O tango carrega consigo algo de tragédia, de drama. Para mim, tango é sinônimo de vigor e paixão. E sempre que penso em tango, me vem à memória um sobrenome: "Piazzolla". Sei que ele um dia foi novo, mas a imagem que retenho na memória é a de um senhor, meio calvo, cabeça pendida em direção ao bandoneón. E, de forma quase automática, a sonoridade de "Adios Nonino" me invade a mente.
Lembro também de uma história comum, dessas que viram lenda na família: Meu pai, seu Innocêncio, se vangloriando de fazer "doze passos numa lajota". Nunca ninguém descobriu qual o tamanho da tal lajota. Muito menos, se algum dia ele teria mesmo conseguido executar os tais doze passos. Mas, enfim, a lajota do "seu" Viegas virou lenda nas reuniões de família. Para desespero de minha mãe, que garante - se houve mesmo, não foi em sua companhia.
Me pego pensando estas coisas por conta da proximidade da chegada de um grupo de jovens "hermanos" argentinos a Brasília. Eles formaram a Orquestra Típica Fernandez Fierro, um grupo de guris que anda disposto da oxigenar o velho tango, atribuindo-lhe uma testura moderna, "sin perder la vigorosidade jamás".
Numa primeira "mirada", parecem uns beatles, com seus cabelos rebeldes e seus óculos escuros. Não são. Lembram um grupo de rock com suas calças jeans e all stars, mas não são. Por vezes parecem uma orquestra sinfônica de verdade, com seus violinos e cielos. Mas estão longe de ser.
O fato é que basta uma olhada para se apaixonar pelo resultado do que fazem no palco. Aos fanáticos do futebol, que poderiam rejeitá-los pela sua origem, digo: não importa que sejam argentinos. Se não o fossem, não seriam o que são. Não haveria paixão, nem poesia. Não conseguiriam arejar o tango com a maestria que alcançam. Que "São" Jorge Luis Borges os proteja.
Entre os dias 19 e 21 de novembro, quando eles estarão aqui em Brasília, vou arriscar propor ao "seu" Viegas que assista esse show em minha companhia. Quem sabe lá, ele se anime. E eu terei a chance de descubrir, finalmente, se houve um dia o mistério dos doze passos numa lajota. Enquanto isso, lhes apresento: Com vocês, a Orquestra Típica Fernández Fierro.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
terça-feira, 9 de novembro de 2010
SapaJohnson 1 X 0 Masquerade
Lelia Broussard é uma cantora de música folk/indie/pop natural do estado do Louisiana, mas já correu os EUA de Philadelphia a New York, fixando residencia em Los Angeles onde gravou o disco "Masquerade" onde se encontra esse clip que está logo aí abaixo.
Olhando assim, grosso modo, lembrei das meninas do Sapabonde, grupo funk/pop/transe/brega brasiliense que começa a ser reconhecido fora dos limites do DF. As meninas daqui prometem ir longe com uma pegada que, pela irreverência e ousadia, lembra os mamonas assassinas, nos seus primórdios.
Detalhe: Não há nada que as compare com as minas de Louisiana. A Bilu toca guitarrra muito melhor que a Lelia toca cavaquinho. A Tava tem mais aproach do que a guria de vestidinho branco no segundo plano do clip americano. E a Mariana, a Carol e a Juba são mais presença do que qualquer uma das três que estão lá no fundo. Ponto pro Sapabonde e pro João Brasil que fizeram essa mistura definitiva, ligando as meninas de Brasília com o Jack Johnson que rola aí em seguida.
Vai não se enconde Jack (João Brasil) by joaobrasil
Olhando assim, grosso modo, lembrei das meninas do Sapabonde, grupo funk/pop/transe/brega brasiliense que começa a ser reconhecido fora dos limites do DF. As meninas daqui prometem ir longe com uma pegada que, pela irreverência e ousadia, lembra os mamonas assassinas, nos seus primórdios.
Detalhe: Não há nada que as compare com as minas de Louisiana. A Bilu toca guitarrra muito melhor que a Lelia toca cavaquinho. A Tava tem mais aproach do que a guria de vestidinho branco no segundo plano do clip americano. E a Mariana, a Carol e a Juba são mais presença do que qualquer uma das três que estão lá no fundo. Ponto pro Sapabonde e pro João Brasil que fizeram essa mistura definitiva, ligando as meninas de Brasília com o Jack Johnson que rola aí em seguida.
