Mais um que sai de cena. Millôr. Que em verdade deveria ser Milton, mas já nasceu dando um drible no escrivão e na vida. O drible, aliás, foi a marca dele enquanto esteve por aqui. Driblar a vida, a tristeza, a frieza, a burrice, a burocracia, a prepotência e (parece, o drible preferido dele) a ditadura.
Millôr driblou tudo isso com a maestria de um garrincha. O Brasil está um pouco mais sem graça.
Eu vou, vocês ficam.
Charge de Chico Caruso para a saída de cena de Chico Anysio
Outro que também pegou o caminho de cima foi o Chico Anysio. Tão bem retratado na charge (ai acima) de um outro Chico, o Caruso, partiu deixando pelo menos 200 personagens que, definitivamente, não vão, nunca, sair de cena.
Os personagens do Chico Anysio me remetem à minha primeira infância. O programa de TV que ele já fazia no início dos anos 70 é parte das minhas lembranças auditivas e visuais mais distantes. Hora do programa do Chico era hora de rir diante da TV.
Sem contar que, pra nós, crianças, aquilo de ele aparecer transfigurado em dezenas, centenas de personagens, era parte da emoção provocada por aquela caixa mágica, que a gente só estava começando a descobrir, chamada Televisão.
Chico Anysio
Já no fim da vida, ele passou a reclamar mais do que sorrir. Mas Chico podia reclamar, ele tinha crédito de sobra. É outro, que partindo, deixa o Brasil menos bem humorado.
Pra não desesperar
Pra que o dia não se torne tristeza e desespero, com tantas perdas assim, fecho o post com um novo clip de Leo Cavalcanti (e participação de Tulipa Ruiz).
Tulipa e Leo
Sem (Des)esperaré a sexta faixa deReligar(2010), seu elogiado álbum de estréia. O clipe, de direção, roteiro e fotografia deNina Cavalcanti,Eugenio VieiraePedro Palhares será exibido dia 31, sábado, às 20h no Cine Matilha Cultural (São Paulo), antes doshow gratuitoque Leo fará às 21h30 no espaçoMatilha Cultural.
Era o início dos anos 80. Eu, nordestino, bicho de zoológico no Sul maravilha, encantava a todos e me encantava com tudo. Magali Gomes era um dos meus encantos. Pra ela eu cantava Gonzaguinha, sempre que ela me pedia.
E ela me apresentou um camarada exótico. Nico Nicolaiewsky. Que mais tarde, ganhou o mundo e ficou conhecido como um dos integrantes do grupo Tangos e Tragédias, que ainda hoje lota o palco de qualquer teatro onde se apresente, principalmente no Sul.
De Nico, guardo a primeira música, que cansei de escutar nas noites de solidão, através das ondas da Ipanema FM, onde o meu amigo de escola, Mauro Borba, já era gente grande. Tempo bom. Feito um picolé no sol.
Quero um barco meio mar
Um meio, não achei, não veio
Pra sair do charco feio
Quero um barco meio mar
Um porto meio lar
Um corpo feito pra se amar e sem receio
Meio assim doente, de repente
Cheio desse olhar ausente
Meio louco
Meio um sufoco
Meio coca-cola
Meio mal dá bola
Meio inconsequente
Como se no meio da cidade
Na velocidade
Na saudade
Na maldade à toa
Nessa claridade, tanta coisa boa se desmancha feito um picolé no sol
E feito um picolé no sol eu quero estar agora
Pra esquecer do mal que tá lá fora
Me esperando pra cobrar a taxa
Tá com a mão toda suja de graxa
Tô ficando meio assim xarope
Dessa lenga lenga, já amarrei o bode
Pode crer que tudo tem a ver com tudo
Tem a ver com o mundo
Tem a ver com ser perfeito
Tá na rua, tá na banca de revista
Tô na pista e não te desconcerta
Sempre alerta
Na notícia esperta
Nesse compromisso
Numa dose certa
Veio como onda, bomba
Longa história nua e sem certeza, sobre a mesa tua
Crua e sem semente, mente me confunde
Funde a minha e a tua neste instante, ante
Vejo um pôr do sol brilhante
Como nunca dantes me arriscara e fui tomar a cara
Um primeiro passo
Dum segundo passo
Dum terceiro passo, eu acho
No caminho dessa descoberta, não tem compromisso
Com trilhar o que já foi trilhado
Deixo tudo ali do lado e parto cego e sempre em frente
Um tanto quanto alucinado
E nado para estar presente
Nada como estar assim ciente
Sem estar cansado
Sem estar à margem
Sem estar doente
Sem faltar coragem
Sem querer fazer charminho
Sem querer carinho
Sem querer carona
Quero um barco meio mar
Um porto meio lar
Um corpo feito pra se amar
Crua e sem semente
Mente me confunde
Funde a minha e a tua neste instante
Um primeiro passo
Dum segundo passo
Dum terceiro passo...
