quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O mar em mim



De onde venho, aprendi a ver o mar com olhos de respeito, desejo e saudade.
Tudo ao mesmo tempo. Sou neto de pescador. Isso talvez bastasse para dizer do meu amor pelo mar. Talvez. Mas não tenho certeza. 

Olhando o mar, seu horizonte sem fim e indecifrável, gastei horas a fio de minha infância. Das primeiras lembranças que tenho do mar, me recordo de embarcações de pesca e do cheiro do breu isolante no casco dos barcos e do peixe fresco 
desembarcado de manhãzinha na praia. 

Menino mesmo e sem saber ainda nadar, acompanhava meu pai à espera do desembarque dos peixes. Havia uma ponte de madeira na praia da areinha, que nesse tempo permitia a pesca. Não havia ainda a barragem do Ibacanga, separando como uma espinha de peixe a garganta da ilha e o bairro Anjo da Guarda.

Eu, menino do asfalto, via outros meninos, da praia, numa cumplicidade atroz com a ponte de madeira e o mar. Eles corriam alegres, tomavam um impulso no ar e caiam n'água pra sair uns metros mais adiante, com uma maestria que nada tinha de infantil.

Eram senhores daquele pedaço de mar. E carregavam um sorriso de felicidade impossível de descrever, desses que só se encontra no rosto de quem, mesmo sem querer, encostou na felicidade. 

Seguiam-se meninos e saltos. E eu lá, com os olhos vidrados de vontade e inveja, mas consciente de meus limites: Nunca em minha vida havia entrado no mar. 

Meu pai, esperando os peixes, percebeu meu olhar. 
- Vai lá, meu filho. Tira a camisa e o chinelo e vai. 
Não sei de onde tirei coragem, mas tirei. Junto com a coragem, sem camisa e sem chinelo, senti-me um pouco dono do mundo, daquele mundo. Acho que a ignorância nos faz corajosos. Eu ignorava o mar, o medo, a profundidade daquela água, eu ignorava a razão.

E assim, ignorante e ao mesmo tempo apaixonado por aquilo tudo, corri como quem corre a maior corrida da sua vida e saltei livre, quase alado, em direção ao mar. 
O mar me recebeu em seu colo salgado. Me envolveu e me levou pro fundo.
Primeiro, minhas mão tocaram na areia. Depois, meus joelhos. Meus olhos estavam abertos e viram cada vez que os meninos - não eu - passavam por mim como flechas, entravam, mergulhavam ao fundo e como num movimento de arco, subiam à superfície.

Me recordo de ter visto uns três fazerem isso, enquanto eu estive no fundo. 
Eu não sabia fazer aquilo. Portanto, não sabia emergir. Creio que tudo isso não passou de poucos segundos. Mas, para mim, eles duraram o tempo de uma eternidade. Eu não sentia medo. Apenas reconhecia a minha incapacidade de voltar à tona.

Minha vida por um fio e eu encantado com o mar. 
Até que a mão salvadora de meu pai surgiu, me pegou pelos cabelos e me puxou para cima. Eu que já não tinha mais ar, respirei aliviado. E aprendi a respeitar o mar, sem nunca tê-lo deixado de amar. 

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