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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os filhos de João, o filme

No início eram dois. Moraes Moreira e Luiz Galvão. Reunidos por Tom Zé, com a provocação: Vão se juntar e fazer uma coisa bacana. Eles foram. Encontraram Paulinho Boca de Cantor. Depois Baby Consuelo, depois Gato Felix. E assim foram se juntando. E tiveram as bênçãos de um João. Não um João qualquer. João Gilberto.

Moraram, primeiro, em um apartamento no Rio de Janeiro. Eles contam: "O futebol nos unia. Jogávamos partidas na sala, a noite toda. Havia uma velhinha no apartamento de baixo que vivia batendo com o cabo de vassoura, pedindo silêncio". E a música lhes misturava a alma. Os ensaios eram permanentes. As apresentações, primorosas.

Esses e outros relatos fazem parte do excelente documentário de Henrique Dantas, que entrou em cartaz esta semana, nos cinemas do Brasil: “Os filhos de João, o admirável mundo novo baiano”. O filme exigiu dez anos de pesquisa. E é o próprio Henrique quem conta um pouco dessa história aí embaixo.



Os 76 minutos de duração do filme passam sem que se perceba. É um documento da história do Brasil. Os novos Baianos são um marco na Música Popular Brasileira. Algo que teve começo, meio e fim. Mas que jamais sairá das nossas cabeças.

O filme foi lançado no festival de Cinema de Brasília, em 2009. Ganhou o prêmio de melhor filme, do juri popular. Mas só agora chega ao circuito nacional. Aí embaixo tem um link para assistir o trailer. É só para provocar. Tenho certeza. Depois do trailer, você vai ficar louco para ver o filme completo. Vale a pena.


sábado, 14 de junho de 2014

Uma simples Bola de Meia

Por Innocêncio Viégas*


O mundo gira, gira e volta ao mesmo lugar.
Ontem um dos meus netos, o João Gabriel, de 5 anos, me acordou com um pedido.

– Vô! Você pode fazer para mim uma bola de meia? Aquela frase – a bola de meia – me levou aos 7 anos quando aprendi a fazer uma bola de meia. Me vi menino disputando uma “partida” com os meus saudosos amigos de infância.

Perguntei ao João quem havia falado a ele em bola de meia? Ele respondeu que ganhou uma revistinha que ensinava fazer a bola com ajuda do pai ou do avô. A revista mostrava como fazer a bola: jornal, meia velha, fita crepe, agulha e linha.

Depois de ler a revista e olhar bem o modelo disse-lhe que faria uma bola melhor que a da revista, o que ele logo perguntou:

– Pode ser agora? Lhe respondi que não, pois teria que conseguir o material mas garanti que estaria pronta quando da sua volta da escola. Ele fechou a mãozinha e apontou o punho na minha direção e eu também correspondi com o mesmo gesto e nos tocamos selando o pacto.

Ele foi para a escola todo feliz e eu fiquei mais feliz por ter que recordar os velhos tempos. Depois do café fui garimpar o material.


Peguei um par de meias em bom estado, um pacote de estopa que sobrou da construção e um pedaço de barbante. Aproveitei para fazer também uma para o Luiz Eduardo, o Dudu, outro netinho de 6 anos. 
Em poucas horas eu estava com duas lindas bolas cor de vinho e até tentei uma embaixadinha mas a perna não ajudou.

À tardinha o João chegou, foi perguntando pela bola e eu logo lhe entreguei a pelota. Ele, admirado, acariciava-a e apertava-a contra o pequenino peito cheio de esperanças.

O pai dele, o meu filho Ildenor logo o convidou para jogar. Ali mesmo, na sala, passamos ao jogo. O João para o pai, o pai para o avô, o avô para o João e o João para o espelho da sala que não se quebrou por ser a bola muito macia. Bateu e voltou ao “campo”.

Meditando, vi ali três gerações brincando com bola de meia em plena era dos brinquedos sofisticados. Aí lhe pergunto:

– Você meu caro leitor, já fez uma bola de meia para os seus filhos ou aos netos? Não? Quer aprender? Não perca tempo! Apareça aqui no Rancho da Montanha, traga a meia em bom estado e não se preocupe que o restante do material tenho aqui. Mas não esqueça de trazer também uma garrafa de um bom vinho tinto, seco e encorpado, para comemorarmos depois da bola pronta.


