segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Aos cinqüenta, na estrada.
A certidão de nascimento diz que eu nasci pouco depois da meia noite, ou, nos primeiros minutos do dia 20 de agosto. Portanto, cinqüenta anos atrás, eu já estaria nascido.
Há pouco, deixei pra trás a estrada que corta a selva amazônica, na altura do coração do Acre. Cruzei aldeias de índios e buritizais. Lagoas e casas de Madeira. Céu azul, sol e um calor úmido, quase insuportável.
Antes um pouco, meu coração bateu aflito por algo muito comum nestas plagas. O único vôo diário, de Cruzeiro do Sul para Rio Branco, fora cancelado. Um funcionário da Gol, impassível, me deu a informação e disse que começaria em instantes a "seleção dos passageiros que seriam acomodados no vôo do dia seguinte".
Gelei. Pensei rápido e achei melhor enfrentar os 753 km de floresta, de carro. Cheguei em Rio Branco quase nove horas depois. Poucos minutos antes do meu "nascimento". Em verdade, pensei comigo, a estrada, a floresta, o susto, o tempo, o céu azul, os índios, tudo... Fez parte hoje do meu renascimento.
A vida assim, renasce aos cinqüenta. Vou nascendo, como a vida quer. Num roteiro imprevisível. Perdendo amigos queridos - como Margot. Transformando "conhecidos" em amigos de longa data, como Rodrigo. Enxergando outros problemas, com mais frescor do que os que eu enfrento diariamente. Reconstruindo a teia, cerzindo a história, respirando o ar da nova vida.
Sim, a minha vida renasce aos cinqüenta. Como na canção de Milton. Eu já estou com o pé nessa estrada. Qualquer dia a gente se vê. Sei que nada será como antes, amanhã!
sábado, 18 de agosto de 2012
Para Mara, sobre Margot
Enviado via iPad
Meu bem. Ainda não assimilei direito a passagem da Margot. Fiquei meio anestesiado desde o momento da ligação da Ecilda. Para mim não foi surpresa. Foi só a dor de saber que ela se foi mesmo. Em definitivo.
Da ultima vez que falamos, você já tinha percebido, fiquei com a impressão de que estávamos perdendo a Margot. Ela tinha um fiapinho de voz. Coisa de quem estava encerrando uma etapa. Coisa de quem não iria muito longe. Falando com ela ao telefone, fiquei com a impressão de uma despedida. Hoje, sei que aquele telefonema foi mesmo nossa despedida. E nos despedimos declarando o nosso amor, um pelo outro.
Eu queria ter estado com ela. Eu queria estar por perto hoje. Mas não deu. Quis o destino que a Mariana estivesse lá em nosso lugar. E eu aceito isso. Estaremos bem representados. Falei ontem ainda com a Mariana. Ela chorou um pouco. Mas estava firme. Foi até o local onde o corpo vai ser velado. Encontrou a Yuri Matsunaka na porta, que a informou que o velório só começaria hoje de manhã.
Mariana se identificou, disse que era nossa filha e a Yuri quis saber de nós. Nesse momento, Mariana é você, e eu, e Gabriel, e todos nós.
Não tive jeito de escrever nada além do que estou escrevendo agora, pra ti. Acordei varias vezes à noite e em todas, pensei na Margot. Passei a vida em revista. Do momento em que a conhecemos. Do dia em que ela nos salvou com a Mariana. Das vezes todas em que ela se fez presente e declarou o seu amor. De quando ela te aconselhou e me aconselhou. Do amor imenso que sinto por ela... Lembrei de muito.
Com ela vivi tudo o que podia. Tomei bons vinhos. Tive boas e definitivas conversas. Me indignei e me alegrei. Dividi outras perdas, de outros amigos. Comemorei vitórias. Com a Margot reparti sonhos, utopias, brinquei, chorei, gargalhei.
Daqui de onde estou, no Acre, sozinho neste quarto de hotel, vendo uma manhã nascer devagarinho e preguiçosa, escrevendo essas linhas poucas, faço a minha despedida em silêncio.
