domingo, 20 de julho de 2014

Early Days

Um filme, uma poesia, uma música, uma história universal.
Paul McCartney usa a música e a poesia para contar uma história, que é sua e de John Lennon, mas que também é de cada garoto anônimo que um dia sonhou em montar uma banda.

Neste caso, a história é contada a partir do prisma de dois garotos, do Delta do Mississippi, nos anos 50 do Século passado. Uma região que carrega a raiz do Rock'n Roll e do Blues americanos. E que muito serviu de inspiração para Paul, John e os Beatles.

Early Days é uma poesia musicada sobre o espírito e a inspiração que dois jovens músicos buscam e encontram, um no outro.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O trovão definitivo

João Ubaldo Ribeiro. Escritor brasileiro. 

João.
Meu dia passou.
João, não.

Ficou nas entrelinhas da minha vida.
Renata disse que ele tinha voz de trovão. E tinha mesmo.
Rodrigo disse que bastou um de seus livros para percebê-lo definitivo.

Passei o dia pensando no definitivo da voz de trovão.
João, que entendeu como poucos o povo brasileiro, saiu de cena assim, meio à francesa, sem dar aviso.
Justo ele. Espalhafatoso delicado.

No Jornal Nacional os famosos e os anônimos falaram dele com a mesma simplicidade desconcertante. Com a mesma saudade. Com o mesmo carinho.

João, hoje, virou letra no céu.

Meu dia passou.
João, não.  

(Mercy Street - interpretada por Ritchie, da trilha sonora da Mini-série "O Sorriso do Lagarto", obra de João Ubaldo Ribeiro)

domingo, 13 de julho de 2014

Minas, em mim, não é à toa

Minas em meu caminho, até nas asas azuis
de Milton Nascimento. 

De vez em quando, Minas atravessa o meu caminho.
Dias destes, estive por lá a convite de Rudá Ricci.

Nessas idas, quase sempre me surpreendo quando descubro uma parte de mim, plantada em solo mineiro. Sempre desconfiei disso. E cada vez que volto me reencontro. Pedaços de mim, que nem me dava conta, disfarçados de sabores, de esquinas de música, mas principalmente, de gentes.


Como resistir a esse Belo Horizonte?
Antes de ir, liguei pra Hye Ribeiro. Tem pouso? A resposta foi como uma saudação, um abraço de irmão - Claro! Desembarquei e fui promovendo encontros. Rudá, que me trouxe os filhos, Tiago e Fernanda, a nora e o genro. Eles, que trouxeram amigos chilenos. Eu que os conheci e conhecendo lhes trouxe Hye, que ouvia Rudá pelo rádio sem nunca tê-lo visto pessoalmente. Assim, sem querer, é quase uma poesia de Drumond.

Rudá, eu e Hye. Encontro de uma vida inteira,
repassando histórias de meninos à volta de uma mesa mineira. 
Mesa posta e farta. Comida e conversa. Parecíamos meninos de infância eterna, à volta com o passado e o futuro, desfrutando um presente intangível.

A caminho da casa de Hye, Lourdes lhe telefona. Lourdes vem a ser uma mocinha a quem coube o destino traduzir-se como mãe dele. Mocinha, sim, não importa a idade. Lourdes pergunta por ele e por mim. Quer saber de mim, se sou aquele amigo de quem ele diz gostar tanto. Hye confirma. E ela então, do alto da sua autoridade de mãe, determina - o almoço dele, amanhã, será em minha casa.

canjiquinha e costela de porco
Impossível resistir. Lourdes manda avisar, vai fazer canjiquinha com costela de porco. Hummmmmm!

No dia seguinte nos encontramos. manhã friazinha de outono. Lourdes é uma lady. Me recebe como se fôssemos velhos amigos. Me conduz pela casa que é Minas em tudo. Nos móveis, no estilo, nas janelas, varandas e jardins.
O jardim de Lourdes, onde ela conversa com pássaros, todo fim de tarde. 
Passo com os olhos deliciados pelo meio da casa e chego a um jardim de inverno. À mesa, uma linguicinha frita e pães de queijo me esperam. Lourdes pergunta o que quero beber. Sugiro um vinho, pelo friozinho da manhã. Ela concorda, para em seguida discordar, docemente. Quem sabe a gente começa com uma cachacinha, pra acompanhar essa linguiça e o pão de queijo? Discordância perfeita.

