terça-feira, 19 de novembro de 2013

Reunião de Pauta




Abro minha caixa de mensagens e encontro lá um recado da Cinha:

Ei, estou fazendo um vestido de crochê, lindo, branco, para a “Chicotinho”. Acho que fica pronto em uns dias. Que tal você escrever uma crônica como se fosse na nossa reunião de pauta, especial para o dia da entrega?

Que estranha capacidade uma frase tem para nos transportar no tempo. Lá estava eu , pensando e vivendo de novo aquelas reuniões de pautas. Cinha é uma das melhores coordenadoras de produção com quem já trabalhei no jornalismo de TV. Alguém que sabia controlar uma equipe, tinha noção de tempo, de corte, de posicionamento de câmera. Adorava fazer crochê e tomar cerveja. Não necessariamente nessa mesma ordem. 


E ela me trouxa à memória um tempo em que trabalhamos juntos.
Naquele momento, a redação se compunha por uma minoria de homens. Por óbvio, a maioria de mulheres dominava o ambiente. Todos os dias, às nove em ponto começava a nossa reunião de pauta. Era quando os assuntos do dia desenhavam o que seriam os nossos telejornais.

Mas havia um ritual. Antes de qualquer coisa, as meninas discutiam moda. O vestido de uma, o sapato novo de outra. A bolsa, maraaaaavilhoooooosa, da terceira... E assim, nós poucos, do lado masculino da mesa, descobríamos valores modistas e conceitos de cor que jamais passariam por nossas cabeças e, portanto, jamais alcançaríamos sozinhos.


Foi nessa época que descobri existir um certo tom fúcsia. E mais, fiquei sabendo a diferença gritante (na opinião delas) entre o bege, o creme e o amarelo claro. Até hoje, não sei exatamente o que isso significa e nem vejo qualquer diferença. Mas elas juram que existe.

Distinguir esse tipo de nuance faz parte da sensibilidade e do olhar microscópico, componentes de série que só são dados pela natureza às mulheres. Confesso que não sei como vivi até aquele momento sem perceber tais distinções de cor. Por conta disso, muitas vezes, me senti o mais perfeito extraterrestre no mundo fashion. Mas era divertido.

Os quinze primeiros minutos da reunião de pauta nos tornavam uma família, com tudo de virtude e imperfeição que possa haver em uma. Era ali que descobríamos as reformas intermináveis da casa da Gra. As queixas da Didi contra a invasão de turistas em seu paraíso goiano. As gaitadas da Nine invadindo o corredor e anunciando: a gaúcha escrachada chegou!


A Ju não suportava erros. Não suportava injustiças. Não suportava atrasos. Não suportava pautas furadas. A Ju, em verdade, suportava pouca coisa. Nós nos tornamos uma exceção para ela. E ela nós brindava com a sua beleza de porcelana.

Dadá, Lu e My completavam o time. Uma, negra espevitada, sem papas na língua; a outra, a delicadeza em pessoa, uma voz mansa de quem era capaz de perdoar tudo e conquistar sempre o que quisesse. A terceira, uma fronteiriça, das mais fortes e determinadas que conheci. Forte em sua determinação para encarar o que a vida lhe pusesse pela frente.

Nas reuniões de pauta se choravam as dores de perda, os amores rompidos, as conquistas, as viagens, os carros novos... tudo entrecortado pela moda. Quem comandava era a “Chicotinho”, como o apelido rezava, ela era uma doçura de pessoa, até o momento em que alguém  a provocasse.  Sabia usar o chicote na medida certa.


Uma morena linda, bem resolvida, competente e alta. Tão alta que toda vez que ela chegava eu arriscava uma sacanagenzinha: Dizia que quando ela levantava da cadeira eu a imaginava saindo de uma piscina, e saindo, e saindo, e saindo, sem nunca mais parar de sair. “Aquilo era mulher que não acabava mais!” e a risada corria solta.

Quando ela brandia o chicote, terminava o recreio e começava a vida real. E o jornalismo entrava pra valer no cotidiano de uma das boas equipes com quem já trabalhei. Todo dia era assim. Por muitos anos foi assim.

