sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Torre e o por-do-sol

Lá de cima, Na Torre Digital de Brasília,
o por-do-sol é assim!
Acabo de chegar da Torre Digital. Hoje, por lá, foi dia de Silvestre. Eu e Mara subimos até o ponto mais alto, até o mirante. Ainda deu tempo de ver, de lá, o último instante do por-do-sol, desta sexta-feira.

Lá embaixo, Silvestre Gorgulho se esbaldava de livros e de amigos. Caneta na mão, ele disparava sua emoção em doses generosas a cada nova página aberta. Tinha ao seu lado a companhia luxuosa de Maria Estela Kubitschek Lopes - ninguém menos que a filha do Fundador.

Foi, então, um momento de alegria, de emoção, de reencontro com a história. Para nós, foi o instante definitivo em que tocamos na história dessa "Cidade Sonho", desse Patrimônio Cultural da Humanidade.

Na contra-capa do livro Silveste faz uma homenagem aos jornalistas do presente, para "que tenham compromissos permanente  na defesa de Brasília. Porque o futuro dela depende do afeto, do olhar e da mobilização dos seus cidadãos".

Silvestre, Mara, Maranhão e Maristela Kubitschek
Entre tantos outros colegas de profissão, encontrei bem lá no alto da torre o meu nome. Valeu, Silvestre. Pode contar com o meu compromisso. Brasília merece. Isso e muito mais!!!

A torre, à noite!!!

Ele não pára

Bob Dylan, o bardo.
A voz já não é a mesma. Está mais rouca e alquebrada. Por vezes, quase incompreensível. Mas a mente continua produzindo especiarias e raridades. Robert Allen Zimmerman, o nosso bom e velho Bob Dylan acaba de liberar mais um single, do novo disco Tesmpest, com dez faixas inéditas, que já pode ser comprado no i-tunes.

É só uma amostra, mas já dá bem o tom de como vem o bardo, resistindo ao tempo. Com vigor, ele se impõe, sem perder o tom, no necessário exercício da constante transmutação do que se convencionou chamar de  rock'n roll. Com vocês, Bob Dylan, "Duquesne Whistle".


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Torre Silvestre Digital

Silvestre e Niemeyer
Ontem, eu entrava no Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal, quando dei de cara com Silvestre Gorgulho. Silvestre é um novo velho amigo. Ele, que já foi Secretário de Cultura em governo passados, viu os governos passarem sem perder de vista a paixão pela cultura. Mal me enxergou e já foi logo disparando:
- Você recebeu o convite?
- Não, Silvestre, nem sei que convite é esse, mas não recebi?

Ele me olhou com olhar de descrédito.

- Você não recebeu o convite do lançamento do meu novo livro? - e puxou o exemplar primeiro, de dentro de uma embalagem, para me mostrar.
- Não Silvestre, não recebi. Mas já me sinto convidado, disse, passando uma vista d'olhos nas belas páginas daquele livro azul.

Silvestre fez silêncio por um instante. Puxou um envelope e uma caneta, rabiscou uma escrita e me entregou. O convite foi tão generoso e poético que eu resolvi dividi-lo com vocês:


Dei-lhe um abraço, agradeci e confirmei a presença. Silvestre, o "pai da Torre Digital", lança um livro contando a saga da construção e os detalhes que só a memória dele é capaz de guardar. Memória quer preenche agora, cuidadosa e poeticamente, as páginas em branco do seu mais novo livro.

Vai ser um luau, na sexta, 31 de agosto. Um por-do-sol regado a bandolins, serestas e dança aérea contemporânea (seja lá o que isso for, já é lindo só de falar), nas asas da nova Torre Digital de Brasília. Não há como perder.

No pé do convite, Silvestre poetiza:

Subi os 688 degraus desta  Torre em meio a esperanças, angústias, alegrias e tristezas. Quando desci, aprendi que a vida só vale pelas oportunidades de fazer amigos a cada degrau. 

Silvestre Gorgulho


A Torre, no fim do dia.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Mariana e a belle de jour


Mariana Franke Viegas
Oi, papai!

