domingo, 9 de setembro de 2012

Fé, estrada e chão na terra de Galvez

O nascer do dia, em Cruzeiro do Sul.
Da janela do meu quarto de hotel vejo o dia amanhecer, em Cruzeiro do Sul. Outros ares. Outra terra. Outros cheiros e sabores. É de lá também que vejo as ruas mudadas. As ladeiras asfaltadas e a mesma  esperança nos olhos das pessoas.

Da minha janela avisto o mercado central. Os mercados me atraem. O de são Luis, o de Belo Horizonte, o de Porto Alegre, o de Montes Claros, o de Brasília. Sim, Brasília também tem um mercado central. Tão cheiroso e atraente quanto todos os outros que citei.

Desço as ladeiras de Cruzeiro em companhia de Rodrigo Teixeira. Rodrigo fala de uma vida que em muitos momentos cruza com a minha. Pessoas iguais, lugares iguais, mesmas histórias e tempos. O escuto falar e me pergunto: Não estivemos juntos antes? Sim, claro que estivemos, frequentamos as mesmas turmas, ouvimos as mesmas músicas, fomos aos mesmos bares... Mas nossos tempos eram outros e, quis o destino que nos tornássemos amigos - de amizade verdadeira e firme - aqui no Acre.

Lavadeiras do Juruá.
No mercado, à beira do Rio Juruá, tudo é mistério e cor. É mistério a predominância dos olhos verdes em pele cabocla. É mistério a leveza com que os barcos deslizam nos rios. É mistério como como a mesma corrente que leva o dia, lava a roupa das mulheres e causa alegria às crianças.

O posto fluvial...

... no meio do rio que leva e traz a vida dessa gente.
No meio do Juruá, um assombro! Um posto de gasolina flutuante. Coisa de surpreender o meu olhar urbano. Simplicidade prática e necessária na terra onde os rios são estradas e a vida tem a velocidade das águas.

A fartura de peixes...
...alimentando a vida.
Do rio sai o alimento. Peixes de farta espécie. Tucunarés, pacus, mandis... Da terra, o complemento que ganhou fama e corre o mundo - a melhor farinha que já se provou - a farinha com côco, de Cruzeiro do Sul.

O primeiro punhado de farinha,
ninguém acerta.
Na frente da banca e da fartura exposta, convenço Rodrigo a experimentar. E comprovo: O primeiro punhado de farinha ninguém acerta. Os maranhenses tem um jeito de provar a farinha, uma técnica que só vi por lá. juntam um pouco na mão ( "um punhado", se diz) e atira-se em direção à boca, a uma distância média.

Os que são acostumados a fazer isso, não perdem um caroço. Os que não, são como Rodrigo, denunciam a falta de experiência, na hora. A farinha fica por todo lado, no rosto. E um pouco, só um pouco, vai pro lugar certo - a boca do sujeito.

Aneildes e os dezesseis tipos de feijão
Na terra que um dia foi o Império de Galvez, encontro Aneildes, um acriano legítimo vendendo lamparinas, farinha, feijão, tapioca, alho e melado. Gêneros básicos, composição elementar do cardápio local que dá "sustância" e ajuda a enfrentar o dia quente com mais resistência e a noite escura com mais  luz.

Os feijões...
... as farinhas.  
Aneildes me diz orgulhoso - há dezesseis tipos de feijão no Acre. Entre eles, o manteiguinha, o peruano, o quarentão e o "arromba homem" (porque o grão é tão grande, que se o camarada não mastigar bem mastigadinho, já viu...)

Faço a minha matula. Dois quilos e meio de farinha com côco, um pouco do biscoito que só comi aqui e me despeço daquele lugar com os cheiros invadindo a minha memória e me transportando pra minha infância maranhense.

Lembro de um tempo em que meu mundo cabia em uma mochila. Hoje, não mais. E pensando em mochila, e ouvindo Rodrigo e as histórias das gentes de Campo Grande, revejo um velho amigo, Geraldo Rocca, cantando uma canção que fala desse sentimento de estar sempre viajando. E acho que a música tem a ver com a estrada e com essa vida de cheiros, sabores e distâncias. Então, lá vai: Mochileira. De Geraldo Rocca. Porque eu começo a pensar que um dia, o meu mundo ainda volta a caber em uma mochila.

Um comentário:

  1. Tão bonito o texto. Tão gentil com o Acre, quase um "país" lenda para quem é do sul. Oportunidade rara senhor mochileiro Maranhão. Talvez eu nunca conheça o rio Juruá, a não ser por seu olhar.

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