terça-feira, 30 de julho de 2013

Uma palmeira, um sonho!

Quem nasce numa ilha tem os olhos soltos no mar.
Quem nasce numa ilha tem os olhos soltos no mar. Meu pai, Inocêncio Viegas, nascido no pedaço mais pulsante da ilha de São Luis,  o bairro da Madre Deus, filho de barqueiro, não foge ao banzeiro (o barco, que eu não tive como conhecer, de "seu" Opílio Viegas, meu avô, chamava-se Bela Rosa). Viegão pensa como menino. Às vezes, age como menino. Varia de comportamento - entre o menino e o homem  - com a velocidade do balanço do mar que, eu sei, ele traz na alma.

Tem sonhos puros que lhes provocam um riso solto, matreiro, sapeca, só de pensar em realizá-los. Sonhos simples e complexos, a depender da artimanha necessária para envolver minha mãe, Isabel. Juntos, são duas crianças, acostumados a caminhar uma vida inteira, a subir e descer ladeiras. Já descobriram quase tudo, um do outro. A parte que falta descobrir é o que lhes dá tempero para seguir caminhando.

Viegão não conta tudo. Guarda uns segredos de menino, umas traquinagens que tira da cartola (como um mágico de circo mambembe). Mais pelo prazer de poder contar depois como fez para realizar suas peraltices, do que pela sofisticação delas. Quase sempre, Isabel, minha mãe, é quem sofre as consequências, que depois de algum beiço, terminam em risos, invariavelmente.

A mais recente foi assim: Tarde de sol, calor intenso. Viegão avisou Bel que iria regar as plantas. Não demorou a perceber que a mangueira estava toda furada. Decidiu comprar uma nova. No caminho para a loja de materiais de jardinagem, cruzou com um caminhão que vendia palmeiras. Logo elas.

As palmeiras alimentavam um antigo sonho dele. Ter uma palmeira no jardim. Diante de tanta resistência alheia, a palmeira no jardim virou questão de foro íntimo, uma questão de honra. No silêncio ele arquitetou. mas nunca conseguira até então.

Parou o carro. Desceu. Assuntou o preço. Quinhentos e cinquenta, disse o dono das plantas. Ali, diante do vendedor de palmeiras, ele pensou como quem quisesse enganar a si próprio: Vou fazer uma proposta para inviabilizar o negócio, assim não tem briga lá em casa.  - Dou R$ 400,00, plantada no meu jardim. Mal teve tempo de terminar a frase e o cabra respondeu: Qual é o endereço?

Isabel: Como ficar zangada?
Viegão vibrou por dentro, nem acreditava. E avisou o sujeito: - Mas tem que ser agora, antes que a minha mulher termine de tomar banho. O vendedor mais que de pressa pegou os apetrechos e disse: É pra já!, passando a mão eu uma palmeira. Viegão mandou parar. - Quero uma que já tenha côco, não tenho mais tempo pra esperar o bicho crescer. E dizendo isso, apontou para outra palmeira, que já vinha com uns coquinhos em broto.

Negócio fechado. Plano em ação. Cava, cava, terra vermelha. Jardim esburacado. Tensão. Reza, pra que o banho de Isabel fosse mais longo. Mas, como não existe plano perfeito, Dani e João, netos que estavam na casa dos avós, foram correndo avisar da novidade no jardim.

Uma olhada atravessada, um beiço, estava feita a encrenca. Quando custou isso? Disparou Dona Isabel, sem nem chegar perto da tal palmeira. Uma pechincha, R$ 400,00. E olhe que começou com R$ 550,00! argumentou Viegão, meio que se esquivando da bronca.

Tarde demais pra Isabel ficar zangada. A palmeira estava lá plantadinha da silva. Traquinagem concluída, Viegão tratou de alegrar Isabel: Vamos marcar o dia da inauguração? Ela não resiste, lança um olhar que começa com repreensão e termina com cumplicidade. São duas crianças grandes, um jardim e, agora, uma palmeira.

Viegão e sua palmeira no jardim: Sonho realizado.
E já vem com côco.


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