Ah! Meus caros amigos, o mundo gira, gira e volta ao mesmo lugar. Em plena copa do mundo de 2014, onde a bola é a principal figura de disputa, estamos falando em bola de meia que embalou nossos sonhos de criança, e logo vamos encontrar três gerações jogando no meio da sala de estar, o futebol da saudade, com uma fofinha bola de meia.

Logo, logo o João e o Dudu estarão jogando no gramado do jardim – entre as flores da vovó Bel – uma animada partida de futebol e marcarão no ato, um gol de placa nos atuais brinquedos eletrônicos ... com uma simples bola de meia. 

É goool!!!

* Innocêncio de Jesus Viegas é Teólogo – Escritor. Membro das academias: Acad. de Letras de Brasília; Acad. Maçônica de Letras do DF; Acad. Maçônica de Letras Paranaense; Acad. Maçônica de Letras e Artes do Brasil – GOB; Confraria dos Amigos da Boa Mesa – COMES; Academia Maçônica de Letras do Maranhão (correspondente);
Email – inocencio.viegas@gmail.com



terça-feira, 12 de julho de 2011

Naqueles tempos...

Em 1980, quando cheguei ao Rio Grande do Sul, estava em pleno andamento uma revolução cultural. Na música, no cinema, no teatro, nas artes, enfim. Para mim, era o início do meu curso de jornalismo na UNISINOS. Era a descoberta de uma terra que não era a minha, que não era tão quente quanto a minha, que não tinha os sabores da minha terra e ainda assim, era fantasticamente provocante.

Foi assim que descobri Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil. Eles eram os caras de ponta, ousados demais, fazendo cinema na bitola "super 8". "Deu pra ti Anos 70" e "Coisa na Roda", dois dos primeiros filmes feitos por eles, viraram  clássicos. Estavam plantadas ali, consciente ou inconscientemente, as raízes do bom cinema gaúcho que existe hoje.

Um pouco mais tarde, por conta da minha vida cruzar com a da Mara, terminei me aproximando de figuras como o Carlos Gruber, a Mica Sauressig e o Nilo Cruz (no cartaz de "Coisa na Roda" aí acima, Nilo é o terceiro, da esquerda para a direita e Gruber é o quarto). Todos eles estudaram com a Mara, quando ela ainda era Franke, no Sinodal, um internato, em São Leopoldo. E de alguma forma tambem estavam naquele momento envolvidos com o cinema ou com o teatro, em Porto Alegre.

No teatro, a montagem de "Marat e Sade" conquistou público e crítica e lotava as sessões nos fins de semana. A peça chamava-se originalmente "Perseguição e Assassinato de Jean-Paul Marat representado pelo Grupo Teatral do Hospício de Charenton sob a Direção do Marquês de Sade”. Um polêmico roteiro ficcionista sobre a Revolução Francesa, escrito em 1964 pelo diretor de cinema e dramaturgo alemão, Peter Weiss.

No rádio tocavam Nelson Coelho de Castro, Bebeto Nunes Alves e Ney Lisboa. Todos eles "filhos" de um camarada chamado Carlinhos Hartlieb. Um gênio de vida curta (como é comum aos gênios). Que foi encontrado morto em uma casa em Garopaba (que virou capa do disco póstumo, que está aí abaixo), quando lá não existia nada além de areia, mato, praia e pescadores. Antes de partir, abriu caminho para uma geração inteira de músicos, que se encarregou de dar expressão e consistência à  nova música popular gaúcha.

Era uma época de pouco dinheiro e muita diversão. Tempo de pegar o ônibus em São Leo e desembarcar em POA. De caminhar pela Independência, descer para o Bonfim, onde os magros e as magras de todas as tribos se juntavam para terminar a noite no Bar João, ou no Ocidente. Claro, depois de assistir um filme de Godard, no Bristol; ou depois de ver um show da banda "Atahualpa y os Panques" no auditório Araújo Viana.

