A quarta-feira começa com uma mensagem do Jorge Calábria, um dos sócios da produtora Casca de Noz, de BH, me propondo assistir um comercial tailandês. Jorge explica que o comercial fez com que ele pensasse nesse volume de conexões diárias a que estamos submetidos e a perda de um tempo precioso que poderia ser melhor investido nas relações humanas.
É contraditório e é real. Tenho um amigo que costuma dizer que os computadores são máquinas que foram inventadas para resolver problemas que antes a gente não tinha. De fato, os computadores chegaram com a promessa de tornar a vida mais fácil. Tornaram. O mundo todo a um clic das mãos. Das compras de supermercados, bancos, a educação à distância até os namoros, quase tudo tornou-se uma possibilidade virtual.
Aí descobrimos que a essência da contradição está em passar mais tempo plugado do que tocando a vida normal. A gente não se dá conta, mas agregada às facilidades que a web nos permite está também a perda, quase que total, da nossa privacidade. Basta entrar na rede mundial de computadores para ver todos e também ser visto por todos. Vivemos na prática a Aldeia Global a que Marshall McLuhan se referia, no início da década de 60, quando ninguém ainda sonhava com internet e computadores caseiros.
As estatísticas mostram que os brasileiros estão entre os campeões no ranking dos que passam mais tempo ligados à internet. O trabalho, que antes encerrava quando a gente deixava o local de trabalho, agora invade a nossa casa, as noites e madrugadas, a bordo de notebooks, Ipads, Iphones e que tais. O dia, na prática, ficou muito mais curto do que parece. Já não se limita às 24 horas reais. E esse é o aspecto que nos faz concluir que os computadores, se por um lado, tornaram tudo mais fácil, por outro, complicaram enormemente a nossa vida.
À nossa identidade, juntamos, sem perceber, mais um número - o de IP ou Internet Protocol. É essa assinatura virtual que revela nossos hábitos, os sites que visitamos, as conversas que temos, os nossos gostos e manias. Não há mais um lugar por onde você passe sem deixar um rastro de que esteve lá. Quem controla isso tudo? Quem compreender melhor e dominar os sistemas e processos de tecnologia da informação, os hackers, as polícias inteligentes e os bandidos astutos.
A reflexão que o comercial tailandês nos propõe é mais simples, mas vai um pouco além. Quando estamos plugados, conectados, estamos ao mesmo tempo em contato com milhões de pessoas, totalmente expostos e absolutamente solitários. Nós, a máquina e um mundão de seres virtuais. Por isso, vale o exercício. Nem toda a virtualidade do mundo substitui algo que só a máquina humana carrega: a capacidade de traduzir emoção e sentimento em gestos inteligentes.
Como em tudo, o excesso, no uso da virtualidade também faz mal. Por isso, agradeço ao Jorge e divido com vocês a simplicidade deste comercial. Não precisa entender ou falar tailandês. A mensagem é clara.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Olhar de Fotógrafo
Luis Andrade adotou o Pantanal como terra do coração. Diretor de cinema e fotógrafo profissional, ele não perde uma chance de registrar as belezas que passam diante dos seus olhos. Luis é também pai de um menino fantástico, o Pipo, sobre quem já falei aqui.
Neste fim-de-semana, Luis me mandou uma sequência de fotos que não só tem a capacidade de traduzir o vigor da natureza local como, também, mostra que a simplicidade ainda é o melhor jeito de enfrentar e vencer problemas que, às vezes, julgamos intransponíveis. Quem explica é o próprio Luis:
“Há algum um tempo, quando fazia umas fotos em Corumbá, teimei em fotografar umas vitórias régias que havia avistado de longe, do alto de um grande barco de turismo no Rio Paraguai. Descobri, na prática, que não seria uma missão tão simples assim. A natureza se encarregou de cercar as exóticas plantas com um outro tipo de vegetação, parecido com um capim colonião, alto, denso e impenetrável.
Tentamos com vários tipos de embarcação, mas nenhuma conseguia furar o caprichoso obstáculo natural. Indo por terra, descobrimos que havia uma única passagem, por uma pequena colônia de pescadores, às margens do rio. A comunidade ocupava uma área conhecida como "Parque Cacimba da Saúde", que, óbvio, não fazia jus ao nome.