E depois
Só nós dois
Tudo mais
Tanto faz
Quero amor
Quero luz
Manhã de segunda-feira, despretensiosa. Dessas em que a gente espera que nada de mais aconteça. Sem perspectiva, sem tesão. Uma manhã desbotada. No caminho para o trabalho penso na solenidade que exige terno e gravata, apesar do calor de Brasília. Penso no discurso que preparei e que espero que funcione bem.
Penso no lugar para estacionar o carro e o quanto terei que caminhar sob o sol. Por aqui é assim. Escassez de vagas, mais carros que espaço pra estacionar... Nessas horas a gente compreende porque se diz de Brasília uma cidade com cabeça, tronco e rodas.
Já no local do evento, uma plateia pela metade. Meia dúzia de discursos e um anúncio surpreendente: a presença do maestro João Carlos Martins, que faria em seguida uma espécie de palestra show. Opa! A manhã de segunda-feira começava ali uma guinada, uma retomada de significância, que a transformaria, em pouco, num dia especial.
João aparece no palco. Cabelos grisalhos, mãos retorcidas, vozeirão imponente e um sorriso sincero grudado no rosto. João é um brasileiro, filho de português. Conta a sua vida em segundos e com a mesma velocidade, emociona e faz calar. O pai dele era apaixonado por piano, mas não conseguiu tocar por conta de um acidente. Acidentes, aliás, são uma constância na vida de João. Da mesma forma que os renascimentos.
Aos oito, fez o primeiro show. Aos dezoito, a primeira apresentação internacional. Sucesso inquestionável. Orgulho e resgate. Os dedos de João ao teclado carregavam a alma do pai, que nunca conseguiu tocar, e apontavam para um longo e promissor estrelato.
Em poucos minutos de fala, João contou como foi perdendo os movimentos das mãos. Primeiro, um acidente, uma ruptura no músculo. Depois, por sobrecarga e repetição, a atrofia da outra mão. João desistiria da carreira pela primeira vez. João enfrentou um câncer, subiu aos céus e sucumbiu ao inferno várias vezes, como um personagem extraído da Divina Comédia.
Enquanto ele fala, viro os olhos para a plateia. Aquela que estava vazia, começa a se encher. Olhos atentos, vidrados no palco, corações contritos. A narrativa daquele homem, direta e sem floreios, dá a ele um caráter de fênix, renascido das cinzas. Quanto mais a vida exigiu, mais ele se encheu de coragem para dizer que aceitava o desafio.
Atrás dele há um teclado. Num determinado momento, João vai até lá. Silencia. Por um instante, de pé diante do equipamento, o vejo como se fizesse uma reverência, como quem reza. São segundos de contemplação... Como quem faz um pacto, um entendimento cúmplice entre a matéria e o homem. Como quem diz: "Eu te respeito, tu me respeitas e eu vou te tocar". João põe o microfone de lado e começa a dedilhar (com os poucos movimentos que lhe sobram) um clássico de Tom Jobim - Luiza. O som vence o silêncio e dá provas reais ao que se pensava impossível.