Hoje, a reunião aconteceu em minha mente, outra vez. Enquanto Cinha tece o vestido ou toma uma cerveja. Neste caso, de verdade, a ordem dos fatores não vai alterar o produto. 

Texto escrito originalmente para a coluna Olhar poético, que assino semanalmente, no Blog da Cris Guerra.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

100 anos de moda

100 anos de moda em 100 segundos de dança.
Porque hoje é segunda.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sorriso de feriado

Mariana foi tomar café com seus avós.
Fez mais.
Se encheu de sorrisos.
Tanto que eles também não resistiram.
E se encheram de sorrisos, também.

Viegas e Isabel  contagiados pelo sorriso de Mariana.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Histórias da Madre D’eus II


O Boizinho, a cara da Madre D'eus.
A festa era na casa de meu primo Jorge. A casa dele, aliás, era uma festa. No carnaval, Jorge  organizava um bloco de rua. No São João, Jorge ajudava a organizar o “Boizinho Barrica”. No natal... ah, nem sei, mas Jorge organizava, sempre,  algum tipo de festa, o ano inteiro.

Naquele ano eu reencontrara Jorge. Havia cinco anos, eu morava fora e São Luis era só uma lembrança. A Madre D’eus, uma dor no peito, um dia de chuva. E meus amigos de infância, uma saudade imensa. Jorge, entre eles.

Naquele ano, voltei para estudar e morar com meus tios. A casa deles era no Beco do Seminário, atrás da Igreja de Santo Antônio. Mas eu vivia na Madre D’eus. As distâncias daquela época não são como as distâncias de hoje. Tudo parecia mais perto. Caminhar era escorregar o tempo pelas calçadas, descansando os olhos nas portas e janelas entreabertas daquelas ruas coloniais.

Naquela festa, naquela noite, meu olhos foram dar em uma menina. E os dela em mim. Éramos duas crianças recém ingressadas na adolescência. Naquela noite, falamos pouco e passamos boa parte do tempo dançando.

Ao fim da festa, ela me acompanhou ladeira acima, em direção aonde um dia foi a minha casa, a casa onde eu sempre morei, desde que nasci. Ali, em frente ao número 93, da Rui Barbosa, no Largo da Madre D’eus, havia um banco no meio do canteiro. Foi onde sentamos. Havia uma lua imensa e quase ninguém na rua.

Flamboyant
Naquele tempo não havia espaço para o medo. Não havia temores ou assombrações. Havia um certo silêncio quebrado apenas pelo barulho do vento nas folhas do Flaboyant. O mesmo em que eu subia quando era criança. O mesmo da porta de onde um dia foi a minha casa.

Ela segurou em minha mão. Nossos olhos brilharam um brilho intenso. E nos beijamos. Pouco ou nada foi dito. Mas ela compreendeu que aquela noite, aquele lugar, aquele encontro, enfim, nos tornavam especiais. Era a porta da casa onde um dia eu nasci.

A vida tratou de nos afastar. Seguimos, cada um por um lado do mundo. As ruas da Madre D’eus sobram em mim como Itabira sobrava em Drumond – (é só uma fotografia na parede, mas como dói). Mas aquela menina terá sido para sempre a primeira pessoa a segurar minha mão e me beijar ali, bem em frente à casa onde eu sempre morei. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Uma palmeira e dois destinos



No centro do Eixo Monumental, em Brasília, em frente ao Palácio que leva o mesmo nome, há uma Palmeira de Buriti. A árvore é o símbolo da cidade. E aquele exemplar solitário, plantado ali em frente ao imponente Palácio, foi transplantado de um caminho que liga Brasília a Anápolis, no Estado de Goiás. A árvore tem mais idade que a cidade e o palácio.

Dias atrás, estive bem perto de um senhorzinho, já beirando os 80, que é tão ou mais importante que o Buriti. Ozanan Coelho é o nome dele. Trata-se de um cearense de boa cepa, que veio aventurar-se em Brasília e terminou, apaixonado por ela, nunca mais saindo daqui.

