domingo, 22 de março de 2020

Sobre sonhos e pesadelos

Resultado de imagem para o mundo

Visto daqui o mundo parece ter diminuído. À medida de uma gota. Perigosa gota. Visto daqui meus olhos enxergam um susto, um surto, um monstro. Como naqueles pesadelos de criança. Como nas noites de vento frio e falta de cobertor. 

Naqueles tempos, a monstruosidade assustava em sonho. E acabava no exato momento de acordar. Um segundo antes de o pior acontecer. Puf! A realidade vencia o medo. Ficava o espanto, que a gente dava conta de aturar. E com o passar do dia, o espanto ia ficando pequenininho, pequenininho, até sumir. À noite, na nova noite, não havia monstro, não havia pesadelo, o sono voltava ao normal. 

No hoje de agora, o sono pesa, custa a chegar. Dormindo não se descansa, acordado nos falta a paz. Nossos monstros de agora são tão reais quanto invisíveis. Dormir e acordar já não serve para espantar o que nos assombra o tempo todo. Monstro voraz que nos alcança em todo lugar. 


Está em nós, entretanto, alcançar o que ele não alcança. Tolerância. Aquilo que perdemos há algum tempo. Paciência, que ficou esquecida, sem valor agregado já faz hora. Leveza, que nos pesa de tão pesados.

O que o mundo uniu em velocidade instantânea, o que levou tanto tempo pra ser alcançado, nesse começo de século se perdeu como em sonho assombrado de criança, que não consegue se ver livre dos monstros, mesmo quando acorda. 

O que antes parecia unido e forte, for perdendo vigor, valor, valia. O ser humano virou bites. Mais zeros do que uns. Numa batida imperfeita e veloz, a imperfeição tomou conta do espaço sem dar permissão a desejos de sanidade. Insanos, nos tornamos estranhos. Monstros de nós mesmo. Nem dormimos , nem acordamos. Monstruamos. 


E agora, que a vida é posta em cheque, resta reconhecer o labirinto que construímos e perceber que não há saída à vista, se seguirmos sós, se insistirmos na solidão das nossas verdades absolutas, brutos, arrogantes, ignorantes.   

Achar o rumo, encontrar a saída, acordar do pesadelo adulto em que nos metemos exigirá humildade. Despidos dessa volúpia fugaz que nos envolve, a cada um e a todos, é capaz que se encontre uma nesga de luz. 


Antes, porém, haverá dor. Uma dor que não somos capazes de medir, a não ser quando nos alcança bem perto do peito, no fundo da alma. O mergulho que nos espera, dolorido e sem norte, é também o que nos levará a uma nova consciência. 


Quem sabe, uma descoberta da urgência infalível – corpo que pede espírito. Alma que transcende ao tempo. Matéria em fazimento orgânico de um nascimento novo, aprendendo a ser humano. De novo. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O sertão em forma de poesia


Quando ele nasceu, seu pai achou por bem lhe atribuir nome de apóstolo e de descobridor. João Cabral. Um menino predestinado? Talvez. Talvez, venha dai a poesia intrínseca, capaz de transformar a pobreza das gentes em riqueza essencial para a alma. 

O menino com nome de apóstolo e de descobridor honrou em vida suas duas joias de origem. Apostolou poesia sertaneja. Universalizou a dignidade humana com traços fiéis do Brasil mais profundo. Descobriu que podia ser muitos, sendo um só. E traduziu em seus versos o olhar que faltava para preencher de vigor o que o mundo só enxergava pela janela da tristeza e da dor.

Há cem anos nascia João Cabral de Melo Neto. Poeta brasileiro que desenhou, como poucos, o sertão em suas linhas tortas e certeiras.  

Vinícius de Moraes (esquerda) e João Cabral, em Paris, 1964.
Foto de Pedro de Moraes para o livro "100 anos de poesia".

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Olhar avesso



O teu olhar e o meu
veem a mesma direção

O teu invade o guardado
O meu já sabe que não

Vista de longe a paisagem
Viagem na contramão
Esfrego os olhos aflito
recorro à intuição

Ei, sujeito, se emende
Abra o olho, ele te mostra
O olhar que tens aí dentro
Já encontrou a resposta

O olho fechado é cego
O olho aberto é clarão
Pra um olho que inveja o vento
Ventania é furacão


Marcos Mendes e Maria Cláudia me deram um presente de início de ano: musicaram o meu poema. Motivo suficiente para acreditar num ano melhor do que o que se foi. A música vem logo ai, embaixo.  Meu silêncio explode internamente. Agradecido.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Haicai da indecisão





Tantos caminhos 
o mar aberto em mim
pra onde seguir?

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Bacurau, Brasil


Bacurau (Brasil, 2019, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) é o filme brasileiro que deve fazer Tarantino se perguntar “Como não fui eu que fiz”? Há nele uma história densa, de um Brasil profundo e real. Daquele Brasil que Glauber Rocha encontrou com sua câmera nervosa no sertão nordestino do Século passado. Ou, que Nelson Pereira dos Santos gravou com poesia árida, no mesmo sertão brasileiro. Mas tem mais. Não há luxo em identificar traços de Hitchcock, nem exagero em perceber suspense extraído da mesma fonte onde bebeu de John Carpenter.