Aquele senhor grisalho, cujas mãos travadas me fazem traçar um paralelo com outro grande mestre das artes - O Aleijadinho, não faz idéia do que fez com a minha manhã de segunda-feira. Corro ao camarim. Tenho o privilégio de estar perto, à medida de um abraço. Ao segurar-lhe as mãos, aquelas mesmas mãos cheias de história e vida, minha segunda-feira fez-se, como um passe de mágica, uma manhã definitiva de domingo. A música venceu, outra vez.
Porque as águas de março já levaram o verão. Porque é bom começar assim o dia. Porque, em qualquer língua, em qualquer lugar, Tom Jobim é um clássico. E porque a vida segue... Águas de março, deliciosa, em versão francesa de Stacey Kent, gravada em 2010, no album "Raconte-moi".
Mário Schwarz, Ana Tebar e eu, nos estúdios da
campanha do Referendo das Armas, em 2005.
Já fazia alguns anos que eu não encontrava a Ana Maria Tebar. A Ana é dessas mulheres que entram na vida da gente pra nunca mais sair. Num passado recente, ela viveu os seus momentos de poder, sendo uma das mulheres mais decisivas na estrutura do governo paulista. Foi durante todo o governo a assessora mais próxima de Orestes Quercia, enquanto ele governou São Paulo. Mas isso não afetou sua vida. Ana continua como sempre foi, simples, competente, sensível e moderna. A mais pura tradução de uma grande mulher.
Neste fim de semana, junto com o Zé Cerozi (outro grande amigo de longas jornadas), estive em sua casa, em São Paulo. A casa da Ana se traduz em história. Cada peça, cada móvel, cada louça tem lá uma razão de ser. Ana não abre mão da memória, do cigarro e de um bom whisky (nossa conversa foi temperada com um Royal Salute, guardado há anos para aquele reencontro).
Lá pelas tantas, Ana lembrou de um episódio, fruto da relação muito próxima que teve com Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro. E contou uma história deliciosa que, ao registrar aqui, me esforço para tornar perene. É a primeira, da série que vou batizar de "Histórias de Ana"
Um dia, aparece um senhor já velhinho com um monte de papéis nas mãos, diante da minha mesa. Era o Oscar. Queria falar comigo e não com o governador (Orestes Quercia, na época). Pensei calada, o que poderia passar pela cabeça daquele gênio da arquitetura que o conduzisse a mim e não à maior autoridade do Estado?
Oscar trazia uma preocupação. A construção do Memorial da América Latina já estava bem avançada e ele identificara um erro em uma laje, uma daquelas que costumam ter em suas obras, avançada sobre o nada, como que sustentada pelo ar. O diagnóstico do arquiteto era definitivo, a laje teria que ser demolida para corrigir o erro. Senti um frio na espinha.
Diante de tamanha responsabilidade, insisti para que ele mesmo falasse com o governador. Ele não quis. Despediu-se gentilmente, dizendo acreditar que falando comigo o problema seria resolvido. Mais tarde, num momento adequado, conversei com o governador, expus o encontro que havia tido e o teor preocupante da conversa.
Quercia pensou, chamou técnicos e engenheiros. Eles comprovaram o erro. A laje foi derrubada. E Oscar, tranquilizado.
Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer
Passado um tempo, recebo um telefonema dele, Oscar, pedindo uma outra reunião. Voltei a suar frio. No dia marcado ele apareceu em companhia de Darcy Ribeiro, outro que considero um gênio brasileiro. Darcy, espalhafatoso, falava com os braços, amplo em seus gestos. Dizia a todos que quisessem ouvir para aproveitar a experiência do velhinho (Oscar) enquanto ele ainda estava ali. Por ironia do destino, Darcy já se foi. Oscar permanece aí, pensando e criando, aos 104 anos de idade.
