sábado, 26 de outubro de 2013

Um Mercado Escola

Por Cláudia Girelli*

Claudia Girelli


Confesso, penso sempre em comida. E, na minha mais humilde opinião, são os sabores que fazem a vida ter mais magia. Em Campo Grande, há um lugar que eu adoro especialmente, por me trazer lembranças infantis de um tempo que não volta mais: Mercadão Municipal. 

Mercadão Municipal de Campo Grande- MS
Lembro-me das manhãs de sábado ensolaradas, em que, de mãos dadas, percorria com minha mãe os corredores perfumados daquele enorme pavilhão. Era gente de muitas, muitas cores, e as índias me seduziam de forma especial. Eu adorava, e adoro, aquelas espigas verdinhas que minha mãe levava para casa e depois limpava cuidadosamente para cozinhar na panela de pressão. Eram almoços mágicos com um milho amarelinho untado com manteiga.

Aromas e sabores que temperam a vida. 
Hoje, o Mercadão, cheio de cores, aromas e gostos, é uma verdadeira escola onde vou buscar informações novas e novos ingredientes para as minhas pesquisas. As pimentas são uma paixão para o paladar que busca explosões gastronômicas. As mais fortes vêm curtidas em óleo. As de nível iniciantes são as perfumadas biquinho. Bodinhas, malaguetas, cumaris, dedos de moça. De toda cor e tamanho. Em garrafas coloridas, em frascos grandes ou pequenos. Em forma de molhos, secas ou frescas. Tem para todo o gosto.

O cheiro de óleo quente no ar mistura-se com o cheiro de fumo e das mais variadas ervas mate das bancas. Nem dá para acreditar que eu possa comer um retângulo de 15 cm x 10 cm, frito, às 8H da manhã. É o pecado que ao qual não consigo reagir. Que as nutricionistas todas que conheço me perdoem, mas eu não resisto aquela carninha moida com ovo em massa estaladiça.

Dietas à parte, este é o lugar que há 55 anos reúne de tudo um pouco. Quer carne de qualidade? Peixe fresco? Um frango ainda vivo? Linguiça de Maracaju? Quer ervas para males como erisipela, tosse convulsa ou anemia? Quer um lindo chapéu? Um doce com queijo caipira? Uma vela ou uma fita do Senhor do Bonfim? Vá ao Mercadão porque lá, além de tudo isso, você encontra o sorriso moreno das índias, o olhar oriental na banca das verduras e os sabores da nossa terra.

Geléia de Pimenta


Esta receita é perfeita para acompanhar pratos de carne assadas, queijos especiais como brie ou camembert ou até para um lanche da tarde com um pão de cereais.

Ingredientes
  • 4 pimentas dedo-de-moça sem sementes e picadas (ou menos, se não quiser muito forte)
  • 1 xícara de açúcar
  • 200ml de suco (sumo) de laranja
  • 1 maçã descascada e ralada (ralo grosso)
  • 1 dente de alho descascado
  • 1 pitada de sal

Como fazer
  • Prepare a pimenta utilizando luvas pois a Capsaicina, substância responsável pelo ardor; pode colocar suas mãos a arder.
  • Leve todos os ingredientes, numa panela, ao fogo médio/baixo por 25 minutos, sem mexer.
  • Apague o fogo e deixe-a esfriar. A geléia ganha uma linda consistência depois de fria. 
  • Coloque-a num vidro esterilizado e mantenha na geladeira. 
* Cláudia Girelli é uma amiga de longa data, conhecida em terras pantaneiras. Trabalhamos juntos em produções de TV e em outras lides de comunicação. Nossos filhos cresceram juntos até certa medida. Nos anos 90, Claudinha mudou-se para Lisboa e por lá viveu mais de dez anos. Dai vem o sotaque que se manifesta até na forma de escrever.  De volta à Terra Brasilis, ela passa a colaborar com o blog, com boas receitas e ideias deliciosas. 


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A China é uma viagem


Celso Grecco

Celso Grecco é um dos grandes amigos que a vida me deu. Na semana passada ele embarcou para uma jornada de dez dias, na China. Evidente que eu não pude resistir à ideia de um correspondente do blog no extremo oriente. Celso topou e acaba de chegar de lá a primeira carta/boletim, que prazerosamente, divido com todos vocês.  

Caro Maranhão, 

Você tem muitas razões para vir à China. Mas como vai preferir me falar das razões que te impedem de vir, vou me concentrar nelas e te provar que está errado. 

1. Não tenho dinheiro 


Não é caro. Uma passagem de São Paulo para Pequim, ida e volta, com várias opções de escalas pelo meio do caminho (Dubai, África do Sul, Madrid, Canadá) que você aproveita para passar pelo menos 1 dia na ida ou na volta para conhecer, custa R$ 3.500,00 em 5 parcelas de R$ 700,00. Saindo do mesmo aeroporto e conforme a data, você vai pagar R$ 2.000,00 para ir a João Pessoa, R$ 2.500,00 para Belém do Pará. Em Junho, pagará R$ 3.000,00 para ir de ponte aérea ao Rio de Janeiro. Melhor China...

2. Não falo inglês


Não tem problema, aqui ninguém fala também. Estou num Hotel 4 Estrelas, de instalações muito boas (tem até privada no banheiro), quarto muito bom, tipo hotel de gente viajando a negócios. E ninguém na recepção fala inglês. Nem vou lhe dizer sobre restaurantes ou lojas de Shopping, onde também não se fala inglês. Muito mal, com raras exceções, arranham a língua. Já naquele lugar que vende as camisas Armani de 10 reais e onde você encontra uma legítima loja FERRERRI (Ferrari) completíssima com roupas da escuderia, capacetes, canecas, casacos, canetas, brindes, chaveiros, lembranças, todas elas ostentando o famoso logotipo do cavalinho... ou seria um dragãozinho? Bom, veja você mesmo na foto anexa e tire suas conclusões. 