Hoje, não sei direito porque lembrei de tudo isso. Acho que foi a partida da Iara Maurente, uma jornalista gaúcha que esteve por uns tempos em Brasília, mas que já está de volta ao Sul. Conheci Iara através do Mauro di Deus. E nem foi preciso muito para nos transformamos em amigos, como esses amigos de infância - de quem a gente gosta sem querer. Só por gostar. E a nossa amizade virou "pra sempre".

Então, acho que é isso. Esse texto, Iara, é pra dizer que foi boa a tua passagem por aqui. E que eu estou torcendo para que seja melhor o teu retorno aos pagos. A música aí embaixo, encontrei vasculhando a blogosfera. É uma das que o Nei Lisboa cantou no show que a Universidade de Caxias promoveu, no ano passado, para comemorar os 30 anos de carreira dele. Pra te lembrar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O presente de um poeta


Há dias estou longe daqui. Mesmo que isso pareça impossível. O Blog está sempre comigo, mas há dias estou longe dele. Não por falta de vontade. Não por desgosto. Não há razão clara, a não ser o cansaço.

Há dias viajo pelo mundo, que se parece mais vasto do que na poesia de Drumond. Fui de Brasília a Montevidéu. Voltei de lá para Brasília e dai, segui ao coração do pantanal. Passei pelas ruas de Campo Grande que tanto me ajudou a ser quem sou. Revi amigos eternos, amigos de sempre e de tudo. Voltei a Brasília e de lá embarquei para Minas Gerais.

Desde ontem, frequento as horas entre montanhas alterosas. Desde ontem, minha paisagem é outra. Rodeada de cheiros e verduras. De cafés e pães de queijo, que transmutam meus dias de reuniões. Amanhã, São Paulo. E depois, Brasília de novo.

Agora há pouco, abri a internet num espaço que tinha para descansar. Caiu em meus olhos um texto de José Castelo, falando sobre Manoel de Barros e publicado no Jornal Valor Econômico. Mesmo cansado, "garrei" na leitura do texto (como eles dizem aqui em Minas) até não haver mais o que ler.

Manoel tem o dom de me emocionar. Desde a primeira vez que o li. Desde o começo deste blog eu declarei o meu amor por ele, pelas palavras dele, pela poesia dele. Basta clicar aqui e você vai comprovar isso, lendo o meu primeiro post.

Pois, hoje, no reencontro com o meu blog, eu abro espaço para a poesia que vence o cansaço. E reproduzo aqui o texto de José Castelo sobre Manoel, que tanto me emocionou.