Desta vez, os dois desenrolaram papéis e argumentos sobre a minha mesa. Oscar, com a fala mansa, dizia que, depois de muito refletir, chegara à conclusão de que faltava uma marca ao Memorial da América Latina. Algo de impacto, que ficasse pregado nos olhos e na memória de todos que por ali passassem. E lentamente foi desenrolando um papel onde se via o desenho de uma mão espalmada e um corte ainda sangrando. Era isso o que ele chamava de marca definitiva. Uma elegia, uma referência explícita às Veias Abertas da América Latina, descritas com maestria no livro do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Outra vez, ele recusou-se a falar com o governador. Dizia que falando comigo era o suficiente. E eu, assustada com tamanha responsabilidade, não tinha outra alternativa senão defender as suas idéias junto ao governador.
A história comprova que Oscar estava certo. A mão espalmada, com as Américas sangrando, está lá. E é o símbolo maior daquele memorial.
Sérgio, Celito, Humberto, Jerry, Geraldo, em cima.
Embaixo, Alzira e Tetê. Os Espíndola, em família.
Da minha recente passagem por Campo Grande, deduzo que o tempo é matéria incapaz de interferir nas sinceras amizades e na sensação de pertencimento que tenho por aquele lugar. Meu reencontro com a cidade que tanto me deu (dois filhos, muito respeito profissional e uma imensidão de histórias inesquecíveis) foi completo.
Percorri as rotas internas do Parque das Nações Indígenas, como fiz centenas de vezes, durante os 23 anos em que vivi por lá. Uma sensação indescritível de posse daquela paisagem, daquele cheiro de mato, daquele verdor, do lago e do horizonte.
Lembranças dos tempos de um jovem jornalista traduzidas na percepção de um homem maduro. Meus limites são outros, minhas ambições estão mais centradas. Mas o meu prazer de viver acentuou-se.
Conversando com Gisele Brum, com as Maristelas Yule e Brunetto, com Ecilda Stefanello e Margarida Marques, passei o tempo em revista. Nos lembramos de outros tempos, de outras gentes, de velhas canções. Falamos da vida como quem fala de música. Com mais admiração do que com lamentos. Comemoramos a permanência do vigor em nossos corações.
No caminho de volta para o hotel, no carro da Ecilda, o cd tocava uma música de um jovem cantor chamado Dani Black. Descubro que é mais um da estirpe dos Espíndola. Filho de Tetê. A música tem o DNA da família. A poesia do Geraldo, a afinação da Tetê, a leveza de Alzira, o vozeirão do Sérgio, a irreverência de Jerry, os traços do Humberto e a sensibilidade de Celito.
Dos tempos da TV Morena, ao lado de Ecilda Stefanelo,
à esquerda; e Carmen Cestari, à direita.
Impossível não lembrar dos tempos de repórter, na TV Morena. Um dia, há muito tempo, nos idos anos 80, a Família Espíndola se reuniu para um show conjunto, lá em Campo Grande. Todos os cantores da família, mais o Humberto (artista plástico de primeira grandeza). Eu era iniciante na profissão, mas desde sempre fui um apaixonado por música. Ciro de Oliveira, editor do MSTV, também era apaixonado por música. E apoiado por ele, fiz uma das mais longas reportagens da minha vida, mostrando os detalhes do show.
Foram quase quinze minutos, de um total de vinte reservados ao telejornal. A reportagem ficou linda aos meus olhos e aos olhos dos que, como eu, também amam a música. Mas devo admitir que aquilo foi um absurdo, do ponto de vista do jornalismo de TV. Um lindo absurdo. "Seu"Jorge Zahran, um dos diretores da TV Morena à época também achou que foi demais. Demorou um pouco, mas a Ecilda, à época, diretora de jornalismo, e o Ciro o convenceram de que a minha demissão seria um prejuízo para a TV, para o jornalismo e para a música, afinal. E se comprometeram a conter os meus ímpetos e cortar os meus textos.
