domingo, 13 de julho de 2014

Minas, em mim, não é à toa

Minas em meu caminho, até nas asas azuis
de Milton Nascimento. 

De vez em quando, Minas atravessa o meu caminho.
Dias destes, estive por lá a convite de Rudá Ricci.

Nessas idas, quase sempre me surpreendo quando descubro uma parte de mim, plantada em solo mineiro. Sempre desconfiei disso. E cada vez que volto me reencontro. Pedaços de mim, que nem me dava conta, disfarçados de sabores, de esquinas de música, mas principalmente, de gentes.


Como resistir a esse Belo Horizonte?
Antes de ir, liguei pra Hye Ribeiro. Tem pouso? A resposta foi como uma saudação, um abraço de irmão - Claro! Desembarquei e fui promovendo encontros. Rudá, que me trouxe os filhos, Tiago e Fernanda, a nora e o genro. Eles, que trouxeram amigos chilenos. Eu que os conheci e conhecendo lhes trouxe Hye, que ouvia Rudá pelo rádio sem nunca tê-lo visto pessoalmente. Assim, sem querer, é quase uma poesia de Drumond.

Rudá, eu e Hye. Encontro de uma vida inteira,
repassando histórias de meninos à volta de uma mesa mineira. 
Mesa posta e farta. Comida e conversa. Parecíamos meninos de infância eterna, à volta com o passado e o futuro, desfrutando um presente intangível.

A caminho da casa de Hye, Lourdes lhe telefona. Lourdes vem a ser uma mocinha a quem coube o destino traduzir-se como mãe dele. Mocinha, sim, não importa a idade. Lourdes pergunta por ele e por mim. Quer saber de mim, se sou aquele amigo de quem ele diz gostar tanto. Hye confirma. E ela então, do alto da sua autoridade de mãe, determina - o almoço dele, amanhã, será em minha casa.

canjiquinha e costela de porco
Impossível resistir. Lourdes manda avisar, vai fazer canjiquinha com costela de porco. Hummmmmm!

No dia seguinte nos encontramos. manhã friazinha de outono. Lourdes é uma lady. Me recebe como se fôssemos velhos amigos. Me conduz pela casa que é Minas em tudo. Nos móveis, no estilo, nas janelas, varandas e jardins.
O jardim de Lourdes, onde ela conversa com pássaros, todo fim de tarde. 
Passo com os olhos deliciados pelo meio da casa e chego a um jardim de inverno. À mesa, uma linguicinha frita e pães de queijo me esperam. Lourdes pergunta o que quero beber. Sugiro um vinho, pelo friozinho da manhã. Ela concorda, para em seguida discordar, docemente. Quem sabe a gente começa com uma cachacinha, pra acompanhar essa linguiça e o pão de queijo? Discordância perfeita.

Hye e Marcia, amor antigo de uma vida inteira. 
Não demora, Marcia, o amor de Hye, se junta a nós. E a conversa é sobre tudo. Tudo de Minas. Lourdes percorre as ruas de Itamarandiba, Pedra Azul, Diamantina e Montes Claros, com a mesma naturalidade com que frequenta museus em Paris ou Nova York. Sempre desconfiei que o mundo passava em Minas, antes de ser mundo. A casa e a conversa com Lourdes servem para comprovar minha tese.

Ela fala com desenvoltura sobre Darcy Ribeiro de Juscelino, de Milton, dos marujos e catopês. Revela seus "não gostares". Ah, até hoje eu não gosto daquele menino, o Carlos Lacerda. Ele escreve bem, mas fala muito mal de Juscelino. Lourdes é uma delícia. Não lhe faz importância o tempo ou a idade.

Lourdes, boa prosa e vinho. Minas ali, em pessoa.
De corpo e alma. 
Ao som de um seresteiro por quem ela apaixonou-se na última seresta, e de quem comprou dois discos, esbaldei-me de vinho, de costelinha de porco e canjiquinha. As horas passam. Minas, de vez em quando atravessa o meu caminho. E não é à toa.

3 comentários:

  1. Tenho amor por Minas, creio até seja platônico, daqueles que se poderia dizer: se não fosse maranhense, queria ter nascido em Minas. Vá explicar... talvez as ruas estreitas e o casario, talvez os sabores, talvez simplesmente a poesia de lá. Parabéns pelos amigos mineiros, me senti em casa também lendo o texto. Beijos.

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  2. Ufa, Viegas! Que doçura de texto!

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  3. Adorei sua descrição de MG,nessa beleza de texto .sua sensibilidade me emociona.

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