Não sei se você já ouviu falar de uma menina chamada Clarice Falcão.
Ela é atriz, cantora, compositora e roteirista. Filha do João Falcão (cineasta) e da Adriana Falcão (escritora). Já participou de uma novela, fez parte da trilha de 'Lisbela e o Prisioneiro' e séries do Multishow. ('Vendemos cadeiras' é genial!)


Mariana e Zé (Gabriel), bem pequenininhos
Acho que você já deve ter ouvido o Zé (Zé é como Mariana chama, intimamente, o seu irmão Gabriel, desde pequenininha.) cantando uma de suas músicas bem bonitinha, só que mais ou menos (mais ou menos é o jeito que Mariana julga que o Gabriel canta), falando que ia se jogar do 7º andar por causa de um cara.

Ela tem uma voz super doce e gostosa. E as letras geralmente são bonitinhas e com uma sacada de humor.
Essa é a que tá mais estourada, porque foi o primeiro clipe que ela faz pra valer.

Ouça! Eu sei que você vai gostar!


Aliás, ouça tudo dela. http://www.youtube.com/user/falcaoclarice
É tudo uma delicia! Sua tarde vai ficar gostosa!

Te amo!
Beijos
Mariana
Clarice Falcão

domingo, 26 de agosto de 2012

A beleza das lombadas coloridas



por Innocêncio Viégas*
Lívro Árvore - Salvador Dali
Quando falo em “lombadas” todos podem imaginar os obstáculos que as autoridades colocam nas ruas, para diminuir a velocidade dos veículos e proteger os transeuntes. Não é desse tipo de lombada que eu quero falar.

Digo das lombadas coloridas dos livros dispostos lado a lado nas estantes da minha Biblioteca. Ela não chega a ser igual às Bibliotecas dos meus amigos que são amigos dos livros, mas guarda uma boa quantidade de livros preciosos que perpetuam em suas páginas, as mais belas histórias da humanidade, numa variedade de assuntos, todos eles cativantes e convidativos a uma boa leitura. Não cito o nome dos meus velhos amigos para não deixar alguém de fora, pois eles são muitos, e se fosse enumerá-los esta crônica seria uma história comparada às Mil e uma noites, quando Sherazade contava suas belas histórias ao sultão Shahryar.

As cinco da matina, quando o sabiá meu amigo “desata a sonata” e o galo Cigano amiúda o canto para acordar o sol, já estou abancado em minha velha cadeira de palhinha, de frente para os livros, admirando-os, revendo todos os títulos, verificando a irregularidade da posição de cada um deles e me embevecendo com a beleza do colorido de suas lombadas.

Livros comprados, livros recebidos de amigos nas datas festivas, livros adquiridos nos mais preciosos “sebos” quando da ciganice das viagens pelo Brasil, sempre acompanhado pela Bel, e pelos filhos em determinadas ocasiões.

Livros achados em velhas gavetas, livros deixados propositadamente em bancos de praças e até um dos meus, recuperado num “sebo” pelo professor Anoraldino, um querido irmão e amigo dos livros. Só assim – disse ao professor – eu poderia estar ao lado dos grandes homens das letras, na prateleira de um “sebo”. Fiquei feliz, recuperei o livro e dei ao mano velho, um dos últimos exemplares do “O homem além do homem”, edição de 1988, já esgotada.

Os livros me atraem. Sempre que saio e passo por uma livraria, não me contento se não entrar, pelo menos para folhear algum deles e ler as belas “orelhas” e às vezes saborear um bom café, lendo o prefácio, atendo um papo com algum desconhecido, também amigo dos livros e que imediatamente passa a ser um novo amigo. O livro tem esse poder. Livros que se vão e ficam apenas na lembrança. Certa vez emprestei um livro – Eram deuses os astronautas – a um amigo de caserna e nunca mais pude ver os dois. Outro livro querido que perdi foi um livro de bolso da Ed. Ouro, “O quarto rei mago”, livro todo riscado e com pequenos comentários dos que o leram. Também desapareceu. Saudades infindas! Gostaria de recuperá-lo. Entre os aficionados, corre um adágio que não conheço o autor: “imbecil é quem empresta o livro. Mais imbecil é quem o devolve”.