Era uma área degradada, poluída, insalubre. Uma favela no meio de um paraíso ecológico. Entretanto, foi ali que encontramos os filhos de uns pescadores, com suas pequenas canoas feitas de tronco de angelim, típicas da região. E foi só assim, com a força dos remos dessas crianças pantaneiras, que alcançamos as plantas aquáticas. O resultado da aventura está logo aí abaixo e mostra que o esforço valeu à pena”.
Neste fim-de-semana, Luis me mandou uma sequência de fotos que não só tem a capacidade de traduzir o vigor da natureza local como, também, mostra que a simplicidade ainda é o melhor jeito de enfrentar e vencer problemas que, às vezes, julgamos intransponíveis. Quem explica é o próprio Luis:
“Há algum um tempo, quando fazia umas fotos em Corumbá, teimei em fotografar umas vitórias régias que havia avistado de longe, do alto de um grande barco de turismo no Rio Paraguai. Descobri, na prática, que não seria uma missão tão simples assim. A natureza se encarregou de cercar as exóticas plantas com um outro tipo de vegetação, parecido com um capim colonião, alto, denso e impenetrável.
Tentamos com vários tipos de embarcação, mas nenhuma conseguia furar o caprichoso obstáculo natural. Indo por terra, descobrimos que havia uma única passagem, por uma pequena colônia de pescadores, às margens do rio. A comunidade ocupava uma área conhecida como "Parque Cacimba da Saúde", que, óbvio, não fazia jus ao nome.
Era uma área degradada, poluída, insalubre. Uma favela no meio de um paraíso ecológico. Entretanto, foi ali que encontramos os filhos de uns pescadores, com suas pequenas canoas feitas de tronco de angelim, típicas da região. E foi só assim, com a força dos remos dessas crianças pantaneiras, que alcançamos as plantas aquáticas. O resultado da aventura está logo aí abaixo e mostra que o esforço valeu à pena”.
Nensê...
Mencionando duas torcedoras "roxas" do Fluminense, a Graça e a Marcinha Torres (a jornalista), estendo minhas congratulações a todos os torcedores do time campeão brasileiro de futebol - 2010. Um título justo, para um time que há um ano esteve à beira do rebaixamento.
Com garra, competência e dedicação soube fugir do perigo da segundona e fechar 2010 com o título de melhor time do Brasil. Parabéns!
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| Conca, o herói. Foto: Fernando Soutello/Folhapress |
Com garra, competência e dedicação soube fugir do perigo da segundona e fechar 2010 com o título de melhor time do Brasil. Parabéns!
domingo, 5 de dezembro de 2010
Pra começar bem o domingo
No site oficial do Paul McCartney há um sinal de que a recente turnê que ele fez pela Améria Latina deixou marcas e saudades. Paul postou um vídeo em preto e branco, com imagens emocionantes e com a música "Here Today", que ele fez em homenagem a Lennon, como trilha sonora.
O vídeo mostra cenas dos cinco shows realizados em novembro, na Argentina, em Porto Alegre e São Paulo. E, ao final, Paul põe um agradecimento especial aos 300 mil fãs que o acompanharam de perto na jornada. Vale a pena assistir.
O vídeo mostra cenas dos cinco shows realizados em novembro, na Argentina, em Porto Alegre e São Paulo. E, ao final, Paul põe um agradecimento especial aos 300 mil fãs que o acompanharam de perto na jornada. Vale a pena assistir.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Corrida contra o tempo
Esta é uma das primeiras fotografias do Beijódromo, nome popular dado ao Memorial Darcy Ribeiro, construído dentro da Universidade de Brasília. Fiz a foto depois de deixar Gabriel na universidade e me surpreender com a retirada dos tapumes que protegiam a obra.
O que se vê agora é o fino traço João Filgueiras Lima, o Lelé, dando forma, contornando com realidade aquilo que um dia foi um sonho gerado no caldeirão efervescente que era a cabeça de Darcy.
Homens e máquinas correm contra o tempo para vencer os últimos desafios estruturais que ainda se impõem. Mas a sensação é de que nada vai atrapalhar a inauguração da obra, prevista para a segunda-feira, 06/12, às três da tarde.