Por José Castello | Para o Valor, de Curitiba
Tuca%20Vieira%2FFolha%20Imagem  Manoel de Barros em 2004: "Talvez sirva esta espécie de carta para explicar o divino absurdo e Fernando Pessoa para explicar as raízes da inocência", escreve
Retratos não guardam a objetividade, tampouco a nitidez que deles esperamos. Estão sempre um pouco desfocados. Conservam o recorte da perspectiva. Dependem de uma série de fatores externos, do acaso, do imponderável, que estão muito além das circunstâncias técnicas. Trazem manchas de luz, súbitas obscuridades, deformações. Essas ideias me vêm enquanto tento traçar um retrato do poeta Manoel de Barros.
Aos 95 anos, depois de perder, há quatro anos, o filho do meio, João, o poeta de Mato Grosso do Sul agora vigia à cabeceira de seu filho mais velho, Pedro, que sofreu um AVC. Anda triste, esgotado, oprimido pela rudeza do real. Quase não sai mais de casa. Além da mulher, Stella, só se comunica regularmente com a filha, Martha Barros, que vive no Rio, mas está sempre em Campo Grande ao lado do pai. "Não fala da morte", me diz Martha, "nem gosta de falar de doença". À morte nome algum - poema algum - corresponde e o poeta sabe disso. Cala-se: só o silêncio faz algum sentido, ainda que precário, diante dela.
Ainda assim, ultrapassando seu silêncio e por meio de Martha, experimento lhe mandar um pedido de entrevista. Que responda à mão - Martha copiará depois suas respostas em um e-mail. Que responda aos poucos, aos pedaços, devagar. Explico-lhe que meu tema (o tema desta coluna de "Instantâneos") é o presente. O que lhe peço? - eu me dou conta. Que enfrente e fale de seu doloroso agora. Mesmo assim, escrevo minha carta, admito, sem grandes esperanças, mais para lhe fazer um gesto de carinho. Mais para acariciar, ainda que com palavras, um poeta que muito admiro.
Para minha surpresa, poucos dias depois, e novamente por meio da bondosa Martha, recebo esta resposta:
"Campo Grande, fevereiro de 2012
Caro amigo Castello
No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver.
Como dizer! Eu vi um lagar com olhar de árvore. Pura inocência que o absurdo faz. Pura inocência para desver o certo. Eu queria era mudar a feição das coisas. Assim como desnaturar pela palavra. Ver as coxas rosadas da Manhã na beira do rio era gosto. A gente andava perdido nas Origens.
As palavras não tinham comportamento. Era sempre um Tratado de Descoisas que eu queria fazer. São alguns dos fragmentos que estou aqui mandando a você como respostas às suas sábias perguntas. Repito que sempre andei pelas origens sem me conhecer. Talvez sirva esta espécie de carta para explicar o divino absurdo e Fernando Pessoa para explicar as raízes da inocência. Assim: eu vi uma frondosa formiga ajoelhada no adro!
Mas não havia nem adro nem origens. Grande abraço e obrigado por tudo.
Seu amigo
Manoel de Barros"
"No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada", diz Manoel em carta
Atordoado, mas feliz, releio a carta, sem me dar conta, de imediato, de que, na mesma folha, ela continua em um novo trecho batizado apenas de "1". Talvez seja a tentativa de responder à primeira das perguntas que lhe enviei, em que eu lhe pedia que falasse de seu trabalho poético atual. Eu queria saber apenas o que Manoel tinha a me dizer a respeito das coisas que anda escrevendo. Sei que, apesar da idade avançada, continua a escrever porque li o maravilhoso "Escritos em Verbal de Aves", lançado no fim do ano pela editora LeYa. Livro em que trata da morte de um de seus personagens mais famosos, Bernardo. Sim, as palavras podem enfrentar a morte, agora me dou conta. E Manoel sabe disso.
Assim continuou Manoel:
"1.
Quero repetir uma coisa. É que o absurdo é divino porque o absurdo infantiliza as palavras - como seja: Eu vi um sapo com olhar de garça. Não infantilizei a beleza das garças! Para bem compreender a voz das águas, das árvores, das pedras, precisamos estudar ignoranças - coisa assim: eu vi a bunda do vento e a bunda só tinha o lado de fora. A gente não estudara as coisas por dentro delas. A gente fosse ignorantes! Mais tarde eu quis saber o que o silêncio sabe sobre a solidão das pedras. Ninguém nada sabia. Só um homem abraçou a ignorança.
A gente mais tarde via os caracóis enrolados em suas palavras. Ele se tornara um vate porque suas palavras se enrolavam nas lesmas dos caracóis! As lesmas queriam dormir nas palavras do vate. Agora, dentro da solidão das minhas palavras andam caracóis que fazem confusão comigo. Criaram raízes em minhas palavras e andamos juntos nestas origens.
Agora a gente só queria saber o formato severo dos silêncios. Agora eu vivo por gosto de engolir a linguagem e não porque gosto de compreender. O mundo eu só quero desver.
Sempre fui mais tido como um parvo! Porque eu queria mudar a feição das coisas com palavras. Assim, uma vez eu vi a tarde correndo atrás de um cachorro. A tarde não pegou o cachorro. Mas eu vi de visão. As águas irrompiam de minadouros para mim. Irrompiam como vernos e como as sementes do verbo.
Naquelas cavernas das origens havia Profetas, tontos, crianças e poetas. Eu morava no ente. Eu bem ouvi o tonto dizer: Uma brisa me garça. Achei que algum futuro meu poderia ter esse título (Uma brisa me garça). É pura harmonia letral.
Manoel de Barros"
