Chove lá fora. O dia termina com ar de cansaço. Nada de novo no front. O telefone toca. Estás em casa? Estou. Vou ai te deixar um pacote de farinha que trouxe do Acre. Venha.
Quem não conhece a farinha do Acre pode estar-se perguntando: E daí? Dai que a farinha do Acre não é do Acre. É dos Deuses. Principalmente aquela, feita em Cruzeiro do Sul e temperada com Côco.
Meu irmão chega, com a farinha. É rápido. Só pra deixar o pacote. Mas tem uma taça de vinho. Tá bem. E tem prosa. Tá bem. E tem bacon. "Guentaí" que eu vou fazer uma farofa. Não, o povo tá me esperando em casa. Nada, sô. "Guentai" que sai já uma farofa.
Ligação pra casa, pra a mulher liberar um tantinho a mais de tempo. O tempo de comer a farofa e beber mais uma taça de vinho. Prometo mandar um pouco pra ela. Green card. Farofa, vinho, prosa boa. Tem coisa mais besta e deliciosa do que isso, feito assim, ao acaso, sem combinar?
Mariana e o instagran resolvem registrar. Hoje em dia, nem farofa escapa da rede. Valeu, "mermão". Quando quiser, venha. E traga mais farinha do Acre.
Há um tipo de encontro que a gente não escolhe. A vida nos faz trilhar esses caminhos. Às vezes, cedo, às vezes, mais tarde. Na maioria das vezes, no tempo certo. Hoje, foi assim. Recebemos Edival e Bárbara. Velhos novos amigos. Numa cena de encontro e partida.
Eles se juntado em uma caminhada comum. Nós, partindo de um canto para o outro. Domingo, fim de tarde, grama verde, muro azul, pizza e vinho.
Boas histórias que não devem ficar só nisso. Na Bahia, em Montevideo, ou em qualquer lugar do mundo. A gente ainda se encontra.
Desde pequena Mariana sempre demonstrou ter ouvido musical. Ainda na barriga da Mara ela ouviu as primeiras músicas que eu escolhia. Já do lado de fora, ouvia Egberto Gismonti, Milton Nascimento, Louis Armstrong, Bach e Vivaldi, no fone de ouvido, e se acalmava. Mariana cresceu cercada de boa música.
Argumentando
Mariana sempre foi uma menina "perguntadeira". Queria saber o porquê de tudo. E assim foi que a curiosidade dela já a levou muito longe, mesmo pequena. Ela sempre fez questão de argumentar. Mesmo nos lugares e nas situações mais inusitados.
Senta que lá vem pergunta
Nos fins de semana, quando eu parava pra ler jornais, ela vinha. Se acomodava em minhas costas, do jeito que mais gostava. E começava o "trololó".
Sempre, uma questão por esclarecer
Quando a gente ía pro campo, no meio do rio, com água batendo por todos os lados, não importava o lugar, ela sempre teve algo para perguntar.
Perguntando. Na planície ou na montanha.
Foi assim também quando a gente vagava nos campos, ao pé da Cordilheira dos Andes. Ela aproveitava o meu cangote e perguntava.
Enfrentando o primeiro "monstro"
Até quando enfrentava seus medos, ela perguntava (ou tentava argumentar). O primeiro confronto com um "monstro" galináceo, chegou a produzir, por algum tempo, um pequeno trauma. Mas Mariana venceu o medo e as galinhas.
Cantarolando
Quando não estava perguntando, Mariana estava ouvindo música ou cantarolando. Foi sempre assim. Desde pequena.
Ainda há pouco, tive a prova exata de que o amor pela música, que habita em mim, também invadiu sua alma. Ela chega da rua e me vê sentado em frente ao computador. Eu ouço uma música. Ela elogia. Me abraça. Espera a música acabar.
Enfia o dedo nos teclados com a agilidade que só esses meninos modernos têm. E seleciona um clip no You Tube. Já viu isso, pai? É Golye. É lindo! E a música toca. É linda mesmo. Ela, quase uma cineasta formada, vai explicando coisas do clip também. Sobre como a filmagem foi feita, as técnicas utilizadas, etc. (Veja o vídeo ali embaixo).