Laura Murta, da Fundação Darcy Ribeiro, me escreveu emocionada, dizendo que uma das atrações da festa de inauguração, que vai ter a presença de dois presidentes – Lula, do Brasil e Mojica, do Uruguai, entre tantos outros convidados – será a Orquestra de Rabecas de Montes Claros.
Já falei sobre essa orquestra aqui. Um projeto fabuloso, surgido através das mãos do artista plástico João Rodrigues, que alguns anos atrás foi secretário de Cultura de Montes Claros. O projeto identificou uma vocação nata de um grupo de agricultores que queria não só aprender a tocar, mas também, se dispunha a aprender a fabricar os seus próprios instrumentos musicais.
Com a ajuda deles fizemos uma das mais belas peças de campanha, uma homenagem ao Dia da Independência do Brasil, em 2008. Vale a pena rever esse trabalho aqui. E quem gostar, pode curtir a apresentação da Orquestra, ao vivo, segunda-feira, durante a inauguração do beijódromo.
O roteiro dessa peça é meu. A direção é de João Flores e a edição e finalização, da “Casca de Noz”, uma das mais respeitadas produtoras de Belo Horizonte.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Rio que nasce
Quero fechar essa sexta-feira com a certeza de que o dia, sim, recuperou-se. Acabo de receber da AB Produtora o videoclip finalizado da música "Rio Paraíba", de Mário e Luiz Theodoro. Sou suspeito pra falar, mas devo dizer, estou emocionado com o resultado do trabalho.
Aliás, quero aqui fazer um elogio público à equipe com quem trabalhei neste projeto: o Helenito 1011, o Aylton, o Bruno, o Alexandre Queiroz, o Please No, o Michel, enfim, todo o pessoal da AB que mostrou, mais uma vez, competência, seriedade e dedicação na produção deste trabalho. Eu não imaginava diferente.
E, claro, um agradecimento sincero também aos amigos Mário, Luiz, Armando, Macarrão e Gabriel, por acreditarem na capacidade de fazermos, juntos, um projeto tão bacana quanto este. Agora, vamos deixar de papo e curtir, em primeiríssima mão - Rio Paraíba.
Aliás, quero aqui fazer um elogio público à equipe com quem trabalhei neste projeto: o Helenito 1011, o Aylton, o Bruno, o Alexandre Queiroz, o Please No, o Michel, enfim, todo o pessoal da AB que mostrou, mais uma vez, competência, seriedade e dedicação na produção deste trabalho. Eu não imaginava diferente.
E, claro, um agradecimento sincero também aos amigos Mário, Luiz, Armando, Macarrão e Gabriel, por acreditarem na capacidade de fazermos, juntos, um projeto tão bacana quanto este. Agora, vamos deixar de papo e curtir, em primeiríssima mão - Rio Paraíba.
A tonga da mironga...
As coincidências valem. Sem saber que o meu dia começou atrapalhado à beça, Lula me manda um texto que tem tudo a ver. Eu explico: Acordei mais tarde do que queria. Perdi a hora da ginástica - meus filhos e minha mulher me gozam, dizem que ginástica é coisa de velho, das antigas. Dizem que o moderno agora é "perdi a academia". Não ligo. Perdi a ginástica e isso pode estragar o dia de uma pessoa.
Eu tinha dentista às oito e Gabriel tinha que estar na faculdade às oito, também. Quem conhece Brasília sabe que estar na UNB e no Setor Comercial Norte, no mesmo horário é impossível. Trânsito pesado de sexta, um bando de gente mais nervosa ao volante do que eu. No caminho, me dei conta de que tinha deixado a carteira com documentos, cartões e dinheiro em casa. Olhei pro Bi. Tive vontade de xingar o xingamento mais profundo da minha alma. Algo como mandar tudo "pra tonga da mironga do kabuletê".
Ele me olhou sem dizer nada, mas comprendendo a minha raiva. Apressou-se em mexer no dial, no rádio do carro. Pros modernos (como meus filhos e minha mulher) que não entendem, mexer no dial significa mudar a sintonia. Buscou, buscou, até que encontrou a rádio "Força Aérea". Oito horas em ponto. Hora cívica, ele sabia que o Hino Nacional ia começar a tocar.