Do mesmo jeito que a natureza avisou a Mariana e a fez chorar sem saber porquê, no caminho do aeroporto, desse mesmo jeito, tenho a sensação de que, enquanto escrevo pra ti, Margot me lê também. E aceita com carinho essa minha mensagem.
Nada mais nos resta fazer, senão reter na memória a sabedoria e a delicadeza dessa mulher que entrou em nossas vidas para fazê-la melhor. Que nos ensinou a olhar o mundo de um jeito distinto, elegante, firme e respeitoso.
Margot carregou nas mãos um punhado de dignidade, a vida inteira. Quando lhe faltou respeito, ela tinha dignidade. Quando lhe faltou companhia, ela tinha dignidade. Quando lhe faltou dinheiro, ela tinha dignidade. Em Margot, a dignidade havia, de sobra.
E foi assim que ela nos deixou. Carregando nas mãos o seu punhado infinito de dignidade.
Sou hoje um pedaço incompleto do que já fui. Pelos dias que passaram, pelos amores que se foram, pelos amigos que seguiram rumo ao desconhecido. Nesse exato momento, pela falta, que sei, a Margot vai nos fazer.
E antes de seguir a vida, quero te dizer: mesmo à distância, estivestes aqui, comigo, me ajudando a encarar e suportar a tristeza dessa perda. Obrigado por caminhar comigo. Eu te amo.
Maranhão.
domingo, 12 de agosto de 2012
Easy Rider
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| Dennis Hopper e Peter Fonda em cena de Easy Rider |
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| A BSA dos sonhos do "seu" Viegas. |
Depois do tombo, a relação entre meu pai e a moto melhorou muito. Com ela, ele ia e vinha do quartel. Até que um dia levou um susto e quase foi atropelado. Informada do acontecido, minha avó, Dona Antonieta, foi taxativa. Disse que só tinha um filho e não iria perdê-lo para aquela máquina "infernal". E determinou a venda. Meu pai conversou com Severiano e decidiu vender a moto para ele.
Por um bom tempo, meu pai conseguiu ficar pelo menos perto da moto. É que toda vez que saía do quartel, Severiano oferecia carona e o deixava, de moto, na porta de casa.
Muitos anos depois, eu caminhava com o pai, em alguma praia de Santa Catarina. E avistamos um triciclo "envenenado", "daqueles que a gente só vê em filme americano", dizia o pai com os olhos brilhando.
Não precisei argumentar muito para lhe dar coragem de subir na máquina. "Mas, não vai dar problema? Não é nossa. O dono pode não gostar...", dizia o velho, meio desconfiado. Pai, é só um instante. Só para tirar uma foto, pra lembrar os velhos tempos da BSA do Severiano. Ninguém vai ficar zangado por isso.
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| Viegão, o selvagem da motocicleta. |
Neste domingo, Dia dos pais, resgato a imagem do meu, como um velho e bom Easy Rider. O velho Viegas, o selvagem da motocicleta, em busca da liberdade, na trilha do sentido da vida. (e minha mãe, Isabel, que não é boba nem nada, aproveitou a carona).
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| Easy Riders |
Ventania
Da minha janela ouço o vento, lá fora.
Domingo de agosto. Ventania.
Levando o que há de ruim.
Limpando o caminho.
Trazendo um sopro
De novidade.
Ventania.
Domingo de agosto. Ventania.
Levando o que há de ruim.
Limpando o caminho.
Trazendo um sopro
De novidade.
Ventania.
sábado, 11 de agosto de 2012
Short Cuts de agosto
Margot, a saudade e a fé.
Há dias, penso em Margot. Penso tanto que resolvi fazer-lhe uma carta. Margot é Margarida Marques, minha comadre. Madrinha de Mariana. Uma alma gêmea, dessas que entram na vida da gente não se sabe como, nem por quê. Mas que ficam em definitivo.
Pensei em Margot quando comprei um livro, lindo, que se resume a uma carta escrita por Paulo Mendes Campos a Otto Lara Rezende. Li num vapt. Pensei nela num vupt. Fiquei tão embevecido pela escrita de um para o outro, que senti necessidade de escrever também. E lembrei que, uma vez, muitos anos atrás, já tinha vivido uma sensação parecida com essa.