3. Aprecio arte, mas não a chinesa 


Sem problemas! Vou te levar a uma galeria que exibe reproduções do famoso auto retrato de Van Gogh. De orelha. Veja você, crítico insensível dos chineses, que eles apreciam a arte desde há muito tempo, desde quando Van Gogh tinha orelhas. As duas. Não é fantástico? 

4. Não sei se vou gostar da comida 


Gostar ou não gostar de algo pressupõe conhecer. E disso meu amigo, você estará livre. Porque ao entrar no restaurante, no máximo vai conseguir pedir o prato pela foto. A chinesa vai sorrir satisfeita com o seu pedido e alguns minutos depois, algo mais ou menos parecido com a foto, mas bem diferente, vai chegar na sua mesa. Você vai experimentar e continuar desconhecendo, cada vez mais, a comida que pediu. Não tem sal, nem saleiro que possa pedir. Há algo ali boiando que você juraria que é a orelha do Van Gogh, mas péra lá, se ele estava com as duas conforme você mesmo testemunhou no quadro que acabou de ver, deve ser outra coisa. Não seja preconceituoso. Tente conhecer a comida antes de formar uma opinião sobre se gosta ou não. Como vai demorar para conhecer, pense em outra desculpa. 

5. Acho a filosofia chinesa complicada


Outro mito. Aprendi um ditado famoso na China, ensinado com muita reverência e que diz: "Quando chove, chove". Que simplicidade! Que clareza! Que beleza! Não me recordo o nome do sábio que proferiu a frase, mas parece que é o mesmo autor de "quando é de noite não tem sol" e "quando entra na água, molha". Essas duas últimas um pouco mais complexas, reconheço. Mas ainda estou inebriado pela primeira enquanto procuro entender a segunda e a terceira. 

Enfim meu amigo, a China é uma Viagem, literalmente. Se der mando mais notícias. 

Abraço, Celso.

O acaso do dia


A cor azul do dia em nada combina com o meu estado de espírito. Lá fora, o dia brilha. Em mim, internamente, o tempo é de chuvas e trovoadas. Dessas tempestades que se assemelham a furacões. Que, por onde passam, vão deixando a terra arrasada.

Apesar dessa convulsão temporal interna, a vida exige equilíbrio, sob pena de se perdê-la. Então, recorro à belezura externa do dia para alcançar um mínimo possível de equilíbrio interno. O que dê pro gasto. O que me leve até a virada do próximo dia.

Maria, a caçadora.
Na saída de casa, cruzo a parede de vidro que compõe a divisa entre a sala e o jardim e quase piso em um pássaro estendido ao chão. "A Maria, atacou de novo..." penso comigo, atribuindo aquela imagem a mais uma das investidas da lhasa apso que temos em casa e que, volta e meia, testa o seu instinto de caçadora em passarinhos desavisados.

Percebo que não é um pássaro comum. É um beija-flor. E dos grandes. E percebo mais, ele não está morto. Esqueço o resto. Esqueço a tempestade interna. Clareio o dia diante do acaso. Diante da possibilidade de entender o que aconteceu a aquele pássaro e de salvar-lhe a vida.


Solto minha pasta, a chave do carro, largo tudo. Me abaixo e o apanho com a mão. Sim. ele está vivo e assustado. Paralisado. Presumo que ele tenha sido enganado pela imagem refletida do vidro. O que pensou ser um pedaço de céu, era uma parede de vidro. E o choque, em pleno voo se transformou em acidente de percurso.

Ele já teve sorte demais. primeiro por estar vivo. Depois, por ter ficado um bom tempo na calçada de casa, sem que a Maria percebesse. Carrego-o até o bebedouro. Vejo aquela delicada língua se mover, num vai-e-vem típico dessas aves. Ele abre os olhos. Bebe mais água. Volto pro jardim pensando em colocá-lo protegido, numa planta com flores vermelhas que eles adoram.

Hora do descanso.
Me lembro que, bem ao lado existe uma árvore em que eles costumam descansar, depois de suas rápidas investidas nas flores. Aproximo a minha mão de um dos galhos. Abro a mão e ele começa a bater assas, como um pequeno helicóptero, parado no ar. Zás! Dispara por entre os galhos. Ganha o muro azul e pousa.

Fica me olhando enquanto eu também o encaro. Eu lhe salvei a vida. E ele sem querer me salvou o dia.  


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sensações

Foto: Andres Alem

Presto atenção em tudo.
Na chuva, lá fora.
No barulho do freio.
Na mulher triste, sob a árvore.
Prestar atenção em tudo
faz parte das minhas manias.

De tudo, concluo pouco:
Uns retalhos de tarde,
umas nesgas de lua,
nuvens que demoram a passar,
vaga-lumes espalhando 
picos de luz verde, a esmo.

Juntando tudo, me vejo com o necessário.
Que mais preciso?
Que o dia se ponha, manso.
Que as horas passem exatas, inteiras.
Que o olhar encontre o horizonte
com a certeza de que o amanhã
virá outra vez.

Carregado de beleza crua.
Repleto de incertezas vãs.
E com, pelo menos, uma pitada
de esperança.

A vida, assim, me basta.

Poesia escrita originalmente para a coluna "Olhar Poético", que assino semanalmente, no Blog Hoje Vou Assim, da Cris Guerra.