Tive vontade de rir. Relaxei. Ele começou a cantar o Hino e eu fui junto. Liguei pro dentista, avisei da impossibilidade de chegar e remarquei o dia e o horário. Ali, naquele momento, com aquele hino e com o Bi cantando, decidi que iria lutar para fazer a sexta ficar melhor. Algum tempo depois, quando abro o computador, recebo o texto que está aí abaixo, do Lula. Ok. A sexta começou de novo. Boa leitura, bom dia a todos.
1970.Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o disco "A Arca de Noé", fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino.
Encontram o Brasil em pleno "milagre econômico". A censura em alta, a Bossa em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais. O poeta é visto como comunista pela cegueira militar e ultrapassado pela intelectualidade militante, que pejorativa e injustamente classifica sua música de easy music.
No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria. Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois.
Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles "tonga da mironga do kabuletê", que significa "o pêlo do cu da mãe". O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiram o poeta. Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves. Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa. E o poeta ainda se divertia com tudo isso: "Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô".
Fonte: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
No vídeo que vem aí, em seguida, Vinicius de Moraes e Toquinho são os convidados do "Senza Rete", um programa da TV Italiana, na década de setenta, apresentado por Paolo Vilaggio. Depois de um medley das suas canções mais conhecidas eles cantam uma versão em italiano da música "A tonga da mironga do kabuletè". São dez minutos de vídeo, capazes de recuperar uma sexta-feira que parecia irremediavelmente perdida.
Eu tinha dentista às oito e Gabriel tinha que estar na faculdade às oito, também. Quem conhece Brasília sabe que estar na UNB e no Setor Comercial Norte, no mesmo horário é impossível. Trânsito pesado de sexta, um bando de gente mais nervosa ao volante do que eu. No caminho, me dei conta de que tinha deixado a carteira com documentos, cartões e dinheiro em casa. Olhei pro Bi. Tive vontade de xingar o xingamento mais profundo da minha alma. Algo como mandar tudo "pra tonga da mironga do kabuletê".
Ele me olhou sem dizer nada, mas comprendendo a minha raiva. Apressou-se em mexer no dial, no rádio do carro. Pros modernos (como meus filhos e minha mulher) que não entendem, mexer no dial significa mudar a sintonia. Buscou, buscou, até que encontrou a rádio "Força Aérea". Oito horas em ponto. Hora cívica, ele sabia que o Hino Nacional ia começar a tocar.
Tive vontade de rir. Relaxei. Ele começou a cantar o Hino e eu fui junto. Liguei pro dentista, avisei da impossibilidade de chegar e remarquei o dia e o horário. Ali, naquele momento, com aquele hino e com o Bi cantando, decidi que iria lutar para fazer a sexta ficar melhor. Algum tempo depois, quando abro o computador, recebo o texto que está aí abaixo, do Lula. Ok. A sexta começou de novo. Boa leitura, bom dia a todos.
1970.Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o disco "A Arca de Noé", fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino.
Encontram o Brasil em pleno "milagre econômico". A censura em alta, a Bossa em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais. O poeta é visto como comunista pela cegueira militar e ultrapassado pela intelectualidade militante, que pejorativa e injustamente classifica sua música de easy music.
No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria. Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois.
Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles "tonga da mironga do kabuletê", que significa "o pêlo do cu da mãe". O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiram o poeta. Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves. Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa. E o poeta ainda se divertia com tudo isso: "Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô".
Fonte: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
No vídeo que vem aí, em seguida, Vinicius de Moraes e Toquinho são os convidados do "Senza Rete", um programa da TV Italiana, na década de setenta, apresentado por Paolo Vilaggio. Depois de um medley das suas canções mais conhecidas eles cantam uma versão em italiano da música "A tonga da mironga do kabuletè". São dez minutos de vídeo, capazes de recuperar uma sexta-feira que parecia irremediavelmente perdida.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Quinta que vai, sexta que vem
Em florestas de eucalipto são um pavor.
Os mais velhos acreditam que quando elas se juntam, no espetáculo popularmente conhecido como “correção”, a chuva não demora a chegar.
São extremamente organizadas. Se dividem em castas. Se comunicam através do olfato ou do paladar, usando feromônio. Têm uma linguagem limitada, que não passa de 20 códigos. E todas, todas mesmo, trabalham por suas rainhas.