Hye e Marcia, amor antigo de uma vida inteira. 
Não demora, Marcia, o amor de Hye, se junta a nós. E a conversa é sobre tudo. Tudo de Minas. Lourdes percorre as ruas de Itamarandiba, Pedra Azul, Diamantina e Montes Claros, com a mesma naturalidade com que frequenta museus em Paris ou Nova York. Sempre desconfiei que o mundo passava em Minas, antes de ser mundo. A casa e a conversa com Lourdes servem para comprovar minha tese.

Ela fala com desenvoltura sobre Darcy Ribeiro de Juscelino, de Milton, dos marujos e catopês. Revela seus "não gostares". Ah, até hoje eu não gosto daquele menino, o Carlos Lacerda. Ele escreve bem, mas fala muito mal de Juscelino. Lourdes é uma delícia. Não lhe faz importância o tempo ou a idade.

Lourdes, boa prosa e vinho. Minas ali, em pessoa.
De corpo e alma. 
Ao som de um seresteiro por quem ela apaixonou-se na última seresta, e de quem comprou dois discos, esbaldei-me de vinho, de costelinha de porco e canjiquinha. As horas passam. Minas, de vez em quando atravessa o meu caminho. E não é à toa.

Verdade uma ilusão

Porque hoje é domingo.

Quintana do dia


sábado, 12 de julho de 2014

Short Cuts - Diários da Copa 8

"É de patos e piruns"
Saio de casa pro trabalho.
Do caminho, ligo pra Isabel, minha mãe.
Ela atende rindo, numa felicidade dessas que fazem a gente rir à toa, também.

Quer falar um pouco com teu pai? Quero.
Ele também ri. Não sei exatamente por quê, mas os dois estavam especialmente felizes nessa manhã de sábado.

Nuca - eles me chamam assim desde criança - diz o meu pai ao telefone, eu tava aqui pensando sobre o 7 X 0 da Alemanha no Brasil. E na educação dos alemães, que combinaram não tripudiar sobre os brasileiros. Me lembrei de uma história da minha adolescência. Lá na Madre Deus tinha um time de futebol, o Maranhãozinho.

Um dia, fomos jogar na Maioba (Maioba é um bairro de estivadores, em São Luis. Com fama de pouca paciência e de muita violência). Fomos disputar a final de um campeonato: maranhãozinho contra Maioba esporte Clube. Fomos em um caminhão, eu devia ter uns quatroze pra quinze anos. Lembro que o juiz era um guarda civil cujo apelido era "49", nosso amigo.


Com receio de que uma vitória terminasse em confusão, combinamos não comemorar gols, ainda que eles acontecessem. Foi mais ou menos como os alemães fizeram conosco, no intervalo do jogo com o Brasil. Assim foi.

Jogo disputado, pau a pau. Termina o primeiro tempo. Um a zero para a Maioba. Até ai, tudo bem. No início do segundo tempo, o Maranhãozinho empata. Sem um sinal de alegria. Tudo quieto e tenso. A poucos minutos do jogo acabar, o centro-avante do nosso time, o "piloto", fez Dois a um no placar. A vontade de vibrar era imensa, mas quem olhava de fora enxergava a alegria de um velório.

"49" apita o fim da partida. Quietos e calmos, embarcamos no caminhão para seguir viagem. De repente, todos embarcados, João Jibóia, um cara moleque que só, metido a poeta e cantador de toada de bumba meu boi, começa a cantar em voz alta um deboche que era a cara dele: "É de patos e pirum, é de dois a um". Foi a senha pra começar a correria. Ainda bem que o caminhão já estava funcionando e deu tempo de escapar da turma da Maioba.

Meu pai quase não se continha, contando a história e rindo, ao mesmo tempo. Compreendi como se faz uma manhã de sábado feliz.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Holanbra"

Desde criancinha!


Quarta de cinzas

Entreouvido na esquina da padaria onde espero por um café da manhã:

Três amigos caminham.
Um deles pergunta pro outro: e aí, como foi o seu dia ontem?
O perguntado faz um ar de dúvida antes de esboçar uma resposta. 
Ontem? 
Ah, ontem, chorei muito, deitei e dormi.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

La gorda se fue!


Ah, minha “gorda” linda, minha bicicleta. 
Ontem à tarde, alguém a levou, no Campus Universitário. 