Tenho vários livros que peguei emprestado de alguns “imbecis”, no bom sentido, claro, que estão comigo e que eu não lembro o nome dos donos.

O livro mais antigo que está em meu poder, Edição de 1937, ano do meu nascimento, me foi ofertado por um grande amigo, jornalista da melhor “cepa”, que correu o mundo em busca de notícias para os grandes jornais em que trabalhou, o irmão Fernando Pinto, o velho “China”. Trata-se de um livro comprado em um dos “sebos” de Brasília, cujo nome é: O Livro de San Michele. Traz uma dedicatória na primeira página, de um certo Rubens para um amigo José, datada de 21-VI-1938. E, na segunda página, a dedicatória do Fernando, uma verdadeira poesia a este “velho Duca” que enche de saudades e cheiro de vinho, esta crônica que será antológica.

Manoel de Barros
Tem livro curioso como: O livro das Ignoranças, de Manoel de Barros, assim mesmo, com tamanha ignorância no título. O Manoel é fenomenal. O livro “Dez mil”, autobiografia de um livro – esse eu não empresto – se desejar lê-lo, venha aqui, traga um bom vinho e vamos degustá-lo embaixo do abacateiro, e ao sabor do vento norte. O amigo lendo e sorvendo o vinho em deliciosos goles. Agora, para encerrar, comprei um livro que pesa um quilo e novecentos gramas. É um livro que fala de livros cujo título é: 1001 livros para ler antes de morrer. Fala sobre 1001 livros, comentando um por um. Já passei a vista em todas as suas páginas – 960 – e notei que tenho – da relação dele – umas duas centenas dessas preciosidades. Os autores desse livro não conseguiram catalogar todos os livros do mundo, pois a leitura seria impossível até para o Matusalém.

Se desejar saber mais, venha visitar o Rancho da Montanha. Não se preocupe que o vinho a casa oferece. Se quiser colaborar, traga o tira gosto. Pode ser um presunto “pata negra”, de Javali da Espanha.

Se achar impossível, venha assim mesmo que lhe servirei um torresminho, salgadinho – sô – com a melhor das águas que passarinho não bebe, trazida lá da Fazenda da Cruz da Retirada Bonita, onde nasceu o poeta do amor, Fagundes de Oliveira.

Lembrando Marina Colasante eu diria: “Venha provar da água que em minha casa se bebe”.

O importante é vir aqui para correr os olhos e apreciar ... A beleza das lombadas coloridas.

Não demore, o tempo urge!


Innocêncio Viégas * É escritor, teólogo, membro da Academia de Letras de Brasília, membro da Academia Maçônica de Letras do DF, membro do CERAT. E, quando sobra tempo, é meu pai, também.

sábado, 25 de agosto de 2012

Um grande salto e uma corrida


Eu era bem pequeno, ainda, quando comecei a perceber o mundo à minha volta. São Luis era um universo, de tão grande. O bairro da Madre Deus, onde eu vivia, era imenso. Tudo, aos olhos de uma criança, era muito grande. Grande também era a imaginação da gente. Grande e inalcançável.

A minha rua era o centro nervoso do bairro. Tudo acontecia ali. Havia jogo de futebol, a torcida festejava ali. Havia carnaval, os blocos passavam por ali. Tempos de política, os comícios se faziam no largo da Madre Deus. Até quando havia morte, os enterros passavam em frente à minha casa, rumo ao Cemitério da Saudade. 

Na minha casa havia uma varanda e uma grade de ferro. Era uma grade de meia altura, onde os adultos se debruçavam para conversar com quem passava na rua ou para ver qualquer que fosse o movimento. De carnaval a funeral. Pra mim, a grade era enorme. Tanto que eu não a alcançava na altura. ficava ali, com a cabeça entre os ferros que a compunham e via o mundo passar.