Ozanan tem muitas virtudes. A mais especial delas está diretamente ligada à quantidade de árvores e jardins que a cidade ostenta. Ele é o responsável direto pelo plantio de 3,8 milhões de árvores em Brasília. O número não está errado, não. São 3,8 milhões de árvores plantadas, sim.

As super-quadras e suas árvores...
... onde houver uma árvore, em Brasília...

...tenha a certeza, Ozanan passou por ali. 
Claro que ele não fez isso tudo sozinho. Durante os últimos 40 anos Ozanan esteve no Departamento de Parques e Jardins da NOVACAP, 30 dos quais, como chefe do setor. Mas não é errado dizer que Ozanan é o melhor exemplo da natureza viva, em todo seu esplendor.

Pois bem, foi de viva voz que ouvi Ozanan contar a história de como salvou aquela palmeira de buriti. Dizia ele que, um belo dia, foi chamado às pressas para conter a ira de um maluco que, com um facão tentava derrubar o buritizeiro. Ozanan chegou a tempo de impedir, com a ajuda da polícia, uma catástrofe. Mas não impediu que a árvore fosse ferida, quase que mortalmente.

O buriti e o Palácio
O homem preso e a árvore pendente, prestes a ir ao chão em definitivo. Ozanan chamou os seus. Segurou a árvore e passou a pensar na melhor forma de salvá-la. Ergueu uma cerca de varas, rente ao tronco machucado da árvore. Amarrou-as firmemente e torceu para que o tempo lhe permitisse a regeneração.

Não houve tempo. A cada chuvarada, lá se ia o arranjo sustentador e com ele, a esperança de que a árvore voltasse a viver em paz. Ozanan não desistia de salvar o buritizeiro, mesmo muitas tentativas infrutíferas depois. Cada novo conserto era plateia garantida. O povo, como nos jogos de futebol, adorava dar opiniões.

Até que, um dia, um senhor bem humilde apresentou-se e perguntou se podia ajudar. Ozanan quis saber quem era ele. Disse que era dono do circo que estava instalado ali perto. E que acompanhava com atenção, nos últimos dias, a batalha vã na tentativa de recuperar a árvore.


Ozanan prestou atenção em tudo o que ele falava e aprendeu que usando as mesmas  as técnicas de erguer as lonas do circo era possível aumentar as chances de sobrevivência da árvore.

Dito e feito. As técnicas de amarras usadas no circo  conseguiram o milagre de fixar a palmeira de buriti, mesmo em dias de vento mais forte.

Feliz por ter vencido a principal batalha, Ozanan lembrou do infeliz que fez aquilo e quis saber o que lhe passava pela cabeça. Resolveu visita-lo na prisão. Lá, frente a frente com o algoz da árvore, questionou: Por que tanta raiva com uma árvore? O camarada respondeu com olhar vidrado, típico de quem não tem a cabeça regida pelas leis deste mundo: Olhe, doutor, quantas vezes me soltarem, tantas eu vou voltar lá, até completar o serviço.

Ozanan escutou atento e tentava em vão fazê-lo desistir da ideia.  Até que, lá pelas tantas, o serial killer de coqueiros  sentenciou: Doutor, eu só não vou cortar aquela árvore o dia que for correto escrever “Congresso” com cê cedilhado.   

Ozanan a me dedicar o seu livro.
E eu, me pondo encantado, diante da natureza em forma de gente. 
Ozanan viu que o caso era perdido. E torceu para que a polícia não liberasse o sujeito tão cedo. Enquanto contava a história, acontecida nos idos dos anos 70, Ozanan sorria um sorriso de homenino. Desses, capazes de reunir inocência e maturidade no meio de um rosto marcado pela vida. E eu, ali, me pondo encantado, diante da natureza em forma de gente. Quem enxerga os seus olhos azuis não imagina a imensa floresta urbana que há por trás deles.  

Texto escrito originalmente para a coluna "Olhar Poético", que assino semanalmente, no Blog Hoje Vou Assim, da Cris Guerra. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um oceano e cinco séculos


A ponte e o Tejo


Acordo, olho no espelho, o dia claro lá fora.
A janela me mostra o Tejo. Vejo além.