Era agosto, também. Tempo de campanha política. Eu tocava uma, de um lado. Margot estava em lado oposto. Mas isso nunca nos apartou. Então, um dia, assisti um filme. Me lembro como se fosse agora. "Ponto de mutação" era o nome do filme. trava-se da história de um poeta, um político e uma cientista. Um texto provocante. Uma direção simples, beirando a perfeição.
Quando terminei de ver o filme, corri para o computador e escrevi uma carta de oito laudas para a Margarida. "Você precisa ver esse filme, Margot". E tratei de deixar as minhas impressões sobre o que havia visto. Escrevi num fôlego só, de uma sentada. E mandei pra ela.
Minutos depois, pelo aparelho de fax, me chegava a resposta de Margot. Oito páginas manuscritas, lindas, que eu guardei até o dia em que o tempo apagou.
Pensando nisso e movido pela nova leitura, comecei a escrever uma nova carta pra Margot. Mas fui atropelado pelo acaso e pelo apagão que deu no computador. A carta não chegou a ser concluída. E a saudade de Margot só aumentava. Há pouco, olhei o relógio, quase dez da noite. Resolvi ligar. Do outro lado da linha Margot, com um fiapinho de voz, me diz que está doente há quase um mês. Então, era isso o silêncio dela. Era isso o aperto no meu coração. Melhore logo, Margot. Tenha fé. Ou eu pego um avião e vou aí. Ainda tenho muito pra te escrever.
Fé na mudança
Stefânia é mãe de Soraia. Stefânia tem 84 e não perde um baralho por nada desse mundo. Toda semana, "as meninas" se juntam para horas de cartas, vinho, comida e dar risadas. "As meninas" formam um grupo de mulheres que variam de 18 a 84 anos. Acho que já falei sobre elas aqui no blog. Ou melhor, a Mariza Poltronieri, que é uma das integrantes, e que me falou sobre o grupo, sempre que pode me conta suas aventuras do carteado.
Ontem, teve uma nova. Era aniversário de Soraia. Mais razão ainda para a reunião das meninas do baralho (que também parecem ser "do barulho"). Depois de muito vinho, de muita filosofia, de comidinhas variadas, de Roberto Carlos correndo solto na vitrola, de papo de amor e de prazer, num minuto de silêncio, Stefânia soltou uma daquelas frases desprovidas de pertinência, mas que entram para a história pelo simples fato de ser pronunciada naquela circunstância, naquele momento: "Preciso mudar de cabelereiro". Coisa besta, que rendeu boas horas de gargalhada. Coisa de mulheres que acham sentido em tudo na vida. Que a transformam em alegria e prazer tudo o que podem. Que veem beleza na simplicidade. Coisa de quem nunca perde a fé. E de quem não foje das mudanças. Nem que seja, das de cabelereiro.
Gil e minha mãe
Hoje cedo, o Bom Dia Brasil (o primeiro jornalístico do dia, na Globo) completou a série que homenageia os nossos ídolos setentões. Quem fechou a série foi Gilberto Gil. Uma bela reportagem de José Raimundo, dessas de dar inveja. De a gente pensar calado e se perguntar: "Por que não fui eu que fiz essa entrevista?" Foi a última entrevista do jornal.
Mal terminou o Bom Dia, o meu telefone tocou.
- Bom dia, Nuca Viegas!
- Bom dia minha mãe! Que bons ventos a trazem?
Minha mãe tinha uma alegria indisfarçável na voz.
- Eu estava aqui vendo a história de Gilberto Gil. Como eu gosto daquele pretinho! Como eu gosto de suas músicas. Elas tem uma capacidade de mexer comigo.
- Eu também estava assistindo, mãe. Foi mesmo de emocionar!