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| As minas do Sapabonde com mais pegada do que as da Louisiana Foto: Jornal O Globo |
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
O fino traço do impossível
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| "Cascata", 1961. Créditos: © The M.C. Escher Company B.V. Baarn, The Netherlands |
A arte de Maurits Escher desembarcou em Brasília no dia 12 de outubro. E fica no CCBB até o dia 26 de novembro. Na forma de um conjunto de 95 peças originais, incluindo as mais importantes da sua vida. A exposição “O mundo mágico de Escher” foi montada para comemorar os dez anos do CCBB, em Brasília. Um presente e tanto para o público, que já quebrou o recorde de visitação.
Quem for até lá vai se divertir com a sala Multiuso, onde estão experiências interativas que exemplificam os princípios aplicados nas obras e nas intervenções óticas. O público vai vivenciar uma série de experiências que desvendam os efeitos óticos e de espelhamento que Escher utilizava em seus trabalhos. Ao olhar pela janela de uma casa, vai ver tudo em ordem. Em seguida, verá tudo flutuando através de outra janela, da mesma casa. Um filme em 3D, de dez minutos, permite um divertido passeio por dentro das obras do artista gráfico.
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| "Dia e noite", 1938. Créditos: © The M.C. Escher Company B.V. Baarn, The Nethe rlands. |
Escher tornou-se famoso por representar construções impossíveis, explorar o infinito e abusar das metamorfoses usando padrões geométricos que se entrecuzam e se transformam em imagens diversas. Água que corre para cima, pessoas que sobem e descem escadas imaginárias, auto-retratos em esferas de metal, pássaros, peixes e lagartos ganhando vida em imensos quebra-cabeças.
Está tudo lá. E é imperdível. Se não for pelo amor à matemática (essência da origem das suas linhas), que seja pelo prazer de voltar a ser criança, como eu e Mara fizemos, brincando de gigantes e anões, graças às descobertas gráficas e ilusionistas de Escher.
domingo, 7 de novembro de 2010
O mundo interligado e atento
Segue chovendo em Brasília. Acordo com o alarme da casa disparando. O vento, tão forte, abriu a janela do banheiro comum, das crianças (Mariana, 22 e Gabriel,18 - serão sempre as nossas crianças). Desço, recolho o jornal, ligo o computador, percorro as notícias e blogs que o trabalho me impõe e, passo então aos sites e blogs que me dão paz e alegria.
Um dos primeiros é o da Elisa Mendes. E dou de cara com um post sobre o TEDxAmazonia. Sem ter noção do tempo, vou clicando em cada link e me apaixonando cada vez mais pelo que está escrito. O TEDxAM é um evento organizado para acontecer neste fim de semana (pena não ter descoberto antes), no coração da Amazônia, num hotel a 45 minutos de barco, de Manaus.
Estão lá, participando do evento, dezenas de pessoas que tem muitas idéias e que acham que as suas idéias, de alguma forma podem fazer o mundo ficar melhor. Lendo sobre o perfil de cada um dos palestrantes - que ao longo do encontro têm espaço para curtas palestras (coisa que varia entre cinco e quinze minutos, cada uma) fui me dando conta de que gostaria de estar lá.
Ainda não foi dessa vez que pude participar, efetivamente. Mas foi só clicar nos perfis, saber das idéias, enxergar novos horizontes a partir do que foi dito e do que está acontecendo, só isso, já me deu a sensação de ter ganho o domingo. Valeu, Elisa. Passei as minhas primeiras duas horas do domingo absolutamente vidrado nas informações que me chegaram através de uma simples olhada no seu blog.
Cada vez mais me convenço de que essa é uma das melhores funções da internet: unir pessoas e idéias distantes. Como aconteceu agora. Você em NY, eu aqui, em Brasília e o povo lá, no meio da Amazônia. Todos nós pensando, juntos, que a vida pode ser bem melhor.
Um dos primeiros é o da Elisa Mendes. E dou de cara com um post sobre o TEDxAmazonia. Sem ter noção do tempo, vou clicando em cada link e me apaixonando cada vez mais pelo que está escrito. O TEDxAM é um evento organizado para acontecer neste fim de semana (pena não ter descoberto antes), no coração da Amazônia, num hotel a 45 minutos de barco, de Manaus.
Estão lá, participando do evento, dezenas de pessoas que tem muitas idéias e que acham que as suas idéias, de alguma forma podem fazer o mundo ficar melhor. Lendo sobre o perfil de cada um dos palestrantes - que ao longo do encontro têm espaço para curtas palestras (coisa que varia entre cinco e quinze minutos, cada uma) fui me dando conta de que gostaria de estar lá.
