Renata Sanches escreve para lembrar os 60 anos de Mia Couto. E eu reproduzo aqui:
Parabéns poeta!
E obrigada. Por ter-nos dado a África bordada no seu lirismo, nos seus encantos, nos seus deslumbramentos.
Por nos mostrar a lua que anda lenta, mas atravessa o mundo. E fazer-nos reconhecer que somos da raça chamada sonho.
O Amor, Meu Amor
Nosso amor é impuro como impura é a luz e a água e tudo quanto nasce e vive além do tempo.
Minhas pernas são água, as tuas são luz e dão a volta ao universo quando se enlaçam até se tornarem deserto e escuro. E eu sofro de te abraçar depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te para deixares de ter corpo e o meu corpo nasce quando se extingue no teu.
E respiro em ti para me sufocar e espreito em tua claridade para me cegar, meu Sol vertido em Lua, minha noite alvorecida.
Tu me bebes e eu me converto na tua sede. Meus lábios mordem, meus dentes beijam, minha pele te veste e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente, para em mim mesmo te plantar menos que flor: simples perfume, lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus e a minha vida, já sem leito, vai galgando margens até tudo ser mar. Esse mar que só há depois do mar.
Finado Aprécio era um bugre agregado do Seo Chiquinho!
A vida toda por ali ficou, só de afazeres vivia o
bugrinho. Compridas eram as existências.... feitas de matos, trieiros, caçadas,
pescarias, invernadas, piquetes, tudo metódico e ajeitadinho.
O bugre Aprécio por ali cresceu, com bugra nova se
entreteu... Pelejando com a bugra se envolveu até que nasce seu primogênito, o
Filipinho! Filipinho herdou do pai o mesmo caminho....
Na fazenda, com Seo Chiquiinho continuou, os mesmos
afazeres, tudo se perpetuou até que água ardente ele provou, por ela se
apaixonou, tudo para trás largou e seguiu cambaleante no seu trieirinho....
Passou a viver da marvada cana, sem casa, sem
paradeiro e sem grana... com pouco se contentava, para ele nada mais importava
só a pinga, cachaça brava lhe encantava!!
Tratava como irmãos os “Andersão” e, a eles, vez por
outra recorria com a certeza de que amparo teria!! Só carinho e atenção o dócil
bugrinho queria! Um dia aparecia e um trocado pedia, seja pra uma vela, com a
mentira mais singela de que para a mãe Zita a vela acenderia.
A vela ele encontrava no bar, onde tudo ele esquecia e
só a pinga consumia. Certa vez, com um saco nas costas, andarilho, sem eira, sem
beira e sem cavalo tordilho rumava à pé para o Pulador, debilitado, carente,
fraquinho e sem amor.
Oswaldão seguia atrás, ensinando dirigir seu menor
rapaz que de longe o avistou:
- Pai, lá vai o Filipinho na estrada, qual será seu
paradeiro?
Oswaldão de pronto se comoveu e a ele recorreu, lhe
abordando ligeiro:
- Filipinho, onde vai assim? Dessa forma, breve será o
seu fim....
- “Vou ali numa pernambucano fazer uma trabaio
pr’ele!!!”
- Fique uns dias na fazenda comigo,lhe darei trabalho,
salário, companhia e abrigo.
Filipinho feliz, respondeu:
- Vou com essa mano véio longo então, já que precisa
d’eu.
- Na pernambucano num quero mais nada, lá é só quaiada!!!
- Quaiada de manhã, quaiada no armoço, quaiada no
jantá!!
Raquel Anderson é uma grande amiga que conheço desde os tempos de Campo Grande. Os filhos de Raquel, Rayssa e Túlio, estudaram com meus filhos.
Eu não sabia dos dons de escritora que ela traz de longe. Mas cada escrito seu é uma nova e boa descoberta. É como se a gente pudesse, a cada texto, sentir o calor daquela gente simples e sábia, lá do pantanal.
Quando Mariana passou no vestibular, imaginei que ela fosse me
pedir um carro de presente. Afinal, nós morávamos ainda em Campo Grande, MS; e
ela foi aprovada no curso de Artes Cênicas, da UnB, em Brasília. Qual o quê! Secretamente combinada com a Mara, mãe dela, me fez
um pedido impossível de recusar: Um cachorro.
Eu sempre tive cachorro, desde
pequeno. Mas nunca gostei de ter cachorro em apartamento. Penso que as duas
coisas não combinam. Cachorro pede liberdade. Apartamento é prisão para bicho.
Mas, não pude resistir aos apelos das duas e sugeri que, pelo
menos, fosse um cachorro pequeno, dessas raças novas (na minha época só havia
três – vira-lata, pastor alemão e pequenês).
Elas, que já tinham tudo planejado, se apressaram em me falar de
um tal de Llhasa Apso, o cão de companhia, originário do Tibet, etc, etc, etc, e tal.
Eu quis endurecer o jogo, dizendo que não cuidaria de comida, de
água, de banho e muito menos de limpar cocô. Elas toparam. Eu fui mais duro, disse
que não queria saber de cachorro latindo na hora em que eu estivesse lendo meu
jornal, ou vendo meus filmes. Elas concordaram.
