sábado, 28 de abril de 2012

Tonho, Cacau, Milton e o Clube

Integrantes do Clube da Esquina (Toninho Horta dirigindo o Jeep)
Em 1972, um grupo de novos valores da música popular brasileira, liderados por Milton Nascimento e Lô Borges, lançava um álbum antológico, com dois Long Plays, chamado Clube da Esquina. O disco trazia canções como "Nada será como antes", "Trem azul", "Paisagem na Janela" e a canção título, "Clube da Esquina número 2".

Tonho e Cacau, foto original da contra-capa do disco
Clube da Esquina - 1972

Na capa do disco a figura de dois meninos, flagrados em uma beira de estrada de terra, próximo ao município serrano de Nova Friburgo,  no Rio de Janeiro, região onde moravam os pais adotivos de Milton.

Capa do disco Clube da Esquina - 1972

Quarenta anos se passaram desde aquele 72, histórico. O Clube da Esquina virou uma lenda. Milton, uma lenda viva, que agora começa a fazer uma turnê em comemoração aos cinquenta anos de carreira. O primeiro show, como não poderia deixar de acontecer, foi ontem, em Belo Horizonte. E vai correr o mundo.  (Já tem show marcado pra Brasília. E esse é daqueles que não se deve perder. É o que eu penso.)

Tonho e Cacau. Na capa do disco e hoje, 40 anos depois. 

Um trabalho de investigação feito pelo Jornal "O Estado de Minas" descobriu a dupla de meninos, hoje, homens feitos, na mesma Nova Friburgo. A reportagem pode ser lida aqui. Milton e os dois, cada um do seu jeito, se dizem emocionados com a descoberta, depois de tanto tempo de anonimato. Eles devem se encontrar pela primeira vez quando o show chegar ao Rio de Janeiro.

Milton Nascimento e Lô Borges

O ano promete. Razões para celebrar 2012 não faltam: 50 anos de "Travessia" a música que apresentou Milton ao mundo. 40 anos de "Clube da Esquina". Depois daquele Clube, nada mais foi como antes.



Vida sem Sá, poesia fria

João Sá Maia - Foto: Fumaça
A tarde de sexta fica mais triste (aliás, tristeza há de sobra, nestes tempos últimos). Abro a caixa de e-mails preocupado com transmitir e receber coisas do trabalho e recebo uma porrada nos peitos: "Faleceu hoje, em Campo Grande, o publicitário João Sá Maia"
Um comunicado frio, mas necessário. Ainda bem que o Eduardo Crivelente lembrou de me avisar. Súbito, perco a pressa. Perco a noção do tempo. Vasculho na memória a imagem do Sá. Encontro letras e escritos. Encontro cenas de horas passadas entre montanhas e vales, nos sertões de Guimarães, à borda do Jequetinhonha. 
Sim. Nossos últimos goles de água e de idéias aconteceram em Montes Claros, MG, em 2008. Uma aventura política, que só não foi mais furada por que promoveu encontros e reencontros que levarei para o resto da vida. Como as horas de dor e criatividade que tive com Sá Maia. 
Naquele ano, o corpo dele já não aturava desaforos. Estava cansado e limitado. Mas a cabeça... Ah, a cabeça do Sá era e continuaria sendo, sempre, um celeiro de boas frases, de genialidades, de inconsequências literárias deliciosas.
É mais um dos meus bons amigos que passa pro lado de lá. Está nem sei onde, uma hora dessas. Mas onde quer que esteja, está "geniando" letras, frases e canções. Busquei freneticamente algo de nossas conversas passadas. E encontrei um e-mail/carta que ele me escreveu. 
Aquelas linhas trazem a mais perfeita tradução da alma do Sá. Ele estava triste, mas até na tristeza era delicioso, delicado. Uma delicadeza bruta e fina, ao mesmo tempo. Falava da perda de uma amigo brasiliense. Falava de uma peleia jurídica em que acabara de entrar, para tentar receber os trocos da campanha feita e nem toda paga. E falava com um carinho especial da vida, das pessoas. Descrevia sua Campo Grande com um olhar triste e belo. Era o começo do fim, cheio de poesia. Da poesia que nunca nos faltou. E que agora, mudou de plano.  
Hoje abro espaço para uma tristeza poética. E reparto com vocês as letras escritas por Sá. Que eu guardo carinhosamente como uma jóia rara. Uma jóia pra sempre. Valeu, Sá. 