Tuca%20Vieira%2FFolha%20Imagem  A voz peculiar do poeta: "Agora, dentro da solidão das minhas palavras andam caracóis que fazem confusão comigo. Criaram raízes em minhas palavras e andamos juntos nestas origens"
E aqui fico eu, diante dessa resposta que me empurra para lugares e pensamentos inesperados e me arrasta de meu centro. Quando você pergunta "isso", a pessoa costuma responder: "aquilo". Contudo, com Manoel de Barros, as coisas não se passam assim. Primeira descoberta: em seu tempo, não há linearidade. Como, então, desejar que fale do presente? Como então pensar em instantâneos?
Releio, outra vez, a carta-resposta, em busca de alguma pista mais clara, alguma objetividade, algo a que me segurar. Esqueço que a poesia é um tranco, que nos deixa fora do eixo. A carta está escrita em uma estranha, que mistura o passado com o presente - e não, como eu esperava e lhe pedia, se fixa no presente. Com o filho doente e a idade avançada, com a tristeza a devassá-lo, o presente, por certo, lhe repugna. Ou, pelo menos, não lhe interessa. Na carta-resposta, a palavra "origens" se repete quatro vezes, sinal de que a infância, nem mesmo na escrita, o abandona. A palavra "futuro" só aparece uma vez, quando o poeta pensa no título ("Uma brisa me garça") de um livro que pretende escrever. Sim: a literatura é o lugar do futuro. A palavra presente, porém, não está presente.
Admite Manoel que sempre foi tido "como um parvo". Nunca teve medo nem da ignorância nem da tolice. Ao contrário: sempre as valorizou e nelas se amparou. Ainda agora, quando o mundo o espreme em um deserto, reafirma sua crença. Vê-se, sempre, entre "Profetas, tontos, crianças e poetas". As quatro definições - e não apenas "poeta", como costumamos preferir - lhe caem, na verdade, muito bem. Ato extremo de coragem intelectual. E mais ainda: de nervos capazes de capturar o que só os poetas verdadeiros enfrentam.
Conta-me Martha que seu pai leva a mesma rotina simples de sempre. Na verdade: cada vez mais simples. Ainda escreve, com abnegação, todos os dias. Ainda lê todos os dias. Nisso, nada mudou: o mundo o machuca, mas ele se conserva inteiro. Acorda cedo, escreve ou lê durante toda a manhã e lá pelas 11 horas interrompe o trabalho e toma uma sagrada dose de uísque. Almoça com calma. Dorme um pouco, não muito. Às 15 horas, se levanta para ler o jornal. Abre as correspondências. Faz tudo muito lentamente, mas com grande concentração. Manoel, o poeta das pequenas coisas, das miudezas, dos dejetos, sabe valorizar cada uma das coisas que a vida ainda lhe dá.
Não gosta de computadores. É a filha Martha quem recebe os e-mails, depois faz uma triagem delicada antes de imprimir e lhe passar. É ela, ainda, quem cuida de sua correspondência. Martha é separada. Tem três filhos e três netos. Mora no Rio, no Leblon, mas está sempre em Campo Grande para sustentar a rotina do pai. No escritório, não tem muito trabalho: a correspondência de Manoel, hoje, é pequena. Sua vida está reduzida ao essencial.
"Meu pai gosta de falar bobagem e conversar com gente simples e criança. Fica muito só, por gosto", conta a filha, Martha
Também as leituras de Manoel são muito escolhidas. Relê os clássicos que o influenciaram - em particular, Antônio Vieira. Anda a reler Clarice Lispector. Mas que não se imagine um homem circunspecto e "profundo". Manoel sabe que as delícias e riquezas do mundo estão na superfície, bem à mostra, na nossa cara. É só inventar uma maneira nova para observá-las. Diz Martha: "Meu pai gosta de falar bobagem e conversar com gente simples e criança. Fica muito só, por gosto. Assiste a novelas, gosta de futebol e acompanha os noticiários". Enfim: sob o manto de palavras assombrosas, um homem comum, cada vez mais comum.
Martha é pintora e tem uma parceria criativa com o pai. "Trabalhamos juntos em alguns livros (as iluminuras) que têm mais a ver com um casamento de afinidade poética do que com ilustração". É assim: Manoel sempre reage, ou não reage, por afinidade, ou falta de afinidade. É um homem espontâneo, continua a ser, apesar do presente doloroso. Desde que ficou doente, o filho Pedro está internado em sua casa, com atendimento 24 horas. A sombra do filho perdido há quatro anos, João, ainda o ronda. Conclui Martha, confrontando-me com o real: "Portanto, não há como ele falar do presente, é muito difícil".
Volto a reler a carta-resposta de Manoel. Fala das origens, tenta explicar o "divino absurdo", engrandece a infância. Está sempre em fuga do comum ou, como diz, em busca de "pura inocência para desver o certo". Manoel: poeta do erro. Erro que não é defeito, mas transformação. Um sapo com olhar de garça. A bunda do vento, que só tem o lado de fora. Um homem que abraça a ignorança. Caracóis enrolados em palavras, o formato severo do silêncio, tardes que correm atrás de cachorros. Erros, desvios, improbabilidades, inexistências que a poesia de Manoel, no entanto, leva a existir.
Um mundo despedaçado, em fragmentos, peças soltas que não se encaixam e, quando se encaixam, não formam sentido algum. Resta a alegria das palavras. A alegria de ser poeta. "Eu queria era mudar a feição das coisas", ele me diz. Transformar, distorcer, experimentar, revelar. O tempo todo, Manoel me diz a mesma coisa: só a poesia dá conta do presente.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Diários de Quarentena - Acabou Chorare

