terça-feira, 11 de outubro de 2011

Aquele Outubro


Aquele outubro de 96 não me sai da memória. Era ano de eleições municipais. E eu, entre o primeiro e o segundo turno de uma eleição pesadíssima, resolvi fugir por dez dias com a família. Nosso destino: Cochabamba, na Bolívia. Encontrar velhos amigos. Respirar o ar da cordilheira, esquecer a política e recarregar as baterias para uma nova batalha eleitoral.

Gabriel e Mariana eram crianças. E se deliciaram com as novidades de um país de língua estrangeira, costumes diferentes e paisagem deslumbrante. Foram dias de alegria e paz.

O caminho de volta pra casa era fascinante também. Um vôo de Cochabamba a Puerto Soares, na fronteira com o Brasil. De lá, uma travessia de carro até Corumbá. E de Corumbá, uma viagem de seis horas, de ônibus, até Campo Grande, passando bem no meio do pantanal.

Nessa época, a uma determinada altura, a passagem pelo Rio Paraguai era feita através de balsas. O ritual era o mesmo, sempre. Chegando à beira do rio, uma pausa para esperar a balsa. Depois, uma travessia de quase uma hora, no silêncio da noite, com o barulho da água e a imensidão do céu, cheio de estrelas.

Naquele dia 11 de outubro de 96, descemos do ônibus e esperamos pela balsa por uns 15 minutos. Nos bares, um movimento de turistas e ribeirinhos. Gente bebendo cerveja, falando em espanhol, gringos de mochila nas costas... Havia de tudo. Um misto de feira e quermesse.

De repente, num pequeno televisor ligado na Globo, a apresentadora do Jornal Nacional, Lilian Witefibe, com uma profunda tristeza no rosto anuncia: Renato Russo, líder da banda Legião Urbana morreu hoje, de aids. Pow! Senti uma pancada no peito.

Olhei para Mara. Ela também me olhou, sem acreditar. Entre entender a notícia e assimilar a perda, morri de ódio da frieza da Lilian. Como alguém podia dar uma notícia dessas, assim, de supetão? Sem nos preparar? Sem anestesia?


Mas, independente da minha raiva, a notícia era de verdade. E uma sequência de repórteres se sucedeu, traçando um perfil do Renato, mostrando a trajetória de sua vida, falando da sua poesia, mostrando a riqueza de suas letras e estabelecendo um elo definitivo entre o pensamento dele e a mais perfeita tradução do que pensavam e sentiam os jovens daquela geração.

Naquele dia, torci pra que a balsa não chegasse. Da mesma forma como torci para que a notícia fosse falsa. Não adiantou. Nem para uma coisa, nem para outra. A notícia era dura e verdadeira. A balsa chegou. Dentro dela, com um olhar comprido, eu me esforçava par ver o fim do jornal. Foi a travessia mais longa que fiz pelo Rio Paraguai. A noite, o silêncio, a água. Nossa tristeza sob o céu do pantanal. Renato, morto. Aquele outubro de 96 não me sai da memória.


 

Um comentário:

  1. Oi Maranhão.
    Suas lembraças me fizeram lembrar que naquele mesmo dia, estávamos Lula, Gabriel, Júlia e eu em Ouro Preto. Era a tradicional festa do 12. Da mesma forma que vcs, nós também ficamos chocados com a notícia. O Renato Russo não era um ídolo para mim, mas por certo representava um novo jeito de cantar e de colocar nas suas letras as aspirações e inquetações da nossa geração.

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