A ponte 25 de abril passa ao lado do hotel onde estou. É como se entrasse por minha janela. Leva meus olhos para a Almada, por sobre o gargalo do Rio Tejo. Vejo além.

Alfama, bairro alto, em Lisboa...
...e São Luis, no Maranhão. Muito em comum. 

Penso nas ladeiras da Alfama, o bairro alto em Lisboa. Aquele lugar me lembra São Luis do Maranhão, em tudo. Mas há um oceano e cinco séculos entre São Luis e o Bairro da Alfama. Quando criança, descia a ladeira da Madre D’eus em direção à areinha. Rua dois, Rua três... Tia Dica tinha uma quitanda na entrada da Rua quatro.

Bonde da Alfama.
Bonde em São Luis. 
O bonde que sobe as ladeiras da Alfama é o mesmo que descia a Madre D’eus. O homem que vê o Tejo pela janela é o menino que descia a ladeira da Madre D’eus. Somos os mesmos, guardado o hiato temporal da vida vivida entre um oceano, cinco séculos e dois bairros distantes.


Olho no espelho e desejo café.
Desço até o restaurante do hotel. Mesa posta. O pão quentinho. Ovos mexidos. O cheiro do café tomando conta do espaço. Vejo além.
Poesia no café da manhã
O desejo do café é quase poesia. Meus olhos batem no saquinho de açúcar. Café alimenta a alma. Açúcar tempera a vida. A poesia sustenta os dois. E a poesia impressa em papel de açúcar é o que me surpreende e alegra o dia.

Um oceano e cinco séculos separam e unem o que eu sou de verdade. O Rio Tejo, a ponte, o bairro da Alfama, o café, o espelho, a janela e a poesia impressa no papel de açúcar veem além.

Foto: Andres Alem
O tempo me pega pelas mãos e me conduz inteiro pelas ruas da memória. Há muito de minha alma espalhado nestas manhãs de inverno e sol.  

Texto escrito originalmente para a coluna "Olhar Poético", que assino semanalmente, no Blog Hoje Vou Assim, da Cris Guerra. 

domingo, 3 de novembro de 2013

Começando o hoje

Ben Harper, Jah Work. Pra começar o domingo.

sábado, 2 de novembro de 2013

Young and Beautiful

Lana Del Rey. Não carece dizer mais.

Manoelices de Maurilo


Maurilo e sua Sophia

Maurilo acordou, um dia desses, se achando Manoel. De Barros. Acho que foi de tanto ler. Maurilo lê muito. E, por isso, escreve bem. Tanto que, naquele dia, quando li Maurilo escrito, achei que fosse Manoel. 

Cheguei à conclusão de que, naquele dia, Maurilo acordou cheio de manoelices. Não pude deixar de sorrir. Sei identificar de longe uma manoelice, mesmo quando elas vem pelas letras de Maurilo. 

Por isso, partilho neste espaço as manoelices de Maurilo. Porque hoje é sábado.

Definições
*Por Maurilo Andreas


Saudade é quando o coração só tem olhos pra o que a gente não vê.



O Futuro é um bicho que jamais existe e que a gente insiste em tentar enxergar e se convencer de que vai ser diferente. O grande segredo do Futuro é fazer parecer que está lá quando na verdade ele já passou. A cor do Futuro é aquela que a gente nunca vai encontrar.



A Palavra é um bichinho que se deve guardar muito bem, porque quando escapa se metamorfoseia e chega diferente no outro. Palavra quando sai e volta, sempre retorna outra. Sua cor são todas.



A Tristeza é um tipo de sanguessuga, que esvazia a gente e que engole horizontes. Muda de tamanho e se encolhe e mesmo que pareça ter ido embora, sempre pode voltar de repente. Tem a cor do vazio.

*Maurilo Andreas é um amigo, um grande amigo. Publicitário, escritor, contador de histórias, pai de Sophia e, desconfio, de vez em quando amanhece contagiado pelo pensamento de outro grande poeta - Manoel de Barros.   

Começando o sábado

Com Paul e sua turma, é bem melhor. Queenie Eye.