segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Memórias da Madre Deus


Só dez por cento...

A inventar...
Almoço de domingo lá em casa. Vinho e conversa boa com meu pai e minha mãe. A memória corre solta. Conto que encontrei Lenita Estrela de Sá na internet. É lá que descubro que ela é um ano mais nova que eu. Por isso, minha memória é tão escassa daquele tempo. Por isso não sei tanto e tenho quer recorrer à memória oral de meus pais. 

Me falam dos pais dela e dos irmãos. Me falam da efervescência da produção cultural naqueles tempos. Aliás, acho que a Madre Deus já nasceu fervendo. E, inevitável, vem as histórias que são quase lenda, sobre personagens reais e seus feitos. 

Hoje, cabe a primeira das histórias, da série que eu vou batizar de "Memórias da Madre Deus". Com a devida licença poética, que me isenta de fidelidade aos fatos reais. Como diria Manoel de Barros, em sua desbiografia,  só dez por cento é mentira. O resto tudo é inventado.  

A fama em um instante

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo.
Havia vinte anos ele cumpria aquela função – puxar as cordas que abriam as cortinas do palco para o início do espetáculo. Suas mãos conheciam aquelas cordas grossas como poucos. De tanto assistir, da coxia, ele desenvolvera uma incrível técnica de memorização e sabia de cor e salteado os textos de cada um dos personagens. Principalmente os da Paixão de Cristo.

No palco, seus amigos de bairro assumiam personalidades quase divinas e emocionavam a plateia em cada ato. Filu pintor tinha a cara chupada, uma magreza convincente e barba e cabelos compridos. Era um Cristo incontestável.

Zé Santana era Caifás; Juvenal de Castro era Anaís; Wilson fazia um Pilatos de dar inveja. Até Agripino, filho de Totó Buxeiro, era um Judas reconhecido e odiado.

Só ele, Zé Garapé, não conseguia espaço e reconhecimento. Não passava de um “puxador de pano”. Tá certo, havia o domínio de uma técnica.  Abrir e fechar a cortina na hora certa não era ofício para qualquer um, exigia habilidade e conhecimento. Era quase como fazer certa a pontuação gramatical no fim da frase. Mas, por mais que fizesse, era um ofício menor e o Zé se angustiava, diante daquele universo ficcional que ele jamais alcançara.

De tanto refletir, um dia, mandou às favas a timidez. Decidiu que queria ser artista a qualquer custo. Estar no palco, extravasar as emoções guardadas e decoradas em duas décadas de recolhimento silencioso e imperceptível. Era isso. E só dependia dele.

Criou coragem e foi ter com Cecílio, diretor da peça. Queria ser mais, queria a ribalta, as luzes e o estrelato. O diretor, com seu espírito moleque, ouviu atentamente o pedido.  E, abusando da intimidade – dessas em que a gente perde o amigo mas não perde a piada – respondeu-lhe que na Paixão de Cristo não havia lugar para São Benedito (uma referência chistosa à cor negra do Zé Garapé).

Boca de cena do Teatro Arthur Azevedo, em São Luis. 
Fato é que a insistência do Zé foi tão grande que Cecílio terminou cedendo e lhe deu de presente um personagem especial. A partir do próximo espetáculo seria “Cruz Diabo”. Uma figura malévola, coberta por uma capa preta e vermelha. Deveria entrar em cena no exato momento em que Judas agonizava na forca. Iria  abraçá-lo e, simbolicamente, levá-lo para o inferno, sem dizer uma palavra sequer.

Zé Garapé achava que podia mais, mas estava contente. No dia da estreia, teatro cheio, Zé viu o seu substituto repetir o gesto que lhe custou uma vida inteira de anonimato. Abre-se a cortina e o espetáculo começa. Zé pensativo, se dá conta de que não poderia perder a oportunidade para mostrar o que sabia. Decide em silêncio dar mais veracidade  e incrementar o papel de Cruz Diabo.


Hora de entrar em cena. Judas começa a estrebuchar na forca. Silêncio e tensão no palco. Aflição na plateia. Eis que surge Zé Garapé na figura do mal. Ao invés de cumprir o combinado, ele salta sobre a plateia. Uma vez, duas, outra mais, variando de um lado para o outro do palco. Lançando um grunido arrepiante e fazendo uma careta assustadora. E Judas lá, estrebuchando. Cecílio angustiado, gritava e gesticulava: Zé! Zé! E nada do Zé prestar atenção.  Assusta uns, provoca risos em outros. Na terceira investida já tinha conquistado definitivamente o público. Enfim, vira-se para Judas e o encobre com seu manto assustador. Aplausos em aberto, gritos e assobios.

Naquele dia, Zé Garapé  conquistou a fama. Sem dizer uma palavra, virou estrela. Foi só uma vez, mas valeu por uma vida inteira, vivida atrás da cortina. Por alguns instantes, Zé Garapé roubou a cena da paixão e foi muito mais famoso do que Cristo. 

Para Lenita Estrela de Sá - em memória de nossa infância distante. 

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