Estamos falando das formigas. Elas são tudo isso aí em cima. Aqui no blog, entretanto, são só mais uma imagem belíssima captada pelas lentes do Ferreirinha, nosso fotógrafo.
Pra fechar a quinta-feira, que vai; e esperar a sexta-feira, que, não tarda, vem.
Darcy e o beijo universal
Não tive a oportunidade de conhecer Darcy Ribeiro pessoalmente. Mas conheci seus vestígios bem de perto, o que considero um privilégio. Darcy nasceu em Montes Claros, Norte de Minas Gerais, à beira do sertão por onde passou, viveu e escreveu João Guimarães Rosa. Na mesma cidade em que viveu e compôs o maestro Godofredo Guedes, pai do Beto Guedes, um dos integrantes do "Clube da Esquina", movimento musical que surgiu em Minas e marcou a música brasileira.
Só isso já faria a cidade especial. E ela é mesmo. Lá em MOC, como carinhosamente a chamam os seus habitantes, os encantos de Minas resistem ao tempo. A praça da matriz, o mercado municipal, os catopés e marujos, a orquestra de rabecas, as quitandas, o morro Dois Irmãos...
Estive em MOC pela primeira vez para fazer uma campanha de prefeito, em 2004. Foi assim que conheci Paulinho Ribeiro, um louco bom, um visionário, sobrinho de Darcy. Paulinho foi uma espécie de filho que Darcy nunca teve. Entre milhares de outras coisas, foi o responsável por retirar o tio às escondidas do hospital onde lutava contra o câncer. Quando o fim se mostrou próximo, Darcy decidiu: queria passar os seus últimos dias na casa que Niemeyer construiu pra ele em Niterói, no Rio de Janeiro.
Pelas mãos do Paulinho, entrei na casa em que Darcy se refugiava, uma chácara cercada de verde por todos os lados, nos arredores de Montes Claros. Livros, quadros, objetos pessoais, a varanda da casa, os passarinhos, tudo lá remete a um pequeno paraíso. Uma ilha de tranqüilidade.
Aprendi a ver Darcy pelos olhos e gestos de Paulinho, que hoje é quem cuida do acervo memorial dele. Há uma semelhança física e mental impressionante entre os dois. Um livre pensar e uma pressa em viver que certamente vem da raiz, está no DNA.
Mas lembro com muito carinho também da mãe de Paulinho, Dona Jacy Ribeiro, escritora que foi casada com o irmão de Darcy, Mário Ribeiro. Mario é até hoje um dos prefeitos mais lembrados e respeitados de Montes Claros.
Muitas vezes, em minhas passagens por MOC, fui à casa de Jacy comer picadinho de carne com quiabo e ouvir as suas histórias. Ela é apaixonada por livros e por imagens de São Francisco. Num desses dias, conversando sobre Darcy, ela correu à estante e puxou o livro “Confissões” em que Darcy repassa a sua vida. Cheia de orgulho, abriu o livro em uma das últimas páginas, onde Darcy faz uma declaração de amor à “sua melhor cunhada”, citando Jacy.
Ontem, recebi uma mensagem de Laura Murta, amiga querida, neta de Flor e Zezão, sobre quem já falei aqui. Laura trabalha como assessora da Fundação Darcy Ribeiro, me mandou o convite para a inauguração oficial do “Beijódromo” na UNB. A obra é mais uma dessas idéias alucinantes de Darcy, que João Filgueiras Lima, o Lelé, deu forma real. Um espaço para convivência, para a arte e cultura e, por fim, um espaço livre para beijar. Um beijo universal. A cara do Darcy.
Em sua homenagem, termino este post com um trecho do livro “Confissões” em que ele fala sobre a emoção de escrever e de viver. Intensamente, viver. (Todas as fotos são do acervo da Fundação Darcy Ribeiro)
"Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. (...) Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo. (...) Quero muito que estas minhas Confissões comovam. para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. (...) Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras." (Darcy Ribeiro, Confissões, Ed. Cia. das Letras, 1997, p. 11-12)
Só isso já faria a cidade especial. E ela é mesmo. Lá em MOC, como carinhosamente a chamam os seus habitantes, os encantos de Minas resistem ao tempo. A praça da matriz, o mercado municipal, os catopés e marujos, a orquestra de rabecas, as quitandas, o morro Dois Irmãos...