- Sabe, Nuca, eu gosto muito de ouvir as músicas do Milton Nascimento e do Gil. Do Caetano eu não gosto muito, mas desses dois... Ah! que coisa... O Gil tem uma música que me lembra muito aquele tempo em que nós voltamos pra São Luis, no início dos 80. Era uma música que eu cantarolava todo dia. (e ela começa a cantar) "Anda com fé eu vou, que a fé não costuma falhar..." Acho que eu cantava para me convercer de que alguma coisa boa ía mesmo acontecer.
Fiquei ali, escutando a história de minha mãe, e o seu canto, e a sua alegria... Que delícia de telefonema.
- Nuca, eu gosto tanto dele que acho que vou comprar um desses aparelhinhos e colocar umas músicas do Milton e do Gil, só pra ficar escutando a hora que eu quiser.
Isso mesmo, mãe! Acho que a senhora deve fazer mesmo isso. E mais uma coisa, mãe: Não perca nunca a fé.
Desliguei o telefone e fiquei pensando que já tenho dois presentes pra ela. Um disco do Milton e outro do Gil. E "um aparelhinho", só pra ela poder escutar as músicas que gosta, sempre que quiser.
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| Margot |
Pensei em Margot quando comprei um livro, lindo, que se resume a uma carta escrita por Paulo Mendes Campos a Otto Lara Rezende. Li num vapt. Pensei nela num vupt. Fiquei tão embevecido pela escrita de um para o outro, que senti necessidade de escrever também. E lembrei que, uma vez, muitos anos atrás, já tinha vivido uma sensação parecida com essa.
Era agosto, também. Tempo de campanha política. Eu tocava uma, de um lado. Margot estava em lado oposto. Mas isso nunca nos apartou. Então, um dia, assisti um filme. Me lembro como se fosse agora. "Ponto de mutação" era o nome do filme. trava-se da história de um poeta, um político e uma cientista. Um texto provocante. Uma direção simples, beirando a perfeição.
Quando terminei de ver o filme, corri para o computador e escrevi uma carta de oito laudas para a Margarida. "Você precisa ver esse filme, Margot". E tratei de deixar as minhas impressões sobre o que havia visto. Escrevi num fôlego só, de uma sentada. E mandei pra ela.
Minutos depois, pelo aparelho de fax, me chegava a resposta de Margot. Oito páginas manuscritas, lindas, que eu guardei até o dia em que o tempo apagou.
Pensando nisso e movido pela nova leitura, comecei a escrever uma nova carta pra Margot. Mas fui atropelado pelo acaso e pelo apagão que deu no computador. A carta não chegou a ser concluída. E a saudade de Margot só aumentava. Há pouco, olhei o relógio, quase dez da noite. Resolvi ligar. Do outro lado da linha Margot, com um fiapinho de voz, me diz que está doente há quase um mês. Então, era isso o silêncio dela. Era isso o aperto no meu coração. Melhore logo, Margot. Tenha fé. Ou eu pego um avião e vou aí. Ainda tenho muito pra te escrever.
Fé na mudança
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| Mariza, uma das "Meninas" |
Ontem, teve uma nova. Era aniversário de Soraia. Mais razão ainda para a reunião das meninas do baralho (que também parecem ser "do barulho"). Depois de muito vinho, de muita filosofia, de comidinhas variadas, de Roberto Carlos correndo solto na vitrola, de papo de amor e de prazer, num minuto de silêncio, Stefânia soltou uma daquelas frases desprovidas de pertinência, mas que entram para a história pelo simples fato de ser pronunciada naquela circunstância, naquele momento: "Preciso mudar de cabelereiro". Coisa besta, que rendeu boas horas de gargalhada. Coisa de mulheres que acham sentido em tudo na vida. Que a transformam em alegria e prazer tudo o que podem. Que veem beleza na simplicidade. Coisa de quem nunca perde a fé. E de quem não foje das mudanças. Nem que seja, das de cabelereiro.
Gil e minha mãe
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| Isabel, minha mãe. |
Mal terminou o Bom Dia, o meu telefone tocou.
- Bom dia, Nuca Viegas!
- Bom dia minha mãe! Que bons ventos a trazem?
Minha mãe tinha uma alegria indisfarçável na voz.