Depois, pergunta: Você conhece Janelle Monáe? Respondo que já vi algo. Ela seleciona outro clip. (Também dá pra conferir ali embaixo) Fico olhando e pensando. Um dia, fiz isso com ela. Mostrei-lhe as coisas do meu gosto. Ajudei a formar o seu gosto musical. Hoje, sou um apreciador da "Playlist" da minha filha. Ouço as músicas que ela me mostra e me acalmo. Por fim, chego a uma conclusão: A música vai ser sempre uma ponte entre os nossos mundos.
Difícil pra nós aqui, do outro lado do Atlântico, imaginar um trio português de blues, de soul music ou funk. Mas os caras existem na forma do The Black Mamba e não fazem feio. Pelo que leio, Pedro Tatanka (voz e guitarra), Ciro Cruz (baixista) e Miguel Casais (baterista) estão juntos desde 2010. A junção do três ganhou força no circuito de apresentação dos bares lisboetas e não houve mais o que os segurasse em suas viagens musicais. Agora há pouco, no início de maio, lançaram o primeiro disco de onde se pode comprovar a boa qualidade do vídeo "It ain't you", single de trabalho do grupo. Blues português de primeira qualidade. Aumente o som.
Al otro lado del Rio. Jorge Drexler. Uma canção, aí sim, para fechar a noite de sexta.
Há um rio por atravessar. Do outro lado, creio ter visto uma luz. Sobretudo, creio que nem tudo está perdido. Uma voz, um suspiro. Remar, remar, remar. Até o outro lado do rio.
Em 1977, meu avô, Opílio Viegas, me chamou para acompanha-lo em mais uma viagem de ônibus. Eu estava prestes a completar 15 anos. Desde que meu pai fora transferido para o Paraná, em 1970, "seu" Opílio não abria mão daquela viagem anual de retorno a São Luis do Maranhão. E eu, neto mais velho, era sempre escalado para seguir com ele.
Para mim, era uma aventura fantástica. Cruzar o país em quase 80 horas seguidas, ininterruptas, de ônibus, tinha um sabor especial e, creio, foi o que plantou definitivamente em mim um certo espírito "cigano", uma vontade incontida de estar sempre buscando um outro horizonte. Eu esperava ansioso cada nova partida. Mas, naquele 77, a viagem foi marcante.
No dia em que desembarcamos em São Luis, meu tio Zé, irmão de minha mãe, e minha tia Belinha, mulher dele, questionaram o meu avô sobre a possibilidade de minha permanência por mais tempo em São Luis. Eles queriam que eu ficasse morando lá para iniciar os estudos do que, à época, se chamava Colegial (antigo Ginásio). Os meus olhos brilharam diante da possibilidade. Fiz um silêncio sepulcral, mas um furor contido me tomou de assalto e pedia que eu gritasse de vontade de ficar.
Meu avô, homem prático, disse não ver problema. Mas condicionava a decisão à autorização de meus pais. Resultado, fiquei. Foi a minha primeira aventura individual. E foi uma época de descobertas juvenis.
Década de 70.
Eu, pouco mais
que um menino.
Meus tios moravam no "Beco do Seminário", atrás da Igreja de Santo Antônio, região central de São Luis. A rua era pequena, um beco mesmo, e todo mundo se conhecia. Lá, fiz os meus primeiros amigos depois da infância. Conheci Maria Tereza, minha primeira namorada. Descobri que a distância que me separava da Madre Deus - bairro onde eu nasci - e dos meus amigos de infância, era nada. E muitas vezes fiz a pé o trajeto entre o Centro da cidade até lá para reencontrar e conhecer de fato as minhas origens.
Mas havia a novidade do colégio novo, dos amigos novos e... da Discoteca! Em plenos anos 70, o "Disco Club" invadia o mundo e o Brasil, de Norte a Sul. E a ilha de São Luis não estava isenta dessa invasão. Então, havia bumba-meu-boi, quadrilha de São João, havia a Turma do Quinto, manifestações populares de raízes telúricas, mas aos sábados à tarde, nada me desviava de boas horas de saculejo numa discoteca que ficava no lado Oeste da ilha, bem diante da Ponte de São Francisco. A memória me trai e eu não consigo lembrar agora o nome daquele lugar.