Estive em MOC pela primeira vez para fazer uma campanha de prefeito, em 2004. Foi assim que conheci Paulinho Ribeiro, um louco bom, um visionário, sobrinho de Darcy. Paulinho foi uma espécie de filho que Darcy nunca teve. Entre milhares de outras coisas, foi o responsável por retirar o tio às escondidas do hospital onde lutava contra o câncer. Quando o fim se mostrou próximo, Darcy decidiu: queria passar os seus últimos dias na casa que Niemeyer construiu pra ele em Niterói, no Rio de Janeiro.
Pelas mãos do Paulinho, entrei na casa em que Darcy se refugiava, uma chácara cercada de verde por todos os lados, nos arredores de Montes Claros. Livros, quadros, objetos pessoais, a varanda da casa, os passarinhos, tudo lá remete a um pequeno paraíso. Uma ilha de tranqüilidade.
Aprendi a ver Darcy pelos olhos e gestos de Paulinho, que hoje é quem cuida do acervo memorial dele. Há uma semelhança física e mental impressionante entre os dois. Um livre pensar e uma pressa em viver que certamente vem da raiz, está no DNA.
Mas lembro com muito carinho também da mãe de Paulinho, Dona Jacy Ribeiro, escritora que foi casada com o irmão de Darcy, Mário Ribeiro. Mario é até hoje um dos prefeitos mais lembrados e respeitados de Montes Claros.
Muitas vezes, em minhas passagens por MOC, fui à casa de Jacy comer picadinho de carne com quiabo e ouvir as suas histórias. Ela é apaixonada por livros e por imagens de São Francisco. Num desses dias, conversando sobre Darcy, ela correu à estante e puxou o livro “Confissões” em que Darcy repassa a sua vida. Cheia de orgulho, abriu o livro em uma das últimas páginas, onde Darcy faz uma declaração de amor à “sua melhor cunhada”, citando Jacy.
Ontem, recebi uma mensagem de Laura Murta, amiga querida, neta de Flor e Zezão, sobre quem já falei aqui. Laura trabalha como assessora da Fundação Darcy Ribeiro, me mandou o convite para a inauguração oficial do “Beijódromo” na UNB. A obra é mais uma dessas idéias alucinantes de Darcy, que João Filgueiras Lima, o Lelé, deu forma real. Um espaço para convivência, para a arte e cultura e, por fim, um espaço livre para beijar. Um beijo universal. A cara do Darcy.
Em sua homenagem, termino este post com um trecho do livro “Confissões” em que ele fala sobre a emoção de escrever e de viver. Intensamente, viver. (Todas as fotos são do acervo da Fundação Darcy Ribeiro)
"Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. (...) Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo. (...) Quero muito que estas minhas Confissões comovam. para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. (...) Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras." (Darcy Ribeiro, Confissões, Ed. Cia. das Letras, 1997, p. 11-12)
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O Brasil quer mesmo é ser louro
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| Foto: Correio Braziliense |
Quem não acompanhou a série de reportagens não sabe o que está perdendo. O trabalho é bom e pertinente. Dá só uma olhada no texto de abertura da entrevista do Marião, resultado do trabalho da jornalista Conceição Freitas.
Em Brasília desde os 17 anos, o pesquisador Mário Lisboa Theodoro, diretor de cooperação e desenvolvimento do Instituto de Pesquisas e Estudos Aplicados (Ipea), mora no Lago Norte com a mulher e dois filhos. Apesar de viver numa região administrativa que tem 80% de moradores brancos, 11% pardos e 1% pretos, Theodoro, negro nascido em Volta Redonda (RJ), nunca sentiu o preconceito. “Talvez porque as casas dão para o quintal, não dão pra rua. Então quase ninguém se conhece”. O que impressiona o pesquisador é a Escola-Classe do Lago Norte, criada para acolher os filhos dos moradores, mas que abriga filhos de caseiros, de jardineiros, de empregadas domésticas e crianças da vizinha Varjão. “É um nicho de crianças negras no meio do Lago Norte. Os moradores têm um verdadeiro preconceito com aquelas crianças. Têm medo de serem roubados. Aquela escola é a cara do preconceito brasileiro.”
A reportagem completa você pode ler aqui. Valeu, Marião.
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