- Eu estava aqui vendo a história de Gilberto Gil. Como eu gosto daquele pretinho! Como eu gosto de suas músicas. Elas tem uma capacidade de mexer comigo.
- Eu também estava assistindo, mãe. Foi mesmo de emocionar!
- Sabe, Nuca, eu gosto muito de ouvir as músicas do Milton Nascimento e do Gil. Do Caetano eu não gosto muito, mas desses dois... Ah! que coisa... O Gil tem uma música que me lembra muito aquele tempo em que nós voltamos pra São Luis, no início dos 80. Era uma música que eu cantarolava todo dia. (e ela começa a cantar) "Anda com fé eu vou, que a fé não costuma falhar..." Acho que eu cantava para me convercer de que alguma coisa boa ía mesmo acontecer.
Fiquei ali, escutando a história de minha mãe, e o seu canto, e a sua alegria... Que delícia de telefonema.
- Nuca, eu gosto tanto dele que acho que vou comprar um desses aparelhinhos e colocar umas músicas do Milton e do Gil, só pra ficar escutando a hora que eu quiser.
Isso mesmo, mãe! Acho que a senhora deve fazer mesmo isso. E mais uma coisa, mãe: Não perca nunca a fé.
Desliguei o telefone e fiquei pensando que já tenho dois presentes pra ela. Um disco do Milton e outro do Gil. E "um aparelhinho", só pra ela poder escutar as músicas que gosta, sempre que quiser.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Meus heróis, aos 70
O texto é antigo. Foi escrito em agosto de 2012. Por alguma razão que eu não sei explicar, não foi pro ar. Ficou guardado na caixa de rascunhos. Hoje, o reencontrei. Acho que merece a publicação. Pois, ai vai:
Caetano faz 70. Gil, Paulinho da Viola e Milton, também. Meus heróis setentões em nada lembram aquela imagem de senhores de 70 anos que o nosso imaginário supunha aos outros, quando éramos crianças.
Pensando assim, o tempo passou de bem com eles.
Fico aqui forçando a cachola para lembrar quando foi que ouvi Caetano pela primeira vez. Qual foi a primeira música? O primeiro disco? E não me vejo com competência para tamanho detalhe.
O Milton Nascimento eu sei quem me apresentou: Adir, um colega de faculdade de meu primo Carlinhos. Corriam os meados dos anos 70. Eu vivia na casa dos meus tios Zé e Belinha, lá em São Luis. Era uma temporada de estudos. E Carlinhos, comigo, formava uma dupla de agregados. Ele, vindo de Fortaleza. Eu, de Foz do Iguaçu.
Naquele ano, eu conheci a turma de faculdade dele. E eu era uma espécie de "café com leite", o xodó das meninas (todas muito mais velhas do que eu, aos quinze). Carlinhos odiava que eu fosse junto nos programas da turma, que ao final, era dele. Mas todos eles me adotaram e isso significou um ganho de conhecimento e de amadurecimento pra mim.
Foi na casa de Adir, na beira da praia, que conheci uma fabulosa coleção de MPB cuja base era formada por Milton, Caetano, Gil, Gal, Elis, João Gilberto e Vinícius. As tarde de domingo na casa do Adir foram a minha escola auditiva. Aprendi a ouvir música brasileira de toda a espécie, mas sobretudo, de boa qualidade.
Uma em especial me tomou de vez, a música de Milton. O Clube da Esquina. Aqueles meninos de Minas Gerais entraram em minha vida pra nunca mais sair.
Hoje, me peguei pensando nisso ao ouvir Dona Canô, mãe de Caetano responder a um repórter de TV não com uma resposta, mas com uma interjeição: 70 anos, Caetano tá velho, né? - Dizia ela com aquele olharzinho vívido, do alto dos seus 104.
Pensei comigo: Tá não, Dona Canô. Como ele mesmo profetiza em uma de suas canções:
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| Caetano Veloso |
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| Gilberto Gil |
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| Paulinho da Viola |
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| Milton Nascimento |
Fico aqui forçando a cachola para lembrar quando foi que ouvi Caetano pela primeira vez. Qual foi a primeira música? O primeiro disco? E não me vejo com competência para tamanho detalhe.