De dia, gente, carros, verdureiros. De noite, gente, o som dos grilos na rua, carros, estrelas e a lua no céu. Sim, eu costumava ficar olhando muito pro céu estrelado, exposto à luz da lua. Sei lá o que passava na minha cabeça de menino. Mas eu, já àquela altura, sentia uma ponta de emoção com o belo.

Havia também, na minha rua, uma camarada folclórico. Qualquer que fosse a situação, ele vestia uma camisa regata, verde e amarela, um calção azul, calçava um conga, carregava uma bandeira num mastro e saía correndo, dando várias voltas na avenida central. Não importava o motivo. Festa, vitória do time de futebol, aniversário da cidade, dia cívico, enterro... Lá estava ele. Surgia do nada, todo paramentado e causava sempre algum tipo de emoção, vê-lo daquele jeito.


Lembro do dia em que anunciaram a chegada do homem à lua. Primeiro, houve um descrédito total. Uma confusão dos diabos. No limite dos meus sete anos, não consigo lembrar o nível das conversas, mas à medida em que cresci, compreendi que muita gente não acreditava que o homem de fato tivesse alcançado aquele feito.

Levei muito tempo até compreender as palavras daquele americano que mais parecia um personagem de histórias fantásticas. "Um pequeno passo para um homem. Um Grande salto para a humanidade." Depois disso, fiquei muitos dias olhando a lua. Quem sabe, por um descuido, apertando bem as vistas, eu pudesse enxergá-lo caminhando, ou ajudando São Jorge a enfrentar o dragão (quando eu era criança, cansei de ver os adultos apontando pra lua e mostrando São Jorge em luta com o dragão).

Neil Armstrong
Hoje, ao chegar em casa, soube da morte de Neil Armstrong. Aos 82 anos, ele encerrou o espetáculo por aqui. Deu seu último passo e entrou definitivamente para a história da humanidade. Pensei sozinho na imagem que vi depois, muito depois, já quase adulto, daquele astronauta pulando lentamente no satélite sem gravidade.

Minha mente me levou também à Madre Deus. Se aquele homem, aquele da camisa regata, verde e amarela; aquele das minhas imagens de infância; se ainda estivesse vivo, hoje, certamente, seria dia de empunhar a bandeira e dar umas boas volta na avenida central do bairro.

Haja hoje para tanto ontem

Paulo Leminski
Porque ontem ele completaria 67 anos. Quem me lembrou foi o Lizoel. Por isso, e porque ele a poesia dele fazem uma falta danada, tasco aqui alguns dos seus poemas que são os meus preferidos. Paulo Leminski.

 "Cortinas de seda

o vento entra

sem pedir licença"



"amar é um elo

entre o azul

e o amarelo"



"o mar o azul o sábado



liguei pro céu



mas dava sempre ocupado"





"Isso de querer ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além"







Nasce uma estrela

Daniela Andrade
Daniela Andrade é um desses fenômenos que surgem apoiados pela onda da internet. Alguns se comparam à visão de um cometa; surgem rapidamente, nos enchem os olhos, explodem e somem.  Não creio que esse seja o caso de Daniela.

Pelo que li, ela está "no ar" há pouco mais de quatro anos, quando as suas primeiras gravações ganharam espaço no i-tunes. Tem cara de menina, corpo de menina, 100% de afinação e uma voz de diva. Já tem milhares de seguidores e admiradores em suas páginas virtuais. Seu EP já está à venda do i-tunes e a lista de admiradores cresce em progressão geométrica.

Daniela Andrade
O nome dela remete a uma origem luso-hispânica. Em algum lugar li que ela nasceu na Espanha e vive no Canadá. mas não posso assegurar esses dados. Mas isso, pouco importa. O que importa mesmo é a qualidade do seu canto. Daniela por enquanto mostra suas habilidades como intérprete de outros grandes artistas.