Tento convencer-me de que, talvez, tenha sido ela quem resolveu se mandar. Porque era uma bicicleta especial, com personalidade e não ia se deixar montar assim, por um desconhecido qualquer, tão facilmente. 

Afinal, a nossa relação era de longo tempo, éramos amantes fiéis. 
Ou quase...

Minha gordinha... Sinto uma dor no peito ao pensar em sua ausência. Eu reconheço que já a vinha traindo com um outro modelo, mais moderna, mais “magrinha” e com, ufa, 25 marchas de velocidade! Um presente que ganhei do meu grande amigo Eduardo Scott. Bastava subir e ela já disparava, como uma louca pelas ruas, em alta velocidade.

Ramon y su "gordita"
Mas eu gostava tanto da minha “gordinha”… Que é que vou fazer? Éramos tão íntimos, ela sabia tudo de mim e eu dela… Era uma “gordinha” bem solta, sem freios. Para contê-la era preciso mais jeito e menos força. Para conseguir pará-la, era só dar uma pedalada para trás.

Deus queira que o ladrão lhe trate bem e lhe respeite, como eu. Ela não suportaria maus-tratos. Que seja cortes, não abuse dela. Como toda bicicleta-amiga, ela tem direito a um descanso, não é mesmo?  Pois, que a trate bem, então. Que a deixe limpinha, cuide da sua pintura, que não lhe dê solavancos e nem a meta em buracos, certo?


E que a gorda se aproveite dele como se aproveitou de mim, até decidir ir embora! 
Por fim, uma confissão: 
Eu trocaria, sem pestanejar, duas magras pela minha gorda!  

Tradução livre e adaptação de Maranhão Viegas para história real e original de Ramon Rocha Monroy, um dos melhores cronistas que a Bolívia (e, mais especificamente, Cochabamba) já deu. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Short Cuts - Diários da Copa 7

Corações verde e amarelo

*Por Odette Castro
Corações verde e amarelo. E uma pitada de rosa, cor do amor!
Porque é dia de jogo, na casa de Odette e Bia. 


Eu e você assistindo Brasil e Chile. Eu choro ao ouvir o Hino Nacional. Você chora porque me viu chorar. Acho engraçado sua solidariedade. Sempre fiel, minha filha.

Um olho na TV outro nas suas pernas. Elas estão com tantas manchas roxas! Seu braço já mostra o sinal dos meus dedos, que te apertaram hoje de manhã, quando você perdeu o equilíbrio.

Aliás, isto tem acontecido com muita frequência.
Brasil faz um gol. Você grita. Acho que sabe que estamos na copa. É. Tem Copa.
De repente, me lembro das palavras da psicóloga e minha amiga Lilian Viana, quando você recebeu alta do hospital.

"As coisas mudaram um pouco. Você não está voltando para casa com uma criança. Está voltando com uma senhorinha de idade. Os cuidados serão diferentes”.

(Chile faz gol). Você grita também. Não importa de quem. Sendo gol, está tudo bem. Ignoro sua torcida, como ignorei as palavras da minha amiga. Sua mudança de comportamento passou a ser manha. Muito mimo no hospital. A incontinência urinária é para chamar minha atenção. Pirraça.

O jogo continua empatado e você se agita. Anda, cai, pede leite, chora.
Meus pensamentos também estão empatados. Ela está agindo como um bebê ou como uma velhinha com confusão mental?? 1x1.

Bia e Odette
Não dorme mais sozinha. Tenho medo de deixá-la. No meio da noite, me abraça, aperta minha mão. Se enrosca em mim. Não sei se quer, me ou se, proteger. 

Será que age como nos primeiros passos, ou como alguém que está terminando uma longa caminhada?

Angustia. Pela falta de resposta.
Angustia. Pela disputa de pênalti.
Você vibra com a torcida. Eu vibro com você.
O Brasil ganhou o jogo. Você é campeã nata.



Odette Castro é uma grande amiga conquistada no mundo virtual. Ela é mãe de Beatriz, que lhe chegou assim mesmo, carregada de intensidade, de exigências, de suavidades, de experiências e com uma necessidade imensurável de cuidados e de amor. Cuidados e amor, justo os dois produtos que não costumam faltar nas prateleiras da Odette. Meu beijo para Bia e outro especial para Odette.