O Milton Nascimento eu sei quem me apresentou: Adir, um colega de faculdade de meu primo Carlinhos. Corriam os meados dos anos 70. Eu vivia na casa dos meus tios Zé e Belinha, lá em São Luis. Era uma temporada de estudos. E Carlinhos, comigo, formava uma dupla de agregados. Ele, vindo de Fortaleza. Eu, de Foz do Iguaçu.
Naquele ano, eu conheci a turma de faculdade dele. E eu era uma espécie de "café com leite", o xodó das meninas (todas muito mais velhas do que eu, aos quinze). Carlinhos odiava que eu fosse junto nos programas da turma, que ao final, era dele. Mas todos eles me adotaram e isso significou um ganho de conhecimento e de amadurecimento pra mim.
Foi na casa de Adir, na beira da praia, que conheci uma fabulosa coleção de MPB cuja base era formada por Milton, Caetano, Gil, Gal, Elis, João Gilberto e Vinícius. As tarde de domingo na casa do Adir foram a minha escola auditiva. Aprendi a ouvir música brasileira de toda a espécie, mas sobretudo, de boa qualidade.
Uma em especial me tomou de vez, a música de Milton. O Clube da Esquina. Aqueles meninos de Minas Gerais entraram em minha vida pra nunca mais sair.
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| Caetano e Dona Canô |
Pensei comigo: Tá não, Dona Canô. Como ele mesmo profetiza em uma de suas canções:
"Eu vi muitos cabelos brancos
na fonte do artista,
o tempo não pára
e, no entanto,
ele nunca envelhece".
domingo, 5 de agosto de 2012
Meschiya Lake no Parque
Não, eu não me enganei. Meschiya Lake é esplêndida. Ao vivo e de perto, então, é capaz de emocionar ou fazer a gente sair dançando. Ontem, ela esteve no Parque da cidade, em Brasília. Abrindo a temporada do projeto "I Love Jazz". Cantou para um público extasiado de quatro mil pessoa. Não é pouco.
Vinho, música e estrada
No carro um CD reproduz o disco Ária, de Djavan. E ele canta Luz e Mistério, uma antiga canção de Beto Guedes e Caetano Veloso, que me faz viajar no tempo e lembrar de amigos da faculdade. Pensei em Abnel de Souza Lima Filho, um "amigo-irmão-caminhoneiro", expressão popular que se usa para definir grandes amigos, em alguma região deste imenso país.
Bate uma saudade imensa dele. E uma raiva também. Por que é que a gente se perde no caminho? Por que é que algumas amizades sinceras silenciam diante do tempo e da geografia? Não. Essa não. Pego o celular e procuro um número. Me recordo que sempre guardei um número de contato do Abnel, que continua a morar no Sul, em Canoas, pelo que sei.
Teclo sem me importar com o fato de já ser tarde da noite - um pouco embalado pelo estado de sensibilidade que o vinho me provocou. Do outro lado da linha uma voz conhecida atende. Abnel. Nos falamos como se não houvesse tempo, nem distância, nem geografia a nos separar.
Velhos amigos não passam e amizades sinceras nunca se desfazem. Aumentei o volume. Ele escutou Djavan, cantando Beto Guedes. Perguntou sobre Mara e as crianças. Perguntou da vida. Falamos compulsivamente por longos minutos, como quem recupera um hiato no tempo, como quem salta um abismo e alcança o outro lado. Combinamos não deixar mais o tempo ampliar a distância. A noite fechou com um sabor diferente. Velhos amigos não passam.
Música para Liliana
Hoje, manhã de inverno sem vento, tomo o café, abro o computador e vejo uma música de Guilherme Rondon, "Isso e Aquilo", interpretada por uma cantora espanhola, Olga Román. A música já é linda no original. Esta versão ficou mais encantadora ainda.
Não sei se pelo espanhol, não sei se pela serra, não sei se pelo inverno... Pensei de imediato que a Liliana Bayá, minha comadre que vive em Cochabamba, deveria ouvi-la. Pois, aí está. Música para Liliana.
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