Ainda não foi dessa vez que pude participar, efetivamente. Mas foi só clicar nos perfis, saber das idéias, enxergar novos horizontes a partir do que foi dito e do que está acontecendo, só isso, já me deu a sensação de ter ganho o domingo. Valeu, Elisa. Passei as minhas primeiras duas horas do domingo absolutamente vidrado nas informações que me chegaram através de uma simples olhada no seu blog.
Cada vez mais me convenço de que essa é uma das melhores funções da internet: unir pessoas e idéias distantes. Como aconteceu agora. Você em NY, eu aqui, em Brasília e o povo lá, no meio da Amazônia. Todos nós pensando, juntos, que a vida pode ser bem melhor.
sábado, 6 de novembro de 2010
Ossos de Dinossauros
"Dinosaur Bones" é uma banda canadense, de Toronto, formada em 2008. Desde que surgiu, vem sendo considerada por muitas publicações uma das mais promissoras bandas daquele país, apesar de não ter editado qualquer album.
A qualidade do som deles está acessível no "my Space" com o EP "Birthright", de quatro faixas que antecede o tão aguardado lançamento de "My Divider". O primeiro album da banda deve ver a luz do dia no principio de 2011.
Enquanto isso, curta aí a bela "Ice Hotels"
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A qualidade do som deles está acessível no "my Space" com o EP "Birthright", de quatro faixas que antecede o tão aguardado lançamento de "My Divider". O primeiro album da banda deve ver a luz do dia no principio de 2011.
Enquanto isso, curta aí a bela "Ice Hotels"
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Almoço chinês, lembrança de natal
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| foto: Alexandre Dourado |
Acordo, vou ao computador. Mariana também acorda e avisa: tem aula na faculdade. Preparo um café, pão na torradeira nova e espero que ela desça. Lá se vai a baixinha, avisando que depois da aula tem um pagode e não volta tão cedo. A vida segue. A chuva também. O cara do portão chega para consertá-lo. Assim funciona a vida quando se está em casa. Parece não haver nada para fazer e tanta coisa acontece ao mesmo tempo.
Portão consertado, procuro o livro que comecei a ler - 1822, do Laurentino Gomes. Café na cama pra Mara, que passou mal à noite com febre e dores no corpo. O Bi, dormindo. O treino de fórmula um. O cumprimento do vizinho pela vitória na eleição. O Clipping do dia chegando atrasado.
No computador, recebo o e-mail do Assis. Vou atrás do disco, baixo o arquivo. Escuto as músicas. Vou mexer nas fotos e o programa avisa: a versão beta expirou. Se quiser continuar usando, compre outra. Desconfio que outros programas essenciais também estão assim. Bingo. Não vou comprar. Tenho um programa mais antigo que comprei ano passado. Procuro, acho, instalo, reinicio, pronto. A vida virtual volta ao normal.
A fome bate. E não fiz a metade do que havia planejado - ler meu livro. Mara no banho, sinal de melhora. Que tal uma comida chinesa? Vamos lá ou vou buscar? Os dois (o Bi acordou) respondem eu uníssono - vá buscar.
Banho, barba, desodorante, roupa limpa, carro e rua. A chuva persiste. Ô diazinho pra não fazer nada, penso comigo. E concluo que já fiz muito. Um macarrão chop suei, "família feliz" - um prato que mistura legumes e frutos do mar; e bananas caramelasdas para a sobremesa. Enquanto espero, passo no super e compro pipocas de microondas para a tarde. Almoço pronto, cozinha arrumada, uma nesga de sol.
À mesa, falamos do natal. Vamos para Fortaleza. E começam as lembranças dos natais passados. Há diferenças extremas entre as tradições sulistas e nordestinas. Hoje, menos; por conta da globalização. Hábitos sulistas, como árvores cobertas de neve, não eram comuns no nordeste, anos atrás.
Do período de oito anos, do nascimento até deixar o Maranhão em direção ao Sul, me lembro muito pouco. Mas lembro do nervosismo de esperar o "Papai Noel". Criança dormia cedo. Eu resistia. Mas, invariavelmente, dormia antes de ver o bom velhinho chegar com os presentes.
No dia seguinte, embaixo da rede, lá estava o presente. E eu me odiava por não ter resistido ao sono. Entretanto, o que importava era saber o que tinha merecido. Brinquedos de plástico, carrinhos, bolas de futebol. O que quer que fosse, era válido, era deslumbrante abrir o pacote e poder sair à rua para comparar os presentes e - principalmente - brincar.