E suas versões covers vão ganhando dimensões de versões definitivas. Me arrisco a dizer que em alguns casos, o cover está mais rico que o original. Meu contato com Daniela, o primeiro - lógico, pela internet - aconteceu ontem. E de lá pra cá, não parei de pensar nessa moça e na sua voz.

Então, resolvi dividir com vocês alguns dos vídeos que me encantaram. O primiero é uma versão à capela de uma música chamada "Bolero", de autoria de Marta Gomez. O segundo, é uma canção também em espanhol, de uma camarada chamado Vicente Fernandes, que ela canta em companhia do pai dela. Ele, de forma muito emocionada, faz um agradecimento aos que ajudam a filha a se transformar nesse sucesso global.

E o último vídeo é também o primeiro que assiti dela. Uma versão da música Creep, do Radiohead. Os três merecem ser assistidos. Tenho a impressão de que depois de ver isso, o seu dia vai ficar bem melhor.



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Baarìa de Tornatore e de sempre


Por Eliane Oliveira di Quarto*
Bagheria, Italia.
Janelas se fecham e persianas descem sem deixar frestas. São só 07.30 da manhã! Cai o silêncio nas ruas. É Bagheria, Sicília, em dia de Scirocco. Do árabe, shurhùq, vento do meio-dia. Sopra do sudeste, diz a rosa dos ventos. Chega do continente africano, afirmam os estudiosos. Impetuoso! Temido no verão, tornou-se um dos símbolos climáticos da Sicília, da Sardegna e da Calábria.


Portas e janelas fechadas, tempo de Scirocco.
Há uma década por estas terras, este é o meu primeiro scirocco, embora todos os anos passe boa parte do verão na maior ilha italiana. Vejo Giusepina fechar toda a casa. É o primeiro Scirocco do Lorenzo, também. Levados pela curiosidade, juntos, abrimos a porta que dá para a sacada. Espantada a nonna Giusy não perde tempo! “Chiudi, chiudi, per favore. Oggi é giorno di scirocco. Non possiamo aprire niente.” A impressão era de entrar, literalmente, dentro de um forno; de estar em ebulição. Por vezes o vento sopra trazendo areia do deserto africano e cobrindo tudo de um pó quase vermelho. Não desta vez.

Levamos o dia adiante fechados em casa para evitar que o calor entre. O tempo se dilata. Preenchemos as horas à mesa, mais do que o de costume! Conversas, longas conversas. Quando a luz elétrica ainda não iluminva todas as casas, pra procurar um pouco de fresco nos dias de scirocco, as mulheres molhavam o chão da sala. Alagavam, mesmo, e toda a família se deitava ali, pra suportar o calor.


Nonna Giusy vai abrindo o cordel. Há pouco mais de um século os costumes eram o que hoje poderíamos definir como inacreditáveis. Diante de um luto em família os homens não faziam a barba por um bom tempo, as mulheres não cortavam os cabelos e roupa preta era obrigatória. A mesa não ocupava mais o centro da sala ou da cozinha. Era colocada em um canto, encostada na parede, nua, sem toalha, pra despir o ar de festa que as refeições têm para os italianos.

Observo que a “zia Piera” ainda carrega o luto pela morte do marido, em janeiro deste ano. Encontrei-a no casamento do filho mais novo, toda vestida de preto, da cabeça aos pés. Diante de um calor infernal, até as meias finas eram pretas. Quando me viu, foi logo justificando o colar de pérolas brancas no pescoço: “Ane, figlia mia! Mi hanno obbligato a metterlo. Io non lo volevo”. Com um sorriso eu só respondi: “stai benissimo cosi, zia!”

Hoje, a mesa onde se vela o corpo de um familiar é a mesa onde todo mundo come junto depois do funeral mas muitos dos costumes na Sicília das influências árabes, tardam a desaparecer. É quase vergonha o homem ajudar a mulher nas tarefas de casa. Eu vi famílias tradicionalistas presentearem louças de prata a uma menina de seis anos no dia da sua crisma."É para o enxoval."