Não é pouco, portanto. É muito e isso é bom.

Ele estreia nesta quinta-feira, 29.08, nas telas nacionais. Dias atrás, consegui vê-lo em pré-estreia. Por um lance de sorte. O meu tempo não coincidia com o das sessões do filme que originalmente planejava ver na noite de sábado. Para não perder a viagem passei os olhos nas alternativas e percebi que ainda havia uns poucos lugares, nas fileiras que ficam quase embaixo da tela, para a sessão de Bacurau, a primeira a ser exibida no Cine Cultura, aqui em Brasília.


Lá fui eu, sem saber o quê esperar de fato. Havia um frio em minha barriga. Pelo que já tinha lido, pelo resultado em Cannes, pelo receio do que veria. Esse tempo de incertezas faz a descrença virar sombra da gente. Mas já nas primeiras cenas fui seduzido por um roteiro porreta, uma direção ao mesmo tempo bruta e delicada e uma história que me sequestrou do mundo lá fora e me fez embarcar de corpo e alma na viagem para Bacurau. 

Bacurau é um lugarejo qualquer na imensidão de terra seca do Nordeste Brasileiro. O sertão que leva a Bacurau é muito parecido com o sertão de Big Jato (Brasil, 2016, direção de Claudio Assis), outro filme que carrega a brutalidade poética nordestina sem filtros (e que merece ser visto, caso o leitor ainda não o tenha feito). Há semelhanças e diferenças.

Um caminhão, por exemplo. 

O limpa-fossas, de Big Jato.  

Em Big Jato, o caminhão que trafega em meio à paisagem árida é um limpa-fossas, que recolhe esgoto dos outros, enquanto espalha odor de merda na vida de um pai que varia entre a honra do trabalho e a descrença na poesia da vida. Junto do pai, na boleia do caminhão, um filho adolescente cuja vivência oscila entre a rudeza do pai e a alucinação poética do tio. O menino tempera a merda da vida que leva com o cheiro perfumado da poesia.  

O caminhão de água potável, na entrada de Bacurau.
Foto: Divulgação, internet.  
Em Bacurau, o veículo inicial é outro. Não por acaso, é um caminhão de água potável que, além de matar a sede do povoado, traduz um ponto de referência, uma preciosidade do local. Traz água mas também traz notícia e traz gente. Nele, uma mulher volta à sua origem para viver o velório de sua avó, uma líder negra local (interpretada por Lia de Itamaracá). Ela tem emoção nos olhos e remédios na mala. Ela é filha de um professor, negro, digno, envolvente, visionário. Bacurau é um lugarejo onde a escola e o museu ganham importância maior que a igreja.  Big Jato é utopia. Bacurau é distopia. 

Cena do filme Bacurau
Há um latente espírito de solidariedade e tolerância entre os locais. A pobreza e o isolamento não são motivos para ignorância. O povo ali retratado tem o que virou moda chamar de “inteligência emocional”. Divide as mazelas, se identifica na dor e na alegria compartilhada. A vida no sertão não lhe tira o humor e espanta qualquer sentimento de menos valia. Em resumo, aquela gente é símbolo de resistência já cantada em verso e prosa. Por Luiz Gonzaga ou João Cabral de Melo Neto. Por Suassuna ou Guimarães Rosa. 

Lunga, o herói bandido ou bandido herói é digno da personalidade ambígua. É um lampião trans. Nem super-homem, nem mulher maravilha. Volta da reclusão para ajudar seu povo a resistir a uma invasão gringa. Nas palavras do professor (da cidade que não tem padre) ele não devia parar de escrever. Em Bacurau, Lunga reescreve sua história com suor e sangue. E ajuda a cidade a não sumir do mapa. Melhor, ajuda a cidade a ser o que é. 

Bacurau é sertão e é Brasil. Quem não viu precisa enxergar.  

Kleber e Juliano. Os diretores.
Foto: Divulgação
PS.: Não é preciso falar do vigor da música de Geraldo Vandré, da grandeza da imagem de Sônia Braga, nem da vitalidade dos atores anônimos que dão corpo ao filme. 


terça-feira, 20 de agosto de 2019

O tempo por testemunha

Cora Coralina
Faz cento e trinta anos, nasceu uma menina bem por ali, pelo sertão de Goiás, no coração do Brasil, num lugar onde o tempo se encarregaria de transformar cidade em sinônimo de poesia.  Faz cento e trinta anos. 

Não havia, naquele tempo, quem previsse se ia chover ou não. Não havia mais do que o barulho de pássaros anunciando a manhã e o rumor do rio em movimento lambendo as pedras. 

Havia apenas a certeza de um novo nascimento. 

Faz cento e trinta anos e o tempo, testemunha desse milagre, parece não ter passado quando se pensa em poesia.  A janela da casa velha da ponte, segue aberta. Ainda dá para o mesmo horizonte que viu a menina Aninha nascer. 

