quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Deitando e rolando


por Innocêncio Viégas*
Viegão, atacando de rolamento, outra vez. 
O filósofo prussiano Arthur Schopenhauer – 1788 – 1860 – nos ensinou como superar as “dores do mundo,” pela arte e pela ética. Mas não quero falar dessas dores. Digo das dores do corpo, principalmente à proporção em que envelhecemos. Se ficarmos parados muito tempo, ao movimentarmos o corpo, as dores se manifestam aqui, ali, e alhures, como sempre diz o não menos filósofo Fagundes de Oliveira. Se fizermos um movimento brusco ou qualquer esforço diferente do costume diário, no dia seguinte, estaremos travados. Assim acontece comigo, que estou beirando os oitenta.

A Bel convidou-me para ir com ela, ao Shopping. Mais para passear que fazer alguma compra. Fomos. Em lá chegando – como diziam antigamente os contadores de histórias – a Bel avistou uma loja de roupas para crianças e adolescentes e já foi entrando. Olhou para mim e resolveu o meu problema.

– Ali tem um bom café! Apontou para a lanchonete em frente. Entendi logo que era uma “deixa” para eu “esperar sentado” enquanto ela procurava o que não havia perdido, ou melhor achava umas roupas para as netas menores.

Abanquei-me na cadeira da primeira mesa, abri o livro que sempre me socorre nessas horas – O silêncio da Montanha – pedi um café com leite em xícara grande, para demorar mais, e passei à leitura.

A barista que estava só, logo preparou o café e avisou-me que estava pronto.

– Moço – disse ela – o café está pronto. Aquele “moço” me rejuvenesceu na hora. Levantei-me rápido como um guri e ... enganchei o sapato no pé da mesa e fui, e fui, e quando vi que ia cair, recorri aos ensinamentos do Judo. Encostei a cabeça no ombro, fiz a alavanca com o braço direito, apoiei o esquerdo no chão e rolei sobre o dorso e já caí levantando. Muitos correram em meu socorro.

– Você bateu a cabeça? Vi você entrar de cabeça no chão! Perguntou um coroa mais ou menos da minha idade.

– Não, meu caro amigo, não bati a cabeça e nem perdi o boné. É que eu apliquei um rolamento dos velhos treinos de judô.

– Como nos velhos tempos, respondeu o meu socorrista, sorriu e saiu. Um jovem, esbelto e forte que lanchava com a namorada na mesa ao lado, que vira tudo, também se aproximou, segurou-me o braço e com um largo sorriso perguntou.

– Tudo bem, Sensei? Vejo que ainda lembra os ensinamentos do mestre Jigoro Kano. E concluiu: gostaria de chegar à sua idade e poder executar com tamanha perfeição, um rolamento desse.

– A onça por ser velha, meu filho, não perde as pintas, vejo que você entende da nobre arte. Ele sorriu, abraçou-me e voltou para a sua namorada.

A atendente que a tudo assistira, estava sem palavras, até o café estava gelado. Olhei para ela e lhe disse, com toda calma que, em vez de anunciar que estava pronto, poderia ter levado à mesa o meu café, assim, eu não teria “pago” tamanho mico, como dizem os meninos de hoje. Ela reconheceu o seu erro, se desculpou e prontamente fez outro café com leite, bem quentinho.

Logo chegou o café. Eu estava sem graça, mesmo tendo sido tudo muito rápido. Nem abri o livro, sorvi um gole do café e já queimei a língua – hoje é o meu dia – logo lembrei da minha saudosa mãe, Dona Antonieta. Quando eu caia e vinha chorando para o seu lado, ela me amparava fazia um afago na minha cabeça e dizia: vai beber água menino que a dor passa. Pedi à balconista água mineral com gás. A água refrescou-me as entranhas e aliviou o sofrimento do ardor da língua.

A Bel apareceu com as mãos cheias de pacotes, provou o café, gostou e perguntou:

– Demorei? E antes da minha resposta ele concluiu dizendo ter comprado umas blusinhas para as meninas. Paguei a despesa, agradeci o serviço e saímos para peregrinar pelo comércio.

A minha língua queimada do café estava coçando para contar que havia caído, “de maduro”. Não aguentei. Contei a ela o ocorrido. Pronto, veio logo a preocupação.

– Machucou muito? Todo mundo viu? Tá doendo?

– Não! Respondi. Não está doendo, só amanhã que eu sentirei “as dores do mundo” todas sobre mim.

– Estás sentindo alguma coisa? Voltou ao inquérito.

– Sim! Sinto que te amo! Ela sorriu e saímos para almoçar. Uma taça de vinho tirou-me as dores.

No dia seguinte, ao levantar para fazer o café, tentei dar aquela espreguiçada, como fazem os gatos, quando acordam. Doeu tudo. O braço, incluindo o cotovelo; as costas; o joelho; e principalmente o dedão do pé que deu a topada.

Pobre de mim! Ainda não inventaram a pílula do dia seguinte, para dores de queda.

Prometi para os meus botões ter mais cuidado e não sair por aí, deitando e rolando... no shopping.

Que mico sô!

* Innocêncio Viegas é Teólogo, membro da Ass. Nac. dos Escritores, membro da Acad. de Letras de Brasília,  Acad. Intern. Maçônica de Letras, fundador da  Confraria dos Amigos da Boa Mesa, meu pai e especialista em "rolamentos" desde muito cedo, lá em São Luis do Maranhão.  

5 comentários:

  1. Adorei Maranhão! Muito bem escrito e com uma história ótima!

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  2. Muito bom Maranhão! Que história ótima, seu pai é uma figura, agora eu sei a quem você saiu!

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  3. Deve ser uma dádiva conviver com o Tio Inocêncio, não é Bebel?

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  4. Esse é um grande amigão dos velhos tempos em BRASÍLIA/DF. Por onde andas meu grande amigo ! Um abração e que Deus o proteja e a sua família !

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