Por fim, avisei solene: “Não
vou odiar esse cachorro, mas não vou me afeiçoar por ele também”. Tudo
entendido. O sorriso quilométrico da Mariana se abriu, feito um sol no quintal.
No fundo, desde a hora do pedido, nós três sabíamos que mentíamos, uns para os
outros, sobre o “Alfredo Lafayete” (a coisa estava tão armada que o cachorro já
tinha até nome e sobrenome). Eu, que seria duro com ele. Elas, que estavam se
esforçando pra me convencer.
Mariana e seu Alfredo, no dia da chegada.
Foi assim que o Alfredo entrou na nossa vida, quase dez anos atrás.
Neste fim-de-semana, ele partiu. E eu escrevi uma carta pra elas e pra ele,
que é também uma confissão e um agradecimento. Por tudo o que ele me deu, pela
amizade, pela companhia, pela fidelidade e pelo amor.
Como poucos, ele me entendia. Como poucos, eu também o entendia.
Creio que viramos melhores amigos. De verdade. Ai embaixo, a carta.
Desde o começo, Alfredo escolheu ficar mais perto de mim.
Digo isso e comprovo. Ele era um cachorro, mas parecia um carrapato.
Não desgrudava nunca.
Pra sempre.
Eu gostei dele desde sempre.
Mesmo tendo jurado que eu não ia cuidar dele. Nem amar. Nem me
afeiçoar.
Ele sabia que aquilo era da boca pra fora. E era.
Um lorde. Temperamental e blasé.
Fomos parceiros à primeira olhada.
Ao primeiro biscoito.
À primeira fungada.
E assim foi a vida toda.
Nas caminhadas, nas hora da ginástica, na hora de dormir e de
acordar.
Tinha ginástica e tinha que ter cafuné.
No sábado passado, quando estive ai, enquanto esperava Mariana
se arrumar, ele subiu no banco onde eu estava sentado e começou e se esfregar. E se esfregava como quem quisesse passar entre eu e o encosto do banco.
Como se quisesse entrar em mim, feito
tatuagem.
Valeu, Alfredo!
Achei estranho mas não reclamei. Deixei ele fazer aquilo até
cansar.
Hoje, sinto que aquilo foi um jeito de nos despedirmos. Ele
se esfregando em mim. Eu deixando e gostando.
Exatamente como foi desde o começo.
Pra sempre.
PS. Fernando Brant tinha uma cadela chamada "Diana". Foi pra ela que ele fez essa música que está ai embaixo. Justo quando ela se foi. Tomo emprestada a música, o carinho e a poesia.
Venho de casa para o trabalho ouvindo as notícias do rádio. Mil preocupações na cabeça, mas, estranhamente, o sol faz a segunda carregada de esperança. De repente, ouço o locutor falar da morte de Eduardo Galeano. Meu coração dá um salto. A manhã de sol, ficou cinza. De repente. Como diria Vinícius, não mais que de repente.
Inevitável sentir uma dor no peito com essa notícia. Nunca estive com ele, mas o vi de diversas formas e ele esteve comigo de várias maneiras. Por um longo tempo.
Foram deles as primeiras ideias que me provocaram a olhar de um jeito diferente os países que nos ladeam. Quando "As veias abertas da América Latina" chegou em minhas mãos, Eduardo Galeano passou a fazer parte dos meus escritores preferidos.
Eu estava na faculdade de Jornalismo, no Rio Grande do Sul, e tudo era muito novo, arejado, cheirando a revolução.
As ideias de Galeano passaram a me provocar reflexões sobre coisas que antes não me incomodavam, por desconhecimento, por falta de atenção, por estar à margem da minha percepção.
Depois, com o tempo, cruzei com a poesia dele. Com as crônicas sociais, com um jeito de escrever que caracteriza os escritores que descem do pedestal e se juntam a nós, na planície. Isso estabeleceu entre nós uma identidade. Ele falava e escrevia de situações sobre as quais eu gostaria de ter escrito. Como na canção de Milton Nascimento, eu me perguntava: Como não fui em que fiz isso?
Meu carro segue, automático, obedecendo esquinas e sinais de trânsito. O rádio fala da morte dele. Da derrota, aos 74, para um câncer de pulmão contra o qual ele vinha lutando havia anos. Dos tempos de exílio na Argentina. Da volta respeitosa e reconhecida, ao Uruguai, sua terra.
Pego o telefone e ligo pra Renata Sanches. Pensei nela na hora. Me lembro que, no ano passado, ela teve a oportunidade de estar perto dele, durante a Feira Internacional de Livros, que aconteceu em Brasília.
Em ano de Copa do Mundo, ele falou sobre futebol de um jeito especial e encantou a plateia.
"Renata, perdemos mais um. O vazio vai aumentando. Não há substitutos no horizonte. O Novo Obscurantismo se achega. Você não escreve umas linhas sobre ele?"
Do outro lado, Renata me diz que sim. Numa concordância cúmplice com tudo.
Ela vai escrever. Eu fico agradecido, mas o cinza da manhã não vai mais embora.
Por enquanto, fico com a grata lembrança do último documentário que assisti sobre e com ele. Sangue Latino. Creio que você também vai gostar de assistir. Abra bem os olhos, afine os ouvidos e guarde na memória o melhor de Eduardo Galeano.