Mara lembrava de outras tradições. Quatro semanas antes, a contagem regressiva se dava pelo acendimento de velas especiais. Uma a cada domingo e o natal cada vez mais perto. A cada vela acesa, cantoria e orações. Até que chegava o dia em que a sala era trancada aos menores. "Papai Noel" estava trabalhando.
E na Noite de Natal, a árvore repleta de velas, brilhos e presentes, era um sonho. Antes de abri-los, cantos em alemão, orações, puxados pelos avós e tios. A meia-noite não chegava nunca. Diante de tantas memórias, Mara lembrou de uma história engraçada. O primo dela, Norberto, como todas as outras crianças da família, era obrigado a ir à missa do Galo. Norberto, por ser o mais velho deles, garantia uns goles de trago antes de cumprir a obrigação religiosa.
Certa vez, Norberto só teve tempo de sentar-se no banco da igreja e ver o início da missa. Não demorou muito, estava cochilando entre os primos. Num determinado instante, o padre falou mais alto - a ponto de acordá-lo: "... e a virgem Maria estava grávida..." Norberto não se fez de rogado, esfregou os olhos e exclamou bem alto, de forma a que todos ouvissem na igreja: - Mas bah, tchê! a gente não pode dar um cochilo que a "virgem" já está grávida!
Silêncio geral na igreja e o "ôpa" (avô em alemão) fuzilando o Norberto. Naquele ano, todos os outros primos ganharam um troco por acompanhá-lo à missa. Menos o primo Norberto.
Baiãozinho do Assis
Assis Medeiros é um pernambucano, quase paraibano, quase maranhense. E é músico, dublê de jornalista. Conheci Assis quando trabalhei na TV Senado.Ele terminou ficando mais próximo da Mara, que também trabalhou um período por lá. Ele e ela foram companheiros de departamento. E ele adorava as piadas e as cucas de nozes que a Mara fazia. Sempre que ele dá notícias ou é para encomendar uma cuca ou para falar de uma nova música.
Ontem, recebi de Assis um e-mail com informações sobre o seu novo trabalho musical "Baiãozinho Nuar" e não resisti: já baixei a minha cópia. Quem quiser conhecer melhor o trabalho do Assis é bom visitar a página dele e conferir. Tendo um tempinho, dá pra baixar os arquivos com o novo som e curtir na íntegra a pegada tecnopop do camarada. Vale a pena.
Ontem, recebi de Assis um e-mail com informações sobre o seu novo trabalho musical "Baiãozinho Nuar" e não resisti: já baixei a minha cópia. Quem quiser conhecer melhor o trabalho do Assis é bom visitar a página dele e conferir. Tendo um tempinho, dá pra baixar os arquivos com o novo som e curtir na íntegra a pegada tecnopop do camarada. Vale a pena.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Pássaros no palco
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| Foto: Bengt Wanselius |
Nesta quinta-feira eles chegam a Brasília, para uma única apresentação no Teatro Nacional. Merecem tratamento de estrela. Merecem casa cheia. Merecem o que sempre receberam do público, por onde quer que tenham passado: aplauso e admiração.
O espetáculo "Três solos e um Dueto", com Ana Laguna e Mikhail Baryshnikov, começa às nove da noite, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Os ingressos custam R$ 300,00 (inteira) e R$ 150,00 (meia). Aí embaixo, uma pequena amostra do que vai acontecer no palco, logo mais à noite.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Nas ondas do rádio
No início da década de 70 fui viver, junto com toda a minha família, em Foz do Iguaçu. Meu pai havia sido transferido para lá. Foi um período de grandes mudanças. Saído direto do Maranhão, com oito anos de idade, com uma realidade nordestina, costumes nordestinos, desembarquei no Sul com uma temperatura perto de cinco graus. Foi um contraste absurdo. Não foram poucas as vezes em que nos pegamos pensando coletivamente em voltar correndo para São Luis.
Penso mesmo que esse "desterro" involuntário foi responsável pelos meus primeiros escritos. Vem dessa época algumas cartas tristes, escritas a amigos distantes, incapazes de imaginar o que eu passava. Mas elas eram a forma mais contundente de traduzir a minha saudade e o meu estranhamento a aquele lugar onde a maioria dos vizinhos e amigos falava uma outra língua, que eu não compreendia direito. O tempo se encarregou de me mostrar, havia vida além de São Luis. Até fazer com que a saudade se transformasse em pura memória, sem dor, sem sofrimento.