De lá daquela janela, a menina que se fez Cora Coralina, segue impregnando quem quer que se aventure a lhe enxergar com o sabor doce dos seus poemas. 
Agora mesmo, nesse exato momento, como cento e trinta anos atrás. 

Tendo apenas o tempo por testemunha.   

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O minimalismo da esfera de Magó


O público ocupa o palco. Uma roda de espectadores se forma diante de um pequeno círculo. A gema do palco/ovo/célula. Dentro dele, nada. O silêncio e o escuro. O que virá dali é uma incógnita. 

Um facho de luz se acende e revela um pêndulo cuja ponta é uma esfera perfeita. O escuro do ambiente cria a ilusão de aproximação. O silêncio é provocador. Cá embaixo, a pequena plateia se mexe nas cadeiras. Olhares voltados pra cima, pro alto. O silêncio e a semiescuridão provocam certo desconforto. Quem atualmente se habitua a esquecer o tempo? A permitir-se a mudez e a reflexão, livre dos bites invasivos dos celulares?

O silêncio é quebrado por um ruído que lembra uma máquina em funcionamento. Não é uma melodia. Não tem harmonia. A máquina parece conter um barulho orgânico. E nisso a liberdade de pensamento cria uma ponte imaginária entre aquele palco/ovo/célula e o pêndulo/esfera/vida. 

O não saber é provocante. Instiga a imaginação. Nos faz reféns do “não-sei-o-quê-mesmo”. De repente, um vulto se impõe. Só um vulto. Um novo facho de luz fotografa cenas fixas de um corpo feminino. Mulher nova, forte, vigorosa. Rosto de anjo. corpo de guerreira. Olhar firme que impacta na borda do palco/ovo/célula. 

Vez em quando, fixa os olhos da plateia. Vez em quando, se estende em direção ao pêndulo/esfera vida. Inicia-se um jogo de sobrevivência angustiante. Longas tentativas de alcançar a esfera, enquanto o pêndulo que parece ter personalidade e autonomia, decide se permite ou não ser alcançado. 

O vigor da personagem traduz sofrimento e êxtase. E impõe o compartilhamento dessa dor/gozo à plateia. Enquanto se movimenta a personagem, que tenta alcançar a esfera num playoff definitivo, quase toca algumas das pessoas no circulo. É incrível ver o que o “quase toque” provoca. Pernas recolhidas, susto, receio do contato. 

É como se a plateia, sem saber ao certo onde chegar, dissesse “é vida, é dor, é êxtase, mas não é meu. Não faço parte disso. Não me encoste”. Até que a esfera se rende. Ou, se dá por vencida. Ou, aceita o jogo. E, finalmente, é alcançada. 

Há uma identidade libidinosa entre a esfera e a personagem. Há cumplicidade. Há invasão de limites. E nisso, quem antes tinha medo do toque, se aventura em rápidas carícias ao pêndulo/esfera/vida. Passa em nossas mãos com a rapidez da vida. Zás! Segue pra outro ponto da plateia. 


A trilha/ruído sonoro incorpora batidas binárias de um coração tambor. O jogo entre personagem e esfera adquire ares de intimidade minimalista. Esfera roça corpo, que roça esfera, que invade corpo, que toca esfera num ritual de sedução e magia. Até que os dois corpos se unam em uma coisa só. O cio vence o cansaço. A vida é ligeira e única.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Filminho de inverno

Sábado fui à casa de meu pai e minha mãe. Um ritual delicioso que incorporei à minha vida nos últimos tempos. Um carinho nos velhos, uma comidinha boa feita pela minha mãe, um bom vinho bebido ao sabor das histórias de meu pai.

Nesse sábado, paramos um pouco na biblioteca. Eu, meu pai e meu irmão, Iram. Ficamos ali, meio à toa, falando sobre livros e autores. Como numa brincadeira de meninos, ficamos lançando nomes de livros pra ver se ele os tinha. Não falhou um.

Até que, lá pelas tantas, ecoou um silêncio no ambiente. Que só foi quebrado pela voz do Viegão.

Ele manifestou um desejo de ter livros escritos por nós em sua biblioteca. A história terminou em risadas. E agora, em um filmezinho de inverno. Inconsequente.

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Brasil sem João Gilberto



João passou por aqui.
Enquanto esteve, inventou acordes, mudou a rima, quebrou a regra da sinfonia, destoou em perfeição.

João se foi.
Em algum lugar, juntou-se a Tom e Vinícius.
Uma nova bossa deve surgir dai.

Valeu, João.
O Brasil te agradece a passagem.
E não vai te esquecer.



Os ipês de Brasília



Toda vez que o inverno começa, em Brasilia, é sinal de florada dos ipês. Sim, eles se antecipam às outras árvores como quisessem assumir a dianteira do processo natural que transforma a cidade em um jardim monumental.

E sempre conseguem.

Impossível não registrar. Impossível não se alegrar. Impossível não ter a lembrança do "semeador" Ozanan Coelho. E, por ele, faço questão de escrever e registrar.