Samaia samaia@terra.com.br
03/06/09



para mim

E aê, Maranhoc?
Nada a ver, mas recebi de Brasília uma notícia entristecedora. Douglinhas irmão amigo foi-se fora do combinado como diz o Boldrin. Cardiologista porreta planaltocentralino dos grotões nordestinos, sorriso permanente, guerreiro das causas inacabadas. Um merecedor do prêmio lênin. Vários companheiros estão por aí, de todo lugar, se despedindo e levando seus pertences e patuás para serem abençoados por oxossi e ianasan. Quase fui, não fosse o se...mas o Douglinhas nem reparou. Eu sei q ele entende essas coisas de ausências...agora mais que nunca.

Como vão todos: Mara, as crianças (!!??), você?

Não sei se vc sabe (claro q sabe) ou está acompanhando os desdobramentos das desventuras catrumanas. A galera foi pro pau. Faca no dente. Me chamou, fui junto. Coisa de difícil solução pra todo lado. Justiça brasileira veloz como jabuti tetraplégico em maratona de paraolimpíadas paris-dakar. Não há previsões. Nem favoritos, placar em aberto. Quem ver, viverá e aos vencedores, os pequis. Pequi-pariu todos eles...

Vivo em retumbante vagabundagem, às margens plácidas da marginalidade improdutiva, tanto que tem deixado o Domenico Di Masi puto de tanto ócio. Mas quem anda mais putanhesca é a Mariana minha filha teen age. O trabalho por aqui, q já andava mais difícil que perna de cobra, e muito aparteado pelos amigos do rei, escasseou de vez. E pau na bunda dos prejudicados, ecoam os áulicos: farinha pouca meu pirão primeiro. No que estão certos e seguros do ponto de vista deles. A fila não anda e aumenta todo dia. 


saída é a porta da mendicância profissional. Difícil escapar, não há saída de emergência. Ou dá ou desce. Ou como eu sloguei o programa do Dácio Correa: Ou Dácio ou Décio, um homem com V maiúsculo. Um dia seremos todos putas e daremos vivas à putaria toda, e mandaremos a nossa arrogância e nossa hipocrisia à puta que nos (me) pariu. Viveremos felizes, então, todos de cócoras, na terra dos sapos cururus. e saravá.

Campo Grande frio feito beira de lagoa escandinava dawuelas de folhinha de inverno na padaria. Até fumacinha de frio pela boca tem. Frio é um luxo muito chique de burguês que minha nordestinidade, falta de pêlos e abstinência não suportam. Sem conhaque, sem cobertor de orelha, sem edredons da terra do teletube, sem aquecimento central nem lateral o que me sobra é tremer de frio e bem dizer o calor de escrever e me lembrar dos amigos

bjs
joão  maia

Minha lista, meus desejos

Um filminho sobre as coisas que desejamos, que queremos fazer todos os dias da nossa vida. Bom pra começar o sábado. Bom pra quem ainda não fez a sua lista. Bom pra obrigar a gente a pensar em dosar melhor a vida.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O barco atelier

Le bateau Atelier - Claude Monet

Quando era pequeno, mal sabendo falar, Gabriel dizia ter um sonho. "Conhecer os jardins de Monet". Sim, o Monet a que ele se referia era mesmo o Claude, pintor impressionista, que ainda hoje é capaz de causar deslumbramento com a sua técnica.

Gabriel conhecera os seus quadros nas aulas de arte, na escola onde ele passava a maior parte do dia. Era a única escola de período integral da cidade. E, numa parte da jornada, eles tinham aulas de música, de filosofia e de artes.

Hoje, vasculhando a blogosfera, meus olhos deram de cara com um quadro de Claude Monet. Le Bateau Atelier. Invadiu-me um desejo como o de Gabriel  em infância. Hoje, nesse exato instante, tudo o que eu mais queria era percorrer os jardins de Monet. Realizar o sonho de meu filho e me resguardar do tempo. Quem sabe, desfrutar de uns poucos instantes a bordo do barco imaginário. Quem sabe...

domingo, 22 de abril de 2012

Declaração ao Imposto de Renda

Papo rápido, com Mariana e Clarice.

As duas descem a escada e me encontram. Mariana pergunta:

- Pai, voce já fez a declaração ao Imposto de Renda?
-Não filha, vou organizar a papelada pra fazer essa semana. Por que?
-Tenho uma amiga que já fez.
- É? E como foi?
 - Assim, ó:
Imposto de Renda eu te odeio!

Feliz 52, Brasília!


Foi ontem. Mas a homenagem da Google a Brasília é tão delicada, criativa e inteligente que vale a pena ser postada hoje. Uma brincadeira arquitetada. Os símbolos arquitetônicos da cidade, como o Museu JK, o Congresso Nacional, a Catedral e o Palácio do Planalto, construídos pela mente mágica da dupla  Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, adquirem o significado das letras que formam o nome da empresa e induzem a nossa mente a enxergar a palavra Google.

Uma linda declaração de amor à cidade. Coisa de gente inteligente.

