sexta-feira, 15 de março de 2013

Maria, minha companhia


Todos os dias, saio pra correr bem cedo e Maria me espera.
Quando retorno pra casa, ela me recebe balançando o rabo.
Uma coisa incontida.
Felicidade à toda prova.

Me rodeia de alegria, essa Maria.
Pego o colchonete, faço abdominais.
Maria me espreita.
Me seca.
Até não resistir.

Quando cede ao impulso, Maria me lambe
o braço, num ritual de fidelidade canina
Que eu não demorei a traduzir.

Maria Dorotéia, aquela bola de pelo
inundada de alegria,
e seu amor de lambida e rabo balançado
é uma das grandes responsáveis por melhorar
a qualidade do meu dia.
Não importa se de chuva ou de sol.
O amor de Maria não tem preço. 



Betha, Betha, Bethânia

Havia tempo, ela não vinha por aqui. Falo com a intimidade dos que nunca a tiveram por perto, mesmo estando sempre a poucos passos dela. Ouço Maria Bethânia desde que me entendo por gente musical. Desde que Carcará, de João do Vale, ganhou uma versão definitiva em sua voz. Hoje, acordei com ela.

E sua voz me fez viajar distante. Me lembrou de tempos idos. E sua música, e sua fé, e sua devoção, neste disco de 2010 dedicado à Dona Canô, sua mãe, fizeram o meu dia de hoje nascer com um pouco mais de esperança. Maria Bethânia, Balada de Gisberta.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Dia de poesia


Todo dia é dia de poesia. É como penso. Mas hoje, independente do que eu possa pensar, é dia de poesia pra todo mundo. Não sei quem assim o instituiu, mas diferente do ditado que diz que todo excesso prejudica, o excesso de poesia não existe. Em qualquer quantidade, em qualquer medida, a poesia sempre encontrará espaço pra deixar a vida mais leve e bela.

Portanto, como amanheci o dia sendo delicadamente lembrado por gente querida, que sabe da minha paixão por poesia, venho aqui agradecer tanto carinho.

E recorro ao meu poeta mais próximo, Manoel de Barros. Dele, me encantam as invenções de mundo, o universo lúdico que transforma as palavras em seres vivos e lhes atribui novo sentido. Quase musicado. Sempre carregando, na essência, a alma das tantas crianças que Manoel traz dentro de si.

Neste dia da poesia, recorro a uma auto-definição. Manoel por ele mesmo. Poesia pura. Como só havia de ser. Viva Manoel. Viva toda a poesia!


Manoel por Manoel


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. 
Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. 

Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
 Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. 

Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
 Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. 

É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Amanhã talvez

Logo ali, depois da Lua ali. Porque o dia já vem chegando. E esse temporal vai sair do caminho. Por hoje é só. Vou deixar passar a tempestade. Mar azul, água pura e toda a verdade!

Céu azul e sem nuvens. Depois da curva ali. Pouca Vogal. Pra fechar o dia e abrir outro.

Na madrugada

Há dias em que a insônia bate. Nestas horas, não se deve brigar com ela. Sei das razões porque bate em minha porta. Abro e a deixo entrar. Inimiga cordial, senta-se à minha frente como espelho indesejado.

A um descuido dela, me retiro à francesa. Corro para a minha janela virtual. Vasculho a internet em busca de algo que me faça torná-la útil. Visito blogs que gosto. Encontro o de Fernanda van der Laan. Uma porta aberta para o bom gosto e a sensibilidade. Lá dentro, dou de cara com Diane Birch.

Música pra ouvir e vencer a insônia. Take my hand and go way, please! (Suplico em silêncio, sem fazer um ai) Com delicadeza e elegância. Porque o dia ainda nem terminou e já está prestes a começar outra vez. Fecho os olhos e viajo de volta pra onde nunca fui, caminho com desconhecidos íntimos. Hora de dormir. Sonhar, pra depois acordar. Superstars.

terça-feira, 12 de março de 2013

Fotolata do Zé Rosa



Dias destes, Mauro Di Deus me chamou em sua casa. Lá, além de bom vinho e boa prosa, encontrei um outro velho/novo amigo. Zé Rosa. O Zé do projeto Fotolata.

Zé é um desses adoráveis malucos que insistem em achar sentido para a vida nas coisas simples. Simples como decifrar os mistérios da fotografia para as crianças e jovens. Simples como fazer mágica a partir de um buraco ínfimo, feito em uma lata comum. Simples e primitivo, como a capacidade de imprimir imagem a partir de um filete de luz. E guardar para sempre um registro do tempo.

As crianças que aprendem com o Zé nunca mais esquecem o que aprenderam. Nunca mais se desapaixonam. Alguns até viram fotógrafos de verdade. Por paixão. Por vocação descoberta ao acaso e na hora certa. 