Morou, Moraes? Se não morou, não mora mais.


O velho adágio popular brasileiro me vem agora à cabeça. Não sei exatamente por quê. Talvez, pela sonoridade poética. Talvez, pela casualidade da rima. Talvez, pela mistura com o nome do Moreira que acaba de nos deixar. Moraes Moreira, o novo baiano mais autêntico, o que está na gene, na formação primal do grupo "Novos Baianos". Sim, Moraes Moreira não mora mais entre nós. Morou?  Moraes partiu desta para cantar em outras rodas, para brilhar em outro plano solar.

Quando Mariana, minha filha, se entendeu por gente, percebeu que eu sempre cantava uma música pra ela, cujo refrão dizia repetidamente "preta, preta, pretinha...". Além de me ver cantar, ela ouvia na vitrola, no rádio, várias vezes, em vários e diferentes momentos. Não sei o que passava em sua cabeça, mas sei que ela gostava. Porque não demorou a aprender a letra e o refrão. E volta e meia, eu a surpreendia cantarolando aquela canção.


Tempos mais tarde, ela me contou uma história, que tento reproduzir aqui da maneira como compreendi. No dia em que ela viu a imagem do Moraes Moreira pela primeira vez, aquele camarada esguio, de cabelo comprido, associou de imediato com a imagem do pai dela (no caso, eu mesmo) que sustentei durante muitos anos uma vasta cabeleira e o gosto por óculos daquele estilo que ele gostava de usar, redondos.

Pra ela, desde então, aquele sujeito era a minha própria encarnação e tinha feito aquela música pra ela. Sem que ela nunca me perguntasse antes, eu nunca tive preocupação de negar a autoria da música. Então, durante um bom pedaço da vida, fui o pai artista, Moraes Moreira, pra ela.

Ontem, ao saber da notícia da morte dele, meu coração ficou mais triste. E, tenho certeza, o dela também. Um pedaço muito especial dos tantos "eus" que já fui, se foi com ele.

Os novos baianos nunca mais se juntarão outra vez, como tiveram a oportunidade de fazer, quatro anos atrás, e rodar o Brasil com uma turnê saudosa e cheia de clássicos. As mesmas melodias que embalaram a dura década de setenta. E nos deram alegria real, em tempos de liberdade restrita.


Não faz muito tempo, descobri que meu irmão, Iram, não tinha senão uma vaga ideia sobre a história dos Novos Baianos. Decidi promover, então, uma sessão de cinema para lhe mostrar algo primoroso, o filme "Filhos de João - O admirável mundo Novo Baiano", de Henrique Dantas. Este documentário ganhou o prêmio de melhor filme , do juri popular e prêmio especial do Juri, do Festival de Cinema Nacional de Brasília, em 2011. E é um documentário fabuloso.

A sessão nos fez varar a madrugada falando sobre música e poesia, sobre a passagem do tempo, sobre a vida em coletividade, sobre sonhos e realidade. E exigiu o consumo de duas garrafas de vinho.