Casamento. Há 50 anos, os noivos, depois de todas as comemorações, ainda fechavam-se em casa por quase uma semana e só recebiam a visita dos pais. A primeira a entrar deveria ser a sogra da mulher porque era preciso checar o lençol com vestígios de perda da virgindade. Se assim não fosse a nora seria devolvida à família. Giuseppina conta com alegria que não teve que sofrer este controle e nem sabe bem o porquê. Mas, por outro lado, teve que demonstrar o luto pela morte da sogra. Por 2 anos vestiu-se, sempre e inteira, de preto. Não se trata do século passado mas de 4 décadas passadas.


O papo vai se tornando mais contemporâneo e falamos de uma Bagheria que eu conheço. A de hoje que custa a caminhar; nas pequenas e nas grandes coisas. É o atraso dentro de uma Sicília já atrasada. É a negação total das regras. Os sinaleiros, por exemplo, foram destruídos, e não uma vez só. “Ai bagheresi non piacciono i semafori, Ane”. Uma vez, amigos scilianos me contaram de um alemão que dirigia em Palermo. “Mamma mia.... pensavamo di morire in un incidente perché il tedesco frenava quando era rosso e passava quando il semaforo era verde. Era una cosa impressionante!” E eles contavam com uma naturalidade e uma seriedade ainda mais impressionantes.


Embora, na história siciliana, o cristianismo tenha procurado sempre resistir, no arco de 2 séculos a região experimentou um processo de cultura árabe e islâmica muito profundo. A expansão mulçumana deixou fortes marcas. Nos hábitos, na culinária e na ciência. Em algumas cidades mais do que em outras. Família ali é sagrada. Aconteça o que acontecer e não importa o porquê, uma família não se desfaz. Já me aconteceu de assistir à discussões terríveis que me levaram a pensar: eles nunca mais vão se falar. Meia hora depois, estavam lá, todos à mesa, rindo, como se nada fosse. Esta é um pouco a Itália do imaginário estrangeiro. A Itália do Sul. A Itália que imigrou depois da guerra em busca de uma vida melhor.


E Bagheria, cidade de Giuseppe Tornatore, é assim. É o fim. É uma terra de limites. É um mar sem praia. É um ármário de vestes velhas. É a linha viva do passado. É lugar de máfia. É o futuro que não chega.

Quem sabe que histórias soprarão com próximo scirocco, no próximo verão!

(ai embaixo, os cinco últimos minutos do filme Baaria, de Giuseppe Tornatore. Se puder, depois, assista o filme inteiro. Vale a pena.) 


*Eliane Oliveira di Quarto
é brasileira, jornalista,
é mãe de Lorenzo e
Sophia e vive há mais
de dez anos em Milão,
na Itália.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Filha de artistas

"Marianadas"
Noite. Hora do lanche. O dia prestes a terminar. Outro, nos esperando depois do sono. Eu, Mara e Mariana. Papo rápido na mesa. Começamos a falar do passado e de confusões que a cabeça das crianças faziam.

Mariana saiu-se com a história.

- Eu, quando era pequena, passei um tempão pensando que eu era filha de artistas.
- Como assim, Mariana?
- Primeiro, eu achava que a foto daquela  mulher da caixa de Palitos Gina era uma foto da minha mãe. 
Risada geral.

- Sim, Mariana! E no meu caso? - Pergunto, já meio desconfiado.
- Você, pai, sempre me chamou de minha preta. Ai, eu ouvia aquela música tocando no rádio, com aquele refrão que dizia "preta, preta, pretinha" e ficava toda orgulhosa, achando que você tinha feito aquela música pra mim. Então, eu pensava comigo mesma:  Mãe, na caixa de palito e música pra mim, no rádio... A conclusão só podia ser uma... Sou filha de artistas. 

Novos Baianos. Os verdadeiros artistas da Preta, preta, pretinha
Sim, filha, a vida é uma arte. E quem como nós enfrentou tanta coisa e ainda consegue dar umas risadas antes do dia acabar, só pode mesmo ser artista. Viu, Preta!