Ze Rosa é um velho/novo amigo carinhoso. Do vinho que bebemos juntos brotaram imagens como as que ele fixa através das suas latas. Que não sairão mais da minha mente. Zé, que ama a fotografia, também tem o dom de amarrar as suas imagens preferidas da Brasília dos velhos tempos. Da Brasília que ele encontrou quando desembarcou por aqui. 

Uma delas, não preciso dizer, das mais lindas, ele me deu de presente e enfeita agora o meu lugar de escrever. pra eu nunca esquecer da Brasília do Zé. Pra eu nunca esquecer do Zé, da lata, do poeta da imagem. 


Da lata, do Zé. Inspirando o meu lugar de escrever.
Ontem, abri o jornal e encontrei o Zé, suas latas e seus meninos e meninas. Um pedaco da reportagem do Correio Braziliense está ai embaixo. Vale ler. Pelo Zé, por suas latas, por suas imagens e pelos fotógrafos que ele descobre e vai continuar descobrindo, enquanto lata houver. 

Câmera primitiva é atração principal das aulas
de física em escola rural
Projeto no Centro de Ensino Incra 8, em Brazlândia, usa técnica primitiva para estimular os alunos a olhar e retratar o mundo em que vivem. Em um trailer, é possível revelar imagens
O fotógrafo José Rosa, idealizador do Fotolata, com os
estudantes: projeto é financiado com verba do MEC

Nas aulas de física e de química dos alunos de uma escola na  região rural Incra 8, em Brazlândia, nada de livros, equações e calculadora. Em vez disso, uma lata de alumínio pintada de preto com um pequeno furo na lateral. No interior, um papel especial sensível à luz. Dentro do espaço de menos de 7m2, os estudantes agrupam-se para receber as primeiras lições sobre fotografia por meio da técnica conhecida como pinhole. Ao mesmo tempo, eles aprendem sobre noções de ótica e experimentam revelar fotografias utilizando reagentes químicos.


“Mais do que se apropriar de técnicas da fotografia, eu ensino os alunos a exercitarem o cérebro, a abstrair”, explica o fotógrafo José Rosa, idealizador do projeto Fotolata, que desembarcou no Centro de Ensino Fundamental Incra 8 desde a semana passada e deve ficar na escola até amanhã. O trailer, na entrada do colégio chama a atenção dos curiosos. Lá dentro, funciona uma câmara escura: um verdadeiro estúdio fotográfico onde pode-se tirar e revelar fotos. “É uma máquina fotográfica gigante”, descreve José.

A entrevista completa vc encontra na edição de segunda-feira, 11 de março, do Jornal Correio Braziliense. 

Valeu, Zé. E por falar em lata, essa ai vai pra você, pras suas latas, poeta da imagem! grande abraço.


domingo, 10 de março de 2013

Short cuts de domingo

Duas histórias de amor
Por Mariza Poltronieri*

História um


Seu Alinor está trabalhando e namorando. Uma notícia tão comum não fosse ele um homem de 83 anos.

Dona Hilda, mãe da Ghy, faleceu em novembro do ano passado. Amargando tristeza e culpa seu Alinor decidiu ficar na casa onde viveu com ela. Passadas as festas de fim de ano, iniciando 2013, seu Alinor decidiu viver. Voltou à imobiliária de onde se aposentara e está em atividade, como corretor que é.

No prédio onde faz plantão conheceu a moça da portaria, uma mulher de 58 anos. Rolou paquera, troca de sorrisos, ele está encantado. Como a vida pede agora, convidou-a para morar com ele. A urgência é a resposta ao senhor tempo.

Não dá mais tempo pra ser feliz depois.

História dois

As alianças
Gabriel, filho da Heloísa, vai pedir em casamento o namorado Daniel, neste sábado. Para isso, comprou belas alianças e fará um flash mob num bar local. A Maria Glória fez a coreografia sobre a música “Exagerado”, do Cazuza e está ensaiando os amigos de ambos, através de vídeos pelo youtube e também na academia.

Daniel mora em Petrópolis e os amigos de lá virão em segredo para Maringá. Ele não sabe de nada. Cerca de 50 pessoas participarão desta declaração de amor, inclusive eu. Será tudo gravado, com direção e arte de Maurício Borges, presente de noivado.

Gabriel tem 24 anos, quer ser feliz agora, também quer ser feliz depois.

Duas histórias de amor, escolhas pra hoje, porque a vida é linda a qualquer tempo.

* Mariza Poltronieri
Mariza Poltronieri 
é culinarista em Maringá. 
É filha de Olívia. 
Mãe de Fernanda e Vinícius. 
Escreve aqui no blog sempre que quer 
e sobre o que quiser. 
Hoje, escreveu duas 
curtas histórias de amor.
Porque o tempo, como
dizia Cazuza, 
o tempo não para.