Ponte de São Francisco - São Luis - MA
Lá, acompanhado por Maria Tereza, por Patrícia Weber, por Ebínio e Marcio confirmei que dançar é essencial à vida. Repartíamos um gim/tônica ou uma Cuba-libre, era o máximo que se permitia. E sacodíamos todos, juntos ou separadamente, num baticum interminável por horas e horas... Até as nove da noite.
Donna Summer, rainha das velhas tardes, na discoteca.
Ontem, surpreendido pela notícia da morte de Donna Summer, me lembrei de tudo isso. Donna era a rainha das nossas tardes/noites de discoteca. Sua música, associada aos efeitos das luzes estroboscópicas, era o clímax de toda festa dançante. "I feel Love" era a nossa preferida. Longa, limitada, repetitiva, mas maravilhosa pra dançar. Pelo menos, naquela época.
Hoje, pensando nisso tudo, percorro mentalmente cada uma das ruas da minha cidade. Como numa das viagens de retorno do meu avô a São Luis. Por alguma razão, tenho mais claro agora a intensidade do sentimento que o fazia voltar sempre à nossa ilha.
Enquanto espero que o tempo mude, leio, escrevo penso e vago na vaga do vento. Seria doença, isso que sai pelos meus pés? Sei lá. Penso que não. Sei apenas que sai de meu corpo um resto sangue que já não é meu. E se quer sair, é melhor que vá. Eu espero passar. Pacientemente, espero.
Tarde de esperar. Esperança. Tarde de se acalmar diante do nada. Tarde de reparar. Nada mais. Aproveito as horas pra me fazer forte. Visito os sertões de Rosa. Bebo da terra Brasílis e descubro um país recém nascido. Me reencontro com as imagens de menino de escola. Reconheço nomes e datas. E tudo adquire sentido novo, viçoso, pra mim.
Salto do livro ao vídeo. Sem por os pés no chão. Meus pés, por determinação, se mantêm no alto. Nada que me vire a cabeça. Eles, assim, apenas me fazem mais lento no andar. Na mente, ah... Aí, é quando eu alcanço as estrelas.
Recorro a Fernando Pessoa e um dos seus heterônimos, Bernardo Soares. Bernardo também sou eu. Eu já disse aqui. Quando eu nasci, minha avó queria que eu me chamasse Bernardo. Talvez por isso, o Bernardo de Manoel de Barros seja tão recorrente. Agora, entretanto, me refugio em outro. Outro Bernardo. O de Pessoa. Pra dizer que não sei quantas almas tenho.
Não sei quantas almas tenho
cada momento mudei
continuamente me estranho
Nunca me vi, nem olhei
de tanto ser
só tenho alma
Às vezes, sou o Deus
que trago em mim
e então, eu sou o Deus
e o crente
e a prece
e a imagem de marfim
que esse Deus esquece
Às vezes, não sou mais que um ateu
O mundo rui
ao meu redor
Os meus sentidos oscilam
bandeira rota ao vento
busca um porto longe
uma nau desconhecida
E esse é todo o sentido
da minha vida
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Na vaga de minha mente há uma trilha sonora. Me ajuda a enfrentar o hiato entre o ser e o estar. Porque eu sou, hoje, não mais do que um pensador. Penso, logo resisto. Insisto e nisso enxergo poesia e razão pra seguir. Pensando, me visto, me guardo, me preservo. A poesia me renasce.
Das coisas que esse tempo imposto me deu, gostei de reencontrar Maria Bethânia. De vê-la quase Canô. Na imagem e semelhança de sua mãe. Com a voz preservada de menina. Com a altivez de quem pode, sim, dizer uma ameaça doce - Não mexe comigo, eu não ando só. E numa carta de amor, encher minha tarde/vida de alegria e cor.