A segunda parte da minha infância vivi em Foz. E um bom pedaço da adolescência também. E foi como adolescente, alguns anos depois, que descobri o rádio como um companheiro de jornada. Foz do Iguaçu é a ponta do Brasil que faz fronteira com um pedaço da Argentina e outro do Paraguai. Por isso, habituei-me a conviver de perto com um sotaque duplamente castelhano.
Entre as manias que desenvolvi, havia uma que ainda hoje carrego com imenso carinho - dormir ouvindo música. Eu tinha na cabeceira da cama um radinho que funcionava a pilhas. E que sintonizava, invariavelmente, a Rádio Mitre, de Buenos Aires. O programa que eu ouvia, na hora de dormir, tocava baladas americanas, músicas populares e pop rock argentino. As minhas noites de adolescentes eram embaladas por "The Playters", Mercedes Sosa e um camarada chamado Charly Garcia, entre tantos outros.
Mas era de Charly uma das melodias que mais me marcaram esse período - "Los Dinossaurios". O arranjo de piano e as notas iniciais dessa música me causavam uma comoção, me provocavam uma melancolia inexplicável e me faziam dormir e sonhar.
Não havia a compreensão do contexto, da luta pela libertade, dos tempos de ditadura militar. Não havia a compreensão da letra que falava de pessoas desaparecidas e muito menos havia a capacidade de entender o simbolismo que existia no fato da Rádio Mitre tocar, todas as noites, anos a fio, músicas como aquela.
Hoje, vasculhando a blogosfera, encontrei um vídeo em que o próprio Charly canta essa música. Foi uma volta ao passado distante, à adolescência. E devo dizer que ainda hoje, aquela dorzinha no peito se manifesta aos primeiros acordes de "Los Dinossaurios".
Penso mesmo que esse "desterro" involuntário foi responsável pelos meus primeiros escritos. Vem dessa época algumas cartas tristes, escritas a amigos distantes, incapazes de imaginar o que eu passava. Mas elas eram a forma mais contundente de traduzir a minha saudade e o meu estranhamento a aquele lugar onde a maioria dos vizinhos e amigos falava uma outra língua, que eu não compreendia direito. O tempo se encarregou de me mostrar, havia vida além de São Luis. Até fazer com que a saudade se transformasse em pura memória, sem dor, sem sofrimento.
A segunda parte da minha infância vivi em Foz. E um bom pedaço da adolescência também. E foi como adolescente, alguns anos depois, que descobri o rádio como um companheiro de jornada. Foz do Iguaçu é a ponta do Brasil que faz fronteira com um pedaço da Argentina e outro do Paraguai. Por isso, habituei-me a conviver de perto com um sotaque duplamente castelhano.
Entre as manias que desenvolvi, havia uma que ainda hoje carrego com imenso carinho - dormir ouvindo música. Eu tinha na cabeceira da cama um radinho que funcionava a pilhas. E que sintonizava, invariavelmente, a Rádio Mitre, de Buenos Aires. O programa que eu ouvia, na hora de dormir, tocava baladas americanas, músicas populares e pop rock argentino. As minhas noites de adolescentes eram embaladas por "The Playters", Mercedes Sosa e um camarada chamado Charly Garcia, entre tantos outros.
Mas era de Charly uma das melodias que mais me marcaram esse período - "Los Dinossaurios". O arranjo de piano e as notas iniciais dessa música me causavam uma comoção, me provocavam uma melancolia inexplicável e me faziam dormir e sonhar.
Não havia a compreensão do contexto, da luta pela libertade, dos tempos de ditadura militar. Não havia a compreensão da letra que falava de pessoas desaparecidas e muito menos havia a capacidade de entender o simbolismo que existia no fato da Rádio Mitre tocar, todas as noites, anos a fio, músicas como aquela.
Hoje, vasculhando a blogosfera, encontrei um vídeo em que o próprio Charly canta essa música. Foi uma volta ao passado distante, à adolescência. E devo dizer que ainda hoje, aquela dorzinha no peito se manifesta aos primeiros acordes de "Los Dinossaurios".
O amor de todas as formas
Antes de sair pra faculdade, Mariana, minha filha, me mostrou esse vídeo. Uma belezura de vídeo. Simples, delicado e emocionante. O amor traduzido em pedacinhos de papel, daqueles que a gente usa pra grudar recados que não pode esquecer. Dá só uma olhada.
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