Cake - pra começar o domingo

O domingo pede algo mais leve. Pede sol. Pede um hiato entre a correria e o trampo. Domingo é quase sinônimo de alívio. A cortina fechada no quarto me permite uns poucos minutos a mais de sono. E isso é bom.

O sol lá fora, o feriado na ideia. O cheiro do pão que acabou de ficar pronto na cozinha. Hora de café. Hora de Cake.  E não é que, juntando tudo isso, eu encontro na rede um clip novo dos caras que fala em inclusão e junta um monte de gente com cara de domingo?

Então, The Winter, da banda americana Cake. Pra celebrar o domingo.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Se fosse pra falar...

Fernando Lemos - Foto: arquivo da família
Se fosse pra te dizer algo, diria que valeu a pena.
Mesmo com toda lama, mesmo com toda a cena.

Nos teus olhos enxerguei caminho que eu não trilhei.
Porque eu ainda não existia ou se existia, não sabia, nem desconfiava.

Viajastes por noites e ruas pelas quais não tenho mais como passar. Ah, mas tuas passagens me ficaram vivas. Nas tuas falas, nos teus relatos, nas tuas loucuras de abril, nas tuas noites de inverno.

Não havia de adivinhar as nossas ruas cruzadas. Mas elas se cruzaram.
Teu jeito estranho de lembrar, de deduzir e falar.
Meu jeito inteiro de sentir, de permitir e perturbar.

Sabe Fernando,
dessa vida ligeira que a gente leva
da qual quase nada nos resta
resta a certeza de que é única

E assim sendo
transfigura-se im-perfeita

Não importa eira, nem beira
Não importa o ter

Da vida, que passa ligeira,
importa o existir

Das tuas mãos, que vestiram as letras de Glauber,
De Ronaldo, de Marco Aurélio e tantos outros
resta claro o conteúdo

Houve beleza em cada ponto e vírgula
E haverá, sempre.

(Para o meu amigo de ontem e de sempre, Fernando Lemos)

A guitarra e a voz rouca de Dylan

Mr. Robert Allem Zimmerman

Havia uma distância ali. Uma distância de palco, de vida, de memória. O ginásio Nilson Nelson, em Brasília, aos poucos via os seus vazios preenchidos. Uma plateia composta por novos e velhos. Gente que ainda não saiu das fraldas direito e gente que já percorreu longas estradas. Em comum, a admiração pela música e pela poesia de Mr. Robert Allem Zimmerman. Sim, é assim que consta nos registros o verdadeiro nome de Bob Dylan.

9h33min da noite de terça, 18 de abril. As luzes se apagam e os gritos começam. Gaita, guitarra, baixo, bateria, teclado e a voz rouca, inconfundível. Era ele. Uma figura quase minimalista, no centro de um cenário despojado e preciso. Aquilo era síntese do mais puro Rock'n Roll.


A lenda do imaginário coletivo, ao alcance dos olhos. O tempo passou para Bob também. Ele é hoje um senhor de movimentos limitados, quase mecânicos. Mas não importa o tempo e as marcas deixadas por ele. Vai continuar sendo Bob Dylan. E as pedras vão continuar rolando toda vez que ele pisar no palco.

Olhei em volta e havia uma plateia em transe. Por força do contrato - que proibiu fotógrafos e imagens em telões - o som de Dylan era bem maior que a imagem dele. Decidi sair em busca de um outro ângulo, onde pudesse ficar mais próximo de sua voz e de sua guitarra.

Caminhei ao redor do Ginásio, alcancei outra entrada. Acertei a medida da distância. Era ali que eu iria ficar até o fim do show. A fórmula "velhas canções com novos arranjos" tornou algumas delas quase irreconhecíveis. Don't think twice e It's all right foram bons exemplos. Mas pouca gente ligou para isso.

A noite era de reverência. E o ginásio quase foi à loucura aos primeiros acorde de Like a Rolling Stone. Nessa hora, ao meu lado, um sujeito pulava e gritava como se pudesse falar com o mundo: É Bob Dylan!!! Anunciava aos berros. Meus filhos precisam saber disso, eu vi Bob Dylan de perto!!!


Olhei pra ele e assenti, num silêncio cúmplice. Meus filhos precisam ficar sabendo disso.

Eu vi Bob Dylan de perto


terça-feira, 17 de abril de 2012

O bardo


Saindo pra ver Bob Dylan. Segundo show (o primeiro, foi no Rio) da atual turnê brasileira, aqui em Brasília. Sonho de moleque. Sonho de poeta. Sonho de músico que nunca fez mais do que sonhar com a música. E cantar umas besteirinhas, com a ajuda do meu maestro soberano. Mas isso é conversa pra outra hora.  Depois eu conto. Mr. Tamborine Man me espera. Inté.