés da cordilheira nevada e noites de intenso frio e chá quente. Eles estiveram em nossa casa pelo menos duas vezes também. E se aventuraram em uma curta temporada brasileira, em Santa Catarina, quando a situação política e econômica da Bolívia empurrava os seus filhos para o êxodo.

Somos compadres. Durante a faculdade, ajudamos a cuidar da Tessay, que se tornou uma veterinária reconhecida e respeitada na Bolívia. Quando Aimê, a filha mais nova de Liliana, nasceu, viramos padrinhos de verdade. Aimê lhes deu certamente o presente mais estimado nestes anos todos: Zoe, uma netinha que ocupa permanentemente o imaginário amoroso de Roberto e Liliana, como um novo fôlego ao tempo que passaram distantes um do outro. Somo isso tudo, mas somos, essencialmente, amigos.



No final do ano passado, um dos filmes de Roberto, um documentário sobre os conflitos de 11 de janeiro de 2007, que convulsionou a Bolívia, colocando frente a frente campesinos, políticos, cocaleiros e irrigadores, foi selecionado para a 4ª Mostra Cinema e Direitos Humanos e exibido em 16 capitais brasileiras.



Roberto me escreve dizendo que, como prêmio pela participação, assinou um contrato com a TV Brasil que vai permitir a exibição, em rede nacional, deste seu novo trabalho. Sem dúvida, uma oportunidade para ver como anda a mão cinematográfica do meu compadre. E para tê-lo por perto, mais uma vez.

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