Hoje, acordo com o celular pipocando uma mensagem no WhatsApp. É meu irmão me cobrando: Cadê o seu texto sobre o Moraes Moreira. Abro a janela da quarentena. E escrevo. Acabou Chorare. Está aqui, meu irmão!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A vida aos 50

*Por (e para) Mariza Poltronieri


Hoje comemoro quarenta e nove anos e trezentos e sessenta e cinco dias. Trezentos e sessenta e quatro dias, não fosse este ano um ano bissexto. Ainda o ano passado, deram-me a notícia de que não completaria cinquenta anos, afinal há uma promessa de fim de mundo para o dia 21 de dezembro de 2012, então, teimosamente, decidi aniversariar de qualquer jeito.

Passei os dias até aqui fazendo todos os rescaldos, lamentos, críticas e aborrecimentos do que se carrega em “meio Século”. A terapeuta que o diga. Um dia era pra falar da profissão, o que pra mim sempre foi plural, tamanha viralatice de atribuições. Ela me diz “são muitos talentos”, mas isso não convence. Outro dia falo sobre romances, alguns voláteis, outros propositalmente esquecidos, um que fica, mas não anda. Ela me diz “coragem dos românticos”, mas isso também não convence. Daí reclamo do que aparece no espelho - e como aparece. Ela me diz “você tem frescor e cor”. Ai, ai...

Luiz Carlos, D. Olívia, com Paulo Pedro Poltronieri na barriga,  Mariza Poltronieri,
Heloisa Vecchi, Daisa Poltronieri. Lá em 1964!
Passou-se o tempo e eu me vejo como sempre. Os meus olhos são os mesmos de quando criança, de quando adolescente, passeando até aqui.

Ricardo, Valéria, Arthur, Mariza, João Max, Myrian, Inorbel, Eduardo Esteves
Ghyslene, Edna Marcia, Alverina, Carlos Eduardo, Edna Maria.
A turma do Marista de Maringá, PR, 1979.
Comecei a fazer contas. Descobri por exemplo que até este dia, contando treze anos bissextos, estou completando seiscentos meses de vida. Isto me deu medo. Quase duas mil seiscentas e nove semanas. Fiquei sem ar. Dezoito mil duzentos e sessenta e dois dias. Entrei em pânico. É muito número, eu sou muito mais velha e não sabia.

Mariza e seus filhos, Vinícius e Fernanda.
Raciocine comigo. Quando contamos o tempo ele nos fala de um jeito gentil ou escandaloso. Decidi há quatro anos mais ou menos, que teria uma alegria por dia. Eu mesma indicaria este presente diário. Um sorvete num dia quente, a cama com lençol banhado e perfumoso, o filho que ri alto, a amiga que marca um encontro, o trabalho bem feito, lembranças resgatadas entre irmãos, o almoço com minha mãe. Deleites simples de um dia comum. Dias comuns são todos os dias.
Fazendo contas de novo, esta verdade instituída recentemente, forneceu-me até agora um mil quatrocentas e sessenta alegrias. Sem contar as anteriores. Cheguei à seguinte conclusão: A engenharia me ensinou a fazer contas, mas a sensibilidade me salvou.

Mariza Poltronieri
             Depois de contar o tempo, descobri que sou uma mulher com milhares de dias e carinha de alguns anos. Sou uma adorável viajante do tempo. Entre estradas longas ou atalhos, eu vi a paisagem. Descobri também que nos últimos anos tive tantas alegrias contadas, que mesmo o mundo acabando, já estou no paraíso.
Depende do jeito que a gente entende a vida. Viver é muito bom.

Quase aos cinquenta, Mariza ganhou um presente das sobrinhas:
Uma tatuagem que põe na pele...

...o que ela já carrega na alma. O amor pelo tempero e pela vida.

Tim-tim!
* Mariza Poltronieri nasceu em Maringá, há (quase) cinquenta anos. E leva a vida com muita poesia e com os mesmos olhos de criança. Como se a vida fosse uma grande descoberta, que tivesse começado ontem. E eu tenho tido a honra de ter a sua companhia, ainda que distante, nestes anos todos. Feliz aniversário, minha querida amiga!