Fui salvo da degola. Lançando os olhos no passado, sou capaz de me orgulhar por aquela doce irresponsabilidade. Os Espíndola, em família, ficaram agradecidos e talvez nunca tenham notícia do tamanho do perrengue que enfrentei por aquela ousadia. Não tenho cópia desse material, mas, do que me lembro do conteúdo, não mudaria uma virgula. Mudaria a veiculação dele. Aquilo valia um especial, não cabia em um telejornal.
Na porta do hotel, Ecilda percebe o meu encantamento com a música e me dá o disco de presente. Caminho em direção ao quarto, feliz e contente. Tenho que escrever pra Tetê Espíndola e falar sobre o filho dela, sobre a música dele, sobre os velhos tempos. Falar da vida, como música, sempre.
Lana Del Rey acaba de divulgar o vídeo oficial da canção Blue Jeans. É como Lana. Uma lindeza. Bom pra fechar o dia. Bom pra dormir ouvindo a chuva. Bom. Muito bom.
Os passos são lentos pelas ruas de Montevidéu. Há um ritmo
diferente nessa cidade. É como se as pessoas inventassem um novo tempo. Livre da correria e da disputa insana, tão característica dos tempos em que
vivemos.
Os casarões antigos são marcas dessa distinção, desse tempo.
Sua arquitetura casa-se com a velocidade das pessoas. São partes de um conjunto
que se integra – gentes e prédios -em
respeito a esse clima de tranquilidade.
Vivendo o tempo lento das ruas de Montevidéu, meus olhos
correm as fachadas dos prédios até dar em uma placa que anuncia: Loja de
Bandoneones. Bandoneon vem a ser um tipo de gaita imortalizado por Astor
Piazzola. Suas características são marcantes não só pelo formato peculiar,
assemelhando-se a uma sanfona, mas em tamanho reduzido.
Normalmente, o bandoneon é tocado de forma visceral, sobre o
joelho. O tocador extrai dele uma sonoridade envolvente – umas vezes, triste,
emocional; noutras, exuberante. Ao movimento dos braços alargando ou encolhendo
o fole, o bandoneon pulsa como um coração em êxtase.
Não resisti e entrei. Lá dentro era como se o tempo houvesse
parado 50 anos atrás. Capas de discos de vinil penduradas nas paredes. Gaitas,
peças em madeiras, bandoneons empoeirados, quebrados, desmontados, à espera de
um conserto. A imagem dava ideia de uma triste sina: jamais seriam tocados novamente.
Ou pior, seus donos os condenaram ao abandono eterno.
Lá do fundo da loja um senhor de cabelos ralos e
brancos,de olhar triste, me observava.
Cumprimentei-o. Falei do encantamento dos meus olhos com aquele lugar. Ele
sorriu um sorriso de Monalisa, meio indecifrável.
Perguntei seu nome. Bianco, ele respondeu. Tornei a declarar
a minha emoção em estar ali. Ele sorriu novamente e disse que tudo ali estava
por findar. Que ninguém mais compra bandoneones. Que ninguém mais quer
consertá-los.
Mas e a sua arte, de devolver a vida a estes instrumentos,
quem serão os seus herdeiros? - perguntei.
Ninguém, ele respondeu, definitivo. Nem seus filhos? - pergunto. Não tenho
filhos. Quando eu me for, levarei comigo o que resta dessa história.
Um silêncio imperou
entre nós, enquanto eu seguia olhando tudo aquilo. Despedi-me. Sem insistir em dizer algo mais. Quem sou eu para alterar esse destino? Saí levando comigo a
imagem triste de um lutier em declínio. Bianco ficou pra trás, com seus
bandoneones, com sua herança, em companhia de um cachorro e um papagaio
numa gaiola, a quem ele batizou – não por acaso – de Astor. No fundo, estava ali um Piazzola engaiolado pela própria história.